domingo, 31 de julho de 2011

sábado, 30 de julho de 2011

Em São João del-Rei, agora, a festa e os vivas são para Nosso Senhor Bom Jesus do Bonfim


Parece exagero dizer, mas em São João del-Rei a festa não para. Antes mesmo de acabar o festival Inverno Cultural, os são-joanenses já deram início a outro ciclo de festas, desta vez de caráter religioso, que vai durar até o fim do ano. Serão, no mínimo, 12 eventos  e o primeiro - a Festa do Bonfim - já está em curso. Logo em seguida, vem a Festa de Nossa Senhora da Boa Morte.

As comemorações anuais em homenagem a Nosso Senhor do Bonfim começaram ontem, sexta-feira 29, com novena que atravessa toda a semana até que, no domingo (7), uma alvorada festiva, às seis horas da manhã, lembrará à cidade que se trata de um dia especial: o primeiro dos dois domingos que São João del-Rei reserva para festejar o Senhor Bom Jesus. Do Bonfim e dos Montes.

A pequenina e humilde capela do Bonfim, dizem, é a mais antiga da cidade. Fica em uma localização privilegiada, bastante alta e arejada. De lá se contempla a face antiga e serena de São João del-Rei, murada pela azul-roxeada Serra do Lenheiro. Do outro lado da serra, onde se catava e escavava ouro, o sol ainda deita para dormir.

No começo do entardecer do primeiro domingo de agosto, a procissâo do Senhor Bom Jesus do Bonfim é um cortejo singelo, despojado e gracioso. Desce e contorna o setecentista tenebroso Morro da Forca onde - na praça central, para apagar as sombras do instrumento homicida - plantou-se um Cruzeiro da Penitência, com todas as insígnias da Paixão. Vem até o imponente templo de São Francisco de Assis, obra-prima primorosa do Aleijadinho, e torna a subir para o seu alto.

O pequeno andor em que vai o crucificado, bastante enfeitado, segue alegre ao ritmo da banda, acompanhado pelos devotos - pessoas simples, sorridentes, sentimentais, que levam no peito um coração de antigamente. Mesmo pregado na cruz, ali Jesus não sofre nem agoniza. Sempre bondoso, apenas perdoa e abençoa.

O tempo passa, os séculos seguem, a vida se esvai. Mas o coração daquela gente continua o mesmo. Devotado, alegre,  contrito...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Festival Inverno Cultural 2011. A São João del-Rei, Elza Soares pede: "Malandragem, dá um tempo!"

Hoje à noite São João del-Rei terá a oportunidade de desfrutar da riqueza musical de uma das mais raras expressões da música popular brasileira, presença destacada no cenário artístico nacional há mais de cinquenta anos: Elza Soares.

Assim como sua história pessoal, sua voz é única. Desde o início de sua carreira, a cantora -  hoje no alto dos saltos vermelhos e de seus 74 anos - domina uma  linguagem musical extremamente personalizada e eclética. Passeia, com sofisticação e simplicidade, liberdade e propriedade, dos variados ritmos e estilos brasileiros até os sons afro-latinos e ao americano jazz.

Enquanto a noite desta sexta-feira não chega, trazendo a "perigosa" Elza Soares rodeada de Farofa Carioca, provemos, nos vídeos abaixo, um aperitivo deste que, sem dúvida, será um dos maiores shows do Inverno Cultural 2011.






Sobre o festival Inverno Cultural, leia também




quinta-feira, 28 de julho de 2011

Você conhece o Hino de São João del-Rei?

Pelo que se nota, o brasileiro, no seu dia a dia, parece não ver muito significado nos símbolos nacionais. Se voltarmos um pouquinho na história recente de nosso país, poderemos imaginar que esta situação se agravou a partir dos 21 anos difíceis que  a nação viveu sob a brutalidade da ditadura militar. Torturas, desaparecimentos, homícidios, censura, desrespeito à democracia, violação dos direitos humanos e todo tipo de arbitrariedade, praticados à sombra da bandeira e do brasão, ao som do hino, fizeram com que estes símbolos passassem a representar mais o regime de excessão do que os ideais do povo brasileiro.

Voltando para as margens do Lenheiro, há de se perguntar se as crianças e os jovens são-joanenses, em sua maioria, conhecem o Hino de São João del-Rei e sabem cantá-lo. É possível que não. Por isso, convém que o hino - criação de Bento Ernesto Júnior e Carlos dos Passos Andrade - seja melhor divulgado até se tornar, como o toque dos sinos, reconhecido pelos são-joanenses como legítimo símbolo sonoro de nossa terra.

Neste sentido, é ideal que, quando pertinente e oportuno, o hino seja sempre cantado em eventos engrandecedores, integre artisticamente o programa de concertos e apresentações musicais, enfim, que ganhe visibilidade para tornar-se parte e representação de tudo aquilo que é motivo de orgulho para o povo de São João del-Rei.

É com esta intenção que Tencões & terentenas reproduz abaixo a letra do


Hino do Município de São João del-Rei

           Letra - Bento Ernesto Júnior
           Melodia - Carlos dos Passos Andrade

Salve, Terra gentil que fulguras,
No regaço da Terra de Minas,
Como um cofre das glórias mais puras,
Como um alvo das bênçãos mais divinas.

És estância de grato repouso
Aos que chegam cansados da luta!...
O teu seio é oásis formoso,
Onde uma alma o descanso desfruta!...

Há nas rochas de tuas montanhas
Um poema de glórias escrito:
Teu denodo em grandes campanhas
Teu amor no trabalho bendito.
´
Tua história de sempre, aparece
Circundada de um halo de luz
Pois se a glória o teu nome enobrece,
De bondade o teu nome reluz.

As muralhas das tuas igrejas
Sào proclamas da Fé que tu tens,
Fé que anima o fervor das pelejas,
Fé que abranda da vida os vaivéns.

Salve Terra!… Entre terras mineiras
Tens um posto de grande fulgor
Foram tuas as vozes primeiras
Contra o mal de um governo opressor.

Salve, terra querida e formosa!...
Salve terra de São João del-Rei!...
Sê tu sempre feliz e gloriosa,
Sentinela da Crença e da Lei!

Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/sao-joao-del-rei-e-dos-queijos.html

terça-feira, 26 de julho de 2011

De Padroeira a Padroeira: em breve dois caminhos para o Céu passarão por São João del-Rei


 Nos últimos meses, novas portas estão se abrindo para o desenvolvimento turístico de São João del-Rei, inclusive em uma modalidade pouco explorada no Brasil: o turismo religioso. Já está certo que a cidade será o marco zero do Caminho de Nhá Chica e Padre Vitor e referência importante no percurso De Padroeira a Padroeira.

Aos radicais, pareceria estranho falar em turismo religioso, pois turismo é uma das atividades econômicas que mais crescem no mundo. Mas promover o turismo religioso não é uma "heresia", quando se entende que esta atividade - antes de tudo - tem como objetivo principal oferecer estrutura e facilidades para que as pessoas possam praticar a religiosidade conhecendo culturas e geografias diferentes daquela onde residem. Há de se ressaltar: o turismo religioso não pode ter outro eixo senão a fé. Todos os outros argumentos que justificam a implementação da modalidade turismo religioso não podem ser maiores nem mais importantes do que o incentivo e apoio à prática religiosa, Se não for assim, é desvio, desvirtuamento.

Não julgo justo nem correto dizer que São João del-Rei é uma cidade que tenha potencial para o turismo religioso. São João del-Rei, na verdade e acima de tudo, é uma cidade onde seu povo tem fé e a pratica de modo peculiar. Isto é o que a diferencia de muitos destinos turísticos. A religiosidade são-joanense é viva, tão viva que possibilitou a sobrevivência cálida e autêntica de expressões e manifestações setecentistas - coisa muito rara em um mundo cada vez mais voltado para os simulacros e para o fake. Graças a Deus, nada em São João del-Rei se folclorizou ou espetacularizou. E se deseja que continue assim para sempre.

A cidade é muito feliz por ter à frente de sua participação nos dois projetos de turismo religioso, pessoas sérias, competentes, responsáveis. A Diocese, as paróquias, as irmandades, os grupos religiosos de manifestação popular espontânea, todos, acima de qualquer interesse outro, tem seu olhar voltado para a questão da fé são-joanense menos como atração e mais como patrimônio. Sobretudo como direito religioso, civil e cidadão do povo de São João del-Rei.

Assim, quando se pensa nos benefícios que o turismo religioso trará para São João del-Rei em termos econômicos e sociais - geração de renda com a criação de mais postos de trabalho, incremento do comércio, crescimento da rede hoteleira e gastronômica, enfim  desenvolvimento local - não se pode perder de vista os cuidados necessários para garantir que o grande aumento de população "estrangeira" em ocasiões tão sagradas para o povo são-joanense não altere nem interfira no modo como São João del-Rei exerce sua religiosidade.

Em Sevilha, na Espanha, por exemplo, em locais "nobres" por onde passam as procissões, há áreas reservadas como camarotes, vendidos para turistas dispostos a pagar ingresso. A população local fica do outro lado da rua, atrás de cordas. Há estudos acadêmicos que mostram como o crescimento do fluxo turístico interferiu negativamente, descaracterizou e subtraiu o significado e o sentido das celebrações religiosas de muitas cidades históricas de Minas Gerais.

Mas pelo que vem sendo dito sobre a inclusão e adesão de São João del-Rei aos dois projetos de turismo religioso, percebemos que os representantes locais são cientes tanto dos benefícios quanto dos impactos que envolvem a participação da cidade neste "empreendimento" turístico. Tranquiliza-nos mais ainda saber que são conscientes de que a religiosidade são-joanense e sua perpetuidade em tradições consolidadas que se repetem ao longo de trezentos anos, mais do que produto à disposição "da atividade  econômica que mais cresce no mundo", é um direito do povo de São João del-Rei e como tal devem ser preservadas.

Em afinidade com este tema e em sintonia com o festival Inverno Cultural, que nos próximos dias trará à cidade Elza Soares, ouçamos sua marcante interpretação de Se eu quiser falar com Deus.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Festival Inverno Cultural. São João del-Rei, o melhor da festa não é mais esperar por ela. É incorporá-la e transformar com ela...

Em São João del-Rei, desde o tempo do ouro, a alma é saudosa. O sentimento de despedida chega na véspera. Da alvorada à aurora, o começo de tudo é também o começo do fim de tudo. Afinal, aqui, acredita-se, é no fim que tudo acaba, definitivamente encerra, e se conclui. Sobram apenas a lápide e a lembrança.

Se em São João del-Rei é assim no individual, também o é no coletivo. A alegria do encontro termina nos prenúncios da partida; nas celebrações coletivas não são raros momentos finais que se esvaem em melancolia. O medo do fim o antecipa. O entusiasmo do Ano Novo não se prolonga até depois do almoço do dia 1º de janeiro. A alegria do Carnaval não insiste mais até o raiar da Quarta-feira de Cinzas. Até o Domingo da Aleluia tem cara de segunda-feira...

O festival Inverno Cultural já passa da metade. Muito já aconteceu, mas muito ainda está por acontecer. E, mais: pode continuar acontecendo - e não parar de acontecer nunca -, se todo mundo que nestas duas semanas está a vivenciar, por meio da arte, a possibilidade de uma nova realidade mantiver dentro de si acesos o espírito de mudança e o ideal transformador. Mesmo quem vê de longe percebeu que nestes dias, como canta Caetano Veloso, "alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial". Pensando melhor, percebeu que uma nova ordem é possível e está sendo vislumbrada.

Diante do horizonte aberto, do mundo novo, do amanhã-agora que a arte, a cultura, o saber, o conhecimento, o convívio pacífico, tolerante e generoso, o porvir e a felicidade apontam para quem vivencia o Inverno Cultural, como retroceder? Como reduzir tão rica experiência a fotos, vídeos, anotações, partituras, telas, gravuras, peças, números de telefone, endereços de e-mail, tweeters, facebooks e lembranças?

Não tem jeito... Agir assim é negar a responsabilidade humana e social, desperdiçar a oportunidade de crescimento transformador - coisa que uma hora a vida cobra. A Bíblia, por exemplo, diz claramente - "a cada um lhe é dado o que um dia será pedido", mensagem que parábolas milenares e histórias infantis ensinam desde que o mundo é mundo.

