quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Santa Casa de Misericórdia de São João del-Rei. 230 anos de existência. 197 anos de oficialização


197 anos. Este é o tempo que se passou desde que Dom João VI, no dia 31 de outubro de 1816, assinou Provisão confirmando a fundação da Santa Casa de Misericórdia da Vila de São João del-Rei. Mas o hospital já existia desde o século XVIII, mais precisamente desde 1783, quando foi criado pelo 'irmão da Misericórdia' Manoel de Jesus Fortes, com o nome de Casa da Caridade.
 
Um documento datado da época exata em que começou a funcionar o hospital, assim o descreve:

            ficava "em lugar próprio e acomodado, no qual [o irmão Manoel] fez 
            os cômodos necessários para 30 doentes, com todas as camas precisas 
            e distinção de lugares para pessoas de um e de outro sexo. A obra tem
            merecido aplauso de todo o povo.  
   
                        Por verem que sendo principiada em janeiro do presente ano de 1783, 
            logo para ela entraram enfermos aos quais até o presente momento    
            não tem faltado coisa alguma."
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira - Efemérides de São João del-Rei, volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

Quem escreveu, com letras arabescas, os primeiros capítulos da dourada história de São João del-Rei?

A história de São João del-Rei e tão antiga - e dá tantas voltas no tempo - que muitos nomes que a escreveram estão diluídos nos séculos, esquecidos das memórias, desconhecidos do são-joanense de hoje. Um deles é o do capitão José Álvares de Oliveira.

De origem legitimamente portuguesa, Álvares de Oliveira viveu em São João del-Rei por quase cinquenta anos, aqui chegando pouco depois da descoberta do ouro na Serra do Lenheiro e da criação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar. Aqui, teve participação destacada, como capitão, na violenta Guerra dos Emboabas, que aterrorizou a Capitania de São Paulo e Minas de Ouro entre 1708 e 1709. Com a instituição da Vila de São João del-Rei, em 8 de dezembro de 1713, foi eleito procurador da primeira Câmara e depois, em 1719, juiz ordinário do Senado da Câmara.

Em 30 de outubro de 1751, eleito fiscal da Real Casa de Fundição da Vila de São João del-Rei, não aceitou o cargo. Seu estado de saúde não era bom e, além do mais, a sensatez sabiamente lhe dizia que estava velho demais para desempenhar tão importante função.

Protagonista e testemunha da história são-joanense na primeira metade do século XVIII, Álvares de Oliveira escreveu A história do Distrito do Rio das Mortes, sua descrição, descoberta de suas minas de ouro, casos nele acontecidos entre paulistas e emboabas e criação de suas vilas. É uma obra rara e preciosa, que descreve com grande riqueza de detalhes os capítulos pioneiros da epopeia do ouro no Vale do Lenheiro. Por isso, é considerado por muitos, com absoluta justiça, o primeiro historiador de São João del-Rei.

Fica aqui, para os órgãos públicos encarregados pela  preservação e divulgação da memória nacional e para outras entidades que se dedicam à mesma causa um convite: localizar, restaurar e publicar esta obra, em versão fac-símile e atualizada. Seria um grande serviço à cultura de São João del-Rei, de Minas Gerais e de nosso país. Pena que o lançamento não possa mais ocorrer nas comemorações dos 300 anos de criação da Vila de São João del-Rei, mas no espírito de efeméride tão importante, fica lançada a ideia!
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Fontes: 
CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte. 1982.

GUIMARÃES, Geraldo. São João del-Rei, século XVIII - História Sumária.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Finados dias, de lembranças, dores, ausências e de saudades, em São João del-Rei

Novembro ainda se avizinha, mas já se sente um suspiro fundo no peito colonial de São João del-Rei. Um sopro no coração, barroco, de saudade. O décimo primeiro mês do ano traz consigo, como estandarte, o vazio deixado por aqueles que já se foram. A lembrança daqueles que não mais existem. Traz no ar o que Adélia Prado escreveu: "a ausência a ocupar todos os meus cômodos".

Nos dias que antecedem Finados, os são-joanenses já acorrem, preventivamente, aos cemitérios. Lavam e enceram os túmulos, espanam os crucifixos, avivam os nomes das placas, tiram fora as desbotadas flores de plástico. Vazias, as floreiras novamente serão enfeitadas com ramos da flor saudade na manhã do dia 2 de novembro, enquanto os sinos, de todas as torres, choram Exéquias.

Outubro de 2013. Em São João del-Rei ainda é assim...

domingo, 27 de outubro de 2013

São João del-Rei, setembro de 1993. Relembrar, para não esquecer! E cada vez mais aprender...


Há 20 anos, São João del-Rei foi manchete nos principais jornais impressos do país. Nos telejornais, não foi diferente: o nome da cidade era repetido várias vezes por dia. E não era por um fato glorioso ou um acontecimento à altura dos são-joanenses. Pelo contrário. O motivo de tamanho alvoroço  era  uma questão preocupante para o patrimônio arquitetônico-urbanístico do país, que colocava de um lado o poder público local e de outro o poder público federal.

