terça-feira, 29 de abril de 2014

Santeiros de hoje mantêm vivo o ofício de trazer o céu para o chão nas terras de São João del-Rei


Os séculos passam, as gerações se renovam mas, em São João del-Rei a grande intimidade que existe entre o humano e o divino não enfraquece. No século XVIII, grandes artistas esculpiram, no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, belas imagens barrocas, também encarnadas e vestidas pelo povo do lugar. Estas magníficas obras de arte até hoje são admiradas nas igrejas, em altares e andores, e no Museu de Arte Sacra de São João del-Rei.

No século XXI esta produção continua, com a mesma qualidade, quantidade, criatividade e intensidade. Prova disto é a exposição Escultores do Sagrado - escultores sacros da atualidade são-joanense, aberta à visitação pública no Memorial Dom Lucas Moreira Neves, de 4 de abril a 4 de maio. Nela, algumas obras mostram o potencial criativo, o domínio técnico e a capacidade escultórica dos atuais escultores sacros de São João del-Rei, ali representados por Carlos Calsavara, Fernando Pedersini, Miguel Ávila e Ronaldo Nascimento.

O apurado desempenho criativo, estético, sensível e técnico dos novos santeiros são-joanenses , inspirados na iluminação dos artistas e artífices locais dos séculos XVIII e XIX, faz com que a arte sacra de São João del-Rei continue transpondo as muralhas da Serra do Lenheiro, para ser admirada em outras terras. Mineiras, brasileiras e, até, estrangeiras.

sábado, 26 de abril de 2014

Pudesse, São João del-Rei entregaria um buquê de notas musicais à maestrina Maria Stella Neves Vale

Há exatamente um ano, no dia 28 de abril, acenaram-se adeus a maestrina Maria Stella Neves Valle e São João del-Rei. Fora-se ela, pela imensidão celeste, a reger astros, cometas e estrelas. Ficara a cidade, no devir eterno e cotidiano, a pressentir seus passos firmes, a imaginar seus gestos decididos, a intuir a harmonia das vozes e instrumentos que ela, já octogenária, vivamente, até há dois anos atrás, comandava.

Já senhora da admiração e do respeito dos são-joanenses, dona Stella agora vai ganhar uma pequena praça, à margem direita do Córrego do Lenheiro, em frente à Estação Ferroviária. De lá, certamente, vai reger os apitos da Maria Fumaça, que dali parte e para ali volta, de sexta-feira a domingo, quando é manhã e quando é tarde, lendo no céu a pauta compassada pela clave de sol.

São-joanense que é são-joanense, sabe quem dona Stella foi. Sabe o valor que ela tem. Tem por ela grande gratidão. E, entre Misereres e Motetos, a eterniza todo dia, na memória e no coração.

Clique no link abaixo e ouça uma homenagem do Almanaque Eletrônico Tencões e terentenas à maestrina Maria Stella Neves Valle. Chama-se "Saudades"  e foi composta pelo grande maestro são-joanense Benigno Parreira.



quinta-feira, 24 de abril de 2014

São João del-Rei, terra das sete pontes

Da velha Ponte do Rosário, até a novíssima Ponte da Estação, ao todo são sete as pontes que atravessam o Córrego do Lenheiro na região central de São João del-Rei. Coloniais e grandiosas, de tempo e pedra; românticas, de juras de amor e ferro; modernas e ágeis, de cimento; estreitas e quase pênseis, de pensamento e pressa.

Entre as duas maiores e mais grandiosas - a do Rosário e a da Cadeia -, fica a mais frágil, desprotegida e delicada: a Ponte dos Suspiros. Ligando o centenário Grupo Escolar João dos Santos ao Museu do Largo Tamandaré, atravessá-la já fez medo a muita criança, tamanha a aventura que parecia.

Sobre a Ponte dos Suspiros, o poeta são-joanense, professor aposentado, Hélio da Conceição Silva, escreveu:

            "Por que 'Ponte dos Suspiros'?
              Curioso, o turista indaga,
              sobre o nome da estreita via.

