quarta-feira, 29 de junho de 2011

São João del-Rei: templo da cultura, oratório da memória, relicário da vida!

Templo da Cultura, São João del-Rei é também oratório da memória. Aqui, o passado é vivo e, noite e dia, sem nostalgia, pulsa com vitalidade e dinamismo. Isto é constatado no que é conservado, no que é preservado, no que é resgatado, no que é restaurado, no que é reconstituído, no que é reconquistado, no que é vivificado. Em São João del-Rei a cultura não se separa da vida.

A historiadores, antropólogos, especialistas e estudiosos do culto, zelo e manutenção do passado surpreende a paixão devotada com que os são-joanenses cultuam sua memória. Eles não têm dúvidas: muito mais do que a ação e a responsabilidade estatal, o que certamente possibilitou a sobrevivência, quase inalterada, de tão expressivo patrimônio imaterial foram a identificação e a dedicação do povo de São João del-Rei à cultura local, perenizada por meio da tradição.

Isto não aconteceu, com a mesma intensidade, em relação ao patrimônio arquitetônico. A evolução econômica da cidade, à revelia da estagnação provocada pelo esgotamento minerador, manteve e impulsionou o desejo de progresso, incentivando a adoção de novos conceitos estéticos de espaço urbano, incluindo aí as fachadas.  Contudo, mesmo depois que progresso tornou-se sinônimo de desenvolvimento e que no país o Estado assumiu papel protetor em relação ao patrimônio arquitetônico, notadamente o colonial, a paisagem de São João del-Rei continuou sofrendo grandes agressões. Volta e meia, ainda sofre violências estéticas ou estruturais, na calada da noite ou em plena luz do dia

Já o patrimônio imaterial - que a muitos parece  frágil - em São João del-Rei cada vez se fortalece e mais se faz presente no centro histórico. Os ternos de Congada e grupos de Folia de Reis antes eram considerados manifestação inferior, sequer cultural ou folclórica e, por isso, ficavam segregados na periferi. Agora "conquistaram o direito" de correr o centro da cidade; participam de procissões e cortejos oficiais, apresentam-se até como atração artística. O toque dos sinos são-joanenses são cada vez mais conhecidos, reconhecidos e apreciados. As Encomendações de Almas nunca alteraram seu trajeto e inspiram reinterpretações na forma teatral. O culto e a Exaltação à Santa Cruz têm tudo para ser resgatados (e é bem possível que se encaminhe para isso), com a colocãção de cruzes enfeitadas nas portas das residências, nos dias 3 de maio e 14 de setembro.

O patrimônio imaterial de São João del-Rei sobrevive com tanto vigor e vitalidade  porque é patrimônio coletivo. Do povo. Sua conservação e preservação só dependem de uma coisa: paixão! Por isso é guardado no relicário da vida.

Já a maioria das edificações que constituem o patrimônio arquitetônico, construído, material ...

terça-feira, 28 de junho de 2011

São João del-Rei está em toda parte, mas não se vê no espelho do mundo

São João del-Rei é muito mais divulgado do que se imagina. Tanto que é até difícil imaginar em que mídias, o tempo todo, a cidade não está. Seja como patrimônio arquitetônico, como paisagem urbana, como tradição religiosa, como cultura viva, como memória e arte, a cidade está em toda parte.

Entretanto, como na maioria das vezes esta divulgação é espontânea e a cidade não dispõe de um órgão - público ou privado - com a função exclusiva de identificar, "clippar", catalogar, copiar e formar um banco de informações sobre a presença de São João del-Rei nas mídias impressa (jornais, revistas, folhetos, cartazes), televisiva (noticiários, anúncios, documentários), cinematográfica (cinema), sonora (rádio, gravações fonográficas) e digitais (internet), o são-joanense "não se vê" no espelho do mundo.

Exemplo disso é o programa Caminhos que, identificado por acaso no Youtube, levou o telespectador - e leva agora os internautas de todo o mundo - por um inesquecível passeio pelas riquezas e pelas belezas de São João del-Rei. Inclusive os são-joanenses que acessarem os vídeos abaixo...








segunda-feira, 27 de junho de 2011

O mineiro, por João Guimarães Rosa


O mineiro é um mistério. Intrigante e misterioso, tal qual o Mistério da Santíssima Trindade, que se resume em uma pergunta: como podem ser três pessoas em uma só? Do mesmo modo, o homem natural das Alterosas - como podem os nativos de um estado que é diverso, múltiplo e plural (Minas Gerais) ser uma "entidade" só?

Esta provocação inicial ambiciona lembrar que o mineiro nada mais é do uma construção simbólica, forjada a partir de elementos culturais. Entenda-se "culturais" como um balaio de gatos onde se misturam  aspectos psicológicos, sociológicos e antropológicos em todas as suas variáveis: religiosidade, identidade, história, autoimagem, memória, territorialidade, imaginário, representatividade, mineirismo, mineirice, mineiridade e por aí afora.

Mineiro é uma construção simbólica, mas existe em corpo, alma, sangue e divindade! Como pode? Mistério complicado este dos mineiros...

  O Mineiro, por João Guimarães Rosa

"... mineiro não se move de graça.
Ele permanece e conserva.
E espia, escuta, indaga, protela ou palia,

se sopita, tolera, remancheia, perrengueia,
sorri, escapole, se retarda, faz véspera,
tempera, cala a boca, matuta,
destorce, engambela, pauteia, se prepara.
Mas, sendo a vez, sendo a hora,
Minas entende, atende, toma tento,

avança, peleja e faz. "

Homenagem a Guimarães Rosa, nesta segunda-feira, 27 de junho, que é a data de seu 103º aniversário de nascimento.