Então, meus caros, desfrutemos de tudo o que a programação desta semana nos proporciona. Nos instrumentemos de todo encanto, toda magia, todos os truques, todos os saberes e sabedorias que a cultura e a arte nos transmitem e vamos à luta. Semana que vem é outro dia...


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Ilustração da abertura: Cada um carrega a sua cruz - nobre carregador do violoncelo na Procissão do Senhor dos Passos e do banquinho da Verônica na Procissão do Enterro (anos 70 - alguém sabe o nome dele?) - Foto do autor

Leia também:

domingo, 24 de julho de 2011

São João del-Rei é mágica. A gente sabe de cor, mas sempre descobre uma cidade resplandecente!


A paisagem de São João del-Rei é um caleidoscópio mágico, sempre surpreende. De manhã é uma coisa. À tarde é outra. Basta começar a anoitecer para tudo mudar outra vez. Transmuta decisivamente seguindo os involuntários e programados movimentos diários e anuais da terra, em torno de seu seu próprio eixo e do sol.

Assim, as horas do dia e as estações do ano pintam ininterruptamente a paisagem são-joanense de diferentes cores, alteram tons, dão-lhe outros brilhos, sopram perfumes, serenam orvalhos, acariciam  telhados, fachadas, pedras e nossas peles ora com o ar parado e quente, ora com brisas mornas, muitas vezes com o vento, ora ameno e fresco, ora certeiro e frio.

Pensando nisto, que tal fechar o domingo e começar a semana fazendo um passeio na velha, bela  e sempre surpreendentemente (des) conhecida São João del-Rei, visitando o maravilhoso ensaio de Maria Theresa, disponibilizado na internet no endereço abaixo? É de cair o queixo. Primeiro, diante da senbilidade da autora. Depois, diante do delicado encanto das ruas, praças, becos e largos por onde passamos todo dia. Beleza em profusão que o cotidiano e a rotina teimam em ofuscar de nossos olhos.


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Crédito: Fotos reproduzidas do ensaio disponível no endereço eletrônico acima

sábado, 23 de julho de 2011

São João del-Rei, 180 é mais da metade de 300!



A propósito do post de ontem deste almanaque eletrônico "São João del-Rei, nos seus 300 anos, valorizai, salvai e protegei o Chafariz da Legalidade", Tencões & terentenas apresenta aqui mais um argumento em favor da restauração daquele patrimônio histórico e revitalização protetora de seu entorno em 2013, no conjunto das comemorações dos 300 anos da elevação de São João del-Rei à categoria de Vila.

Também em 2013 - portanto daqui a um ano e meio - o Chafariz da Legalidade completará 180 anos de edificação. Quase dois séculos. Idade respeitável, mais da metade de 300 anos...
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Para ler o post citado, acesse http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/07/sao-joao-del-rei-nos-seus-300-anos.html 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

São João del-Rei, nos seus 300 anos, valorizai, salvai e protegei o Chafariz da Legalidade!

São João del-Rei tem tantos e tão belos quanto valiosos monumentos arquitetônicos e urbanísticos que muitos, com certeza, em localização levemente periférica aos templos monumentais e aos largos, ruas e becos turisticamente "mais explorados", poucos são conhecidos e valorizados pelos são-joanenses. Pena. Correm sérios riscos. Bastam poucos minutos de sentimento bárbaro e torpes atos vândalos para que fiquem danificados para sempre, quando não irremediavelmente perdidos.

O Chafariz da Legalidade é um deles. Tem em seu histórico todos os elementos citados acima. Mas São João del-Rei não aprendeu a lição: pouco depois da agressão que o danificou parcialmente, o monumento novamente caiu no esquecimento e descaso, abandonado à própria sorte em local urbano muito adverso para uma obra de tamanho significado e delicadeza.

Seu entorno é escuro e deserto. A iluminação sombria. A vizinhança move-se atônita, na força dos hormônios juvenis e "nos embalos de sábado à noite". Proteção física não tem. Vigilância e segurança pública permanente, também não. Videntes culturais e previdentes de plantão temem que o Chafariz da Legalidade venha a viver algo como a "crônica de uma morte anunciada".

Civilmente, a quem pertence o Chafariz da Legalidade? Irmão em matéria das pontes de pedra e do pelourinho, é propriedade do poder público municipal? Inegavelmente é um bem histórico-cultural de São João del-Rei, patrimônio de Minas Gerais e do Brasil. Mas quem o vê? Abandonado, em seu bucólico recanto, quem por ele vela, reza e zela?

A comunidade cultural, os órgãos responsáveis pela preservação da memória local e até a própria coletividade desarvoram quando caem adobes da Matriz do Pilar, reboco e telhas da capela do Senhor dos Montes, infiltrações e trincas aparecem em outros visíveis monumentos. Isto é certo, tem que ser assim mesmo. Melhor, até, seria se todo o patrimônio construído tivesse atenção e cuidados permanentes para que em hipótese alguma ficasse exposto a situações de risco. Mas por que ser deliberadamente neglicente, por exemplo, com o Chafariz e com  os vários Cruzeiros de Penitência erigidos no Pau d'angá, no Morro da Forca, na Rua do Ouro, ao lado da igreja das Mercês e em outros pontos da cidade? Convém lembrar que, daqui a algum tempo, as pontes também estarão fragilizadas pelo peso do transito urbano e desgastadas pelo passar dos séculos.

Volta e meia se fala nas comemorações, em 2013, dos 300 anos da elevação de São João del-Rei à categoria de Vila.Todos somos ufanistas por nossas tradições culturais, pela dedicação e competência com que a cidade preserva e realiza a Semana Santa, produz e promove o Festival Inverno Cultural, faz acontecer o carnaval e mantém vivo um calendário impar de programações religiosas, civis, culturais e populares. Mas nenhum olhar se volta para a preservação de monumentos situados em locais "menos turísticos" e, por isso, julgados menores e menos significantes.

São João del-Rei tem coisas que nenhuma outra cidade tem, é verdade. Inclusive uma ponte duocentenária,  em condições de ser restaurada, sepultada no centro da cidade. Em qualquer lugar do mundo já se teria movido montanhas para recuperar e trazer à via, à vista e à vida tão importante monumento. Aqui não. Vizinho à Ponte da Misericórdia, sepulta, o Chafariz da Legalidade corre o risco de ir pelo mesmo caminho, pois hoje, ao olhá-lo com mais cuidado, a impressão que se tem é de ser um monumento desprezado, órfão e indigente.