Do que se tratava? Do asfaltamento da Rua Santo Antônio - uma das mais antigas e bonitas do centro histórico colonial, famosa por suas casas tortas e por ser endereço das sedes das duas orquestras mais antigas das Américas - a Lira Sanjoanense e a Ribeiro Bastos - e da centenária Banda de Música Theodoro de Faria.Temia-se que a rua, que fora trilha de entrada dos bandeirantes no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, em 1703, 290 anos depois servisse de caminho para o asfalto chegar definitivamente às ruas, becos, praças e largos da cidade que este ano completa três séculos de elevação a Vila.

A "demanda e a peleja" entre diferentes esferas legais e governamentais foram grandes e colocaram, de um lado, o prefeito municipal, Nivaldo José de Andrade, e, do outro, várias instâncias dos governos federal e estadual, bem como diversas entidades representativas da sociedade brasileira. Para se dar ideia da importância dos acontecimentos, pela defesa do patrimônio cultural,  estavam, entre outros, o Presidente da República, Itamar Franco, o Procurador Geral da República, Aristides Junqueira, o Ministro da Cultura, Jerônimo Moscardo, o Governador de Minas Gerais, Hélio Garcia, o Cardeal Primaz do Brasil, Dom Lucas Moreira Neves, os deputados Aécio Neves, Paulo Delgado e Antônio Fuzatto, o delegado da Polícia Federal, Egberto Azevedo, e todas as instituições públicas e privadas relacionadas à preservação da memória nacional.

Felizmente o asfaltamento não chegou ao percurso da rua onde a arquitetura é homogênea e, apesar de - à época - depreciar a imagem da cidade como conjunto histórico original e preservado, abriu ainda mais os olhos da sociedade são-joanense para o valor que tem o patrimônio cultural de São João del-Rei. E também para o dever - e direito! - que a cidade tem de preservá-lo. Além disso, deixou claro, para proprietários de imóveis de valor histórico e para gestores públicos, a responsabilidade de serem zelosos, cautelosos, informados e orientados tecnicamente em relação a tudo o que se refere ao patrimônio, à cultura, à história e à memória de São João del-Rei. Pois, mesmo sendo bens locais, dizem respeito, e portanto pertencem, ao povo brasileiro.

Para acompanhar, passo a passo, o enredo e desfecho desta história, basta acessar principalmente os arquivos do Jornal do Brasil, Jornal de Brasília, Folha de São Paulo, O Globo, Estado de Minas, O Estado de São Paulo e Correio Braziliense, no período de 21 a 30 de setembro de 1993.

Eis algumas manchetes:
. Itamar manda PF embargar obra em São João Del-Rey (CB, 24/09)
. Asfalto Selvagem (JB, 26/09)
. PF para obra em São João Del-Rey / Policiais cumpriram ordem direta de Itamar, mas o prefeito garante que está certo (JB,25/09)
. Itamar manda PF parar obra de prefeito de S. João Del Rey (JB, 24/09)
.Prefeito agride centro histórico ((JBr, 21/09)
. Prefeito desafia a Justiça (JB, 26/09)
. Ministro é encarregado de embargar asfaltamento (CB,23/09)
. PF não para asfalto em São João del Rey / Intervenção da Polícia Federal ordenada por Itamar visava interromper obra em rua do centro histórico (FSP, 25/09)


sábado, 26 de outubro de 2013

Corações negros de São João del-Rei teluricamente batem como tambor por Nossa Senhora do Rosário


Pela intensidade e fervor das manifestações religiosas que há mais de trezentos anos são realizadas em São João del-Rei - antes pelos escravos e, depois, por seus descendentes - logo depois que começa a primavera, em homenagem a Nossa Senhora do Rosário, pode-se dizer que outubro é o sagrado mês negro desta terra. Afinal, desde 1708 Nossa Senhora do terço é madrinha do povo que veio da África e há três séculos vive ao longo e em torno da Serra do Lenheiro.

Caixas, tambores, vozes, bandeiras, rosários, fitas, flores, espelhos, olhares - tudo ressoa, pulsa, vibra, brilha, tremula nos grupos de congada de São João del-Rei e arredores. Homens, mulheres, crianças, idosos, unindo ontem e hoje, dois tempos, neste mês se juntam em grupos e ternos para praticar uma devoção muito antiga, iniciada em 1208.Foi naquele distante ano que Nossa Senhora do Rosário apareceu a São Domingos de Gusmão e lhe entregou um terço de 150 contas. Isto, exatamente 500 anos de ser criada a Irmandade de Rosário dos Homens Pretos de São João del-Rei.

