quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Julgamento do mensalão em São João del-Rei? Não... É só uma lembrança dos velhos tempos!


Que ainda hoje São João del-Rei é  terra muito solene, todo mundo tem certeza. Que tal solenidade vem de longas datas, ninguém duvida. O que a todos sempre surpreende é que tanta pompa, desde sempre, acontece até nas circunstâncias mais impróprias e inusitadas.

Isso é o que se percebe ao ler o comentário publicado no dia 4 deste agosto na coluna Nhenhenhém da Rádio do Moreno, chamado Mensalão na Comarca de Brasília e transcrito abaixo. Nele, para referir-se a uma gafe ocorrida recentemente na capital do país, durante a abertura da primeira sessão do julgamento do mensalão, o jornalista Jorge Bastos Moreno recorreu à lembrança de uma história ( ou será estória?) contada por Tancredo Neves sobre a pompa e a circunstância que antigamente envolviam a entrada de réus no Tribunal de Júri de São João del-Rei.  Leia e divirta-se!

Mensalão na Comarca de Brasília

Logo na abertura da primeira sessão do mensalão, o presidente do Supremo, Ayres Britto, confundiu os nomes dos convidados especiais da Corte com os dos advogados de defesa. Retomando a leitura, estendeu aos réus o tratamento de "doutor" que havia dado aos convidados, mas logo se deu conta de que, com isso, estava reverenciando os 38 acusados e passou a citá-los diretamente pelo nome, sem o honroso título.

A gafe de Ayres Britto me reportou ao que contava Tancredo Neves sobre como eram tratados os réus quando integrava a banca de advogados do Tribunal de Júri da Comarca de São João del-Rei.

Como em São João del-Rei tudo é solene, o juiz, segundo Tancredo, determinava:
- "Que entre o réu!".

Tocava-se uma corneta e entrava, como guarda de honra do réu, um soldado da PM, vestido de guerreiro romano, marchando forte e batendo continência com uma mão ao juiz e, com a outra, anunciando solenemente:
- "Sua excelência o réu!".

E tome palmas...

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Para ler e ouvir a Rádio do Moreno, acesse http://oglobo.globo.com/pais/moreno/posts/2012/08/04/coluna-nhenhenhem-458742.asp

Ilustração: reprodução de foto publicada na revista Manchete, edição especial sobre a morte de Tancredo Neves

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Piuí! Café-com-pão-cachorro-não! Café-com-pão-cachorro-não canta o trem de ferro de São João del-Rei.


Historicamente tão importante quanto a riqueza barroca de São João del-Rei é o patrimônio ferroviário existente na cidade. Seus bens extrapolam o patrimônio material, móvel  e imóvel, composto principalmente pelo complexo arquitetônico da Estação Ferroviária, Rotunda, locomotivas e vagões, móveis e documentos do século XIX. Patrimônio também intangível, imaterial, se apresenta até como fenômeno e memórias auditiva e olfativa, com os apitos ora aflitos, ora alegres, ora decididos da maria fumaça e a sonoridade cardiorresfolegante dos vagões; com o cheiro oleoso da fumaça densa que envolve em nuvem o veículo muito mais que centenário. Patrimônio sentimental, de recordações e lembranças de maquinistas, foguistas, antigas crianças que acenavam adeus nos quintais e margens da linha férrea emendada por pontilhão e emoldourada de céu azul refletido em lagoas e rio.

Entretanto, notícias locais dão conta de que o patrimônio ferroviário móvel de São João del-Rei está carente de atenção e cuidados, pois algumas maria-fumaças, inativas, quase abandonadas, necessitam de restauração, preservação e conservação. Vão se entrevando, se carcomendo pela ferrugem de umidade, sereno e tempo.

Lançando mais um facho de luz sobre esta questão, vem a lembrança de que há 131 anos, no dia 28 de agosto de 1881, às 22 horas, chegou em São João del-Rei o trem inaugural da Estrada de Ferro Oeste de Minas - EFOM. Nele, vieram o imperador Dom Pedro II, a imperatriz Teresa Cristina e membros da Corte do Brasil, parlamentares, jornalistas e autoridades.

