sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Alegria, confete, folia e serpentina. "Embolada" de blocos no Carnaval 2016 de São João del-Rei

Impossível duvidar: o espírito do povo de São João del-Rei é barrocamente celebrativo e prova disto é o gosto das pessoas desta terra por manifestações coletivas que se concentram em largos e depois se arrastam pelas ruas, como por exemplo procissões, desfiles, cortejos, cordões e coisas assim.

É por este espírito celebrativo que o Carnaval de São João del-Rei sempre ultrapassa os tradicionais três dias de folia e em 2016, mesmo sem o brilho insubstituível das escolas de samba, durará nada menos do que 18 dias, ou seja, mais do que duas e meia semanas de alegria. Serão 47 blocos na rua, com nomes tão sem noção que até se embaraçam nesta segunda embolada. Quer ver?

Bora, à Zero Hora, tomar Birinight no Alambique, curtir Block'n Roll  até a Alvorada chegar, na maior e mais alucinada Tacofolia? Ora, esquece que você tem Copo Sujo e Banda Mole, é Lesma Lerda e vive na lama do maior Pantanal

Anima, vamos lá, Deixe o Mundo Girar até ficar tonto, redondo, virar Cambalhota, escorregar na casca da banana e engolir o caroço do Abacate, deslizar macio goela abaixo igual Cachaça com Mel. Mas depois, não Chora Borel! Olha lá, Se Mamãe Deixar, vou comer Arroz Doce com os Amigos da Regê, zoar muita Trincação até amolecer o Coração Rubro-Negro, amarrar o João Alvarenga com o famoso Cordão da Zona e internar na Santa Casa. Ele anda mal da Saúde, um verdadeiro Aragê escondido na Caixinha de Bambu enterrada lá na Chácara onde o Judas perdeu as botas, o Galo canta, janta e os males espanta.

Na Beira daquela Ponte tem muitas Domésticas escondendo as Pérolas no fundo da Mala, desembrulhando e chupando o Pirulito, lambendo os beiços e depois Arrastando o Resto para o animado e saudoso Carnaval de Antigamente. Falando nisto, Vamos a La Playa, lavar a roupa e a alma, surfar na onda e tomar uma Curimbada? Como "Custa Mas Vae", mas não custa nada, Só Não Vai Quem não Quer. É verdade,   Até Parece Mentira, mas, quem diria, eu vi o Gato de Botas soltinho, leve e pirado no Largo do Carmo, a milcercado de Piranhas aprontando sem dó nem vergonha  a maior Bandalheira: ê Trem Bão sô!...
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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: G-1



quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

São Sebastião, mártir glorioso, é festejado de ponta a ponta em São João del-Rei


Engana-se quem pensa que as festas em homenagem a São Sebastião acontecem apenas no centro histórico de São João del-Rei, onde o "Guerreiro de Cristo", desde o início do século XVIII, tem altar na igreja do Pilar, é celebrado com uma novena e sai às ruas em procissão, no dia 20 de janeiro. No coração colonial são-joanense, ele também tem um nicho lateral ao altar-mor da Capela do Divino Espírito Santo e, ainda, em uma peanha do altar lateral direito da igreja das Mercês.

Em outras partes da cidade, e até do município, o santo protetor contra a peste, a fome e a guerra também é querido e festejado. Um dos mais antigos distritos de São João del-Rei, por exemplo, chama-se São Sebastião da Vitória e certamente também realiza algum festejo em honra do santo, está presente no distrito do Rio das Mortes, em imagem no altar da igreja de Santo Antonio,  onde a beata são-joanense Nhá Chica foi batizada. E na urbana Paróquia de Matosinhos, a Comunidade de São Sebastião presta-lhe  calorosa prova de sua devoção.