                     - Ah, é denominação antiga!
                      Por sua fraca estrutura
                      outrora ela balançava
                      e isto muito assustava
                      quem atravessava por ela.
                       Explica assim o velho guia.

               Já um observador romântico
               descarta a história
               e inventa uma estória
               justificando tal nome
               com uma antropomorfose:

                         - Esta modesta ponte suspira
                           por não ser como as belas pontes
                           da Cadeia e do Rosário que,
                           equidistantes dela,
                           se destacam pela imponência,
                           chamando a atenção
                           e despertando a curiosidade
                           de quem visita a cidade."
.......................................................................
Fonte: Jornal da ASAP, fevereiro/março de 2012
Ilustração: Pontes do Teatro e da Cadeia - foto do autor

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Forças, confusões e alvoroços de São Jorge nas terras de São João del-Rei


Hoje, dia 23 de abril, é dia de São Jorge. Sempre muito forte no imaginário do povo e bastante respeitado na religiosidade popular, em São João del-Rei o santo guerreiro é personagem atuante e ilustre desde as primeiras décadas do século XVIII.

Naquele tempo, o santo era vivo (vivo nos dois sentidos) e ganhava corpo duas vezes por ano, sempre no mesmo dia. O homem que o representava saía vestido a caráter, com capacete, escudo e lança, montado em garboso cavalo, nas duas procissões de Corpus Christi que se realizavam nas ruas coloniais das margens esquerda e direita do Córrego do Lenheiro. Uma, de caráter mais político, era promovida pelo Senado da Câmara e a outra, com espírito religioso, era organizada pela Santa Madre Igreja.

Mas já enjoado de fazer sempre o mesmo percurso, o santo resolveu cobrar pelo serviço prestado e então, Igreja e Câmara, unidas pelo mesmo problema, resolveram substituí-lo pela bela imagem que hoje se encontra em posição de destaque no Museu de Arte Sacra de São João del-Rei. Mesmo lá, é beligerante, temperamental e genioso: não se mistura aos outros santos.

Além de querer dinheiro para sair nas procissões, à frente do pálio que protegia o Santíssimo Sacramento, o santo forte e guerreiro provocou muito alvoroço e confusão em São João del-Rei até chegar, imponente e abusado, à sua casa atual, que é também uma casa de cultura. Para conhecer suas aventuras, que tal ler os posts abaixo?

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/04/quando-sao-jorge-andou-de-corpo-e-alma.html

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/04/o-dia-em-que-sao-jorge-quase-caiu-do.html

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Tributo ao alferes Tiradentes: uma dívida de São João del-Rei para com sua própria história



Há 222 anos, no dia 21 de abril, foi enforcado no Rio de Janeiro Joaquim José da Silva Xavier, o alferes Tiradentes. À época de seu nascimento, era são-joanense, pois em 1746 a Fazenda do Pombal pertencia à Vila de São João del-Rei. O registro de seu batismo foi assentado em livro pertencente à Matriz do Pilar da mesma vila. Seu corpo foi esquartejado e disperso pelas estradas de Minas. Sua cabeça, qual troféu, foi elevada em um poste, na antiga Vila Rica, para que o tempo a consumisse...

Já faz bastante tempo que a memória do sacrifício do alferes Tiradentes, em São João del-Rei resume-se a uma cavalgada. Com isto, a cidade constroi e confessa infinita dívida para com tão importante personalidade histórica da vida nacional.

O povo de São João del-Rei precisa - e o alferes Tiradentes merece!- recuperar e reintegrar a figura do "animoso alferes" em seu imaginário. E, para isto, nada melhor nem mais eficiente do que a arte, em suas diversas formas: literatura, poesia, artes plásticas, teatro, artes populares, fotografia, vídeos, instalações, performances - enfim, a vida do dia a dia.

Os são-joanenses ganhariam em ideal, porvir e auto-estima. A cidade, em história, cultura e memória. O herói, em justiça, lembrança e eternidade.