Fonte: Ave Palavra, 3a edição, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, páginas 273 e 274.

domingo, 26 de junho de 2011

Cinema são-joanense: Deus e o Diabo na terra de São João del-Rei

Volta e meia escapa à vista um namoro furtivo entre São João del-Rei e o cinema. Deste affair, nascem esporadicamente  produções interessantes, como Regeneração de um devasso, filme de Sérgio Ratton, realizado na cidade em 1968.

O curta metragem é uma produção surreal, divertida, no estilo "cinema mudo". Ambientado nas imediações do Largo do Carmo e arredores, mostra aspectos devassos do universo masculino são-joanense de quarenta anos atrás, condenados pelos pseudo valores morais e religiosos da tradicional cidade. Na estória, o dom Juan são-joanense se deleita em farras, jogos, bebedeiras, noites ardentes na Rua da Cachaça, até que um dia, altas horas, entre becos sobrios, esquinas escuras e encruzilhadas desertas, vê-se observado por Deus e pelo Diabo. Aí então...

Acordo íntimo entre Deus e o poeta num domingo de São João del-Rei


O grande poeta português Fernando Pessoa nasceu no dia de Santo Antônio, 13 de junho, em 1888.

Os primeiros bandeirantes, há mais de 300 anos, entraram rumo ao antigo Arraial do Rio das Mortes - hoje São João del-Rei - por uma a trilha na Serra do Lenheiro, depois caminho que, mais tarde, ganhou os contornos setecentistas da Rua Santo Antônio.

Santo Antônio são-joanense tem um lírio branco e uma cruz na mão direita.Na esquerda,  um menino (Jesus).

Misturando isto tudo, no final da semana de Corpus Christi e de São João Batista, que tal abrir este domingo com um poema de Fernando Pessoa sobre a amizade do menino Deus com os homens? Ou quem conta o sonho é Santo Antônio?! Ouça e conclua...

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Ilustração da abertura: começo da Rua Santo Antônio, logo atrás da Igreja do Rosário (foto do autor)

sábado, 25 de junho de 2011

Zona da Música: São João del-Rei além das pautas, das pausas e dos compassos...

Aguardando a Zona da Música, que juntamente com o festival Inverno Cultural musicaquecerá São João del-Rei no período de 15 a 30 de julho, conheça abaixo uma participação da Orquestra Popular Livre - OPL em um show do grandeinventivo músico Hermeto Pascoal.

A Orquestra Popular Livre é a realizadora da Zona da Música, que inicialmente acontecia na Rua da Cachaça, antiga zona boêmia de São João del-Rei. Veja, nos dois vídeos a seguir (o segundo, apesar de muito escuro nos primeiros minutos, é histórico) a participação de Hermeto Pascoal na "festa" da Rua da Cachaça.



sexta-feira, 24 de junho de 2011

Durante o festival Inverno Cultural São João del-Rei vai virar uma verdadeira zona! De Música ...

O frio rigoroso de julho não diminuirá o calor da cultura em São João del-Rei. Pelo contrário, uma vasta e intensa programação cultural fará ferver o Córrego do Lenheiro, perpassando do religioso ao mundano, do erudito ao popular, em todas as formas de arte. Na Cidade da Música, uma linguagem artística vai se destacar. E não poderia ser outra, senão a Música!

Em meio à novena do Carmo e ao festival Inverno Cultural, com suas oficinas, cursos, concertos, shows e audições, não vai faltar lugar de honra para a Zona da Música - uma programação alternativa e complementar, que enriquecerá ainda mais o universo musical de São João del-Rei no mês de julho, mais precisamente do dia 15 ao dia 30.

Já na terceira edição, a Zona da Música é uma realização da Orquestra Popular Livre - OPL. Mais do que  enriquecer culturalmente e divertir os amantes da boa Música, a Zona objetiva contribuir para a revitalização artístico-cultural do Largo do Carmo. Ali, no Solar da Baronesa, fica o Centro Cultural da OPL, que sediará toda a programação.

Aliás, que programação! Apresentações de música popular nacional e estrangeira, música instrumental com sax e violão, roda de samba reverenciando os bambas, tributo ao "maldito" Sérgio Sampaio e homenagem, na exibição de um DVD, ao grande Moacir Santos. E mais: exposição / audição de instrumentos étnicos e o clube do vinil, que reúne admiradores e colecionadores dessa antiga forma de registro fonográfico.

Em anos anteriores a Zona da Música aconteceu na Rua da Cachaça (antiga zona boêmia de São João del-Rei). Em 2011, estará em um espaço ainda mais atraente, no segundo andar de um casarão que é um monumento da arquitetura colonial. Além disso, de lá, pelas sacadas rendilhadas em ferro batido, se contempla um dos mais bonitos cenários barrocos de Minas Gerais - o Largo e a igreja do Carmo, considerada por especialistas um dos seis mais belos templos criados por Aleijadinho.

Pensando bem, São João del-Rei não é só a Cidade da Música. É também a Terra de Musicalidade e da Sonoridade...
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  *  Serviç* 
Conheça a programação completa da 3a Zona da Música, acessando
http://saojoaodelreitransparente.com.br/events/view/1725

Ilustração da abertura: a música mulata dos anjos de Athayde (reprodução de imagem do cardápio do Restaurante Feitiço Mineiro, de Brasília)

quinta-feira, 23 de junho de 2011

No fim do dia de Corpus Christi, em São João del-Rei, Te Deum


A alma de São João del-Rei, nascida imprecisamente nos primeiros anos setecentos, sobe sempre aos céus, toda vez que as orquestras Lira Sanjoanense ou Ribeiro Bastos cantam um Te Deum.

 Como no deste  link abaixo, em que Tencões & terentenas saúda os internavegadores nesta noite de Corpus Christi, no momento em que os sinos de São João del-Rei dobram alegremente e foguetes estouram, criando novas, breves e coloridas estrelas, em reverência a Deus que sobe aos Céus pelas escadarias da igreja (e depois pelos morros íngremes, escuros e perigosos do alto) das Mercês.