Em festa, a cidade se iluminou e se enfeitou com arcos de flores para a chegada da locomotiva que trazia o sonhado progresso. Com arcos de triunfo, para saudar a Estrada de Ferro Oeste de Minas, nas palavras do historiador Sebastião Cintra, "uma obra genuinamente são-joanense, que prestou bons serviços ao Brasil, no âmbito dos transportes".

Tão marcante é a presença do trem de ferro na identidade de São João del-Rei que dois grandes modernistas Andrades, o intelectual Oswald e o poeta Carlos Drummond, a sentenciaram em versos: perguntas, recomendações e convites.

"São João del-Rei, quem foi que apitou?", indagou o poeta Carlos.

"Ide  a São João del-Rei, de trem", pediu o paulista Oswald.


quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Assim como rei, valete e dama, conde também foi carta de ouro no baralho de São João del-Rei

Além da violência bruta das emboscadas, saques, mortes e incêndios que arrasaram o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, a Guerra dos Emboabas lançou fortes luzes sobre a semente de São João del-Rei. Por isso o governo português na Capitania das Minas de Ouro, mal acabado o sangrento conflito, em 1713 transformou o nascente arraial em Vila de São João del-Rei, mantendo nela  olhos de severa vigília.

Certamente foi neste intuito que o governador da Capitania, Dom Pedro de Almeida Portugal, Conde de Assumar, visitou a vila em 1717, ocasião em que São João del-Rei mostrou para a metrópole e para a colônia sua vocação musical. Depois voltou aqui várias vezes, ainda na segunda década do século XVIII.

Dois anos depois da primeira visita, no dia 25 de agosto de 1719, novamente ele estava na Vila de São João del-Rei, pois daqui escreveu para o Senado da Câmara local informando que já estavam no Rio de Janeiro as tropas que serviriam nos quartéis desta Vila. Por isso, orientava que se apressassem na finalização das obras das fortalezas, pois enquanto elas não ficassem prontas os militares ocupariam as casas dos moradores da Vila, o que reconhecia sem dúvida ser "causador de grande opressão, que era preciso evitar". E finalizou a mensagem com um pedido que, a bem da verdade, era uma velada advertência: "Espero de seu zelo o façam de sorte que fique Sua Majestade servida e os povos sem vexação".

A visita do Governador a São João del-Rei não foi breve nem de cortesia, pois no dia 28 de agosto do mesmo ano ainda estava na Vila, agora empenhado em vistoriar a construção, já em curso, da Casa de Fundição. Na mesma data e sobre o mesmo assunto, escreveu duas cartas, destinadas a duas autoridades do Rio de Janeiro. Para um, noticiou que as obras estavam adiantadas e que os soldados e mais materiais para finalizar as construções logo chegariam . Para o outro, informou já ter recebido os equipamentos necessários para o funcionamento da Casa de Fundição e pediu que se comprasse, no Rio de Janeiro, os cavalos que serviriam para o trabalho das tropas que guardariam a Vila, impedindo que o ouro fosse desviado do local de fundição, e as estradas, para que as riquezas não fossem roubadas em assaltos de bandoleiros.

Esta visita do nobre e cruel conde português não saiu barata e, como sempre acontece, quem a custeou foram os cofres públicos. Naquela época custou nada mais, nada menos, do que 275 oitavas de ouro, pagas pelo Senado da Câmara. Mas os quartéis não foram construídos e quem bancou a hospedagem dos militares foi mesmo o povo da Vila de São João del-Rei, dividindo com eles as próprias casas.

