quinta-feira, 3 de março de 2016

Quanto encanto na Festa de Passos de São João del-Rei


Nesta sexta-feira, que é a quarta da Quaresma, começa em São João del-Rei uma era muito profunda, quase ancestral, que, porém, dura não mais do que três dias: a Sexta-Feira das Dores, o Sábado de Passos e o Domingo do Encontro.

Os são-joanenses nativos ou adotivos, sabem de cor do que se trata, mas muita gente que é de outros lugares certamente não reconhecem em seu universo o sentido que tem aqui o quarto final de semana depois do Carnaval. Em São João del-Rei vive-se nestes dias, com grande liturgia, sentimentos e sensações, uma das mais emocionantes cenas da Paixão de Cristo. O Encontro de Jesus  coroado de espinhos, e todo machucado,carregando uma grande cruz nas costas, com sua mãe serenamente desolada, cujo coração foi transpassado por quatro espadas de prata.

Tudo remonta ao século XVIII. Das imagens e andores, ora enfeitados com manjericão, ora com hortências e orquídeas, até a rosmaninha cheirosa espalhada pelo chão das igrejas barrocas. Do incenso que enfumaça e perfume o ambiente até o vigoroso, triste e apavorado toque dos sinos. Das músicas coloniais que a banda toca e que a orquestra canta até a contrição e encantamento do coração do povo que reza nas missas e acompanha as procissões.

A representação desta cena bíblica, na forma como é a Festa de Passos em São João del-Rei, é um ritual barroco ímpar, original e tipicamente são-joanense. Em datas diferentes ele é realizado também em outras cidades, inclusive nas demais cidades históricas de Minas, mas em nenhuma delas tem a expressão e a grandiosidade das celebrações realizada na "terra onde os sinos falam".

Especialmente para quem é observador, atencioso, as solenidades promovidas pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos de São João del-Rei é um inestimável e único tesouro. Suas riquezas tricentenárias conjugam elementos estéticos sensoriais refinados e raros, envolvendo, ao mesmo tempo todos os sentidos - a visão, a audição, o olfato, o tato e até mesmo o paladar.

Por isto, ao assistir a Festa de Passos não deixe de observar estes detalhes:

. A ambiência mística da Matriz do Pilar com os andores velados, antes da saída dos depósitos
. A bênção no momento em que o velário do andor vai ser fechado para saída dos depósitos, ao som de um moteto cantado pela Orquestra Ribeiro Bastos.
. Os dobres dos sinos nas saídas, percurso e chegada dos depósitos nas igrejas do Carmo e de São Francisco
. O encontro das irmandades nas procissões dos depósitos, na Rua Direita e em frente à Prefeitura
. A retirada dos velários, ao som do canto do Miserere, quando da chegada dos andores nas duas igrejas acima
. A figura de Maria Madalena e sua naveta de perfume
. A figura de São João Evangelista, com sua tradicional túnica verde e manto pregueado vermelho, com diadema de prata, levando à mão um livro e uma pena de prata
. O pálio vermelho, bordado com fios de ouro um céu estrelado, os suplícios da Paixão e outros símbolos pascais
. As rasouras do domingo na igreja do Carmo (8h) e na igreja de São Francisco (9h)
. O pendão roxo SPQR que vai na frente da procissão do Encontro, saindo da igreja de São Francisco
. Os cinco passinhos da Paixão delicadamente enfeitados
. As marchas das Dores, dos Passos e do Encontro que as bandas tocam nas respectivas procissões
. A parada do andor de Nossa Senhora das Dores em frente ao Cemitério do Carmo, quando a orquestra, alinhada na frente do maravilhoso pórtico, canta o moteto Domine Jesu
. A maravilhosa Melodia Fúnebre que a Banda do 11o Regimento de Montanha toca no adro da igreja de São Francisco, antes da saída da rasoura do Senhor dos Passos
. A tradição de passar três vezes debaixo da cruz do Senhor dos Passos, rodeando o andor em sentido anti-horário e beijando a fita roxa que pende da imagem
. Os anjinhos nas procissões, os altostocheiros de prata que vão à frente dos cortejos e as varas de prata com insignias de seus cargos, que os mesários das irmandades carregam
. O modo como as partituras são fixados com pregadores de madeira na parte de trás das golas dos músicos das bandas de música
. Os penachos de papel crepom roxo enfeitando os badalos dos sinos. Com o dobras dos sinos as fitas roxas vão se desprendendo, algumas caindo no chão e telhados e outras voando pelos ares, todas se movimentando com o vento


