sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Sinais de São João del-Rei do outro lado e muito além da Serra do Lenheiro


Os são-joanenses quarentões e cinquentões certamente se lembram do selo acima - um adesivo plástico que na década de 80 foi afixado em muitos automóveis de São João del-Rei ou que passavam pela cidade. Nos veículos, além dos limites do município, informava a todos que a bordo possivelmente tinha um são-joanense ou alguém que nutria admiração e carinho pela cidade.

Para os são-joanenses ausentes da terra onde os sinos falam, funcionava como um código de identificação nativista, que facilitava a descoberta e o encontro de conterrâneos bem abria caminho para aproximações e amizades. Mediado pelo adesivo, voltavam em memória a São João del-Rei.

Hoje, São João del-Rei não tem mais uma peça que cumpra esta finalidade - ostentar a identidade e o orgulho de ser são-joanense. Aliás, salvo uma ou outra exceção, São João del-Rei é pobre em souvenirs que levem até muito longe lembranças da alma local, apesar de ser uma cidade tão rica de memória, patrimônio, arte e cultura...

A cidade carece disto. O turismo local ganharia com isto. O são-joanense ali residente e também o ausente ganharia com isto.

Sendo assim, especialmente neste momento em que a cidade almeja projetar-se ainda mais nacionalmente e intensificar, com qualidade, o turismo, esta é a hora certa para se criar e produzir materiais que auxiliem a atingir tal objetivo: adesivos, camisetas, chaveiros, CDs, DVDs, postais, fotos, cartazes, pequenos objetos e tudo o mais que a imaginação produzir. E olha que imaginação criatividade é o que não faltam ao povo de São João del-Rei.

Secretaria de Cultura, comércio, instituições culturais, ONGs, artistas, artesãos - todos podiam se unir, ou isoladamente cada um fazer a sua parte - para a cidade produzir e distribuir mais este instrumento de difusão e divulgação. Os 300 anos ainda em curso são um ótimo pretexto para isso!

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Tira-se o véu por trinta dinheiros em São João del-Rei. Findava agosto de 1755...



Mesmo nas solenidades mais tradicionais, tocantes e piedosas, como as da Festa de Passos e da Semana Santa, hoje é muito raro, nas igrejas de São João del-Rei, ver uma mulher usando véu para cobrir a cabeça, quando segue a caminho da mesa da comunhão. Até pouco mais do que a metade do século passado, este lenço retangular de renda fina e transparente ainda fazia parte do vestuário religioso feminino, como símbolo de respeito, devoção, obediência, pureza e elegância. A cor variava entre branco, azul claro, cinza e preto, sinalizando entre outras coisas a idade e o estado civil da jovem ou senhora que o véu usava.

Poucos sabem, mas houve um tempo em que as mulheres de São João del-Rei só podiam andar em determinados espaços sagrados são-joanenses com a cabeça bem coberta por um gorro padrão, possivelmente adquirido da própria igreja. Prova disso é que no dia 28 de agosto de 1755, o padre comissário Manoel da Costa Faro propôs -  em reunião da Ordem Terceira de São Francisco de Assis - que não fosse mais obrigado às mulheres usarem touca dentro daquela igreja.

Direto e reto, o padre não precisou de voltas e volutas coloniais, rodeios barrocos nem de discursos retorcidos e acrobáticos para argumentar sua ideia. Em poucas palavras, com absoluta sinceridade, disse o que ninguém esperava: 

- Mais do que incomodar às mulheres, as toucas desagradavam os maridos, pois "custavam caro e duravam pouco!"

A obrigação às mulheres do uso de touca na igreja de São Francisco fora imposta em 15 de novembro de 1751, quando o Frei Boaventura de São Salvador Cepeda também proibiu a elas "usos de cordas curiosas, que parecem muito mal, em que deve dar sempre mostras de penitência". 

Se argumentação e proposta foram aceitas, isto o historiador Sebastião Cintra não conta, mas “Quem fala a verdade não merece castigo”, ensinavam até bem pouco tempo os antigos são-joanenses...