São quatro dias animados, de 21 a 24 de janeiro, quando os devotos provam sua fé ao quarteto ali formado pelo Santo Mártir, juntamente com os santos negros São Benedito e Santa Efigênia e com Nossa Senhora do Rosário. Alvorada festiva, levantamento de mastros e bandeiras,  barraquinhas, missas, cortejos solenes, apresentação de grupos de congadeiros e uma procissão, em ruas e casas enfeitadas. É assim que aquela comunidade expressa sua fé, sua esperança e sua gratidão àqueles santos que fazem parte de seu cotidiano, regando dias e noites com orvalho de bondade e harmonia, iluminando sorrisos que brotam da alma e afastando para longe perigos e preocupações.

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Em São João del-Rei, no carnaval 2016 o Rei Momo está quase nu. Sem capa, cetro nem coroa!


Se tem uma coisa que são-joanense legítimo não recusa é celebração. Talvez no barroco Livro do Gênesis de São João del-Rei, o sopro de ar e vida que Deus deu sobre o homem deste lugar, além de insuflar os pulmões, tinha halos de espetáculos, de teatralizações, alegorias, encenações, metáforas, símbolos, representações. Por isto a cidade é tão festeira e não perde a oportunidade de mover-se em procissões, cortejos e desfiles, principalmente se forem desfiles de escola de samba, com suas batucadas, foguetórios...

Mas em 2016 não vai ter desfile de escola de samba em São João del-Rei o que, sem dúvida, é um imensurável retrocesso econômico-financeiro-cultural para uma cidade que precisa fortalecer seu destino turístico. Mas, mais do que isto, é uma mordaça e uma punhalada na alegria desta "terra querida e formosa".

Se as instituições, sejam elas quais forem, ou todas elas juntas, não propiciaram ou se dispuseram a promover os desfiles, cabe aos cidadãos são-joanenses cuidar para que a festa, mesmo espontânea e até improvisada, tenha brilho e dignidade. Que os foliões, ao mergulharem no espírito do carnaval, pensem também na civilidade, na cordialidade, no respeito, na brincadeira, na ludicidade, na criatividade e em tudo aquilo que pode tornar especial o Reinado de Momo, em um tempo em que o Rei Momo está quase nu:sem capa, cetro nem coroa.

Carnaval é brincadeira e fantasia. Isto mesmo, tempo de fantasia. Daquelas, que se usava nos bailes de salão de antigamente: ciganas, piratas, índios, colombinas, toureiros, havaianas, mágicos, odaliscas, sultões, anjos irreverentes, baianas, gênios e melindrosas e que, nas últimas décadas, foram padronizadamente substituídas pelo uniforme calção, bermuda, short, camiseta, tênis ou sandália havaiana. Nada mais. Se for só isso, mais cerveja, cachaça, caipirinha, cachaça com mel, capeta, batida, vodka e whisky baratos, os blocos de carnaval se tornam nada mais do que bandos de insanos, falanges de desesperados, facções de alienados e alucinados. E nisto, onde está a graça? Onde está a alegria?

Em duração, o Carnaval de São João del-Rei é generoso. Começa daqui a duas semanas e só termina em fevereiro, na Quarta Feira de Cinzas. Se duvidar, mais de vinte dias. Se for comparar com o que vem depois, é a metade do tempo da Quaresma.

Os foliões têm direito à alegria, mas também a obrigação de fazê-la, materializá-la e zelar por ela, com dedicação, satisfação, orgulho, auto-estima, amor próprio e beleza.

Os cidadãos têm direito à dignidade, ordem, estrutura, respeito, consideração, mas - sobretudo e principalmente - à segurança. Inclusive os foliões, que também são cidadãos.

É certo, está correto: nenhuma instituição pública tem por finalidade, obrigação, meta ou objetivo exclusivos e absolutos promover a alegria e a felicidade do povo.  Mas se elas cumprirem com eficácia suas missões já estarão contribuindo muito para que isto aconteça.