Tudo indica que o Conde de Assumar gostava mesmo de escrever. No dia 6 de agosto de 1720, redigiu uma correspondência para alguns moradores da Vila de São João del-Rei, agradecendo a lealdade e a oferta de escravos para a defesa do Governo na sedição militar de Vila Rica. Quatro dias depois escreveu para o Senado da Câmara local, desta vez para elogiar e agradecer a fidelidade do povo são-joanense. Na ocasião, mostrou ao emissário, FelicianoVaz Pinto de Vasconcelos, a cópia manuscrita da carta que enviou à Sua Majestade "nomeando a todos pelos seus nomes e pedindo que tanto a estes quanto a esta Câmara os honre com as mais avantajadas mercês e privilégios". No dia 6 de setembro, nova carta, agora endereçada para o Ouvidor Geral da Vila de São João del-Rei,  recomendando que não se pagasse mais do que uma libra de ouro aos vigários, diferentemente do que era feito em outras vilas, até que chegasse outra ordem real.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume II, 2a edição - revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Em São João del-Rei, sino tem nome, tem voz e até anuncia a própria morte


Sonoridade, sinos, São João del-Rei. Ao "pé da letra" estas palavras não rimam, mas tão grande é a afinidade existente entre a cidade e a musicalidade, que não é errado dizer que não só elas rimam quanto são também sinônimas. É pura verdade!

Assim como as bicentenárias pontes de pedra, os lampiões antigos cujos suportes lembram ferozes dragões, as torres e monumentais frontispícios das igrejas barrocas, os sinos são símbolos e signos de São João del-Rei, o que a tornou conhecida como "cidade dos sinos" e, ainda, "terra onde os sinos falam".

Em São João del-Rei, desde sempre, sino tem nome de homem: Daniel, Bailão, Elias, Eliseu, Jerônimo. Até hoje eles informam, várias vezes por dia (e até à noite) o que está acontecendo ou vai acontecer dentro ou no entorno de sua igreja: novena, missa, procissão, Te Deum Laudamus, enterro, fatos e datas especiais do universo litúrgico católico.

A chegada de um sino novo para a torre e seu batismo são sempre uma festa. Tem banda de música tocando, bênção religiosa e até discurso pode ter. Torna-se um acontecimento social e de lazer importante, atraindo muitas pessoas especialmente para aquele largo, onde se tornarão testemunhas de um fato histórico memorável.

Se a subida de um sino à torre é alegre, sua despedida e silêncio definitivo são nostálgicos e agonizantes como a morte do tradicional homem são-joanense. Na solidão aérea de sua torre, ele dobra pungente suas próprias exéquias, lançando sons compassados sobre telhados, largos e jardins.

Com o sino Elias, da igreja do Carmo, está sendo assim. O tempo e os dobres provocaram uma rachadura em sua bacia, deformando sua sonoridade e criando riscos de ameaçadora quebra do bronze. Por isso ele está se despedindo. Justamente ele - que melancolicamente, a 18 de novembro do ano passado, anunciou a passagem de meu pai - Geraldo Sebastião da Costa - do pórtico da  igreja do Carmo até o monumental portão de ferro do Cemitério da mesma Ordem Terceira (foto) - há algum tempo já começou a anunciar sua própria morte.

É isto o que nos mostra o cineasta são-joanense e sineiro Helvécio Benigno, no vídeo que pode ser acessado clicando no link http://www.youtube.com/watch?v=0izBgg8HdIw&feature=relmfu. Vale observar, principalmente,  o movimento pendular espontâneo do minuto final.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

São João del-Rei: a música barroca de José Maria Xavier a José Maria Neves

Agosto é o mês da música barroca em São João del-Rei. Pena que ninguém se lembra.

Maior injustiça com o oitavo mês do ano, que trouxe ao mundo, em São João del-Rei, dois grandes expoentes da música barroca são-joanense. São-joanense não: brasileira. Dois José Marias, nascidos com uma diferença de apenas 3 dias. Um em um século e outro em outro. Passados 124 anos.