.........................................................................
Sobre o menino Tiradentes, em São João del-Rei, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/11/em-sao-joao-del-rei-poesia-e-prece-pelo.html

domingo, 20 de abril de 2014

Semana Santa - A Poesia convoca à Ressurreição em São João del-Rei

Em São João del-Rei, Deus fala ao povo em várias linguagens, mas é principalmente por meio da arte que, desde o raiar dourado do século XVIII, o Criador vale-se da estética para tocar o coração dos são-joanenses. Os templos barrocos, com suas torres, portadas, esculturas, pinturas, imagens e alfaias, por toda parte semeam anjos que espalham o Céu - com sol e lua - para o Vale da Serra do Lenheiro. A música, misturada ao incenso, às pétalas, às cores e a tudo o que reluz, leva o olhar e eleva o espírito até a mais brilhante estrela.

A Poesia não se abstém de seu papel mensageiro e foi com ela que, no final da Missa da Ressurreição do Senhor, em 2014, Padre Geraldo Magela da Silva, fez um convite ao povo de São João del-Rei. Evocando a grande poetisa Cecília Meireles, no Cântico XIII, assim o Pároco da Matriz do Pilar conclamou a todos:

                     "Renova-te.
                       Renasce em ti mesmo.
                       Multiplica os teus olhos, para verem mais.
                       Multiplica os teus braços, para semeares tudo.
                       Destrói os olhos que tiverem visto
                       e cria outros, para visões novas.
                       Destrói os braços que tiverem semeado
                       para se esquecerem de colher.
                       Sê sempre o mesmo. Sempre outro.
                       Mas sempre alto. Sempre longe.
                       E dentro de tudo."

Em que outro lugar no mundo a missa do Domingo de Páscoa termina com tão sublime mensagem?

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Semana Santa de São João del-Rei, original e autêntica, é destaque na mídia regional



Por sua originalidade genuína como tradição setecentista, única em Minas Gerais e no Brasil, a Semana Santa de São João del-Rei vem ganhando grande espaço na mídia regional em 2014. Trata-se de reconhecimento merecido, pois a preservação destas celebrações, não só como expressão de fé, mas também como manifestação artística, é fruto do esforço e da dedicação dos são-joanenses, amantes da riqueza cultural barroca herdada de seus antepassados: pais, avós, bisavós, tataravós...

Sobre este assunto, veja, abaixo, uma reportagem recente do programa Viação Cipó e matérias veiculadas este mês no canal G1.



http://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2014/04/oficio-das-trevas-e-tradicao-secular-na-semana-santa-de-sao-joao-del-rei.html



domingo, 13 de abril de 2014

Semana Santa de São João del-Rei: a fé, a crença, a magia e a projeção das trevas que há em todos nós

Antigamente, desde seu começo, no Domingo de Ramos, a Semana Santa era um tempo impregnado não só de religiosidade, mas também de muito misticismo, em São João del-Rei. Entre as pessoas mais velhas, e também entre as mais simples, ainda é assim.

Acreditavam que especialmente no período máximo do sofrimento de Cristo, até o instante de sua ressurreição, as forças negativas e perversas, capitaneadas por Satanás, estavam soltas sobre a Terra, castigando Jesus e tentando os homens. Semeando armadilhas e espalhando riscos, provocando pavores, desconstruindo o equilíbrio, institucionalizando a des-ordem que constitui o caos. Tinham certeza que o Diabo estava solto e furioso porque se aproximavam do fim seus dias de incontrolado convívio entre os homens e a natureza bruta.

Por isso jejuavam, se martirizavam, se abstinham, se sacrificavam, se mantinham em longos e meditativos silêncios, na crença de assim não assanhar o Coisa Ruim, de mantê-lo à distância, de não provocá-lo, de passarem despercebidos por ele e escaparem de suas más artimanhas.

Supunham que coisas misteriosas, sobrenaturais e inexplicáveis aconteciam nos cantos escuros, nos telhados, nos fundos dos quintais, nos galinheiros e chiqueiros, no meio dos bambuzais, nos avessos onde sobrevivem animais peçonhenos, embaraçam raízes, emaranharam-se galhos, fermentam imundícies, germinam o primitivo e o que à luz não se vê.