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, 2ª edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

Bicentenárias tradições religiosas são rico Patrimônio Imaterial de São João del-Rei


Sempre que se realiza em São João del-Rei alguma das muitas festas religiosas que fazem parte do calendário litúrgico local, reforça-se uma certeza: não existe, em nenhum lugar do mundo, outra cidade que preserve e mantenha, com tanta fidelidade, suas barrocas tradições religiosas como a "terra onde os sinos falam". Nem que tenha cerimônias e solenidades tão ricas, complexas e sofisticadas, inclusive com repertório barroco próprio, composto e executado por músicos e maestros locais. A Festa de Passos, a Semana Santa e a Festa da Boa Morte são bons exemplos.

Mesmo obedecendo rituais e liturgias dos séculos XVIII e XIX - já abolidos ou extintos em outras cidades - estas festas são tradições vivas, plenamente integradas ao cotidiano são-joanense contemporâneo, como elemento religioso, social e cultural. Daí se perpetuarem por quase trezentos anos sempre atuais, como, patrimônio pessoal, sentimental e afetivo do homem são-joanense e patrimônio cultural do povo deste lugar.

Se temos consciência e reconhecemos este valor, por que não busquemos registrar as Tradições Religiosas de São João del-Rei como Patrimônio Imaterial Brasileiro? Seria um belo e justo presente para a cidade, pelos 300 anos de criação da Vila de São João del-Rei. Isto é possível e só depende do interesse e da mobilização conjunta do segmento religioso católico (diocese, paróquias, irmandades) com organizações culturais diversas e com o poder público local. Em pouco tempo as tradições culturais podem ser declaradas patrimônio imaterial de São João del-Rei, dando-se, assim, o primeiro passo rumo ao reconhecimento estadual e nacional.

Material para isto não falta. É infinito o número de históricos registros textuais, sonoros, impressos, fotográficos e videográficos que documentam as bicentenárias celebrações e festas religiosas de São João del-Rei. Esta quantidade aumenta a cada dia, com a produção espontânea e voluntária de fotógrafos e videomakers, profissionais e amadores, bem como de escritores e jornalistas.

Unidos os vários setores são-joanenses pelo mesmo interesse coletivo, basta que se pesquise, localize, relacione e reproduza o material documental existente sobre as tradições religiosas de São João del-Rei, complementando-o com entrevistas e informações exigidas pelo Ministério da Cultura, formando o processo para reconhecimento e inscrição como Patrimônio Imaterial Brasileiro. Entidades religiosas, culturais, públicas e privadas, civis e religiosas dedicadas ou relacionadas com esta questão - com o apoio e a participação da comunidade - bem poderiam se mobilizar neste sentido...

Veja, no vídeo abaixo, um excelente argumento para esta sugestão.


quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Barroca, erudita, acadêmica, clássica ou popular, tudo é cultura em São João del-Rei

São João del-Rei cada vez mais amplia a visão que tem de si mesma e percebe que a riqueza de sua cultura é quão mais preciosa quanto mais for múltipla, plural e diversa. É deste modo que folias de reis, congadas, folias de São Sebastião e Festa do Divino Espírito Santo a cada ciclo se tornam mais numerosas, mais frequentes, mais visíveis, mais respeitadas e mais reconhecidas, inclusive mais presentes em espaços do centro urbano, antes primazia das tradições barrocas. Há situações, inclusive, em que as manifestações populares e periféricas - na democracia que a cultura possibilita e legitima - se junta às celebrações oficialmente consagradas.

Deste modo, ao mesmo tempo em que se consolidam como valorosas expressões da alma e do sentimento do povo de São João del-Rei, as manifestações populares passam a livremente transitar e a conquistar não só as áreas urbanas consideradas "nobres" mas também os espaços culturais que antes eram exclusivos da arte erudita, produzida e consumida pela elite social.

Um exemplo disto é a exposição Festa do Divino que, realizada de 22 a 24 deste mês para homenagear o Dia do Folclore, leva para o Teatro Municipal fotografias, objetos e adereços utilizados nas Folias do Divino Espírito Santo de São João del-Rei. Até um tempo não muito distante, o Teatro Municipal era palco exclusivo de concertos, recitais, teatro, operetas e eventos oficiais, como atos cívicos, solenidades militares e cerimônias de formatura.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

PAC das Cidades Históricas - Em São João del-Rei, palavra de rei não volta atrás. Nem de Presidenta...