Ilustração da abertura: detalhe da portada da igreja de São Francisco de Assis, de São João del-Rei (foto do autor)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

No Corpus Christi de São João del-Rei, Glória in excelsis Deo!

Esta quinta-feira de inverno, dia 23 de junho, amanhece como um dia mais dourado em São João del-Rei. Não por ser véspera de outro São João, o padroeiro da cidade, São João Batista. Hoje, além de Corpus Christi, também se festeja, com muita pompa, os 300 anos da Irmandande do Santíssimo Sacramento da Matriz do Pilar de São João del-Rei, fundada em 1711, antes mesmo que o Arraial Novo do Rio das Mortes fosse elevado à Vila de São João.

Desde cedo, sinos dobram festivos e missas solenes, barrocas, cantadas em latim setecentista, aumentam ainda mais a marcante e sofisticada musicalidade são-joanense. Nas ruas do centro histórico, antigas famílias tiram de cômodas emperradas e de velhos baús colchas de damasco, cortinas de renda, toalhas de fino bordado, para enfeitar janelas e sacadas.

Fogueteiros, sineiros, músicos das orquestras e das bandas, todos estão a postos. Crianças, jovens e velhos orquestram sobre o chão de paralelepípedos, formas, folhas, flores, pétalas e cores, recriando em tapetes desenhos celestes e símbolos sagrados. Prenunciam, desde o começo da manhã, que ali Deus passará em procissão vespertina, em meio a nuvens de incenso, por ruas estreitas e becos tortos, se despedindo do sol e caminhando entre estrelas pela noite adentro, até subir aos Céus pela escadaria das Mercês.

É mais um novo dia de festa em São João del-Rei!

Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

Comemoremos, ouvindo a Orquestra Ribeiro Bastos, no Glória da Missa do Aleluia...



Leia mais sobre as celebrações de Corpus Christi em São João del-Rei, acessando http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/06/corpus-christi-religiao-e-civismo-de.html

Ilustração da abertura: sino dos Passos, torre e telhados da Matriz do Pilar de São João del-Rei (foto do autor)

Elza Soares: contemporanetnia brasileira no festival Inverno Cultural 2011 de São João del-Rei

Sereia dos rios, das lagoas, dos pântanos, mangues e lodaçais brasileiros, a todos ela encanta, com sua voz que brota das vísceras tupiniquins. Vinda do "planeta fome", como ela mesmo respondeu, desafiando, criticando e condenando Ary Barroso, na primeira vez em que se apresentou como caloura, em um programa de rádio. Ora menina, ora moça, ora mulher, ora matreira, ora trágica, ora política, ora religiosa, ora cotidiana, sempre vanguarda, sempre brasileira, sempre universal. É Elza Soares, que amanhã, 23 de junho de 2011, completa 73 anos.

Não é segredo: sua história sempre passou longe de um conto de  fadas. A vida desde nunca lhe foi madrinha. Mas, "dura na queda", cedo Elza "saltou de banda", descobriu que "a dor não presta" e logo pôs "o sol a ensolarar a estrada d'Elza", cantando como "cigarra" por quem não tem vez nem voz - "guris, puras, putas, suicidas, sentimentais...". Que bom para o Brasil. Que bom para o mundo. Que bom para a humanidade...

Daqui a um mês, Elza Soares estará em São João del-Rei, acrescentando, por algumas horas, novas claves, novos timbres, novas pausas e novos compassos nas partituras e pautas da Terra da Música. Com certeza, será um dos momentos mais importantes, singulares e nobres do Inverno Cultural 2011.Enquanto este dia não chega, ouçamos Elza e Luiz Melodia, clamando pelas Fadas...


Lei mais sobre o Festival Inverno Cultural 2011, acessando:

terça-feira, 21 de junho de 2011

As astúcias e sutilezas de São João del-Rei, nas palavras de Fernando Sabino



Amigo do jornalista e escritor são-joanense Otto Lara Resende, o também escritor Fernando Sabino por muitas vezes esteve em São João del-Rei. Seduzia-o não só a cultura barroca - inegável marca registrada da cidade - mas também lhe intrigavam os requintes e sutilezas da cultura e da sabedoria popular, sobretudo a astúcia dissimulada que os são-joanenses usavam para atingir seus objetivos.

Fazendo-se de "bocós", ingênuos e simplórios, os nativos de São João del-Rei eram hábeis em ludibriar os forasteiros que, chegando de fora, se julgavam "muito ladinos". Isto Fernando Sabino retrata no primeiro episódio breve do conto Mineiro por Mineiro, reproduzido abaixo. Mire e veja...

  A MANEIRA ENROLADA com que um mineiro fila cigarro? Aqui vai.

Ele estava em São João del-Rei admirando um chafariz, quando viu por ali a rondá-lo um velhinho mirrado e seco, roupa de brim e chapéu na cabeça, que acabou se chegando:

— Tá aí preciano, moço?

— Estou. Não é bonito?

Passou a mão pelo queixo, enquanto buscava assunto:

— O senhor não é daqui não, é?

— Sou de Minas, mas moro no Rio há muito tempo.

— Ah, foi educado lá.

— Isso mesmo.

— Posso saber qual é a sua graça?

O velho ouviu o nome e sacudiu a cabeça. Depois perguntou candidamente:

— Por acaso o senhor tem um fósforo aí?

Em resposta, o outro estendeu-lhe a caixa de fósforo. O velho correu as mãos a ao longo do paletó, como se procurasse alguma coisa, enquanto dizia:

— Quer dizer que o senhor fuma...

— Fumo sim — e ele tirou o maço do bolso, acendeu um cigarro: ­E o senhor? Não fuma?

— Dez vez em quando — admitiu o velho.

— Aceita um?