Diante do custo devido e reconhecido que se tem com grandes e necessárias realizações, quanto custará restaurar o Chafariz da Legalidade e transformar sua praça em um bosque agradável, com uma pequena arena para espetáculos "de bolso", local de alívio e convívio para crianças e idosos em meio a um ambiente urbano inevitavelmente a cada dia mais degradado? Mão de obra de restauradores para um trabalho breve e relativamene simples. Um projeto de jardinagem e iluminação, prevendo-se o plantio de ipês, flamboyants e pequenas palmeiras, arbustos adequados e até uma cascata de orquídeas no muro de contenção do elevado sobre o qual está o Grupo Escolar Maria Tereza. Tudo isso cercado por um alto gradil e portão para fechar-se à noite, corretamente orientado pelos órgãos locais, estaduais e federais responsáveis pela preservação do patrimônio são-joanense, mineiro e brasileiro. Este patrimônio inclui o Chafariz da Legalidade.

Não se duvide: o orquidário com certeza seria viabilizado só com doações das famílias são-joanenses, assim como grande parte das árvores e plantas ornamentais se obteria como demonstração de cidadania e responsabilidade social de várias empresas locais. Quem sabe muito desse projeto não se consiga viabilizar por meio de patrocínios de empresas relevantes - do ramo industrial, siderúrgico e de transportes, por exemplo - situadas ou cujos produtos passam em transporte na região, como forma de neutralizar / compensar a emissão de carbono decorrente de suas atividades produtivas? Antes de qualquer coisa, é preciso sonhar, em seguida acreditar e, sem pensar duas vezes, correr atrás...

Então, pensando nisto tudo, desde já, clamemos:
São João del-Rei, enquanto é tempo, valorizai, salvai e protegei o Chafariz da Legalidade!


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Inverno Cultural: utopia das Artes e sentidos do Corpo prenunciam o Céu em São João del-Rei

A efervescência cultural que São João del-Rei vive neste mês de julho certamente é uma condição cidadã desejada por muitas cidades. A soma das tradições religiosas e populares centenárias com as múltiplas e plurais manifestações, linguagens e expressões artísticas contemporâneas resulta em uma ambiência que transpõe, transcende, traspassa e ultrapassa o universo artístico, lúdico, idílico e onírico e impulsiona o surgimento de um universo propício para inovações, renovações, mudanças e transformações.
A arte, se por um lado ilude, por outro faz mágicas reais.

O tema central do festival Inverno Cultural 2011 - Sentidos do Corpo - e as várias formas como tal "enredo" há uma semana sendo desenvolvido e evoluindo "na avenida São João del-Rei", coincide com o pensamento acima. A diversidade, variedade, pluralidade, multiplicidade (e todos os pleonasmos mais) das apresentações, oficinas, shows, exposições, recitais, palestras, eventos, festas, e muito mais estão a construir um caleidoscópio sem igual: sagrado e profano, local e universal, primitivo e digital, concreto e abstrato, erudito e popular, científico e empírico, culto e intuitivo - limites rompidos e fronteiras desfeitas todos se dão as mãos, se misturam, se igualam, se equiparam. Nem que seja miragem, delírio, simulação de realidade permitida apenas em tempo e espaço provisórios, pactuados e hipotéticos. Utopia.

Mas a utopia é o norte humano, principalmente para quem acredita que o homem nasceu para encontrar o paraíso; que a felicidade deve ser o destino final da humanidade. Julho, em São João del-Rei, é um ensaio para isso: a simulação do Paraíso, mesmo sabendo das catástrofes e dos cataclismas sociais que, qual cometas, correm no céu sobre nossas casas e nossas almas são-joanenses.


quarta-feira, 20 de julho de 2011

Festival Inverno Cultural 2011: São João del-Rei, sentido! Elza Soares vai cantar o Hino Nacional

A história da interpretação que várias cantoras brasileiras fizeram de nosso Hino Nacional varia do cômico ao trágico. Algumas enterneceram, outras ainda hoje trazem lembranças sentidas e lágrimas aos olhos. Há aquelas que, mais recentemente, causaram constrangimento e riso, mas nenhuma faz do símbolo sonoro nacional tão forte clamor como Elza Soares - convidada do Festival Inverno Cultural 2011, se apresenta em São João del-Rei no dia 29, gratuitamente, no palco da Avenida Tancredo Neves.

Antecipando a grande apresentação, veja e "ouça do Ipiranga as margens plácidas" (abertura dos Jogos Pan-Americanos 2007),  enquanto lê mais abaixo um poema de Carlos Drummond de Andrade. Inspirado em quê? No Hino Nacional de nosso país...


Precisamos descobrir o Brasil!
Escondido atrás das florestas,
com a água dos rios no meio,
O Brasil está dormindo, coitado.
Precisamos colonizar o Brasil.
O que faremos importando francesas
muito louras, de pele macia,
alemãs gordas, russas nostálgicas para
garçonettes dos restaurantes noturnos.
E virão sírias fidelíssimas.
Não convém desprezar as japonesas...,
Precisamos educar o Brasil.
Compraremos professores e livros,
assimilaremos finas culturas,
abriremos dancings e subvencionaremos as elites.
Cada brasileiro terá sua casa
com fogão e aquecedor elétricos, piscina,
salão para conferências científicas.
E cuidaremos do Estado Técnico.
Precisamos louvar o Brasil.
Não é só um país sem igual.
Nossas revoluções são bem maiores
do que quaisquer outras; nossos erros também.
E nossas virtudes? A terra das sublimes paixões...
os Amazonas inenarráveis... os incríveis Jõao-Pessoas...
Precisamos adorar o Brasil!
Se bem que seja difícil caber tanto oceano e tanta solidão
no pobre coração já cheio de compromissos...
se bem que seja difícil compreender
o que querem esses homens, por que motivo eles se ajuntaram
e qual a razão de seus sofrimentos.
Precisamos, precisamos esquecer o Brasil!
Tão majestoso, tão sem limites, tão despropositado,
ele quer repousar de nossos terríveis carinhos.
O Brasil não nos quer! Está farto de nós!
Nosso Brasil é no outro mundo. Este não é o Brasil.
Nenhum BRasil existe. E acaso existirão os brasileiros?