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Texto: Antônio Emilio da Costa
Foto: Sidney Saab

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Em São João, o Céu desce ao chão, Domingo de Passos, na procissão



Faltam menos de duas semanas para o Domingo de Passos, um dos dias mais belamente impactantes da religiosidade de São João del-Rei. Com suas rasouras, missas cantadas, adoração da Cruz, oque de sinos enfeitados com penachos de papel crepom, procissão do Encontro, canto dos motetos sacros e sermões, é uma tradição grandiosa e singular de nossa cidade e, pela riqueza de sua autenticidade barroca, não encontra similar tão genuína, original, tocante e expressiva em outras partes do mundo. Muito amada pelos são-joanenses, a Festa de Passos é um dos orgulhos de São João del-Rei.

Uma das faces mais bonitas da Festa de Passos é a legião dos anjinhos, com a delicadeza e a inocência das crianças, algumas muito pequenas, às vezes até carregadas no colo,  vestidas com túnicas de cetim claro, coroa de flores miúdas e até com asas. Mas acontece de alguns anos o número de crianças vestidas de anjo ser menor, principalmente porque a Festa de Passos é a primeira grande celebração da Semana Santa e, em nossa cidade, acontece quando a Quaresma ainda está pela metade.

Pensando nisto, este Almanaque Eletrônico, juntamente com a Irmandade dos Passos, com o Museu de Arte Sacra, com a Atitude Cultural, com a Associação dos Amigos de São João del-Rei e com a JUNFEC, lançou o projeto Anjos del-Rei, cujo objetivo é incentivar o aumento da quantidade de anjinhos nas procissões de São João del-Rei, em especial nas atividades do Domingo de Passos, que acontecem em horário muito favorável para as crianças.

Uma das atividades deste projeto em 2016 é esta mensagem dirigida aos pais, mães, tios e padrinhos de crianças que gostariam de sair nas procissões:

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Projeto Anjos del-Rei

Com inocentes anjinhos
o Céu desce ao chão
nas belas procissões
de São João del-Rei


Prezado são-joanense,

A infância é uma das fases mais abençoadas, bonitas, felizes e importantes de nossa vida. As coisas boas que vivemos quando somos crianças não esquecemos mais, nem quando crescemos e ficamos adultos. Por isto, as crianças devem aproveitar bem e viver tudo o que a infância lhes oferece.

As procissões de São João del-Rei são muito bonitas, com seus belos andores enfeitados, as irmandades, a banda de música e as crianças vestidas de anjinho. Quanto mais crianças vestidas de anjinhos, mais bonitas são as procissões. Parecem o Céu, onde as crianças, inocentes, adoram a Deus em Seu Trono e brincam em redor de Nossa Senhora e de todos os santos. Por isto, os anjinhos são tradição importante nas procissões de nossa terra.

 Diante disto, convidamos você a proporcionar a seus filhos, netos e sobrinhos a oportunidade de vestir-se de anjinho nas procissões e viver uma experiência de que jamais se esquecerão. É só providenciar uma túnica de cetim de cor clara, uma coroa de flores miúdas (e, se possível, as asas) e comparecer na igreja meia hora antes do início da procissão. Se não for possível fazer a roupa, talvez seja possível conseguir alguma emprestada na Casa Paroquial do Pilar, mas é bom lembrar que existem poucas disponíveis.


Vestir-se de anjinho é agradar a Deus, contribuindo para a beleza das tradições de nossa terra, e também viver uma experiência única e encantadora. Traga sua criança para ser  anjinho em nossas procissões. Elas serão gratas pelo resto da vida!

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: JUNFEC

sábado, 20 de fevereiro de 2016

São João del-Rei e suas esquinas. São João del-Rei e suas sinas. São João del-Rei & outras Minas!


A escolha do nome São João del-Rei, dedicando a Vila erigida em 1713 em honra ao faustoso Rei Sol Português D. João V, selou para a cidade um destino luminoso. A cidade reluz como ouro, brilha como o astro-rei, pulsa como um coração apaixonado, sopra como uma brisa suave, murmura como a confessar um carinhoso segredo de amor. São João del-Rei é festa, é luz, é música, é arte, é vida, é devoção, é gozo. São João del-Rei é inspiração.