Passaram-se séculos e a tradição dos congados continua, tão autêntica, original, independente e pura como era antigamente. A mesma energia impulsiona o corpo, a mesma emoção arrepia a pele, a mesma emoção faz bater o coração dos congadeiros. Isto é o que mostra o DVD Esse rosário é meu, que colheu depoimentos de congadeiros de várias cidades do Campo das Vertentes, capitaneadas por São João del-Rei.

O DVD é um documentário precioso e foi lançado no mês de maio - também mês de Maria - no conjunto das atividades do Encontro dos Congadeiros das Vertentes, que deu origem ao site http://congadeironasvertentes.com/projeto/os-congadeiros-contam-que/ e merece ser visitado.

Amanhã, quando no entardecer do último domingo do mês de outubro, Nossa Senhora do Rosário sair de sua trissecular igreja e percorrer ternamente as ruas coloniais de São João del-Rei, que como sempre seja generosa com seu olhar para este povo que vive à sombra da Serra do Lenheiro. Principalmente para os negros, pretos, pardos, mulatos, criolos e morenos tão longo foi o caminho que percorreram para chegar até aqui e tão longe ainda se encontram de chegar ao lugar que merecem.

Assista, no link abaixo, na íntegra, o vídeo Esse Rosário é meu

http://congadeironasvertentes.com/documentario-esse-rosario-e-meu/

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Sobre o mesmo assunto, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/05/congadeiros-colorem-o-ceu-o-chao-e-o.html

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/10/em-sao-joao-del-rei-no-mes-de-outubro.html


quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Líricos e poéticos becos de São João del-Rei: Beco do Salto, veiazinha de um coração colonial

O Beco do Salto é como uma veiazinha estreita e acanhada, na aurícula mais colonial do coração histórico de São João del-Rei. Unindo a Rua Santa Teresa à Rua Santo Elias e desaguando em esquina da casa mais antiga da cidade, tem por vizinhos próximos, quase porta a porta, uma grande pedreira com uma mina de ouro, a igreja e o Cemitério do Carmo, o Chafariz da Municipalidade, o Largo da Cruz, o Largo do Carmo e a Sociedade de Concertos Sinfônicos de São João del-Rei.

Tão grande e por tanto tempo foram sua timidez e autoabandono que suas casas quase se autoarruinaram. Hoje, com restaurações, estão novamente reforçando sua face de outros tempos. A memória nacional ganha com isto.

Personagens famosos, verdadeiramente importantes na cultura musical de São João del-Rei, moradores de um pequenino sobrado no Beco do Salto, foram o violinista Geraldo Ivon da Silva, o Geraldo Patusca, e sua primeira esposa, Maria José, a Maricota - ambos músicos da Orquestra Lira Sanjoanense. Ali, sob estampas de São Miguel Arcanjo, atacando o demônio, e Santa Cecília, dedilhando sua harpa, Patusca dava aulas de música. Na orquestra mais antiga das Américas, por mais de sessenta anos, foi o primeiro violino, tendo ao lado Maricota, que o acompanhava com arco e viola.

O Beco do Salto é das vielas mais curtas e estreitas existentes em São João del-Rei. De esquina a esquina, tem apenas seis casas de não mais que uma porta e uma janela. Daí pensar-se que seu nome não deriva da conhecida parte destacada da sola dos sapatos, mas sim dos poucos passos que se precisa dar para atravessá-lo de ponta a ponta. É um pulo!

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Saúde pública e serviço social nas primeiras décadas da Vila de São João del-Rei



A elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à categoria de Vila, em 8 de dezembro de 1713, deu a São João del-Rei, não somente um novo status sócio-geopolítico-administrativo na Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. Possibilitou e favoreceu a implantação pioneira de alguns serviços públicos essenciais que, como sementes do respeito ao direito de cidadania, proporcionavam melhores condições de vida aos que habitavam nas cercanias da Serra do Lenheiro.

Um destes serviços foi a saúde. Consta que em 22 de outubro de 1718, portanto há 295 anos, a Câmara contratou o médico português José de Macedo Correa, formado pela Universidade de Coimbra, para "curar os pobres de graça". Por este trabalho ele receberia, anualmente, 1 libra de ouro. Foi, assim, Dr. Macedo o primeiro médico que se instalou na Vila de São João del-Rei.

Para esta contratação, a Câmara tinha um bom argumento: "estavam morrendo muitos escravos, por não haver quem lhes conheça os achaques para os curar, e mesmo muitos brancos se veem precisados a retirar-se para a Cidade do Rio de Janeiro, para se curar".

Com a mesma intenção, no dia seguinte, agora no ano de 1769, a Irmandade de São Miguel e Almas contratou o cirurgião José da Silva Lapa e o boticário Amado da Cunha Barreto "para prestarem assistência gratuita aos enfermos pobres". Comprometida com causas sociais, a Irmandade das Almas chegou a construir o alicerce, em terreno doado pelo Senado da Câmara, daquele que seria o primeiro hospital da Vila de São João del-Rei.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

sábado, 19 de outubro de 2013

Em São João del-Rei, no mês de outubro, salve Nossa Senhora do Rosário!

