terça-feira, 20 de outubro de 2015

Valei-nos Nossa Senhora do Rosário! Sorri com bondade para os congadeiros de São João del-Rei



Mesmo ficando meio à margem da cultura oficial são-joanense, algo como o primo pobre das nobres tradições coloniais, o congado, ou congada, como alguns preferem, é uma manifestação cultural forte em nossa região, principalmente nos bairros mais afastados e nos distritos de São João del-Rei.

Não se precisa de nenhum esforço para entender porque isto acontece: basta relembrar a condição social do povo que introduziu este produto cultural na região: negros africanos, escravizados, que viviam à margem do sistema político-social. Na economia eram apenas a força bruta; para a religião vigente, no começo havia dúvida se sequer tinham alma. Ainda hoje ainda não são os negros são-joanenses que possuem visibilidade destacada na sociedade local que compõem os grupos de congado. Congado exige alma negra, exige fé autêntica e natural, exige crença, convicção e coragem. Se não for assim é folclore, folguedo, espetáculo e diversão.

Mesmo que não se dimensione, a região de São João del-Rei tem muitos grupos de congado - que nos diga o Superintendente de Cultura e congadeiro Ulisses Passarelli - nos bairros mais afastados, na periferia e nos distritos, principalmente no de Caburu, que depois rebatizaram São Gonçalo do Amarante, e no do Rio das Mortes.

O congado do Rio das Mortes, inclusive, se orgulha de ostentar uma idade e um título: foi criado no fím do século XVI, e portanto tem quase 350 anos, e é um dos mais antigos, se não for o mais antigo, de Minas Gerais. Isto, inclusive, foi reconhecido pela imprensa regional no canal G1, em uma matéria veiculada neste fim-de-semana.

Mas o congado do Rio das Mortes tem ainda mais coisa do que se orgulhar. Os pais cultivam no coração dos filhos, desde a pouca idade, o amor congadeiro, e lhes transmitem como herança esta cultura ancestral. No Caburu, em São Dimas e em outros lugares onde o congado sempre revigora quando é tempo de Nossa Senhora do Rosário isto também acontece: lutando contra a modernidade da televisão, da cultura de massa e da internet, os pais tentam manter acesa no coração dos filhos a chama do amor congadeiro, que é a seiva do passado e a estrela da ancestralidade.

Sem a fé, sem a crença, sem a convicção e sem a coragem dos antepassados, que são os amuletos do Congado, a chama se apaga. A seiva, que é sangue e água, seca. A estrela perde o lume. O negro de hoje fica desnorteado de sua cultura original e genuína, equivocado e iludido pelo canto da sereia escrito na pauta dos códigos de barras.

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Ilustração: Foto G1

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