Tanto é assim que no ano passado a cidade ganhou parte do título de um livro e vários poemas do escritor Nelson Di Francesco, paulista da capital do estado bandeirante, apaixonado por São João del-Rei desde que aqui veio pela primeira vez, há coisa de dez anos. A obra, chamada São João d'El-Rey e outras Minas, foi lançada em 2015 e reúne poemas, crônicas, reflexões poéticas, pensamentos, sentimentos e percepções do autor sobre o universo histórico-barroco destas coloniais cidades alterosas, visto e sentido, principalmente, a partir desta terra de El Rey.

Nelson Di Francesco é apaixonado pela cidade: seu casario, suas ruas sinuosas, suas igrejas de muitos sinos e exércitos de anjos, seu chão de pedras, seus becos serpentinos apertados por casas tortas, seus doces, seus sabores, seus temperos, sua rica e musical sonoridade, sua tradicional religiosidade, sua gente simples, alegre, comedida, digna, generosa, modesta, acanhada, humilde, simpática, mineira.

Tudo isto ele nos mostra, com um olhar a um só tempo contemplativo e contemporâneo, em seu livro, que já está caminhando para a 3a edição, de tiragens muito limitadas. Tão minimamente limitadas que os exemplares bem poderiam ser numerados, como são as xilogravuras, litogravuras, gravuras em metal e outras obras de arte.

Nosso autor é de tal modo são-joanamente enfeitiçado que por duas vezes ao ano passa uma temporada na cidade.  Já pensou até em se mudar para cá, mas por enquanto alimenta esta paixão a uma certa distância, com o romantismo de antigamente, quando se namorava por correspondência.

Sua simbiose com São João del-Rei é tamanha que, quem o ver andando pelas ruas e largos da cidade certamente pensará que ele é o mais comum dos são-joanenses. E se algum desconfiado ou incrédulo lhe perguntar a origem, a resposta virá rápida, sincera, convicta e decidida: "sou são-joanense de coração"!

Ah, onde encontrar e como adquirir o livro? Na agência de turismo Rumos em Rotas (Rua da Prata), na Pousada Estação do Trem (Praça da Estação) e diretamente com o autor, pela internet / facebook






domingo, 7 de fevereiro de 2016

Sinos de São João del-Rei desobedecem Rei Momo e tocam até no Carnaval!



Carnaval ou não, todo domingo de manhã, de vários pontos da cidade 
se ouve os sinos da igreja do Carmo chamando os fiéis para a missa, 
tradicionalmente, com este sofisticado concertinho sonoro:



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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

No Carnaval de São João del-Rei o bloco Cordão da Zona concentra, mas sai!


Mesmo quando não tem o glamouroso desfile dos blocos carnavalescos oficiais e das tradicionais escolas de samba, o Carnaval de São João del-Rei é bastante animado.

Principalmente à tarde e à noite, os blocos espontâneos agitam os mais diversos pontos da cidade, mas se concentram principalmente nas ruas, praças do centro histórico, onde as paredes dos casarões, apertando os becos e cercando largos, dão ainda mais movimento e agito ao mar de gente, fazendo o canto, o batuque, as marchinhas tocadas pelas bandas de sopro e o som elétrico ecoarem ladeiras acima e abaixo.

Não tem cetim, lantejoula, pluma, pedraria, confete nem serpentina, mas o improviso - mais parecido com descontraído de todo dia - tem no conforto e liberdade duas de suas grandes vantagens. Por outro lado, há pouca cor e alegoria, quase nenhuma fantasia, tudo é realidade, porém com mais alegria.

Um dos blocos que a cada ano se torna mais tradicional é o Cordão da Zona que, como não poderia deixar de ser, concentra, mas sai, da Rua da Cachaça, que ainda hoje faz jus ao nome e, antigamente, era o endereço das casas da luz vermelha.

Em 2016, por exemplo, quem sair no Cordão da Zona com sua banda vai cantar o seguinte:


"Vem pro Cordão da Zona meu bem
Vem que tem, vem que tem... (bis)
Tem uma grande festa de brilhos e cores,
Paz, amor e alegria.
Tem carnaval de verdade
Pra qualquer idade cair na folia.
Vem pro Cordão da Zona meu bem
E traz quem quiser que é de graça.
Vem pro Cordão da Zona meu bem
Na Rua da Cachaça."
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Texto: Antonio Emilio da Costa
Música: João Oliveira
Foto: Barteliê

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Alegria, confete, folia e serpentina. "Embolada" de blocos no Carnaval 2016 de São João del-Rei

Impossível duvidar: o espírito do povo de São João del-Rei é barrocamente celebrativo e prova disto é o gosto das pessoas desta terra por manifestações coletivas que se concentram em largos e depois se arrastam pelas ruas, como por exemplo procissões, desfiles, cortejos, cordões e coisas assim.