Em São João del-Rei, antes que em qualquer outro lugar de Minas

                     "Bendito, louvado seja ô ganga,
                       o rosário de Maria!
                       No mundo, já era noite, ô ganga.
                       Lá no céu, parece dia...

Foi por meio de nossa cidade que a Senhora do Rosário desceu nas terras mineiras. Antes que surgisse o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, ela ainda não havia chegado nas regiões onde o ouro brilhava qual as estrelas. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São João del-Rei é a mais antiga de Minas Gerais. A segunda mais velha do Brasil. Como não se orgulhar disso? Como não ser grato à Senhora do Rosário por esta preferência pelos são-joanenses, a quem, desde a madrugada do século XVIII, oferece o Menino Jesus e o rosário da salvação? Como não se rejubilar por esta distinção?

A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Negros de São João del-Rei foi fundada em 1708, quando fervia na região a sangrenta Guerra dos Emboabas. Nenhuma vila tinha sido instituída na Capitania de São Paulo e Minas de Ouro. Isto mostra que os negros africanos fixados naquela região, posicionando-se além da condição de escravos, estavam organizados a ponto de criar uma entidade de representação legítima, reconhecida pela Igreja colonial. Tanto que instituíram uma irmandade - o que era alheio à sua cultura - antes mesmo que os negros dos demais arraiais mineiros e que os brancos do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes fundassem a Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Como outubro é o mês do Rosário, São João del-Rei celebra com muita devoção e entusiasmo Nossa Senhora que tem esta invocação. Sobretudo nas periferias e distritos do município, as congadas tocam caixas e entoam cantos muito antigos, que bem lembram o tempo da escravidão. Vestidos de branco, com saiotes ou não, e com chapéus enfeitados de flores, fitas e espelhos, os congadeiros, em sua maioria homens, realizam cerimônias plenas de fé, respeito, magia, mandingas e encantamentos. Por meio da congada eles voltam à mãe-África e reafirmam, teluricamente, suas origens e identidades.

No centro histórico, as celebrações têm cunho barroco. Missas, reza do terço, toque de sinos, música de orquestra colonial, procissão, queima de fogos e canto do Te Deum Laudamos. Este ano, a Irmandade do Rosário homenageia Monsenhor Sebastião Raimundo de Paiva - Padre Paiva, como atende e é querido por todos.

Em 2013 comemorando 60 anos de sacerdócio, Padre Paiva é um dos baluartes da tradicionalidade das celebrações de São João del-Rei. A ele, os são-joanenses devem, além da preservação dos ritos barrocos das festas religiosas, entre outras ações e posicionamentos, a criação do Museu de Arte Sacra e o resgate, a recuperação e a restauração dos altares e teto que motivaram a construção da capela do Divino Espírito Santo.

Por tudo isso, que Nossa Senhora do Rosário conceda ao hoje octogenário Padre Paiva um ano de vida em cada conta do terço que ela e o Menino Jesus, generosamente, oferecem aos são-joanenses, faça sol, faça lua ou faça chuva. O terço tem mais de150 contas...

Em louvor a Nossa Senhora do Rosário e em homenagem a Padre Paiva, clique no link abaixo e ouça um tencão  e um floreado,tocados magistralmente nos sinos da Igreja do Rosário de São João del-Rei e gravado por Helvécio Benigno.





terça-feira, 15 de outubro de 2013

Líricos e poéticos becos de São João del-Rei: Beco do Capitão do Mato do sagrado ao pecado, perdição


Entre os velhos becos da colonial São João del-Rei, um era o mais desgraçado. Caminho da maldade e do pecado, era o Beco do Capitão do Mato.

Numa ponta, imaculada, a pureza e a bondade. Torre branca, muitas portas, tudo para a capela do Santíssimo Sacramento, em eterna adoração, na igreja do Carmo. Na outra, pura obscuridade: mulheres de vida livre, serenatas, rufiões, risadas, bandidos, gemidos, pervertidos, miseráveis, jogatinas, cachaçadas. No caminho de pedra e poucos passos, entre virtude e desgraça, morava a crueldade do solitário capataz que a alma ao diabo, em troca de ouro, entregara.

O tempo passou. Adeus Margarida Tomba-homem. Adeus Helena dos Cachos. Adeus Índia Paraguaia. Adeus escravidão. Adeus capitão do mato...

Estreito e simpático, entre a igreja do Carmo e a Rua da Cachaça, o Beco do Capitão do Mato é hoje uma rota inocente, de pedra calçada. Tanto que, na voz do povo, tem nome infantil: Beco da escadinha, Beco do Carmo. Visto da parte mais alta, parece um minúsculo teatro de arena, abrindo para um cenário barroco de casinhas singelas, com portais coloridos, onduladas beiras-seveiras, pingentes lambrequins, sanefas rendilhadas.