Mais uma vez São João del-Rei destacou-se no panorama de todas as cidades históricas brasileiras, da mais soberba à mais humilde. Neste 20 de agosto, mais uma vez a cidade recebeu um presidente da República, em 2013 a Presidenta Dilma Roussef.

Na terra onde os sinos falam, ela anunciou a destinação de R$ 1,6 bilhões para o Programa de Aceleração do Crescimento das Cidades Históricas brasileiras. Nesta etapa, serão contempladas 44 cidades de 20 estados, com o desenvolvimento de 425 projetos de restauração de bens históricos, revitalização de espaços culturais e áreas circunvizinhas. Sem dúvida um marco importante que deve ser considerado homenagem da Presidência da República aos 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhor do Pilar do Rio das Mortes a Vila de São João del-Rei.

Em seu discurso, Dilma Rousseff destacou o valor dos são-joanenses na história e na cultura do Brasil, entre eles o herói Tiradentes, sacrificado por defender a liberdade dos brasileiros frente ao colonialismo português, o presidente da República eleito mas não empossado, Tancredo Neves, líder de todo o processo de redemocratização do país e fundador da Nova República, a poetisa e heroína inconfidente Bárbara Heliodora, casada com o inconfidente Inácio José de Alvarenga Peixoto, e Francisca de Paula de Jesus, a popular Nhá Chica, beatificada em maio deste ano pelo Papa Francisco.

Nos recursos anunciados pela Presidente, segundo o site do IPHAN, São João del-Rei terá uma participação de R$ 41,42milhões, a serem empregados na realização de 15 importantes projetos arquitetônicos e culturais, entre eles a restauração da Matriz do Pilar e de outras igrejas e capelas, a restauração / preservação das bicentenárias pontes de pedra e ferro, a restauração de prédios importantes como a Prefeitura Municipal, o solar do Barão de São João del-Rei, a casa da inconfidente Bárbara Heliodora, a Estação e Museu Ferroviário e a restauração arquitetônica do Chafariz da Legalidade e requalificação da praça em que ele está. Esta restauração e requalificação, inclusive, foi proposta por este Almanaque Eletrônico em uma de suas primeiras postagens, em 2011 (veja no link abaixo).

Na cidade criada para homenagear o Rei Sol Português Dom João V, São João del-Rei, "palavra de Rei não volta atrás". Se isto é verdade, "palavra de Presidente (ou de Presidenta) também não." Daí cabe aos são-joanenses acompanharem o cumprimento das promessas da Presidenta Dilma, monitorando a participação do IPHAN local, e cobrarem dos órgãos públicos envolvidos, inclusive da Prefeitura Municipal, do Ministério da Cultura / IPHAN e da Presidência da República, o que foi anunciado e comprometido publicamente.

Ou será que, nestes tempos modernos, palavra de Rei volta atrás?

Veja, no link abaixo, o que o Almanaque Eletrônico Tencões e Terentenas propôs sobre a restauração e revitalização do Chafariz da Legalidade, em post publicado no dia 7 de fevereiro de 2011, portanto há 2 anos, seis meses e 13 dias...

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/02/legalidade-nos-300-anos-de-sao-joao-del.html

E também uma matéria televisiva sobre este assunto

http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/triangulo-mineiro/mgtv-2edicao/t/triangulo-mineiro/v/recursos-do-pac-2-serao-usados-em-revitalizacao-de-patrimonio-em-sao-joao-del-rei/2778930/?fb_action_ids=642795145754720&fb_action_types=og.likes&fb_source=timeline_og&action_object_map=%7B%22642795145754720%22%3A156756411189001%7D&action_type_map=%7B%22642795145754720%22%3A%22og.likes%22%7D&action_ref_map=%5B%5D


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Festa da Boa Morte em São João del-Rei . Elevada por anjos, vespertina, a cidade sobe aos Céus!


15 de agosto é um dos dias mais sublimes e gloriosos em São João del-Rei. Nele, todo ano, a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte promove solenes celebrações para lembrar a assunção de Nossa Senhora aos Céus e, lá, sua coroação pelas três pessoas da Santíssima Trindade: Deus Pai, com seu áureo cetro; Deus Filho, com sua emblemática cruz, e Deus Espírito Santo - pomba de prata resplandescendo seus raios dourados.