É por este espírito celebrativo que o Carnaval de São João del-Rei sempre ultrapassa os tradicionais três dias de folia e em 2016, mesmo sem o brilho insubstituível das escolas de samba, durará nada menos do que 18 dias, ou seja, mais do que duas e meia semanas de alegria. Serão 47 blocos na rua, com nomes tão sem noção que até se embaraçam nesta segunda embolada. Quer ver?

Bora, à Zero Hora, tomar Birinight no Alambique, curtir Block'n Roll  até a Alvorada chegar, na maior e mais alucinada Tacofolia? Ora, esquece que você tem Copo Sujo e Banda Mole, é Lesma Lerda e vive na lama do maior Pantanal

Anima, vamos lá, Deixe o Mundo Girar até ficar tonto, redondo, virar Cambalhota, escorregar na casca da banana e engolir o caroço do Abacate, deslizar macio goela abaixo igual Cachaça com Mel. Mas depois, não Chora Borel! Olha lá, Se Mamãe Deixar, vou comer Arroz Doce com os Amigos da Regê, zoar muita Trincação até amolecer o Coração Rubro-Negro, amarrar o João Alvarenga com o famoso Cordão da Zona e internar na Santa Casa. Ele anda mal da Saúde, um verdadeiro Aragê escondido na Caixinha de Bambu enterrada lá na Chácara onde o Judas perdeu as botas, o Galo canta, janta e os males espanta.

Na Beira daquela Ponte tem muitas Domésticas escondendo as Pérolas no fundo da Mala, desembrulhando e chupando o Pirulito, lambendo os beiços e depois Arrastando o Resto para o animado e saudoso Carnaval de Antigamente. Falando nisto, Vamos a La Playa, lavar a roupa e a alma, surfar na onda e tomar uma Curimbada? Como "Custa Mas Vae", mas não custa nada, Só Não Vai Quem não Quer. É verdade,   Até Parece Mentira, mas, quem diria, eu vi o Gato de Botas soltinho, leve e pirado no Largo do Carmo, a milcercado de Piranhas aprontando sem dó nem vergonha  a maior Bandalheira: ê Trem Bão sô!...
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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: G-1



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

São Sebastião, mártir glorioso, é festejado de ponta a ponta em São João del-Rei


Engana-se quem pensa que as festas em homenagem a São Sebastião acontecem apenas no centro histórico de São João del-Rei, onde o "Guerreiro de Cristo", desde o início do século XVIII, tem altar na igreja do Pilar, é celebrado com uma novena e sai às ruas em procissão, no dia 20 de janeiro. No coração colonial são-joanense, ele também tem um nicho lateral ao altar-mor da Capela do Divino Espírito Santo e, ainda, em uma peanha do altar lateral direito da igreja das Mercês.

Em outras partes da cidade, e até do município, o santo protetor contra a peste, a fome e a guerra também é querido e festejado. Um dos mais antigos distritos de São João del-Rei, por exemplo, chama-se São Sebastião da Vitória e certamente também realiza algum festejo em honra do santo, está presente no distrito do Rio das Mortes, em imagem no altar da igreja de Santo Antonio,  onde a beata são-joanense Nhá Chica foi batizada. E na urbana Paróquia de Matosinhos, a Comunidade de São Sebastião presta-lhe  calorosa prova de sua devoção.

São quatro dias animados, de 21 a 24 de janeiro, quando os devotos provam sua fé ao quarteto ali formado pelo Santo Mártir, juntamente com os santos negros São Benedito e Santa Efigênia e com Nossa Senhora do Rosário. Alvorada festiva, levantamento de mastros e bandeiras,  barraquinhas, missas, cortejos solenes, apresentação de grupos de congadeiros e uma procissão, em ruas e casas enfeitadas. É assim que aquela comunidade expressa sua fé, sua esperança e sua gratidão àqueles santos que fazem parte de seu cotidiano, regando dias e noites com orvalho de bondade e harmonia, iluminando sorrisos que brotam da alma e afastando para longe perigos e preocupações.