— Já que o senhor dispõe...

O velho tirou com dedos finos um cigarro do maço que lhe era estendido e, certamente para não desperdiçar fósforo, acendeu-o no cigarro do outro. E se despediu, levando a mão ao chapéu:

— Obrigado, moço. Muito prazer, viu?

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Fonte: http://www.releituras.com/fsabino_mineiro.asp
Ilustração de abertura: branco e preto (foto do autor)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

São João del-Rei no "evangelho" de São João Guimarães Rosa


O que São João del-Rei tem a ver com João Guimarães Rosa? Uma coisa breve, mas importante porque, de algum modo, está relacionada  com aquilo que fez do autor de Grandes Sertões: Veredas um dos maiores e mais inventivos nomes da literatura mundial no século XX:  a organização das idéias e das palavras.

Poucos sabem mas Guimarães Rosa - que, se vivo fosse, no próximo dia 27 completaria 103 anos -, viveu por alguns meses em São João del-Rei, quando iniciou os estudos secundários no famoso Colégio Santo Antônio. Era 1919 e, ainda menino, João tinha apenas 11 anos.  Mas não se adaptou à vida do internato, principalmente por não gostar da comida do colégio e por perturbar-se demais com o medo que os colegas lhe faziam. Bullying em São João del-Rei já naquela época?

Há cinco anos, Guimarães Rosa foi homenageado em São João del-Rei, nas comemorações do cinquentenário de lançamento do monumental Grande Sertão: Veredas. O livro foi tema central da 19ª edição do festival Inverno Cultural 2006.

Conheça abaixo, em versos, uma síntese da vida e da obra de Guimarães Rosa.

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Ilustração da abertura: cargueiro, carga & descarga (foto do autor)

domingo, 19 de junho de 2011

Dez mil vezes São João del-Rei

Nas primeiras horas deste domingo, o almanaque Tencões & terentenas superou a marca de 10.000 acessos. É um número bastante expressivo, considerando que este blog, lançado no dia 4 de janeiro, foi criado há 5 meses e meio.

Em média, são contabilizados cerca de 75 acessos diários, ou seja, aproximadamente 3 acessos por hora ou 1 acesso a cada 20 minutos. Porém, há dias em que este número de acessos dobra, já tendo chegado algumas vezes à marca de 168 visitas, vindas de todos os continentes.

Nestes 165 dias, foram publicados 163 posts, o que significa praticamente 1 post por dia.

Tão grande quanto estes números é a responsabilidade pelo que se posta neste almanaque eletrônico. Afinal, trata-se de um canal de informação, formação e influência que, de algum modo, já foi acessado 10.000 vezes, o que demonstra aprovação e confirma sua credibilidade e eficácia.

Partilhando com todos este "movimento", findemos este último domingo de outono, nos versos da música Minas, Pátria Imaculada, de Marcus Viana.

Pátria,
Pátria é o fundo do meu quintal.
É broa de milho,
E o gosto de um bom café.


Pátria,
É cheiro e colo de mãe.
É roseira branca,
Que a vó semeou no jardim.


Se o mundo é grande demais,
Sou carro de boi,
Sou canção e paz,
Sou montanha entre a terra e o céu,
Sou Minas Gerais.


São águas, montanhas e um fogão a lenha,
A cerâmica e o canto do Jequitinhonha;
São igrejas, são minas;
É o barroco, é Ouro Preto;
É maria fumaça.
Êta trem bão mineiro!


Diamantina, Caraça, Gruta de Maquiné,
Cascadanta caíndo, Congonhas do Campo,
São João Del Rei, Sabará, Tiradentes,
Igrejinha da Pampulha,
Minha Belo Horizonte.


Se o mundo é grande demais,
Sou carro de boi,
Sou canção e paz,
Sou caminho entre a terra e o céu,
Sou Minas Gerais.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Corpus Christi: religião e civismo de mãos dadas em São João del-Rei


Na próxima quinta-feira, 23 de junho, o Dia de Corpus Christi é mais uma data especial no calendário religioso de São João del-Rei. Encerrando o ciclo litúrgico iniciado com a quaresma, culmina com uma procissão, que tradicionalmente parte da Matriz do Pilar(1) e pára diante da fachada das principais igrejas do centro histórico, onde são montados pomposos altares na porta principal ou no adro. Neles, são destaque a presença de Cristo, abstraída na custódia, que tradicionalmente ostenta a hóstia consagrada, ou simbolizada nas imagens do coração de Jesus, de  Cristo ressuscitado ou do Senhor do Triunfo. Ocorre também de, às vezes, ser homenageada a Mãe do Senhor, na imagem das "titulares" daquelas igrejas: Nossa Senhora do Rosário, Nossa Senhora da Conceição e Nossa Senhora do Carmo.

A procissão de Corpus Christi é abstrata, pois não tem andor com imagem de santo. A figura principal é o bispo ou sacerdote que, protegido por um rico e vistoso pálio, empunha uma custódia, que é pousada no altar externo das três igrejas do percurso e, em seguida, erguida para abençoar os fiéis.

Ao longo de todo o percurso, muitas casas decoram suas fachadas, colocando nas janelas e sacadas colchas de damasco, toalhas rendadas e vasos de flores, em geral orquídeas, avencas, antúrios e crisântemos. A população faz também, no chão das ruas por onde passará a procissão, belos, coloridos e espontâneos tapetes processionais, utilizando principalmente flores e folhas, recriando iconografias religiosas como o cálice sagrado, a hóstia consagrada, a cruz, o coração, a pomba representando o Espírito Santo e outros símbolos sacros.

Um aspecto interessante da procissão de Corpus Christi em São João del-Rei é que ela explicita o vínculo que existe entre os poderes cívico e religioso, pois em todos os altares montados a bandeira nacional está presente em posição de destaque. Além disso, em todas as paradas, após os motetos tradicionais cantados pela orquestra, a banda executa o Hino Nacional Brasileiro, que finaliza com o repique entusiasmado dos sinos.