Coincidência ou não, os dois moraram na mesma rua; o primeiro, inclusive, nasceu nela. O outro, é possível que nela também tenha nascido, mas não tive oportunidade de indagar.Que felicidade, a da Rua Santo Antônio, com seu casario colonial de altos muros e quintais de pitangueiras, jaboticabeiras, jasmins, com sua capelinha minúscula e não por isso menos preciosa, e com a sede de três das mais importantes corporações musicais de São João del-Rei - Orquestra Lira Sanjoanense, Orquestra Ribeiro Bastos e Banda Theodoro de Faria.Que outra rua, em nosso país, tem tão rica história (e tão valioso patrimônio) musical?

Seus nomes? José Maria Xavier e José Maria Neves.

O compositor Padre José Maria Xavier nasceu a 23 de agosto de 1819, em uma casa branca de grandes  janelas azuis e telhado colonial (foto) na esquina do segundo serpentear da Rua Santo Antonio, seguindo dos funtos da igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Negros em direção ao Tejuco.

Viveu 68 anos e deixou como herança para São João del-Rei um dos mais ricos e mais importantes acervos de músicas sacras coloniais do Brasil no século XIX. Ofícios para Endoenças e Semana Santa, Te Deums, novenas, ladainhas, antífonas, solos ao pregador, hinos, matinas e muitas peças que ainda hoje fazem parte do repertório da Festa de Passos, da Semana Santa e da Festa da Boa Morte, entre outras. Tão elevada era sua cultura que, mesmo morando no interior de Minas e dois séculos atrás, dominava os idiomas latim e francês.

Contam que morreu como um menino, ao cair de cima de uma árvore de seu quintal. Então, desde 22 de janeiro de 1887, Padre José Maria Xavier dorme tranquilo no Cemitério do Rosário. Mas como um menino, desce sempre a ladeira da Muxinga para ouvir suas próprias músicas tocadas nas igrejas e ruas de São João del-Rei.

José Maria Neves era maestro, nasceu a 20 de agosto de 1943 e, como o Padre José Maria Xavier, também morou na Rua Santo Antônio. Membro de uma respeitável família de músicos, entre eles a maestrina Maria Stella Neves Vale, começou a estudar música em São João del-Rei e daqui seguiu para o Rio de Janeiro e depois para Paris, onde formou-se Doutor em Musicologia pela Universidade de Sorbone.

Ao maestro José Maria Neves, São João del-Rei tem muito a agradecer. Além realizar, produzir epublicar vários estudos sobre a música sacra local, foi um grande incentivador da música barroca na cidade, postando-se, algumas décadas, à frente da Orquestra Ribeiro Bastos. Por sua influência foram gravados em long plays os primeiros registros fonográficos do barroco musical são-joanense, com os discos Matinas do Natal do Padre José Maria Xavier, Festa de Passos e Semana Santa, Novena do Carmo e Missa Grande, de Antonio dos Santos Cunha. Levando a música de São João del-Rei para além dos limites da Serra do Lenheiro, José Maria Neves impulsionou apresentações da Orquestra Ribeiro Bastos em capitais e grandes cidades de diversos estados brasileiros.

A vida não foi tão generosa com São João del-Rei, levando cedo o maestro José Maria Neves, aos .... anos. Se, do mesmo modo que o Padre José Maria Xavier, ele também dorme no Cemitério do Rosário, não sei. Pode ser que sim, pode ser que não. O certo é que, em espírito, ele continua incentivando os músicos da Orquestra Ribeiro Bastos e, apaixonadamente, os regendo, agora com olhar e mãos de eternidade...

Por tudo isto, São João del-Rei bem podia consagrar a terceira semana de agosto a estes dois músicos e reverenciá-los com a institucionalização da Semana da Música Barroca de São João del-Rei. Na programação, a realização de concertos, recitais, cursos, palestras e outros eventos ligados à música, especialmente à música barroca local. Compositor e maestro merecem. A memória musical brasileira precisa. O povo de São João del-Rei vai gostar. E com certeza aplaudir.!