Nem bem amanhece e os sinos da Matriz do Pilar repicam e dobram anunciando "A Senhora é Morta". Na metade da manhã, começa uma missa barroca, toda cantada em latim, que tem no canto do Glória o grande momento: os sinos tocam alegres, foguetes estouram ruidosos e, no altar dourado, Nossa Senhora da Assunção surge subindo ao Céu,  pé direito amparado sobre uma lua crescente, de prata. Tal qual na estória de Cinderela, ela está descalça de seus sapatinhos de seda. Bordados a fio de ouro e pedras brilhantes, estão caídos no imaginário e aéreo caminho.

No entardecer, a celebração ganha as ruas. Uma grande e lenta procissão, saída do século XVIII, desce a escadaria da Matriz e toma rumo ao Largo do Rosário, de onde seguirá por um caminho de pontes de pedra e ruas tortas, que mais parece um arabesco colonial. As opas coloridas das irmandades tremulam à luz das tochas, dando mais cor e movimento à festa setecentista. A banda toca marchas compostas para a ocasião e o coro da Orquestra Lira Sanjoanense, tal qual um coral de anjos maduros e mulatos, canta motetos longínquos, `a frente dos dois andores. Onde termina o mundo e começa o Céu?

Em São João del-Rei ainda é assim. Tal como era há trezentos anos. Se Deus quiser, tal como será "per ómnia saecula saeculorum!"

http://www.youtube.com/watch?v=6adyCiBLoek - Esta peça, de autoria do grande compositor barroco capitão Manoel Dias de Oliveira, aqui cantada pelo coro da Orquestra Lira Sanjoanense, integra o repertório da Festa da Boa Morte de São João del-Rei.


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Festa da Boa Morte - Em São João del-Rei, um minueto que só é tocado no dia 14 de agosto


Em São João del-Rei existem músicas barrocas que são executadas unicamente uma vez no ano, em ocasiões especiais, seguindo as tradições de um calendário litúrgico que - criado no século XVIII - não  mais existe em nenhuma outra cidade do mundo. Em geral, são músicas de compositores locais.

O link abaixo, por exemplo, leva ao Minueto para o dia 14 de agosto, de Luiz Batista Lopes, executado pela Orquestra Lira São Joanense, na abertura da missa cantada que precede a procissão de Nossa Senhora da Boa Morte.



terça-feira, 13 de agosto de 2013

Há cem anos o automóvel chegou a São João del-Rei. Pompa e circunstância, foi uma grande festa!


Mais interesse do que a subida do homem ao espaço e sua descida à lua, causou, há exatos cem anos, em São João del-Rei, a chegada do primeiro automóvel. Era 11 de agosto de 1913.

               - Seu proprietário?
               - José Galdino de Araújo!

Acontecimento tão importante não poderia ser ignorado pela população. Muito menos pelo poder público. E não foi. Prova disto é que a Câmara Municipal de São João del-Rei se fez representar no evento pelo seu presidente, Dr. Augusto Viegas, e pelos vereadores militares major Francisco de Carvalho e tenente Francisco Neves.

Em todo trajeto aplaudido e saudado pelos são-joanenses, vestidos em trajes de festa, o automóvel percorreu muitas ruas da cidade, "sem o menor incidente", conforme noticiou o jornal O Dia.  Aproveitando o fato para anunciar boas novas, denunciar as condições precárias de algumas ruas de São João del-Rei à época e criticar os administradores, o jornal acrescentou:

"Consta-nos que brevemente chegarão outros automóveis à cidade. Era de justiça que a Câmara mandasse consertar certas ruas e estradas, a fim de facilitar este gênero de locomoção, que vem concorrer para nosso progresso e desenvolvimento".

Durante uma década, são-joanenses e automóveis conviveram em harmonia. Somente dez anos depois deste dia memorável aconteceu o primeiro desastre causado por um automóvel na cidade. Era 11 de março de 1923 e a vítima foi o ferroviário Xisto Loureiro.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume II. 2ª edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Cristo Redentor de São João del-Rei. Retrato de saudade e domingo azul na infância distante



Imagine tempos atrás São João del-Rei numa tarde fresca, clara e azul de domingo. Depois, imagine um almoço pródigo de macarronada vermelha de cebola e massa de tomate, muito queijo curado ralado, tutu de feijão feito de farinha de fubá torrado, frango caipira refogado em pedaços, Mirinda, Crush ou guaraná. Sobremesa, arroz doce com açúcar queimado e bastante canela, doce de figo, de mamão, goiabada cascão ou doce de leite. Menos o primeiro, todos os outros com fatias de queijo fresco.