A chegada e o encerramento da procissão, na Matriz do Pilar, é impactante. Na bela nave barroca e dourada, enevoada de incenso, canta-se o Hino de Nossa Senhora do Pilar, padroeira de São João del-Rei desde o surgimento do arraial, nos primeiros anos do século XVIII. Se Nossa Senhora do Pilar é a madrinha de São João del-Rei desde a infância da cidade, há mais de 300 anos, seu hino é a estrela de inocência na infância de todo são-joanense cinquentenário.

(1) Em 2011, em comemoração aos 300 anos de fundação da Irmandade do Santíssimo Sacramento, o percurso tradicional da procissão de Corpus Christi foi alterado, tornando ainda mais grandiosa esta celebração. Iniciará no Largo do Rosário, após celebração de uma missa vespertina campal, incluirá a Rua Santo Antônio e adjacências (haverá uma bênção na porta da preciosa capelinha)  e terminará na igreja das Mercês.

Observe, no vídeo abaixo, a procissão vista da torre da igreja de São Francisco, o repique dos sinos e a execução do Hino Nacional Brasileiro.


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  *  Serviço  * 
A procissão de Corpus Christi acontece na próxima quinta-feira, 23 de junho, saindo às 16 horas do Largo do Rosário.


Ilustração da abertura: sacadas, beirais de cachorro e de beiras-seveiras, tendo ao fundo as torres da igreja Matriz do Pilar (foto do autor)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Registro antigo, rústico e precioso, da riqueza musical de São João del-Rei


Quando se fala dos produtos que registram a riqueza da música barroca produzida em São João del-Rei, não se pode esquecer do disco Minas, 1717 - 1977, Região do Rio das Mortes. É um precioso registro fonográfico feito há 34 anos (1977)  pela gravadora Som Livre, documentando trechos de peças religiosas tradicionais (novenas, missas, jaculatórias, motetos etc) interpretados por quatro antigas orquestras da então Comarca do Rio das Mortes, em especial pelas setecentistas orquestras Lira Sanjoanense e Ribeiro Bastos, ambas de São João del-Rei.

Gravado ao vivo em um tempo em que ainda não havia o CD, respeitando as características originais e a  ambiência natural, no coro das igrejas são-joanenses, é natural que possua imperfeições sonoras, causadas pela precariedade técnica da gravação. Entretanto, ela é compensada pela autenticidade com que foram executadas músicas até hoje tradicionais no calendário festivo-religioso local, como Aplaudatur, Maria Mater Gratiae, Exaltata Est e Assumpta Est, da festa de Nossa Senhora da Boa Morte de São João del-Rei, e todas as outras que compõem o repertório.

O disco é uma preciosidade, sobretudo como registro da memória musical de São João del-Rei e como marco na história de sua difusão por meio de produtos culturais de massa. Há muito tempo fora de catálogo, é difícil de ser encontrado até em sebos especializados, por ter tido pequena tiragem.

Quem o tem, em vinil ou fita cassete, que o guarde com cuidado, pois possui uma raridade. Ou, se for uma alma altruísta que pensa na coletividade, que o doe para uma instituição cultural de São João del-Rei, onde será valorizado, preservado e utilizado como bem cultural. A história, a memória e a humanidade agradecerão ...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Rica de cultura, São João del-Rei carece de Empório Cultural. Quem sabe nos 300 anos?


A cultura de São João del-Rei é rica e muito peculiar em relação àquela característica das demais cidades históricas de Minas Gerais e do Brasil. Por aliar tradição e contemporaneidade, consegue manter vivas e atualizadas manifestações artísticas que, em outras localidades - por terem sido destituídas de significado moderno -, ou se converteram em registros históricos de um tempo distante, ou sobrevivem apenas como atração folclórica. Em São João del-Rei, "desespetacularizada", a cultura é viva e faz parte da vida cotidiana das pessoas, independentemente da classe social, do nível econômico e da formação educacional.

Tão diversificada cultura é matriz de diversos produtos, como CDs gravados pelas bicentenárias orquestras(ofícios e novenas), DVDs  documentando as tradições religiosas (em especial a Festa de Passos e a Semana Santa), fotografias que mostram a paisagem são-joanense no conjunto e em detalhes, cartazes, livros, agendas, postais, lembranças diversas em madeira, metal, pedra e fibras que remetem diretamente às particularidades de São João del-Rei. Isto sem falar nas cachaças, queijos, licores e doces, que bem podem ser levados como recordação saborosa da setecentista cidade.

Contudo, a cidade precisa de um espaço único onde todos estes artigos culturais sejam atrativamente apresentados e possam ser adquiridos. São-joanense ou turista que desejar obtê-los, terá que garimpar em diversas instituições, lojas de artesanato ou diretamente com os produtores o que, para quem tem pouco tempo ou não conhece bem a cidade, não é tarefa fácil.

Em síntese, falta a São João del-Rei um "empório cultural", que funcione também como entreposto de informações diversas sobre a programação local, nela incluídos concertos, eventos religiosos, shows, exposições, festivais e tudo o que faz bem ao corpo e à alma.

Fica esta sugestão, que vale para três setores:

Para o poder público municipal - viabilizar, na estrutura de alguma secretaria ou departamento mais adequado, a criação do Empório Cultural de São João del-Rei.

 Para as instituições culturais privadas - incluir entre seus serviços uma "boutique", a exemplo do que já é feito nos grandes museus do Brasil e de outros países.

Para o empresariado são-joanense - vislumbrar nos produtos culturais um atrativo nicho de mercado, transformando sua comercialização direta em uma atraente oportunidade de negócio, sobretudo incentivando a criatividade, o aumento e a diversificação da produção.