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Mais uma estrela no céu de São João del-Rei

Desde ontem, 14 de agosto, São João del-Rei vive um dos mais importantes momentos de seu calendário religioso-cultural: a Festa da Boa Morte. Toda a segunda-feira foi marcado pelo toque dos sinos, anunciando que "A Senhora é Morta" e à noite, dormindo a vida eterna em seu esquife de flores de pêssego, de olhos fechados, a virgem adormecida transitou pelas principais ruas, becos e largos do centro histórico são-joanense. De volta à Matriz do Pilar, foi repousada em uma urna-sepulcro, sobre a qual, selando sua majestade, se colocou uma coroa de prata, cinzelada há mais de dois séculos.

Passada meia-noite,a lua levou para o outro lado a sombra da morte. Alvorada festiva, banda de música, foguetório, pétalas de rosa, toques alegres de sino desde cedo, todo 15 de agosto São João del-Rei é júbilo. Tendo dormido, mas sem passar pelos braços da morte, à sombra da Serra do Lenheiro Nossa Senhora sobe aos céus, qual Cinderela deixando cair sobre a lua crescente de prata seu sapato de cristais e cetim. É isto o que hoje o povo de São João del-Rei celebra.

Tudo é surpreendentemente encantado. Às nove e meia da manhã, na Matriz do Pilar, uma missa solene, cantada em músicas setecentistas e oitocentistas compostas na região, fala sobre trechos das visões do apóstolo São João registradas no Livro do Apocalipse. Descreve, de modo especial, a visão sobre o dragão de sete chifres que, enfurecido, certo dia se alvoroçou contra o firmamento, derrubando lá de cima, com sua  fúria e cauda, um terço das estrelas que ali luziam. Mas o povo não se assustou - pelo menos o de São João del-Rei - pois estava ocupado em preparar andores e ruas para a procissão de Nossa Senhora da Assunção e de Nossa Senhora da Glória. A esta procissão também comparecem, em grande andor, "Deus Pai Eterno, Deus Filho Redentor do Mundo e Deus Espírito Santo".

Quando ao anoitecer o longo cortejo percorrer o centro histórico são-joanense, banda e orquestra se revezarão na semeadura e cultivo das notas musicais - a banda com suas marchas próprias e a Orquestra Lira Sanjoanense com os motetos sacros, compostos especialmente para esta data. Tão brancos e tão sublimes são os motetos que ninguém sabe bem se mais parecem algodão doce ou alvas amêndoas de coco - com certeza delícias de antigamente.

Na volta à igreja, Te Deum Laudamos. Serenidade e alegria de saber que, apesar da ira peçonhenta do mal (ou será dos maus?) tal qual luzeiros, as estrelas continuam brilhando no céu. Para dizer isto, os sinos tocam com mais força. 

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Para saber mais sobre a Festa da Boa Morte, leia também

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Sineiros de São João del-Rei e a barroca Festa da Boa Morte


Novamente São João del-Rei está em festa barroca, desta vez em honra de Nossa Senhora da Boa Morte, de sua Assunção e Coroação. Realizada anualmente no período de 5 a 15 de agosto, é uma tradição muito antiga, surgida na metade do século XVIII e que, especialmente na terra onde os sinos falam, tem cores locais. Não só cores, mas também rica e única musicalidade,  pontuada  por três "naipes": os sinos, a orquestra Lira Sanjoanense e a Banda Theodoro de Faria.

Cada qual com sua função. A banda, acompanhando e ditando ritmo às procissões, enchendo  becos e largos com notas harmonicamente cadenciadas. A orquestra, executando partituras barrocas na novena, na missa solene e de quando em quando, nas procissões. Os sinos, bem, os toques dos sinos...

Dizem que o toque A Senhora é Morta de todos é o mais bonito. Executado apenas na Matriz do Pilar, noite de 13 de agosto e em determinadas horas do dia 14, parece uma conversa de anjos - contando um para o outro que a Senhora, sobre-humanamente, adormeceu.