 Depois, cruzar com a família o Largo do Carmo, subir a sinuosa e comprida ladeira do Senhor dos Montes e, de vez em quando olhar para trás, para ver ficando miúdas as cruzes, as torres, as igrejas, a  estação ferroviária, os jardins coloniais, os quintais. Ouvir agora como a sussurar os toque miúdo dos sinos, o apito da Maria Fumaça ficando fraco e o silêncio, pouco a pouco, ir tomando conta de tudo em volta, para que apenas as vozes das crianças dessem ritmo, som e movimento às nuvens brancas que insistiam no céu.

Seguir o caminho de casas humildes, muros baixinhos de pedra - sacadas minerais para buganviles coloridos, vermelhos bicos-de-papagaio, verdes ora-pro-nobis, róseaestreladas saborosas, ipês amarelos, até o pé do cruzeiro de estigmas Paixões, até o face-a-face com a capelinha humilde, protegida pela Serra do Lenheiro, para não fugir, acanhada. Dali dobrar à direita e, mais alguns passos, deparar-se com os balaústres  que circulam o Cristo Redentor.

Sob a sombra de seu braço estendido, e de sua cruz- agora como um escudo - descascar laranjas em espiral, saboreando o doce acre de seu suco, de seu sumo e de seu perfume.  Desenrolar das manivelas pipa e papagaio; coloridos artefatos de vareta e papel que se entregavam ao vento, no desejo de, por um lado, voltar para a cidade, pelo outro, atravessar a montanha e subir para o céu do nunca mais. Era assim, com certeza, que uma criança são-joanense,naquela época, descreveria em redação escolar como eram os domingos em família: um piquenique no Cristo Redentor.

Por muitas décadas orgulho de São João del-Rei, a imagem do Cristo Redentor subiu ao seu pedestal no dia 13 de agosto de 1942, ou seja, há 71 anos. Antes disto, por alguns dias, ficou exposta na Igreja do Carmo - templo que guarda o Cristo Inacabado e de artista desconhecido, cuja face serviu de inspiração para o rosto do novo monumento.

Na hora em que, a céu aberto, o Cristo Redentor subiu ao céu, e foi posto sobre uma elegante coluna de pedra sabão azul, em sua homenagem todos os sinos da cidade dobraram e repicaram. Cessada esta saudação, o orador Heitor da Costa e Silva, falando para os presentes, assim descreveu o novo cidadão são-joanense, a partir de então um ícone de São João del-Rei:

"A imagem que hoje se ergue no Alto da Boa Vista reproduz, no bronze imperecível, os mesmos traços fisionômicos  que o buril do desconhecido e insígne artista esculpiu no lenho que se acha em condigna urna na Sala do Definitório da Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Está vestida de túnica e manto real como a do Cristo do Corcovado, em grandes panejamentos onde domina o caráter arquitetônico. Sobraça a Cruz gloriosa da ressurreição, a seu lado esquerdo, enquanto a mão e o braço direito, abertamente, se estendem em bênção à cidade e e ao seu povo. É modelo original, concebido e executado  com características históricas e locais."

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei - Volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982

Informante: CarmenTrindade da Costa (São João del-Rei, 1928)

Festa da Boa Morte: você sabe o que os sinos falam em São João del-Rei?

São João del-Rei já conta as horas. Mais uma vez a lua nova, quase crescente, dará uma volta em torno da Terra e a cidade ouvirá um dos mais belos toques de sino, nela só existente: A Senhora é Morta.

Criado e composto no século XVIII por um escravo, é um conjunto de repiques e dobres delicados e harmoniosos, por meio dos quais o sino da Boa Morte conversa com o sino pequeno, com o meião e com todos os outros das torres da Matriz do Pilar.

Um conta para o outro:
- A Senhora dormiu! Não vai mais acordar...