Suas casas têm cruz de papel repicado na porta. Sente-se, nele, coloridos vasos floridos que não há. Ouve-se, nele, música suave que ninguém toca ou canta. Do pecado, nem mais sinal nem lembrança. Hoje, quando ninguém está vendo, é atalho de anjos dourados que, apressados, cortam as ruas rumo aos altares do Carmo.
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Fonte: GUIMARÃES, Fábio Nelson. Ruas de São João del-Rei. Fundação de Apoio à Pesquisa, Educação e Cultura - FAPEC São João del-Rei / Fundação Mariana Resende Costa. Contagem, 1994.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Líricos e poéticos becos de São João del-Rei: Beco Sujo tem flores de cidadania e civilidade

Por mais belos e delicados que pudessem ser, antigamente, em São João del-Rei, becos não eram locais nobres. Eram como atalhos, vielas que não alcançaram a condição de rua, tamanhas sua estreiteza, pequena extensão e desprezada importância. Gente de bem não morava em beco.

Na velha São João del-Rei, também não costumavam ser caminhos por onde passava quem queria ou podia ser visto. Muito pelo contrário, estes trajetos traziam em sua reputação algo de clandestino, escuso, suspeito, condenável. No discurso popular "campear nos becos", não era coisa de gente direita, decente, bem-intencionada. Mas os becos sempre foram locais poéticos, singulares, autênticos caminhos que levavam  sorrateiramente a seu destino quem, por pressa, vergonha, acanhamento ou atitude duvidosa, não desejava ser interrompido ou reconhecido.

À noite eram (e ainda hoje são) caminhos arriscados. Ninguém nunca sabe o quê nem quem pode encontrar em uma curva fechada e estreita, em um ângulo agudo, por sua sinuosidade às vezes mal iluminado. Por isso, neles podiam estar espreitando a má surpresa, o azar, a emboscada e o perigo. Cruz Credo! Creio em Deus Padre...

Mesmo com a urbanização, muitos becos sobreviveram ao progresso e mantiveram o traçado irregular e espontâneo dos tempos coloniais. Este da foto, por exemplo, é o Beco Sujo - tão antigo e central quanto sem nome mais pomposo. Faz uma ponte entre a Rua Padre Faustino e a Praça Dr. Antônio Viegas, no centro, passando pelo Morro Manuel José. Sua travessia era perigosa porque contornava o precipício de uma beta de ouro, fechada e não mais ativa.

Hoje não merece mais o nome que tem. A civilização e a urbanidade livraram-lhe do castigo de ser uma latrina a céu aberto. E a moradora Dinha - da Carmélia e do Machadinho - adotou-o como entrada de sua casa. E, alegre, cantarola ao varrê-lo toda manhã, quando também joga água em sua areia para não formar poeira. Até construiu uns degraus que lhe deram solenidade. Tão limpinho e bonito está que parece Dinha ter plantado neste jardim de sua casa flores de cidadania e civilidade. Um jardim imaginário que perfuma quem por ali passa...

domingo, 13 de outubro de 2013

Tapetes de flores de São João del-Rei: arte-manifesto lembra que "os sonhos não envelhecem"

Areia, serragem, sementes, flores. Gestos delicados, contornos cuidadosos, concentração, cordialidades, sorrisos. Cores. Muitas cores, escorrendo entre os dedos a formar símbolos sagrados, paisagens celestiais, querubins, cálices, pietás, sudários, estrelas, rocalhas, volutas, rendilhados. É deste modo que o céu desce ao chão em forma de tapete processional e se alastra nas ruas de pedra durante as festas religiosas de São João del-Rei.

Mas como tudo na cidade, esta história já vem de um bom tempo. E o tempo passa a favor de São João del-Rei.  Este ano, quando se completam 300 anos da elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes a Vila de São João del-Rei, completaram-se, no mês de abril, 30 anos da re-criação dos tapetes de serragem e flores como expressão artística, arte-manifesto em favor da preservação e valorização turístico-cultural da quarta vila do ouro instituída em Minas Gerais.

Tudo começou em 1983 numa conversa de jovens que começou em uma exposição de arte e artesanato mineiro e se prolongou entre cervejas numa mesa de bar. "Nada de novo existe neste planeta que não se fale aqui na mesa de bar", naquela época cantava Milton Nascimento. Mas muita coisa às vezes se renova a partir de uma conversa de amigos na mesa de um bar.

Foi isto o que aconteceu: fruto de uma conversa apaixonada, traçaram-se novos rumos para os tapetes de flores e serragem que até então decoravam o trajeto barroco por onde passavam andores enfeitados, anjos e personagens bíblicos das procissões são-joanenses.

O sonho foi tão iluminado que já atravessou três décadas e hoje constitui uma das mais belas e peculiares expressões artísticas coletivas de São João del-Rei. Cumpre funções múltiplas e quer em beleza, esplendor, originalidade, proposta estético-social, democracia, participatividade e tantas outras, torna São João del-Rei uma cidade singular no conjunto das demais cidades históricas brasileiras.

