sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Nossas Senhoras de São João del-Rei - No Pilar, desde sempre, a Padroeira


Por mais que às vezes deseje estar em silêncio e sozinho, o são-joanense traz sempre alguém consigo, que o acompanha e com quem conversa. Homem ou mulher, criança ou velho, rico ou pobre, nas piores tristezas ou nas mais felizes horas, mudos ou ruidosos, sempre exclamam: Nossa Senhora! Por economia ou discreção, pode ser apenas Nossa! e, dependendo do susto ou do aperto, se resume a uma sílaba: Nó! Tão poucas letras, tamanha é a pressa, a infinita surpresa, o desmedido susto,o sufocante aperto, a desmesurada aflição.

Aliás, Nossa Senhora é madrinha de São João del-Rei. Em seu pilar, veio para cá nos oratórios dos bandeirantes portugueses, no comecinho dos anos setecentos. Viu o arraial transformar-se em vila e teve que proteger o povo das furiosas chamas paulistas e emboabas. Dizem que salvou até as imagens de São Sebastião e São Miguel Arcanjo que, antes na incendiada capela do Morro da Forca, agora habitam a Matriz do Pilar.

O tempo todo Nossa Senhora é festejada em São João del-Rei, todo mês, senão toda semana, tantas são as suas missões e invocações. Sobre isto, o multi-intelectual são-joanense Jota Dangelo, em 1995, escreveu dezenove versos, divulgados na "visitação" de Quinta-Feira Santa do ano de 1995 na igreja do Rosário, quando foram expostas muitas das mais belas imagens de Nossa Senhora veneradas a "terra onde os sinos falam" - a mais barroca cidade de Minas Gerais.

Nesta e nas próximas postagens apresentamos, com satisfação, as preces e os clamores poéticos de Jota Dangelo. Comecemos pela padroeira de São João del-Rei, festejada no dia 12 de outubro.

Nossa Senhora do Pilar
Minha santa padroeira
desta terra de emboabas.
Pilar da fé dos primeiros
que chegaram nestas plagas.
Derrama graças e bênçãos,
cicatriza nossas chagas,
que a cidade anda a deriva,
a mercê de muitas pragas.
Desperta o vale que, inerte,
adormece ao pé da Serra.
Ilumina a consciência
do povo de minha terra!

Texto e foto: Antonio Emilio da Costa



segunda-feira, 26 de setembro de 2016

A fé floresce orquídeas e esperanças nos quintais para os altares de São João del-Rei

O mundo é pequeno, o tempo é pouco, a existência é breve e a eternidade é insuficiente para a dinâmica cultural de São João del-Rei, sempre em enriquecedora evolução. Mesmo quando e do que não se imagina, tradições surgem silenciosas no limiar do sonho, no lusco-fusco da aurora, do orvalho sereno do fundo dos quintais, no silêncio madrugoso das almas, atravessa sentimentos e refulge na fé, ostentando-se em altares,  oratórios e olhares. É isto o que, há dois anos, vem acontecendo nos dias 14 e 15 de setembro, para eternizar a lembrança do Dia de Santa Cruz e o Dia de Nossa Senhora das Dores, na Matriz do Pilar, e o Dia de Bom Jesus do Perdão, na igreja das Mercês.

Estas datas há séculos já fazem parte do calendário religioso da cidade, mas na Paróquia do Pilar eram celebradas com discrição contrita em pregação modesta, na missa noturna que acontecia nas duas igrejas. A grande celebração acontecia na Paróquia de Matosinhos, onde até hoje a comunidade, relembrando uma tradição do século XVIII, até hoje realiza uma majestosa procissão - evocação moderna do antigo Jubileu, que até começos do século XX era um dos mais importantes de Minas Gerais.

De 2015 para cá, a devoção dos Irmãos dos Passos à Paixão de Cristo e às Dores de Maria Santíssima retomaram uma atitude legítima e espontânea, sinal de humildade, doação e amor, na demonstração de fé e gratidão ao Salvador e sua Mãe: cultivam nas sombras fundas de seus quintais orquídeas róseas que se entremeiam entre o fim do inverno e a chegada da primavera e as colhem na manhã do dia 13 de setembro, levando-as para enfeitar o altar do Encontro de Jesus com Maria na Matriz do Pilar.

A cascata de delicadas orquídeas nasce nos braços da cruz, escorre e desce pelos lances do altar e finda esparramada na bancada onde, nas três primeiras sextas-feiras da Quaresma, repousa o Crucificado antes e depois da Via Sacra Ali, os fiéis lhe beijam as mãos, os pés e a face, lhe acariciam a face e as chagas dos cravos e da coroa de espinhos. depositando na salva de prata a seus pés moedas, pedidos e esperanças.

Outra tradição dos tempos coloniais, resgatada este ano pela Irmandade dos Passos, é a celebração de uma missa em frente ao Passinho da Piedade, no Largo do Rosário, em frente ao Museu de Arte Sacra. Era das grades das celas daquele prédio setecentista, onde no século XVIII funcionava a Cadeia Pública, que os presos, condenados à forca, assistiam sua última missa e pediam o perdão celeste para suas penas e culpas, antes de subirem, arrastados, para a morte infame no cadafalso armado no alto do Morro do Bonfim.

E assim atravessam as eras e a eternidade, vencem os tempos e os homens, a fé, a tradição e a cultura de São João del-Rei...

Texto e foto: Antonio Emilio da Costa