DRUMMOND, CarlosBrejo das almas. Belo Horizonte, 1934.
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Leia mais sobre o Inverno Cultural acessando os links abaixo
. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/06/elza-soares-contemporanetnia-brasileira.html
. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/06/festival-inverno-cultural-concertara.html

O site oficial do evento é: http://www.invernocultural.ufsj.edu.br/

terça-feira, 19 de julho de 2011

No festival Inverno Cultural de São João del-Rei, a arte está no meio da rua, no céu, na terra, em toda parte


Desde sábado, ora como brisa, ora como ventania, a arte está solta em São João del-Rei. Salta arte de toda [e por toda!] parte: dos largos, dos becos, dos botecos, das igrejas, das praças. Até dos teatros, das galerias e dos museus. Brilha arte nos olhos, pulsa arte no coração...

Na cidade onde a música chegou para morar desde 1717, a música é soberana, e - popular, erudita, experimental, de raiz, de vanguarda, étnica - se multiplica em shows, concertos, audições, oficinas, na programação do festival Inverno Cultural e na Zona da Música. O teatro e o cinema não estão de fora, ou , pensando melhor, também estão de fora. O certo é que, além dos espaços tradicionais e fechados, eles  sairam para as ruas, do centro histórico e dos bairros de São João, dos distritos e de até algumas cidades vizinhas. Hoje tem espetáculo!...

As artes plásticas se materializam em várias estéticas e linguagens, das concretas às digitais, da caricatura ao vídeo-arte, da escultura à instalação e performance, nas galerias, nos estúdios, nos ateliês, nos botecos, nos estacionamentos, em tudo enquanto é canto. Ou é encanto?

O prazer do paladar em si, a estética do ambiente de degustação e sabor. Tudo isso não falta nos bares, restaurantes, cafés, tabernas e bistrôs que não fecharam as portas de suas cozinhas para o feitiço do inverno e do festival.

Digníssima e discreta, a cultura popular também foi lembrada e reverenciada. A festa de Nossa Senhora do Rosário, as Congadas e a Coroação dos Reis Congos de São João del-Rei  foram tema de uma mesa de debates, que vislumbrou nestas manifestações inestimável saber ancestral contemporanizado, propriedade intelectual a ser melhor reconhecida e valorizada e preciosamente incomparável patrimônio cultural.

. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/06/festival-inverno-cultural-concertara.html
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Fonte: http://www.invernocultural.ufsj.edu.br/

Ilustração da Abertura: cúpula do coreto de São João del-Rei (foto do autor)

sábado, 16 de julho de 2011

Em São João del-Rei, um sino chamado Elias semeia no ar mensagens de paz

Hoje, no centro histórico de São João del-Rei, em homenagem a Nossa Senhora do Carmo, o sino Elias não para de tocar. Insiste em lembrar a todos, em seus dobres, um trecho do Antigo Testamento, apresentado no Livro dos Reis. Diz o seguinte:

"Meu nome é Elias e ao clamor da minha súplica
desfaçam-se as nuvens em chuva
e destrua toda a falsidade"*

Veja e ouça, no vídeo abaixo, o dobre do sino Elias da Igreja do Carmo de São João del-Rei.

*Mensagem gravada em um antigo sino Elias existente em Minas Gerais.


São João del-Rei se veste de cor, música e festa, para alegremente louvar Nossa Senhora do Carmo

Desde as primeiras horas deste sábado, os anjos se esbarram apressados nas vias celestes de São João del-Rei. Tecem guirlandas, espalham perfumes na brisa matutina, ajeitam estrelas brilhantes, afinam liras, sopram brasas nos turíbulos, queimam incensos aromáticos. Vez por outra param e contemplam: como é belo o amanhecer e o transcorrer do dia 16 de julho em São João del-Rei!

Quando o horizonte clareia e chega o sol dissipando a neblina densa de inverno, nas ruas, becos e travessas próximos à Igreja do Carmo não é muito diferente do que acontece no céu. Homens, mulheres e crianças são-joanenses varrem as calçadas, conversam alto, enfeitam as fachadas de suas casas, penduram colchas de renda nas  sacadas, colocam vasos de flores nas janelas, cordiosamente fazem - no grande largo colonial - tapetes coloridos de areia, pó de café, serragem, pétalas, devoção, afeto  e fé. Por ali, Nossa Senhora do Carmo vai passar, sorrindo misericórdia, acenando piedade, distribuindo bênçãos, espalhando esperanças, e até alguns milagres. Quem tem fé, acredita que é assim...

Enquanto a noite não chega e traz a esperada procissão, na igreja, missa de hora em hora, com coros, corais, orquestra. Tudo anunciado pelos sinos, inclusive a alvorada musical do amanhecer. Em São João del-Rei, viva Nossa Senhora do Carmo!

sexta-feira, 15 de julho de 2011

São João del-Rei inaugurou, há 282 anos, a capela da Fazenda do Pombal, onde nasceu Tiradentes


15de julho de 1729. Em São João del-Rei o vigário "Alexandre Marques do Vale benze a capela pública de Nossa Senhora da Ajuda, situada na Fazenda do Capitão-Mor Francisco Viegas Barbosa, na Freguesia de Nossa Senhora do Pilar". Sem saber, inaugurava um templo de grande importância para a história do Brasil, pois aquela capela era parte do cenário onde, 15 anos depois, nasceu  o menino Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, herói maior da Inconfidência Mineira.

A construção da capela de Nossa Senhora da Ajuda foi autorizada em 24 de fevereiro de 1724, pela Mesa Capitular do Bispado do Rio de Janeiro, atendendo a pedido do Capitão Viegas, um dos maiores benfeitores da Matriz do Pilar de São João del-Rei.

O inventário da mãe de Tiradentes, Antonia da Encarnação Xavier, falecida em dezembro de 1755, relaciona os seguintes bens existentes na capela de Nossa Senhora da Ajuda: imagens da padroeira, Senhora da Ajuda, do Senhor Crucificado, de São Francisco, de Santo Antônio, de São Sebastião, de São Gonçalo; dois castiçais de estanho, 5 portadas de cortinas com sanefas de damasco, um ornamento roxo e seu frontal, um ornamento com seu frontal e credência, um cálice, patena, um prato e duas galhetas - tudo de prata.