O outro responde:
- Dormiu. Foi pro Céu! E nos olha de lá...

E então, juntos, eles anunciam para toda a cidade:
- A Senhora dormiu!
- Não vai mais acordar...
- Dormiu. Foi pro Céu!
- E nos olha de lá...

Clique no link abaixo, preste atenção na entrega dos sineiros e responda: Não são os versos acima o que os sinos nos dizem?






sexta-feira, 9 de agosto de 2013

São João del-Rei celebrou exéquias para o rei da Itália, Humberto I

Não se sabe bem porque, mas  a simpatia e a afeição de São João del-Rei pela Itália fertilmente germinavam antes mesmo que chegassem à cidade os primeiros imigrantes italianos. E também que soldados são-joanenses imaginassem um dia atravessar oceanos rumo aos gelados campos de batalha italianos, para bravamente lutar na segunda guerra mundial.

Tanto que no dia 9 de agosto de 1900 - ou seja, há 113 anos -, a cidade realizou solenes exéquias em memória do rei italiano Humberto I, assassinado por um compatriota anarquista no dia 23 de julho daquele ano- o primeiro do século XX. Até então, durante todo o período da colônia e do império, São João del-Rei realizava este tipo de solenidade fúnebre apenas para homenagear defuntos da família real portuguesa.

Em nossa terra, as cerimônias póstumas dedicadas ao falecido rei Humberto realizaram-se num único dia, mas em dois locais e em duas ocasiões diferentes. Primeiro, foi um ato litúrgico, na igreja do Carmo, com participação especial da Orquestra Lira Sanjoanense, bicentenária e até hoje atuante,  e da Banda de Música da Guarnição Federal, tocando requiéns e marchas fúnebres.

Depois, no Teatro Municipal, realizou-se uma cerimônia cívica, em que um monumento provisório, posto no meio ao palco, ostentava a fotografia do monarca morto, cercada pelas bandeiras e pelo brasão de armas dos dois países. Ouviu-se o Hino Nacional Brasileiro e a Marcha Real Italiana, abrindo a sessão que foi presidida pelo major Ferreira da Luz. Autoridades são-joanenses e importantes membros da Comissão Central da Colônia Italiana proferiram dez discursos e coube ao tenente Izidro Figueiredo a honra de ser o orador oficial daquela cerimônia.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Festa da Boa Morte em São João del-Rei - Fé sublime, originalidade, encantamento sem igual

Esta semana começou em São João del-Rei a segunda semana santa do ano: a Festa de Nossa Senhora da Boa Morte.  Também conhecida como “Semana Santa dos Mulatos”, tem duração de onze dias e comemora, com novena barroca, missa cantada e procissões, o trânsito de Nossa Senhora, sua subida aos Céus e coroação pelas três pessoas da Santíssima Trindade.

Mas, neste caso, o que é trânsito? É a passagem de Nossa Senhora do mundo dos vivos para a vida eterna.  Segundo a fé católica, a mãe de Jesus não morreu: dormiu e passou, em alma, deste mundo para o outro.

Em São João del-Rei esta fé é comemorada desde o século XVIII, pois em 1734 foi fundada a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte da Vila de São João del-Rei. E certamente a partir daquela época os compositores mulatos são-joanenses começaram a criar as novenas, antífonas, solos,motetos, hinos e missas cantadas que são executadas  até hoje. Compositores contemporâneos, como Geraldo Barbosa de Sousa, se juntaram aos músicos barrocos na produção de peças primorosas, originais e sofisticadas que compõem o repertório sacro-musical desta ocasião. Segundo alguns pesquisadores, a Irmandade da Boa Morte é a que, em certa época, teve mais músicos filiados como irmãos.

A Festa da Boa Morte de São João del-Rei é sem igual, assim como – certamente – São João del-Rei é a única cidade (talvez de todo o mundo) que comemora a passagem e glória de Nossa Senhora com tanta pompa e grandiosidade. Inclusive um toque de sino próprio, só existente na cidade e considerado um dos mais belos da “terra onde os sinos falam”. Chama-se A Senhora é Morta e foi criado por um escravo.