Como tudo o que é bom e bem feito depende de tempo, que tal, também com estas iniciativas, comemorar os 300 anos da Vila de São João del-Rei?
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Ilustração: Largo do Rosário de São João del-Rei, visto da torre esquerda da Matriz do Pilar (foto do autor)

terça-feira, 14 de junho de 2011

São João del-Rei não está "matando cachorro a grito"!

Há menos de um mês, no dia 25 de maio, São João del-Rei voltou aos noticiários da mídia nacional. Mais uma vez com uma questão polêmica...

Causa e personagens centrais à parte, o almanaque eletrônico Tencões & terentenas louva e valoriza o interesse com que a comunidade são-joanense acompanha o dia a dia da cidade e, cada vez mais, procura interferir nas decisões em pauta, apoiando-as ou lutando por sua modificação, antes que sejam implementadas. Isto, verdadeiramente, é cidadania e participação social. É demonstração de consciência da força e da responsabilidade de todos nos destinos da coletividade.

Que este comportamento participativo e democrático se fortaleça sempre e se estenda para todos os setores da vida são-joanense. Em especial para assuntos emergencialmente importantes, como segurança, saúde, bem-estar, cultura e outros que bem podem se resumir em duas definições: desenvolvimento e direitos humanos.

Clique no link abaixo e veja duas matérias sobre o assunto. A primeira, veiculada no MG TV, da Rede Globo, e a segunda, no Jornal das Dez e em outros noticiários da emissora Globonews.

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1518143-7823-PROPOSTA+DE+LEI+CAUSA+POLEMICA+EM+SAO+JOAO+DEL+REI,00.html

http://video.globo.com/Videos/Player/Noticias/0,,GIM1518290-7823-VEREADORA+QUER+QUE+ANIMAIS+ABANDONADOS+NAS+RUAS+SEJAM+MORTOS,00.html

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Mineirismo, mineirice e mineiridade: saudades do amanhã em São João del-Rei


"Minas, esse espinho que não consigo arrancar de meu coração", confessou, de modo tão profundo e sentimental, Lúcio Cardoso.  Tão poucas palavras exprimem, mais do que todas as combinações de todos os sinais de todos os alfabetos, o elo afetivo que une o mineiro a Minas, se possível fosse separar um do outro. Minas, tragicafetivamente, está marcada  a ouro quente na alma dos mineiros. Desde sempre e para sempre

Frei Beto enfatiza isso em todas as frases, pensamentos e insinuações do texto Ser Mineiro, que reproduzimos aqui a última parte, para reflexão.

Ser mineiro (última parte)
"Mineiro é capaz de falar horas seguidas sem dizer nada. Esconde o jogo para ganhar a partida. Cumprimenta com a mão mole para escapar do aperto e acredita que a fruta do vizinho é sempre a mais gostosa. Mineiro age com a esperteza das serpentes, mas se veste com a simplicidade das pombas, e encobre suas contradições com o manto fictício da cordialidade.


Mineiro é como angu, só fica no ponto quando se mexe com ele. Desconfiado, retira o dinheiro do banco, conta e torna a depositar. Ser mineiro é fazer cara feia e rir com o coração; andar com guarda-chuva para disfarçar a bengala; fumar cigarro de palha para espantar mosquitos, mascar fumo para amaciar a dentadura.


Mineiro sabe quantas pernas tem a cobra; escova os dentes do alho; teme rasteira de pé de mesa; toma café ralo para enxergar o fundo da caneca e, por via das dúvidas, põe água e alpiste para o cuco. Ser mineiro é fingir que não sabe o que bem se conhece.


Mineiro que não reza não se preza. Religioso, na crendice mineira há lugar para todos: o Cujo e a mula-sem-cabeça; assombrações e fantasmas, sacis e extraterrestres. Pacífico, mineiro dá um boi para não entrar numa briga e a boiada inteira para continuar de fora. Mas se pisam no calo do mineiro, ele conjura, te esconjura, jurado e juramentado no sangue de Tiradentes.


"Minas Gerais é muitas", disse Guimarães Rosa. É fogão de lenha e comida preparada na panela de pedra-sabão; é turmalina e esmeralda; é tropa de burro e rios indolentes chorando a caminho do mar. É sino de igreja e tropeiros mourejando gado sob a tarde incendiada pelo hálito da noite.


Minas é mantiqueira e cerrado, é Aleijadinho e Amilcar de Castro, é Drummond e Milton Nascimento, é pão de queijo e broa de fubá. Minas é uma mulher de ancas firmes e seios fartos, sensual nas curvas, dócil no trato, barroca no estilo e envolta em brocados, ostentando camafeus. Minas é saborosamente mágica.


Mineiro sai de Minas, mas Minas não sai da gente. Fica uma dor forte, funda, farta e fértil, tão imponderável como o amor místico, em que o coração lateja embevecido por inefável paixão.
 Ave Minas! Batizada Gerais, é uma terra singular."
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Leia as três partes anteriores de Ser Mineiro acessando:

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/mineirice-mineirismo-e-mineiridade.html

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/mineirice-mineirismo-e-mineiridade_30.html

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/06/mineirismo-mineirice-e-mineiridade.html

Ilustração: Anjos da portada da igreja de São Francisco - Reprodução / tratamento de imagem do calendário São João d'El Rei de todos os dias (1973)

domingo, 12 de junho de 2011

No festival Inverno Cultural, Naná Vasconcelos "concertará" São João del-Rei

Naná Vasconcelos. Não é de hoje que este célebre músico pernambucano trilha pelas encruzilhadas musicais de Minas, enriquecendo, com sua percussão inusitada, a sonoridade das pautas e das pausas gerais.  Nos tempos do Clube da Esquina, no antológico disco Minas, Naná já estava nestas montanhas. Daqui ganhou o mundo, Estados Unidos, Dinamarca, Coréia, Naná e seu berimbau, Naná e seus caxixis, Naná e seus apitos, Naná e seus chocalhos, Naná e seus ganzás, Naná e suas folhas de flandres, Naná e sua voz, Naná e tudo o que, percussivamente, emite som.