Alguns destes objetos, assim como o altar mor e a grossa porta de madeira, sobreviveram à ação do tempo e de vândalos e agora estão protegidos, expostos à visitação pública, no Museu de Arte Sacra de São João del-Rei.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei - vol I, 2ª ed. revista e ampliada. Página 296. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte: 1982.

Ilustração: Detalhe do altar  da capela de Nossa Senhora da Ajuda, com algumas imagens e objetos mencionados no inventário da mãe de Tiradentes (foto do acervo do autor)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

São João del-Rei, com Celia e Celma, "lembrai-vos das procissões e devoções de Minas"


São João del-Rei não se esquece de suas tradições religiosas, e as mantém com muita vitalidade, sobretudo aquelas que nasceram nos séculos XVIII e XIX. O caráter "cultural e erudito"  faz com que pareçam superiores às outras, mais populares, surgidas a partir do século XX. Assim, as músicas sacras  setecentistas e oitocentistas, em latim, sobreviveram e são mais conhecidas do que suas irmãs mais novas, criadas a partir de 1900 e cantadas em português.

Constatado isso, tem-se a exata importãncia da obra "Lembrai-vos das Procissões e Devoções de Minas", lançado recentemente pelas cantoras mineiras Celia e Celma. Em uma produção primorosa, as gêmeas realizaram uma pesquisa sobre o cancioneiro religioso católico de todo o estado de Minas Gerais e garimparam pérolas preciosas, como Ó Maria concebida sem pecado, Glória a Jesus, Coração Santo e muitas outras.

Especialmente duas são muito íntimas dos são-joanenses maduros: Perdão meu Jesus - muitas vezes cantada pelo bispo (D. Delfim fazia questão de puxar o coro) na escadaria das Mercês na Sexta-Feira da Paixão, ao fim do Descendimento da Cruz, pouco antes da saída da Procissão do Enterro do Senhor - e Tantum Ergo, hino próprio para bênçãos e adorações ao Santíssimo Sacramento.

A simplicidade, devoção e emoção com que elas cantam, propositalmente e com humildade despojadas de qualquer intenção artística, conferem às músicas a sua autenticidade original, tornando-as ainda mais preciosas. Mostram que Deus e os homens podem estar fraternalmente irmanados, de mãos dadas, nem Criador, nem criatura. Celia e Celma são um presente do Céu. Quem sabe, em breve, elas não se apresentem em São João del-Rei?

Para conhecer o trabalho das duas gêmeas, basta acessar  http://www.celiaecelma.com.br/. Lá você encontra até, cantadas, receitas de diversos pratos típicos mineiros, como canjiquinha com costelinha de porco, broa de fubá com queijo, vaca atolada e o curioso doce "mineiro de botas", entre outras delícias das terras alterosas.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Dia do Rock, São João del-Rei. Concerto no portão do Cemitério. Em 2009, Festa do Carmo. Imagine!


13 de julho é o Dia Mundial do Rock. Para mostrar que na Terra da Música este gênero musical está muito vivo, em 2009, paralelamente à novena barroca de Nossa Senhora do Carmo, do lado de fora da igreja, entre barraquinhas de doces, quitutes, quitandas, quentões e outras bebidas menos "folk" e nem tão "hard", o rock rolou leve, livre e solto, em alto e bom som.

De todas as ruelas, de Santa Teresa e de Santo Elias, do Beco do Salto, do Largo da Cruz, dos arredores da Sinfônica e do Mercado, da subida do Senhor dos Montes e da descida do Alto das Mercês, por todos os caminhos seculares chegou jovem para ver. Jovem de 12, de 15, de 18, de 30, de 50, de 80, de tantos quanto forem possíveis anos...

Para não desafinar tanto o tom, nem se diferenciar muito dos instrumentos que, entre flores, velas e incensos, se ouvia dentro da igreja, sob o céu estrelado de inverno, em um coreto, a orquestra ovem de cordas tocou Beatles. Quem não gostou? Certamente até os mortos do Carmo, em silêncio sepulcral, bateram palmas.

A área onde foi montado o coreto -  que serviu de palco para os músicos - não poderia ser mais inusitada, irreverente como a própria juventude: em frente à fachada do Cemitério do Carmo. Altas paredes.  Grandioso e imperativo portal, coroado por uma enigmática caveira pousada sobre dois ossos cruzados. Separando dois mundos, muito grande e artístico portão de ferro.

Delimitando a fronteira entre o território dos vivos e o dos mortos, o rock dos Beatles louvou Nossa Senhora do Carmo em São João del-Rei, naquele 13 de julho de 2009. Pena que ainda não virou tradição. Bem poderia... Quem sabe a partir do ano que vem? Enquanto não rola, veja o concerto de 2009 no vídeo abaixo, copiado do Youtube.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Encantos e mistérios do fantástico Largo do Carmo de São João del-Rei

São João del-Rei já conta as horas para chegar a próxima sexta-feira, 15 de julho. No anoitecer daquele dia a cidade assistirá, embevecida, à coroação de Nossa Senhora do Carmo, na véspera de seu dia maior. Há séculos é assim.

Sinos, perfumes, flores, foguetórios, música, incensos, silencios e lágrimas. O Largo do Carmo será só emoção, devoção e adoração. No dia seguinte, quando a procissão sair da igreja, de dentro dos bares, das janelas dos casarões, do portão do cemitério, do Mercado Municipal, da peixaria da esquina, da loja de artigos de umbanda, da padaria, do posto de gasolina, de todas as quinas e esquinas ecoarão vivas à santa que aqui veio morar há quase trezentos anos.

Tanto tempo faz com que tudo seja cercado de lendas. Acreditavam os muito antigos que a igreja fosse construída sobre uma mina de ouro, em cujas profundezas corria o bíblico Rio Jordão e dormia a Serpente que tentou Eva, quando Deus criou o mundo. Tinham medo: se a Serpente acordasse, acabava o mundo...

Suspeitavam que o Diabo, tendo roubado o corpo de um defunto, em um sobradão próximo, houvesse deixado em seu lugar no caixão fechado um pesado tronco de bananeira. Também assim enganava a todos. Cultivavam fantasias de que um homem poderoso e devasso, em noite de amor dormindo nos braços de uma linda mulher da vida, na zona vizinha da igreja, acordou em desespero, sozinho, abraçado à cruz de uma sepultura, no cemitério vigilante...