Temiam ser tempo fértil para feitiços, malefícios, mandingas, encantamentos perversos, castigos espirituais, amarrações amorosas, vinganças por ciúmes, por inveja, ambição desmedida, avareza, luxúria não correspondida, ou mesmo ruindade pura.

Do mesmo modo, viam na Semana Santa  o tempo ideal para benzeções e simpatias, principalmente na Sexta-Feira da Paixão. Para confeccionar amuletos e patuás com dentes de animais e orações fortes, colher ervas e raízes medicinais, pagar promessas, confessar e se arrepender dos pecados, tomar banhos purificadores, daqueles de lavar da alma todo peso e culpa.

Às claras, hoje isto tudo é superstição, folclore, atraso. Mas quando chega a Semana Santa, todo coração são-joanense bate em certo descompasso, treme arritmias que ninguém explica. Mesmo que todo mundo negue até depois que o galo cantar três vezes.

Semana Santa de São João del-Rei: Domingo de Ramos, determinista domingo de angústias...

Hoje, Domingo de Ramos, em São João del-Rei o tempo já mudou. O início oficial da Semana Santa imerge os são-joanenses em uma outra era emocional, emoldurada e conduzida pelo mais profundo sentimento religioso. Há em tudo uma expectativa determinista do que já é conhecido, que se repete há muitos séculos, mas que é anualmente revivido, como se fosse sempre a primeira vez. Um pesar denuncia o desejo irrealizável de que a história acontecida pudesse ainda ter outro rumo, ou não mais se repetir, como se faz desde sempre.

Tudo começa na Igreja do Rosário, aos pés do Senhor do Triunfo, entre palmas viçosas, pratarias brilhantes, paramentos vermelhos, incensos aromáticos, cruzes cobertas, em meio ao povo que levanta nas mãos ramos verdes que o bispo benze, ao som de antífonas e hinos  barrocos do século XVIII que a Orquestra Ribeiro Bastos entoa. Tudo lembra tristemente a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, a caminho do sofrimento e do sacrifício.

O sino toca pungente notas esparsas e compassadas badaladas, que dobram unicamente na manhã de cada Domingo de Ramos, quando começa a procissão que, triunfante, deveria ser alegre, mas não o é. Há na alma são-joanense -  que disposta em duas alas atravessa lentamente aquele largo ladeado de brancas casas de colorido colonial - uma certeza suspensa, indesejável mas inevitável: o Calvário está a poucos passos dali, logo à frente, na Matriz do Pilar.

Lá, a narração da história sagrada, iniciada na Igreja do Rosário, dura mais de duas horas e é tão grave quanto os acontecimentos que capítulo relata: a prisão, julgamento, crucifixão e morte de Jesus. O Ofício de Ramos e o Canto da Paixão, compostos pelo são-joanense Padre José Maria Xavier no século XIX, são dramatizações cantadas em latim por quatro protagonistas, entre eles a orquestra barroca, fundada em 1790. 

A descrição daquele momento sensível da história da humanidade vai se tornando cada vez mais melancólica e nostálgica quanto mais se aproxima o descendimento do corpo morto de Jesus da cruz, seu embalsamamento e sepultamento no túmulo novo, talhado na rocha, onde nenhum corpo ainda havia sido descansado. Sua entonação final, melodiosa, é terna e dolorosa como uma cantiga de ninar cantada para embalar um filho morto ou um pai que não vai mais acordar.

Um dos momentos mais pungentes da celebração é o canto do Impropérium - uma lamentação de Jesus Cristo que, nos seus pensamentos finais, diz o seguinte:

               "O opróbio e as humilhações me dilaceram o coração.
                 Esperei que alguém se compadecesse de mim e não houve ninguém.
                 Procurei quem me consolasse e não encontrei.
                 Deram me fel a comer e vinagre para matar a sede"

Cantado nestas palavras latinas

                     "Impropérium exspectavit cor meum et misériam.
                      Et sustínui qui simul mecum contristarétur et non fuit.
                      Consolántenm me quaesívi te non invéni.
                      Et dedéunt in éscam meam fel, et in siti ema potaverúnt."