O ofício de sineiro hoje é reconhecido como valorosa atividade cultural. A este respeito, assim registrou o IPHAN: "A tradição do toque dos sinos, eminentemente masculina, se mantém viva em São João del-Rei como referência de identidade cultural da cidade e como atividade afetiva, lúdica e devocional dos sineiros. A estrutura, composição e o saber tocar sinos estão na memória e na habilidade dos sineiros, que conhecem de cor um repertório não escrito de toques, constituídos de pancadas, badaladas e repiques e dobres  adequados  a ocasiões festivas ou fúnebres."

"Os sineiros são detentores e responsáveis pela reiteração e transmissão da habilidade e do conhecimento requeridos por essa forma de expressão e do seu repertório, pois esta prática não se aprende na escola. Este aprendizado requer observação, envolvimento e dedicação desde a infância, quando os meninos, que não têm acesso às torres, começam a reproduzir os sons dos campanários em panelas, postes, enxadas, picaretas e tudo o mais que possa servir como objeto de percussão."

"A partir da adolescência eles passam a frequentar as torres das igrejas para ouvir, ver e acompanhar a execução dos toques. Aos domingos, em São João del-Rei, estes aprendizes saem em "via sacra a percorrer as torres das principais igrejas para aprender e, ocasionalmente, tocar os sinos."

"Outra característica da formação dos sineiros é que geralmente eles mantém estreita relação com bandas, orquestras, liras, escolas de samba e outros espaços de expressão da musicalidade. Dizem que é possível, pelo toque, identificar o sineiro."

"A atividade de sineiro é uma prática e uma arte que envolve criação e aprimoramento de toques, indo além da mera repetição de um repertório. Sineiros experientes criam adereços para os sinos e incorporam novas técnicas ao seu trabalho, como por exemplo a colocação do gancho entre o badalo e a corda. Os sineiros se autoclassificam como antigos (tocam os sinos esporadicamente e são chamados para esclarecer dúvidas), jovens (tocam os sinos no dia a dia), zeladores (dão condição aos jovens sineiros de realizarem sua tarefa e tocam os sinos quando estes não conseguem) e mestres (sineiros já falecidos que fazem parte da história da localidade e são referências desse saber e do seu ofício)."

Sabendo disso, que tal ouvirmos o toque A Senhora é Morta e ver, na prática, algumas coisas de que fala o texto?

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Foto: reprodução de imagem do site www.diocesedesaojoaodelrei.com.br


quinta-feira, 2 de agosto de 2012

São João del-Rei, de trevas, eclipses e ofícios

Lembrança temporã, o almanaque eletrônico Tencões & terentenas reproduz abaixo um registro poético deste autor sobre o Ofício de Trevas realizado na noite da quarta-feira da Semana Santa de São João del-Rei, no ano de 1996. Quem puder, imagine e visualize!

Ofício de Trevas
Em qualquer parte do mundo, o eclipse lunar do dia 03/04/1996
foi apenas um fenômeno astronômico. Menos em São João del-Rei.
Lá, a treva cobrindo a Terra foi parte de um ofício sagrado.

A Lua, escondida por véu preto, repetiu no céu
o que acontecia na nave escura da Matriz do Pilar.
Matinas e Laudes. Responsórios. Cântico de Zacarias.
Christus factus est. Sombras, velas, violas, trompetes e vozes.

Das tribunas douradas os anjos assistiram tudo,
mas no final - puro espírito, inocência e bondade -
não puderam bater os pés no chão.

Veja, abaixo, um belo responsório do Ofício de Trevas de São João del-Rei: Tenebrae factae sunt, do Padre José Maria Xavier, executado pela Orquestra Ribeiro Bastos.

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Ilustração: Lembrança de São João del-Rei . Têmpera sobre gesso do pintor naif Biba s/d (Av. Leite de Castro, ao lado do Supermercado Sales)