Tudo farrapos do tempo, do medo civilizatório,  da imaginação sombria  e da existência solitária. A verdade é que há seculares betas de onde se extraiu muito ouro nas imediações do Largo do Carmo. Betas com galerias profundas que, descendo transversais, terra adentro, como ruas subterrâneas, transpassam o histórico e funeral subsolo rumo a si mesmas ou a lugar nenhum. Imponente, o cemitério existe e resiste. A zona boêmia, essa, existiu.

Voltando à realidade, veja, abaixo. imagens da coroação e da rasoura de Nossa Senhora, nos arredores da igreja do Carmo.

domingo, 10 de julho de 2011

Poucas palavras, de ferro e movimento, neste domingo de São João del-Rei

O trem de ferro de São João del-Rei, com sua serelepe Maria Fumaça, nâo carrega pessoas, cargas nem animais.

Carrega almas, lembranças e saudades.

Carrega alegrias de quem, vindo a passeio, de fora, vive pela primeira vez, no cheiro de fumaça
de óleo queimado, no calor do fogo e do vapor da máquina, no sacudido vai-e-vem dos vagões,
no galope veloz do Rio das Mortes, das lagoas, do gado e da Serra de São José, o que anima
e faz brilhar os olhos das crianças que, da beira da linha, das janelas sem vidraça e dos quintais,
acenam desconhecidas para quem vai mundo adentro, trilho afora. Acenam pesarosamente
para o tempo, dando adeus a sonhos e desejos que, pressentem, não vão se realizar.

Explicação de poesia sem ninguém pedir

Um trem de ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessou a noite, a madrugada, o dia
atravessou a minha vida,
virou só sentimento.




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PRADO, Adélia. Poesia Reunida, 1991:44. São Paulo, Editora Arx.
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Sobre o mesmo tema, leia também neste almanaque eletrônico:

sábado, 9 de julho de 2011

Há 35 anos São João del-Rei embarcou para os Estados Unidos. De Maria Fumaça...

A todo instante - e cada vez mais - se verifica que a quantidadede registros documentais sobre São João del-Rei existente na internet é desconhecida dos próprios são-joanenses e muito maior do que se pode imaginar.

Reportagens, monografias, teses, ensaios, filmes, vídeos, documentários são facilmente encontráveis e este expressivo volume está sempre a crescer, pois todo dia são acrescentadas novas publicações e postagens. Isto por si só prova a conveniência e necessidade de a cidade possuir um cadastro e arquivo oficial de todos estes registros, se possível na esfera do poder público, até com uma biblioteca ou banco de dados eletrônico e virtual que reúna e disponibilize toda esta podução.

O vídeo abaixo, por exemplo, produzido com material gravado em filme super 8 nos idos de 1976, foi editado em 1991 (portanto há vinte anos), divulgado nos Estados Unidos e disponibilizado no Youtube em janeiro deste 2011. Acesse e volte, duplamente, no tempo. Boa viagem ...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Em São João del-Rei, entre duas pontes, um mercado livre a céu aberto. Há 170 anos...

Ainda hoje surpreende e incomoda a muita gente o fato de - em pleno centro da cidade, nas proximidades da Ponte do Rosário, beira da praia, em rua nos fundos da antiga e nobre Rua da Prata - os carroceiros estarem sempre a postos, com seus veículos e animais. Oferecem cargas de areia e estão disponíveis para fazer qualquer tipo de transporte em suas primitivas carroças: pequenas mudanças, entulhos, cargas brutas, lixo, o que lhes for pedido...

Entretanto, o que pouca gente sabe é que, muito provavelmente, a origem desta situação esteja em uma decisão pública tomada exatamente há 170 anos atrás. No dia 7 de julho de1841, a Câmara de São João del-Rei deliberou "designar o largo entre as duas pontes - atual Praça Severiano de Resende - para a Praça do Mercado, ordenando que todos os carreiros e tropeiros se postem no mesmo lugar e aí vendam à miúdo ao povo, por 24 horas." As pontes, no caso, são a Ponte de Cadeia e a Ponte do Rosário.

Passaram-se quase dois séculos, modernizaram-se o espaço urbano e os meios de transporte. Mas a memória popular - movida pela necessidade de sobrevivência - evoca e vale-se inconscientemente de uma oitocentista deliberação da Câmara, editada em um momento em que a cidade enfrentava grave carência de gêneros alimentícios.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, 2ª edição revista e ampliada. volume 1. Imprensa Oficial, Belo Horizonte, 1982. Pags. 284 e 285.

Ilustração da abertura: Ponte da Cadeia  - Postal lançado pela Mercator. (cerca de 1970 . acervo do autor)

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Pequeno retrato sentimental e nostálgico de São João del-Rei


Como riqueza enterrada no quintal, segredo cúmplice irrevelável ou dinheiro guardado no colchão que dorme em quarto escuro - trancado a sete chaves -, ainda hoje em São João del-Rei uma emoção abissal costuma brotar furtiva, interiormente, como  mina d'água, e faz correr um sentimento nostálgico das veias aos corações são-joanenses, pulsem eles aqui ou em outros lugares.

Desejo do antes de tudo, lembrança do que poderia ter sido, saudade do que ainda vai ser, urgência do sempre-eterno. Tal emoção, fruto de uma história de fatos e sentimentos transmitidos trezentos anos de geração a geração, lateja secreta nos veios de ouro e na epiderme da Serra do Lenheiro.

Às vezes vaza em linhas, traços, símbolos e sinais, como no desenho acima e no poema abaixo.

Retrato de São João del-Rei

Aqui
em cada ponte
em cada esquina
em cada casa
tem uma cruz
para espantar o demônio.

Em cada cabeça
tem um sonho
em cada peito
tem um peso
e no coração
um sopro -
vontade danada
de ter vivido
e morrido
no tempo do ouro.
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Ilustração: Sagrado Coração de São João del-Rei - desenho de Toado de Castro / fevereiro de 1980 (acervo do autor).
Poema do autor (1979)

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Festa do Carmo: música barroca e fé ardente exaltam a mãe de Deus em São João del-Rei


Daqui a dois dias, a partir do dia 7 de julho, o Largo do Carmo de São João del-Rei ganhará nova vida. Várias vezes por dia os sinos tocarão entusiasmados, lembrando que é tempo de homenagear Nossa Senhora do Carmo. Muitas pessoas transitarão constantemente rumo à bela igreja setecentista, onde orações se ouvirão seguidas vezes e, à noite, na novena barroca celebrada desde o século XVIII, a fé e a arte se abraçarão mais irmanadas.