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Lamentosa e comovente, a Procissão da Soledade encerra a Festa de Passos em São João del-Rei

No anoitecer desta sexta-feira,  dia11 de abril de 2014, a sexta Sexta-Feira da Quaresma, o espírito de São João del-Rei, religiosamente, se perturbará, em silêncio, para dentro da própria alma. Será a noite da Soledade de Nossa Senhora, quando acontecerá a Procissão das Lágrimas, nome hoje em desuso, mas muito adequado para o que se rememora: a volta da mãe de Jesus do Monte Calvário para casa, relembrando todo o sofrimento do filho sepulto e vivendo, resignada e na plenitude, a saudade.

O andor de Nossa Senhora das Dores que hoje será carregado em meio largos, becos, ladeiras e esquinas, cruzeiros e encruzilhadas do centro histórico de São João del-Rei nesta noite é absolutamente austero, quase árido. Apenas arnica - planta medicinal usada em infusão no alcool para aliviar dores musculares, entorses e contusões - discretamente se espalha sobre a madeira, em volta coberta por sanefas roxas e galões dourados.

Nossa Senhora vai com seu diadema de doze estrelas de prata, suas quatro espadas de prata no peito e seu manto de solidão e dor, parando contemplativa nas cinco capelas-passo da Paixão. Em cada uma, a Orquestra Ribeiro Bastos canta  motetos saudosos, vários deles inspirados nas lamentações do Profeta Jeremias. O mistério é tamanho que, quem se compenetrar, terá a impressão de que o canto não quer transpassar o silêncio nem se espalhar pela noite.

Antes de recolher-se por mais um ano em seu altar na Matriz do Pilar, Nossa Senhora das Dores pára diante do grande oratório da Piedade e, como a mirar-se, a si própria, em espelho imaginário, contempla a outra imagem, que está no alto do altar, ao pé da cruz, com Cristo morto em seu colo. Esta, portuguesa, veio para São João del-Rei no século XVIII.

Até alguns anos atrás, somente na Sexta-Feira da Soledade o Passinho da Pideade era aberto. Agora, ele fica exposto para contemplação de fiéis e turistas também na noite da Quinta Feira Santa e durante o dia na Sexta Feira da Paixão. Mas não é a mesma coisa, pois neste período o oratório é como um belo e grande retrato na parede da paisagem que é o Largo do Rosário. Não tem tão intensa função de espaço sagrado como a que desempenha na Procissão das Lágrimas.

Muito envolvimento, respeito e fé. As celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário, o Setenário das Dores e a Semana Santa de São João del-Rei são fortemente marcadas por estas coisas.





terça-feira, 8 de abril de 2014

Setenário das Dores: a angústia, a desolação e a saudade de Deus segundo São João del-Rei

Certamente bem poucos lugares celebram tão barrocamente as sete dores de Maria Santíssima como São João del-Rei. Aliás, é bem possível que, no mundo, nenhum outro, pois na 'cidade onde os sinos falam' o Setenário das Dores é singular: é um ritual de características próprias, estrutura litúrgica única e músicas compostas nos séculos XVIII e XIX por compositores locais, especialmente para a celebração.

É uma cerimônia tocante desde o início, quando a bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos executa o "Domine ad adjuvandum", clamando a presença divina, e a Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos adentra o templo dourado, com suas opas roxas. O altar-mor, antes fechado por uma grossa cortina, se abre mostrando a solidão de Nossa Senhora das Dores diante da cruz vazia, no são-joanense calvário. Nuvens de incenso perfumam e embaçam tudo, materializando uma ambiência de sonho.

O Setenário das Dores era um dos atos litúrgicos que o recém-falecido Padre Paiva mais gostava de celebrar, o que fazia com grande contrição, de modo comovente sem igual. Entretanto, consta que nos seus 60 anos de sacerdócio, certamente quase 50 à frente da Paróquia do Pilar, o monsenhor mais querido dos são-joanenses, por ser o celebrante, nunca proferiu os sete sermões que falam sobre as sete espadas de dor que transpassaram o coração da Virgem Dolorosa. O faria este ano, se estivesse vivo.