A história completa desta nova forma de expressão da arte coletiva de São João del-Rei você pode ler no artigo "Vistos assim, do alto, mais parecem o céu no chão...", publicado nos seguintes links:

          http://saojoaodelreitransparente.com.br/works/view/61

         http://www.gazetadesaojoaodelrei.com.br/site/2013/10/especial-300-anos-vistos-assim-do-alto-mais-parecem-o-ceu-no-chao/


A foto, do arquivo de Rita Hilário, mostra o grupo de amigos, jovens bandeirantes desta empreitada, em 1984, segundo ano em que os tapetes de rua ganharam novo conceito e finalidade. Na Semana Santa daquele ano foram confeccionados dois tapetes figurativos, em dias alternados: a Rua Santo Antônio e o Arcanjo em detalhe.



sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Crianças: a Arca da Memória de São João del-Rei

Quando se fala na preservação da memória e perpetuação da cultura de São João del-Rei, não se pode esquecer de um segmento muito importante: as crianças. São elas que, por gerações, levarão acesa na lembrança a chama da história do que nos legaram nossos antepassados. Que perpetuarão séculos afora, com amor, zelo e compromisso, as crenças, esperanças, tradições, sabedorias e saberes aqui construídos e cultivados há mais de três séculos. O dia 12 de outubro - Dia da Criança - é bom para se lembrar disto.

Pensando assim, é preciso cada vez mais inserir a criança no universo cultural de São João del-Rei. Nas tradições barrocas, como as procissões e outras festas religiosas. Nas expressões populares, como congada, folia de reis, carnaval, artesanato. Em todas as artes, sejam música, teatro, literatura, dança ou artes plásticas. Na gastronomia...

Na vanguarda de outras cidades, São João del-Rei já desenvolve algumas ações neste sentido. Em relação aos tapetes processionais, isto já é feito toda Semana Santa pela ONG Atitude Cultural, que também inclui as crianças no Carnaval de Antigamente. Sabe-se, ainda, que alguns museus desenvolvem ações de educação patrimonial, promovendo visitas guiadas de turmas de escolas públicas a estes espaços de memória e a áreas do centro histórico local. Mas São João del-Rei precisa - e pode! - fazer mais.

Qual são-joanense, quando criança, não se encantou com o toque dos sinos? Não despertou do sono matinal para atender ao apelo convidativo que vinha do apito da maria fumaça? Não viu brotar água na boca diante da nuvem de algodão doce que surgia na bacia que rodava na carrocinha e do cheiro inigualável do beijo quente que misturava coco,afeto e açúcar queimado? Não desejou tanto ganhar cartucho ou carregar turíbulo de incenso em brasa e naveta de prata nas procissões? Desde cedo, na identidade são-joanense, cultura, memória, patrimônio e tradições, mais do que as linhas da mão, são nossas próprias impressões digitais.

Hoje, nota-se pequena participação infantil protagonista nas manifestações culturais de São João del-Rei, sejam nas barrocas, como meninas (e também meninos) vestidos de anjo nas procissões ou meninos (e também meninas) tomando parte em irmandades, seja nas populares, meninos e meninas, nos grupos de congada e folias de reis. Mas este quadro pode mudar. Basta que os adultos tomem a iniciativa e façam sua parte,  incentivando e facilitando para que seus filhos, sobrinhos e netos comecem a enriquecer sua história pessoal fazendo parte de tradições tão importantes e únicas, como as de São João del-Rei. E que neste sentido tenham apoio de irmandades, grupos de congada e folia, corporações musicais e outras entidades envolvidas.

Lembrança temporã - Empreendimento precioso, merecedor de todo reconhecimento, foi a criação do grupo Pastorinhas do Menino Jesus, por dona Júlia há mais de 30 anos. Reunindo crianças da Ponte das Águas Férreas, no bairro Tejuco, as pastorinhas alegraram o ciclo do Natal de muitos são-joanenses. Tomara que voltem em 2013!

Veja, numa reportagem da TV Campos de Minas, a participação de crianças no Congado do distrito são-joanense de Rio das Mortes
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Foto: Anjinhos na procissão do Senhor dos Passos - 1999. Cortesia Ulisses Passarelli


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Belos e férteis quintais. Ainda existem paraísos intimistas no centro urbano de São João del-Rei

São João del-Rei surpreende. Na maioria das vezes, de onde menos se espera, salta uma visão inesperada que mostra a renovação pela qual a vida sempre brota naquele - e daquele -lugar. Remanescentes de velhos tempos e resistentes às atuais pressões por mais espaço residencial, os quintais nos dizem isso. Dizem também - e tão bem - que é possível alcançar o que Bachelard sentenciou: "O universo tem um destino de felicidade. O homem deve encontrar o Paraíso." É só acreditar e persistir...