Este ano o festival Inverno Cultural trárá Naná Vasconcelos a São João del-Rei, para uma oficina de criação musical, que bem poderia chamar "ConcertaSão João". Afinal, a musicalidade de Naná Vasconcelos é capaz de fazer concertos e consertos. Alguém duvida?

Enquanto Naná não chega, viajemos, com ele e Milton Nascimento, a San Vicente!..



Tencões & terentenas já publicou sobre o Festival Inverno Cultural

Magnificat São João del-Rei

Para Domingo de Pentecostes, qual trilha sonora melhor do que Magnificat, de Joham Sebastian Bach? Traz à memória lembrança do doce de leite cremoso, que algum dia se saboreou com calma e queijo fresquinho, no melhor momento da infância.

Saboreie-a devagar, com alegria, como se fosse o Espírito Santo descendo para alimentar as almas com  maná sonoro. Bom domingo!



sexta-feira, 10 de junho de 2011

Em São João del-Rei, Santo Antônio é Imperador Perpétuo e anda de liteira


A liteira, meio de transporte urbano, de tração escrava, muito comum no tempo da Colônia e do Império, ainda é utilizada no Brasil? Em São João del-Rei, sim. E em ocasião muito especial. É em uma liteira que Santo Antônio - Imperador Perpétuo do Divino Espírito Santo na cidade -, carregado por homens devotos, desce em procissão do Largo de São Francisco até a Praça da Igreja de Bom Jesus de Matozinhos, durante os festejos em homenagem àquele Deus que é a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

Este ano, uma combinação do calendário civil com o eclesiástico uniu ainda mais as duas divindades. Em 2011, o culto ao Divino Espirito Santo coincide com a realização da trezena em homenagem a Santo Antônio, festejado no dia 13 de junho.

Em São João del-Rei, há quase trezentos anos Santo Antônio mora em uma capela delicada, em uma das ruas mais antigas, musicais e poéticas da cidade, a Rua Santo Antônio. Contam que ela se formou urbanizando o caminho de entrada dos bandeirantes, no século XVIII, em busca de ouro e outras riquezas. Peculiaridade e distinção cultural na malha urbana do centro histórico são-joanense, lá funcionam as sedes das bicentenárias orquestras Lyra Sanjoanense e Ribeiro Bastos e da Banda Theodoro de Faria, fundada logo que começou o século XX.

Residindo em endereço tão tradicional e nobre, não poderia ser diferente: em São João del-Rei o culto a Santo Antônio é sério e respeitoso, sem gracinhas de pedidos de casamento, ameaças de colocá-lo de cabeça para baixo nem simpatias de lhe tirar e esconder o menino. Os são-joanenses reconhecem no santo de Pádua maiores poderes e, em segredo, têm nele fé ardente e sentimento devotado. Colocam em suas mãos grandes e irreveláveis pedidos, de fartura, de saúde, de iluminação espiritual  e de justiça - milagres verdadeiros.

Pelo jeito, Santo Antônio não lhes  tem faltado. Tanto que a cada ano, no dia 13 de junho, é grande o número de devotos que desde o amanhecer até o fim da tarde visita Santo Antonio em sua bela capelinha, acendendo velas votivas e trocando pão santo por moedas.

E que, ao cair da noite, levam o Santo a passear em procissão, desta vez em andor caprichosamente enfeitado, pela Rua Santo Antônio e outras que são a porta do bairro Tijuco. A banda acompanha alegre, o povo canta. Foguetes estouram, colorem e iluminam momentaneamente  o céu com novas e breves estrelas cadentes. Santo Antônio merece! E agradece...

Tencões & terentenas já descreveu a Rua Santo Antônio em
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/01/rua-da-musica-em-sao-joao-del-rei.html
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*  Serviço  *

Veja o programa completo das celebrações em homenagem a Santo Antônio no link http://saojoaodelreitransparente.com.br/events/view/1655

Ilustração: Capela de Santo Antonio (foto do autor)

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Salve São João del-Rei! Bendito e louvado sejam a pluralidade e o Divino Espírito Santo...


O Jubileu do Divino Espírito Santo, tal qual é realizado na Paróquia de Bom Jesus de Matosinhos, em São João del Rei, este ano no período de 2 a 12 de junho, além de sua finalidade religiosa e de seu caráter cultural, é expressão de avançada evolução sociocultural, por congregar e integrar manifestações tão diversificadas. Aliás, nos dias atuais, diversidade é uma das palavras de ordem mais proclamadas, porque significa valorizar e incentivar o convívio harmonioso entre diferentes, sejam pessoas, culturas ou opiniões. Recusar ou resistir à diversidade é abrir caminhos para a intolerância, ameaça perigosa à  solidariedade e à paz.

A programação da Festa do Divino 2011 não deixa dúvidas: trata-se de uma celebração plural, que democraticamente promove a união e a igualdade, ao garantir a participação das mais diversas organizações, segmentos, categorias, grupos, comunidades, bairros, muitos dos quais com linguagens e formas de expressão muito peculiares. Tão peculiares que, em outros tempos, até seriam consideradas incompatíveis e antagônicas, o que impossibilitava acontecerem no mesmo tempo e no mesmo espaço. Ainda mais se tratando de tempo e espaço sagrados, controlados por grupo detentor e a serviço da ideologia dominante.