Mas nestas sete noites, Padre Paiva, amorosamente, fala das dores, angústias, amarguras e sofrimentos de Maria Santíssima, por meio dos sermões que deixou escritos e que são lidos no púlpito pelo pároco Geraldo Magela. E todos que estão na igreja, amparados na solidão de Nossa Senhora da Piedade, "sem seu Filho, nem vivo e nem ainda morto", em lembrança se encontram com aquele que tanto os ouviu e confortou, e que se foi no dia 3 de março passado.

Veja, no vídeo abaixo, alguns trechos do Setenário das Dores 2014, gravados por Luiz Fernando Zanetti.

Sobre o Setenário das Dores de São João del-Rei, veja também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/03/semana-santa-sao-joao-del-rei-2012.html

domingo, 6 de abril de 2014

Céu Aberto: mais anjinhos nas procissões de São João del-Rei



Quando a questão é resgatar e fortalecer tradições que tornam sua cultura singular no Brasil e no mundo, São João del-Rei é mais forte, mais competente e mais capaz do que se imaginga. Tanto que, apenas nove dias após o lançamento, neste Almanaque Eletrônico, da campanha Céu Aberto: mais anjinhos nas procissões de São João del-Rei, a proposta apresentou resultados surpreendentes. Mais de 20 anjinhos atenderam ao chamado e alinharam-se em legião diante do andor do Senhor dos Passos, na igreja de São Francisco, para acompanhá-lo na setecentista e barroca Procissão do Encontro.

A campanha Céu Aberto surgiu da observação de que pouco a pouco estava diminuindo a quantidade de crianças vestidas de anjo nas procissões de São João del-Rei. Isto, ao mesmo tempo em que enfraquecia a beleza dos cortejos religiosos tradicionais de nossa terra, não oferecia às crianças a oportunidade de vivenciar uma experiência que seria lembrada por toda vida.

De imediato a campanha recebeu adesão da Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos, da Atitude Cultural e da Paróquia do Pilar o que, comprovando a máxima "a união faz a força", possibilitou resultado tão expressivo, em tão curto espaço de tempo, demonstrando o quanto o povo são-joanense ama São João del-Rei e valoriza suas tradições culturais.

A ideia agora é que a campanha continue ganhando força e apresentando resultados, colocando sempre mais e mais anjinhos nas procissões de São João del-Rei. No futuro, ela derivará em novos produtos culturais em favor da memória da 'terra onde os sinos falam'.

Participe. Apoie. Divulgue. Contribua. São João del-Rei agradece!
.........................................................
Veja, nos links abaixo, uma matéria sobre a campanha, divulgada no jornal Gazeta de São João del-Rei e a matéria de lançamento da iniciativa Céu Aberto, neste Almanaque Eletrônico.

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/03/semana-santa-festa-de-passos-andam.html
. http://www.gazetadesaojoaodelrei.com.br/site/2014/04/paroquia-do-pilar-cria-atelie-de-anjinhos/

Foto: Thiago Morandi

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Aquarela da Festa de Passos em São João del-Rei

 
Em São João del-Rei, a Festa de Passos é tão sagrada que até a natureza, solidária, se veste de roxo em compaixão ao que sofreu Nosso Senhor Jesus Cristo a caminho do Calvário. Quaresmeiras robustas, e também as delicadas, florescem arroxeadas estrelas de dor no Largo de São Francisco.

Contornando o jardim em forma de lira, que tem palmeiras como cordas, a imagem barroca arrasta sua cruz, sobre montanhas de hortências, nuvens de incenso e aromas de rosmaninha e de manjericão. Em meio à marcha triste que a banda toca e aos suspiros setecentistas de impropérios e misereres, vindos de violas, violinos, violoncelos, de flautas e clarinetas.

Sinos dobram graves e, além de afinados sons, lançam pelos ares estreitas fitas de papel que, do mesmo tom, se juntam às quaresmeiras floridas.

Em São João del-Rei, roxo não é uma cor. É memória, lembrança e sentimento...