Mas também em São João del-Rei o crescimento populacional impulsiona a demanda pelo aumento das áreas habitacionais, fazendo com que, cada vez mais, as casas cubram espaços que antes tinham céu aberto. Cimentem canteiros e cresçam verticalmente. Com isso, se domestica e urbaniza o que antes era celestial. Perde-se a porção do Éden que havia no pequeno território familiar e intimista, antes povoado por muito do que Deus criou no começo do mundo: laranjeiras, roseiras, orquídeas, hortências, pés de couve, de chuchu, de manjericão, de alecrim, de boldo, de jasmins, de manacás, goiabeiras, pitangueiras, parreiras e alfazemas. Se organiza e burocratiza o que antes era parque de diversões de cantores canarinhos, saguis acrobatas, pesados jacus, sorrateiros, assustados e fugidios gambás.

Só que, como "O universo tem um destino de felicidade", em São João del-Rei nem tudo está perdido. Em ruas nem tão centrais e nos bairros, há quem ainda cultive, guarde e habitqe o Paraíso - imagem e semelhança do quintal ilustrado acima. A foto aconteceu na metade de um inverno, em uma rua que parte de uma esquina da Avenida Presidente Tancredo Neves, se benze na encruzilhada de uma cruz de asfalto, pedra e madeira Pau D'Angá, olha ladeiras que levam a betas de ouro extinto e se recolhe quieta junto a uma infantil cascata, que escorre para um lugar onde chamam Bica da Prata.

Clique no link abaixo e ouça a música Quintais, cantada por Gonzaguinha.  http://som13.com.br/gonzaguinha/quintaiso-meu-aboio

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Um canto de louvor e gratidão, de São João del-Rei, para sua áurea, excelsa e espanhola padroeira

Outubro, mais precisamente no dia 12, é a data consagrada à padroeira de São João del-Rei, Nossa Senhora do Pilar. Contam que a Virgem aqui chegou em imagem primitiva, trazida pelos próprios bandeirantes, a quem protegia de perigos, tristeza, violências, emboscadas, animais peçonhentos, maus pensamentos e infortúnios. Em troca, de início eles lhe construíram uma capela, incendiada em 1709, no final da Guerra dos Emboabas.

A matriz atual, dedicada à Virgem espanhola começou a ser construída em 1721 e é um dos mais belos templos do barroco brasileiro. Nela acontecem as principais cerimônias da Semana Santa mais tradicional do Brasil, algumas únicas em todo o mundo. Volta e meia ali se ouve a música colonial de uma novena, dobres e repiques de sinos em tencões e terentenas. Da Matriz do Pilar sempre sai uma procissão...

Como aqui se repete há quase 300 anos, a novena de Nossa Senhora do Pilar começa no dia 3 de outubro e vai até o dia 11, véspera da data maior. A parte musical, composta no século XVIII, é executada magistralmente pela Orquestra Lira Sanjoanense, que também se encarrega da missa barroca cantada e do Te Deum Laudamus, que, após a procissão, encerra as celebrações no anoitecer do dia 12.

Coincidência ou não, Nossa Senhora do Pilar é também a padroeira da Espanha e 12 de outubro  é a data nacional daquele país.

Numa homenagem a tão preciosa devoção são-joanense, um registro da Festa do Pilar 2012 quando, no encerramento da missa solene, orquestra e povo cantam o hino da padroeira, tendo ao fundo o repique dos sinos.



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Veja que curiosa história pitoresca se passou na Matriz do Pilar de  São João del-Rei em 1844:

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

São João del-Rei, enternecida, lembra a morte de São Francisco de Assis


Neste dia 4, desde cedo, em São João del-Rei, os sinos das altas torres do templo franciscano tocam graves, compassados e langorosos para lembrar aos são-joanenses que no dia 3 de outubro de 1226 - portanto há 787 anos - morria, irmão da água e do fogo, da Terra, da Morte, do Sol e da Lua, São Francisco de Assis.

Mesmo que seja azul e iluminado, o dia escorre triste no jardim em forma de lira, tendo palmeiras como cordas. Esparsamente, pessoas atravessam largo e adro, entram na igreja sombria e silenciosa  e levam orações para o santo, penitente, piedoso, magrinho e de hábito preto, austero e solitário em seu andor. Já no século XVIII era assim.

Às três da tarde, os sinos tocam mais insistentes e mais tristes ainda. É hora de celebrar o momento em que São Francisco - em imagem deitado no chão da igreja - deixou este mundo. Em volta, também de hábitos pretos, irmãos e irmãs da Ordem Terceira oram contritos em memória da sentida passagem.

Pouco depois, no adro da igreja, os animais são abençoados, em reconhecimento à sua pureza e inocência. Gotas de água benta respingam também em seus donos, lembrando-lhes do humilde pedido que a Deus fizera o santo:

                              "Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz. 
                               Onde houver ódio, que eu leve o amor. 
                               Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. 
                               Onde houver tristeza, que eu leve alegria. 
                               Onde houver dúvida, que eu leve a fé".