Cortejo, missa tradicional, toques de caixa, rasoura, romarias, folias, missa inculturada com elementos afrodescendentes, procissão, congada, missa solene, capoeira, bênção do Santíssimo Sacramento, folclore, coroação dos imperadores, Pastorinhas do Menino Jesus. Esta mistura seria possível em uma sociedade que não fosse evoluída? Com certeza não aconteceria em ambientes sociais onde prevalecessem limites rígidos de mobilidade e diálogo.

Mais do que a crescente e notória recuperação econômica de São João del Rei, talvez não seja exagero dizer que este seja, nos dias de hoje, o mais importante avanço ora vivenciado em nossa setecentista cidade: a relativa - mas crescente - flexibilidade social. Principalmente por se tratar de uma cidade tradicional, matriz e pilar da identidade mineira, surgida na mais turbulenta ambiência de brutalidade do período colonial, como a História prova terem sido as minas de ouro no século XVIII.

Mas os tempos mudaram, como mostra o vídeo abaixo, copiado do Youtube. Viva a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Louvado seja o Divino Espírito Santo!...



Leia o que Tencões & terentenas já publicou sobre o Jubileu do Divino Espírito Santo em São João del-Rei, acessando http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/sao-joao-del-rei-em-festa-salve-o.html
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+   Serviço   +
Conheça a programação da festa no link 
http://www.diocesedesaojoaodelrei.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1286:jubileu-do-divino-espirito-santo-sjdr&catid=23:eventos&Itemid=131

terça-feira, 7 de junho de 2011

Elogio a São João del-Rei nos 300 anos de Vila


A origem do nome São João del-Rei leva-nos ao dia 8 de dezembro de 1713, quando D. Brás Baltasar da Silveira elevou o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar - também conhecido como Arraial Novo do Rio das Mortes - à categoria de Vila. Há 300 anos, a quarta vila instituída em Minas Gerais homenageava, no nome, "El Rei Nosso Senhor Dom João V, Rei de Portugal".

Quase três séculos depois, seduzido pela sonoridade do nome São João del-Rei e pelo imaginário que nome e cidade evocam, o jornalista Roberto Pompeu de Toledo, escrevendo sobre "beleza e feiúra no nome de cidades" brasileiras, assim abre seu artigo:


                          "São João del-Rei é um bonito nome de cidade.
                            Lembra nobreza antiga, sábia e sóbria." (1)

......................................................................................................... (1) Feiura e Beleza nos nomes de cidades, publicado na Revista Veja em  30/10/2007 e disponível em http://arquivoetc.blogspot.com/2007/10/roberto-pompeu-de-toledo_12.html

Ilustração: caminho de telhados para a igreja do Carmo (foto do autor)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mineirismo, mineirice e mineiridade: a santíssima trindade de São João del-Rei


Minas busca sempre o equilíbrio porque, montanhosa, é terra de altos e baixos. Seu povo evita o conflito e  aspira harmonia e consenso porque conhece e reconhece seus próprios antagonismos e os males que podem causar suas agudas contradições. Em São João del-Rei é assim. Minas e mineiros, prevenidos que são, sonham com a pluralidade, com a unidade na diversidade, enfim, com a universalidade.


E têm consciência que, para alcançá-las, é preciso se conhecer  profundamente, sem  fechar os olhos nem para os vícios, nem para as virtudes. Afinal, tal qual cara e coroa, vício e virtude são faces de uma mesma moeda. Espelhos e avessos, um é a medida do outro.

Pensando assim, continuemos refletindo sobre o que Frei Beto, na coleta de ditados populares, frases de caminhão e outras expressões de domínio público, apresenta como definições e explicações do que é


Ser mineiro (terceira parte)


"Mineiro é isso, sô! Come as sílabas pra não morrer pela boca. Fala manso pra quebrar as resistências do interlocutor. Sonega letras pra economizar palavras. De vossa mercê passa pra vossemecê, vossência, vosmecê, você, ocê, cê e, num demora muito, usará só o acento circunflexo!

Mineiro fala um dialeto que só outro mineiro entende, como aquele sujeito que, à beira do fogão de lenha, ensinava o outro a fazer café. Fervida a água, o aprendiz indagou: pó pô pó? Ao que o outro respondeu: pó pô pó, confirmando em seguida: pó pô.Ser mineiro é saber criar bois, filhos e versos. É ir ao teatro, não para ver, mas para ser visto. É frequentar igreja para fingir piedade; rir antes de contar a piada e chorar com a desgraça alheia.

Mineiro adora sala de visitas encerada e trancada, na esperança do retorno do rei. Avarento não lê jornal de uma só vez para não gastar as letras, e ainda guarda para o dia seguinte, para poder ter notícias para ler e novidades a contar. Mineiro não lê, passa os olhos. Não fala ao telefone, dá recado.Praia de mineiro é barzinho; restaurante, balcão de armazém e cerca de curral. Ali, a língua rola solta na conversa mole, como se o tempo fosse eterno. Certo mesmo é que o momento é terno...

Ser mineiro é ajoelhar na igreja para ver melhor as pernas da viúva, frequentar batizados para pedir votos e ir a casamento para exibir roupa nova. Mineiro vai a enterro para conferir quem continua vivo. Nunca sabe o que dizer aos parentes do morto, mas fica horas na fila de condolências para marcar presença e ser percebido. Leva sempre um lenço no bolso para o caso de ter que enxugar as lágrimas da família. Não manda flores porque desconfia que a floricultura não cumpre o trato e ainda embolsa o dinheiro.

Ser mineiro é esbanjar tolerância  para mendigar afeto.  É proferir definições sem se definir. É contar casos sem falar de si próprio. Mineiro é feito pedra preciosa: visto sem atenção não revela o valor que tem."


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Continua em breve. Enquanto isso, acompanhe o que já foi publicado sobre Ser Mineiro no almanaque eletrônico Tencões & terentenas, acessando os links abaixo:

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/mineirice-mineirismo-e-mineiridade.html

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/mineirice-mineirismo-e-mineiridade_30.html