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: Gazeta de São João del-Rei - 25/02/2012

domingo, 10 de janeiro de 2016

Em São João del-Rei, janeiro é tempo do glorioso mártir São Sebastião

Estamos às vésperas da festa de São Sebastião, que começa amanhã com uma novena noturna, e toques de sinos ao meio dia, às três e às seis da tarde, na Matriz do Pilar. Em grande parte cantada pela Orquestra Lira Sanjoanense, com repertório composto por músicos são-joanenses especialmente para esta data, a novena (vídeo abaixo) se repete diariamente às sete da noite até o dia 19 - dia 20, consagrado ao santo a cerimônia é outra: uma procissão que sai pelo lado direito da Matriz à Hora do Ângelus e, ao som da Banda de Música, segue rumo ao Largo das Mercês, atravessa o Largo da Cruz, cruza o Largo do Carmo e retorna pela à Catedral, onde tudo termina com um Te Deum Laudamus.

Guerreiro, São Sebastião vence e afasta para longe a "peste, a fome e a guerra", pelo que sua devoção é muito difundida em São João del-Rei desde a época em que surgiu o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes.

Sua festa é das poucas que unem o erudito e o popular. Além da novena, procissão e Te Deum barrocos, São Sebastião é homenageado também com folias que percorrem casas e ruas dos bairros periféricos e desfilam na procissão, guarnecida pelas irmandades. Durante o cortejo, a folia segue em silêncio e assim muitas vezes permanece até quando, na chegada da procissão, fica por um tempo concentrada no adro da Matriz do Pilar. O silêncio é expressão de respeito, pois a folia é ritmada por instrumentos de percussão que a Igreja Católica de outrora julgava profanos.

Por ser um santo guerreiro, o andor de São Sebastião é enfeitado por flores vermelhas e carregados por soldados do Exército, fardados. Às vezes, a Banda de Música que toca durante o trajeto é também do 11º Batalhão de Infantaria e Montanha.

Por este ano acontecer em um dia útil no meio da semana, quando a vida urbana funciona normalmente, é possível que a procissão de São Sebastião não conte com a presença de todos os devotos do santo. Mas mesmo que não compareçam à igreja para seguir o andor da imagem e beijar a fita vermelha que pende do santo muitos são-joanenses elevarão o pensamento e alguns até farão o sinal da cruz quando os sinos da Matriz, das Mercês e do Carmo anunciarem a passagem da procissão e foguetes estourarem saudando o santo mártir, flexado, representado em uma das imagens mais antigas da Matriz do Pilar.

Salve o glorioso São Sebastião! Livrai-nos da peste, da fome e da guerra!

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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa


quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Em São João del-Rei, presépios são herança sentimental, ora se desbotando pelo tempo...

São João del-Rei é muito fiel às suas tradições, sobretudo àquelas espontâneas e singelas, impregnadas de emoções genuínas, ingênuas e desinteressadas. Em poucas palavras, às que expressam emoções simples e muito autênticas, impulsionadas por elos de cuidado, afeto e lembranças. Como por exemplo o Natal.

Literalmente, à sombra da Serra do Lenheiro Jesus nascia em humildes presépios todo dezembro, tanto nas igrejas suntuosas igrejas quanto nas casas mais pobres, abrigado por grutas de papel armado ou estrebarias cobertas com palha ou capim, encimadas pela Estrela Guia, de cinco pontas e com sua curva calda, pendendo para a direita, ou pelo anjo celeste, com sua fita "Gloria in excelsis Dei". Junto da manjedoura, além de José e Maria, alguns animais, pastores com seu mínimo rebanho e os três Reis Magos, que após o dia de Natal, pouco a pouco iam sendo aproximados do Menino, o que só acontecia de fato no dia 6 de janeiro.

Nas casas, montar o presépio era uma solenidade. Escolhido o local e ajeitado o abrigo, as imagens antigas iam uma a uma sendo desembrulhadas do jornal que as protegia na caixa de papelão onde ficavam o ano inteiro guardadas e colocadas cada uma em seu lugar, determinado pela posição de seu corpo. A decoração se completava com areia branca, "barbas de árvore", musgos secos e plantas rústicas, muitas vezes complementando a ambientação. Todo presépio tinha a dignidade e a sacralidade de um pequeno altar.

Mesmo nas casas onde não se montava o presépio, o Menino Jesus vinha para um local de destaque, forrado por toalhas de crochê, enfeitado com flores ou plantas vivas delicadas e também consagrado, onde a família fazia orações e acendia velas.