Flores, tecidos adamascados, incensos, pratarias, alfaias, velas, cenários mágicos – tudo isto cria um ambiente fantástico e sublime na Matriz do Pilar, onde acontecem novena, vigília, missa cantada em latim, Te Deum Laudamus, toques de sino e bênção do Santíssimo Sacramento. Tudo esteticamente refinado e religiosamente encantador. Na Missa da Glória, celebrada na manhã do dia 15, por exemplo, são recitados e cantados trechos do Livro do Apocalipse, entre eles a passagem do dragão que com um só golpe varreu com a cauda um terço das estrelas do Céu, mas se deteve diante da Virgem Maria.

Quem estando em São João del-Rei quiser, como devoto, turista, observador ou estudioso, ver tudo isto é só comparecer no começo da noite dos próximos dias à Matriz do Pilar. Também de lá sai, na noite do dia 14, a procissão do trânsito de Nossa Senhora. E também lá acontece no dia 15, pela manhã, a missa barroca cantada em latim e no entardecer a grande procissão de Nossa Senhora da Assunção e Nossa Senhora da Glória...
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Sobre o mesmo tema, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/08/sao-joao-del-rei-comecou-nesta-sexta.html

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

1724 - São João del-Rei, com o coração em festa, abre ao mundo as portas da Matriz do Pilar


Há exatos 289 anos e seis dias São João del-Rei inaugurou um dos mais importantes monumentos da arte barroca brasileira: a Matriz nova de Nossa Senhora do Pilar. Era 28 de julho de 1724 quando o padre Alexandre Marques do Vale benzeu o templo, preparando-o para o que iria acontecer no dia seguinte - a solene trasladação do Santíssimo Sacramento, em procissão que saiu da antiga capela para sua nova morada.

Acompanhando Jesus corporificado na hóstia consagrada, emoldurada por dourada custódia, carregada sob o pálio pelo padre  João da Fé de São Jerônimo Gurgel do Amaral, também vieram em andores muito enfeitados Nossa Senhora do Pilar, São Miguel Arcanjo, São Sebastião e São João Batista - este último, por ser padroeiro do Senado da Câmara da Vila de São João del-Rei, conduzido por homens da mais alta nobreza.

Estando já as imagens dentro da igreja, após uma barulhenta queima de fogos, celebrou-se então uma missa cantada, sob responsabilidade musical do professor Antônio do Carmo. Ele já cumpria esta função desde 1717, quando o Conde de Assumar visitou pela primeira vez a quarta vila constituída em Minas Gerais.

As imagens pomposamente trasladadas, como num teatro estático e mudo, até hoje conversam nos altares de ouro da Matriz do Pilar. Será que estão a rememorar o grande acontecimento que movimentou a vila naquele distante 29 de julho de 1724?

Veja, abaixo, flash de uma celebração em honra da padroeira de São João del-Rei, Nossa Senhora do Pilar, festejada em 12 de outubro (2012). O hino é executado ao vivo pela Orquestra Lira Sanjoanense, a mais antiga das Américas.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, Volume I, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

A eterna primavera da fé em São João del-Rei


São João del-Rei é como um jardim, sempre em primavera a florescer. Todo mês, durante as festas religiosas, altares e andores em cascatas se cobrem das flores mais diversas: angélicas, antúrios, cravos, crisântemos, copos-de-leite, "egpsy", gérberas, hortências, lírios, margaridas, palmas e rosas, entre muitas outras. São as estrelas da terra luzindo gentileza, cor e perfume; brilhando fé, suavidade e devoção.

Agosto, por exemplo, quando chega, acende em todos memórias antigas, que se tornam realidade nas ladeiras, largos e becos do centro histórico da terra onde os sinos falam. A bicentenária Orquestra Lira Sanjoanense afina instrumentos e vozes, ensaia partituras antigas para que, no período de 5 a 15, a música barroca de mulatos compositores locais se junte ao som dos sinos e ao perfume de incenso para criar ambiência celeste em honra a Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora da Glória e também à Santíssima Trindade - Pai, Filho e Espírito Santo. Isto assim se repete há quase 300 anos. Em 2013, inclusive...

Clique no link abaixo, admire o majestoso altar e ouça  o canto em latim do Pai Nosso, entoado durante a Missa da Assunção de Nossa Senhora, realizada na manhã de todo dia 15 de agosto na Matriz do Pilar de São João del-Rei.