No lado direito da igreja, no largo limitado pelo respeitável, misterioso, opulento e inusitado Cemitério - com altos muros e portão de ferro encimado por uma caveira e dois ossos cruzados - barraquinhas recriam a inocência de velhos tempos. Vendem ingenuidade e doçura na forma de canjica branca, canjica morena, pés-de-moleque, cocada, quentão, doces, salgados. Para quem acredita na sorte, tem até uma tenda de inocentes jogos para unir e divertir os fiéis, depois que as invocações, ladainhas, bênçãos e incensórios barrocos tiverem acabado e só os sinos ainda insistirem em suas conversas.

Consta que, em 1727, agregada à Matriz do Pilar,  já estava constituída a Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, depois Venerável Ordem Terceira da Penitência de Nossa Senhora do Monte do Carmo, promotora da festa, que só termina no dia 16 de julho, com uma pomposa procissão.

Há mais de oitenta anos, a parte musical da novena é executada pela bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos. O repertório inclui peças compostas nos séculos XVIII, XIX e XX por músicos da região, entre eles Jerônimo de Souza lobo, Padre José Maria Xavier, Frei Alberto Nicholson e pelo maestro José Maria Neves.

Em 2010, contribuindo para a difusão e divulgação da cultura musical de São João del-Rei a Orquestra Ribeiro Bastos lançou o CD Novena do Carmo (documentação semelhante havia sido feita  nos anos setenta, em vinil). Obra preciosa, o CD pode ser adquirido diretamente na sede da Orquestra Ribeiro Bastos, no Memorial Dom Lucas Moreira Neves, no CEREM - Centro de Referência Musicológica José Maria Neves e na Secretaria / Casa Paroquial da Matriz do Pilar. Mais informações: (32) 3372-2011 e 9968-2307 /  studiovia8@hotmail e http://www.studiovia8.com.br/

Ouça, no link abaixo, um trecho da novena, executado pela Orquestra Ribeiro Bastos no coro da Igreja do Carmo, em 2008, sob a regência da maestrina Maria Stella Neves Valle.


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Ilustração da abertura: anjo de detalhe da portada da Igreja do Carmo (foto do autor)

domingo, 3 de julho de 2011

"A Senhora é Morta!" - Toque de sinos que só se ouve em São João del-Rei

 A linguagem dos sinos de São João del-Rei, por sua profusão, criatividade e complexidade, destaca-se muito ante os toques que ainda são executados em outras cidades coloniais mineiras. Dobres, tencões, terentenas, floreados, repiques e muitos outros ritmos executados no alto das torres são-joanenses transmitem mensagens e emoções, que vão do trágico ao festivo, do grave ao alegre, do alerta à meditação, do convite e chamado ao alarme e consternação.

Entre os vários toques dos sinos de São João del-Rei, o repique "A Senhora é Morta" é considerado dos mais belos. Executado unicamente na Matriz do Pilar, nas celebrações da morte de Nossa Senhora, quando começa a Vigília da Assunção. É tocado de hora em hora, a partir das 6 horas da manhã, no dia 14 de agosto - em honra de Nossa Senhora da Boa Morte -, até a hora do Glória da missa cantada no dia 15 de agosto, reverenciando a assunção de Nossa Senhora.

Segundo o Pequeno Glossário da Linguagem dos Sinos, é um toque exclusivamente são-joanense, não encontrado em outras cidades, e tem até autor: quem o compôs foi o escravo Francisco, propriedade da senhora Ana Romeira do Sacramento.

Ouça e veja, abaixo, o repique "A Senhora é Morta", executado pelos sineiros da Matriz do Pilar de São João del-Rei, em 2010.
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Fonte: Santa Rosa Bureau Cultural. Pequeno Glossário da Linguagem dos Sinos, pag.70. 2006.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Férias nos velhos tempos da infância em São João del-Rei


As redações - terror dos vestibulandos de hoje - eram uma prática comum desde o primeiro ano de alfabetização em São João del-Rei do século passado. Era um grande desafio, em um mundo então  concretamente minúsculo, aguçar a imaginação como guia para descrições que, falando de coisas não vividas e nem mesmo conhecidas, fossem um exercício de criatividade, narrando concretamente o que nem ainda era virtual.

Minas longe do mar, misteriosos, Minas e o mar. A televisão começando ainda a habitar as casas. Por isso, poucas crianças mineiras conheciam a praia, sequer podiam sonhar com sereias, conchas, estrelas do mar, tubarões, escafandristas, submarinos ou cavalos marinhos. Sabiam dos oceanos apenas pelos livros de Geografia.

Nas férias, alguns viajavam a visitar parentes na capital, a acompanhar os pais em viagem de trem ou ônibus a uma cidade vizinha. A maioria ficava mesmo era vasculhando o fundo dos quintais, observando a galinha chocar os ovos, a lagartixa a se esconder nos muros, vendo o fruto amadurecer aos poucos, no pé, pegando vaga-lumes para riscá-los na camisa em caudas de cometa, esperando os domingos, com sua macarronada, de tarde a matinê no cinema ou no circo, com picolé, drops e pipoca.

Tinha sorte quem podia fazer um passeio na roça, para visitar avô ou tios, brincar com primos, nadar nos rios, pescar nas lagoas e saudar  a vida que, recatada, ingênua e inocente, tinha medo de mudar para a cidade. Mas independente disso tudo, quando de novo chegava a hora de voltar às aulas, todos tinham uma história para contar, mesmo que mal tivessem se afastado de suas ruas.

A inspiração vinha de "gravuras" que, no flanelógrafo, estampavam alegres cenas da vida no campo, felizes piqueniques em família, sonhos de toda infância. Bastava isso para que descrevessem prazeirosamente o passeio que não fizeram no tempo do ócio, mas que faziam agora, na imaginação. Como na música Fazenda, que você pode ouvir abaixo, neste primeiro dia de julho - férias para muitos, alívio de infância para tantos.