Entretanto a urbanidade, com seus novos valores estéticos, humanos e afetivos, pouco a pouco está apagando o significado do presépio entre as gerações atuais. Os pais mais jovens em geral não dedicam mais importância a criar esse cenário mágico, privando a criança daquilo que pode futuramente ser parte de um imaginário de afeto, esperança, humanidade e boas lembranças.

Mesmo que não seja mais com espírito de fé, continuar montando em casa um presépio toda época de Natal é uma atitude importante. Ao mesmo tempo em que acaricia o espírito e reacende esperanças, é um modo de manter viva a lembrança e a memória dos nossos pais e avós que, acreditando na magia do Advento, nos deixaram esta herança sentimental que o mundo moderno está nos roubando e consumindo tanto que, se descuidarmos, não deixaremos para nossos filhos e netos.

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Texto e foto: Antonio Emilio da Costa


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Democratizar mais a cultura de São João del-Rei. Compromisso há 5 anos levado a sério!

Na impermanência do mundo atual, com suas transformações velozes e radicais, ofícios, funções, serviços, profissões, produtos, materiais, tecnologias, empresas, organizações, técnicas e até mesmo verdades seculares caem por terra a todo instante. Prova disto é que a cada dia instituições tradicionais fecham as portas e até mesmo, segundo dados estatísticos, poucas são as empresas que, recém-criadas, conseguem ultrapassar três anos de vida. Assim, para um veículo eletrônico voltado para temas de interesse específico e muito restrito, comemorar com jovialidade o 5º aniversário de existência é, sem dúvida, uma grande vitória.

Diante disto, hoje é  dia de festa para o Almanaque Eletrônico Tencões e Terentenas que, há pouco mais de 3 horas, completou cinco anos de existência. O almanaque nasceu às 13h27min do dia 4 de janeiro de 2011, quando fez a primeira publicação, chamada Democratizar mais a cultura de São João del-Rei, ilustrada com a imagem acima. Nela, o almanaque já dizia a que veio: resgatar, divulgar e difundir a cultura e a memória de nossa cidade, visando contribuir para a elevação da auto-estima do povo são-joanense, para a valorização das tradições e da paisagem local e para a união e o comprometimento de todos em um esforço pela conservação e preservação do patrimônio vivo, material e imaterial de São João del-Rei.

Nestes 5 anos, foram publicados 734 posts, correspondendo a uma média de 147 posts por ano e 12,5 posts por mês, ou seja, 1 post a cada 2,5 dias. O número de visitas, totalizou 153.521, o que significa 30.704 ao ano, 2.560 ao mês, 85 ao  dia e 3,6 acessos por hora. Além do Brasil, o almanaque é também muito visitado nos Estados Unidos, Alemanha, Portugal, Ucrânia, França, Holanda, Canadá, Dinamarca e Índia.

Fatos históricos que remontam ao nascimento do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar e da Vila de São João del-Rei, histórias curiosas e situações pitorescas que aconteceram na cidade nestes três séculos de existência, as tradições esquecidas e as ainda hoje cultuadas, personagens heroicos, simples e populares de todos os tempos, signos, símbolos e sinais peculiares de nossa terra. Tudo isto transformam-se em posts neste Almanaque Eletrônico, que tem como url diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.

Cinco anos já se foram. Deseja-se que muitos cinco outros ainda venham. Neste e em outros formatos. Como por exemplo no Vertentes & Conexões Culturais de São João del-Rei https://www.facebook.com/vertenteseconexoesculturais/ , que divulga atualidades e o dia a dia da cultura, do patrimônio, da memória, das tradições, dos saberes e da riqueza cultural de nossa cidade e de nosso povo.

Entretanto, esta ação será tão mais interessante e seus resultados tão mais úteis e efetivos quanto mais contar com a participação de todos, colaborando com informações, dicas, livros e materiais que possam servir como fontes de inspiração e referência para posts e outros produtos a serviço de nosso bem maior: a cultura material e imaterial, popular e erudita, religiosa e profana, antiga e contemporânea de São João del-Rei.