Logo que anoitece, na igreja de São Francisco tem missa solene e barroca, ao som de instrumentos e vozes da bicentenária Orquestra Ribeiro Bastos. Depois rasoura pelas ruas coloniais e, para encerrar, de volta ao templo, canto do Te Deum Laudamus.

São Francisco é caridoso. Estende uma mão para Cristo crucificado, de quem recebeu as chagas, e a outra para o povo de São João del-Rei, a quem abriga em seu coração.
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Neste vídeo, passeie virtualmente pela igreja de São Francisco de Assis de São João del-Rei. Risco de Aleijadinho e obra de Francisco de Lima Cerqueira e Aniceto de Souza Lopes.


Para finalizar, ouça, abaixo, uma homenagem de Milton Nascimento a São Francisco, na voz de Mônica Salmaso. De tão delicada e bela, é quase uma sonora oração.




quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Outubro Rosa em São João del-Rei." Todo dia é dia, toda hora é hora de saber que este mundo é seu"!



Todo mês de outubro, em muitas das grandes capitais brasileiras, os mais belos e principais monumentos públicos recebem iluminação noturna especial, rosada, como parte da campanha de prevenção do câncer de mama. É o movimento nacional conhecido como Outubro Rosa.

Em São João del-Rei, independentemente da época do ano e do horário do dia, muitas pessoas, por puro deleite, pintam as fachadas de suas casas de cores vivas e variadas, em tons vibrantes: vermelho, verde, abóbora, azul, amarelo, abacate, hortência, ocre, cereja, ferrugem, laranja, lilás, rosa, terra - sem qualquer pudor ou constrangimento.

Agindo assim, buscam deixar mais alegres a vida e a paisagem, fazendo cumprir o que sentencia uma antiga constatação poética de Antônio Marcos Noronha:

                                "Era dia comum 
                                  e virou festa.
                                  A gente põe nas coisas 
                                  as cores que tem por dentro."
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Fonte: NORONHA, Antônio Marcos, in Momentos de Minas. Editora Ática, São Paulo, 1984.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A História de São João del-Rei é feita de muitas histórias. E também de belas estórias...


Desde que no alvorecer do século XVIII Tomé Portes del-Rei fincou pé nas margens do Rio das Mortes, cobrando pedágio pela travessia fluvial que levava às portas do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, até a mais recente badalada dos sinos da Matriz do Pilar, muitos personagens estão - há mais de 300 anos, na lida do seu dia a dia - a escrever a história de nossa terra.

Brancos, negros, mulatos, morenos, criolos. Nobres, proscritos, desbravadores, déspotas, clandestinos, bandeirantes, sacerdotes, escravos. Livres, cativos, forros, libertos, sonhadores, serviçais. Intelectuais, iletrados, artistas, artesãos, analfabetos, escultores, músicos, cientistas, inventores de estórias que mais parecem a própria vida.

Depois de Tomé Portes, ainda no Arraial, a Guerra dos Emboabas, certamente acendeu o lume para a instituição da vila de São João del-Rei. Em 1717, o Conde de Assumar esteve aqui e foi saudado com a música do mestre Antônio do Carmo. Gostou tanto que voltou outras vezes. À época, aqui se destacou Maria Viegas, escrava liberta e mulher libertária, que formou filho padre e deixou portentosos testamento e inventário. Em 1746, Tiradentes nasceu nas terras da Vila são-joanense, que foi berço de Bárbara Heliodora e de seus filhos com o inconfidente Inácio José de Alvarenga Peixoto. No vale do Lenheiro também despontou e refulgiu o gênio de Francisco de Lima Cerqueira.

Mais uma vez, agora na virada do século XVIII, negros e mulatos firmaram a cor da história de São João del-Rei, escrevendo-a em pautas musicais, em recortes na pedra, na ourivessaria, no sopro e na corda dos instrumentos. O povo são-joanense começou a construir e consolidar sua identidade cultural ainda nos tempos do Brasil Colônia.

Ao longo do século XIX e no século XX, enriqueceu-se a história de São João del-Rei com a chegada dos imigrantes, principalmente  sirio-libaneses, árabes e italianos.  Mais são-joanenses continuaram trazendo novas contribuições para a cultura de nossa terra, alguns deles até transcendendo os limites da Serra do Lenheiro e destacando-se  nos mais diversos setores da vida nacional - na política, no direito, nas artes, na educação e nas ciências.

O nome de muitos facilmente nos salta do pensamento pela lembrança de suas imortalizadas obras, antigas ou recentes, e também de sua vanguardista atuação: padre José Maria Xavier, Aniceto de Souza Lopes, Venâncio do Espírito Santo, Jesuíno José Ferreira, Martiniano Ribeiro Bastos, Baptista Caetano de Almeida, Nhá Chica, Presciliano Silva, Ireno e Luiz Batista Lopes, Alexina Pinto, Lincoln de Souza, Dom Lucas Moreira Neves, Dr. Paulo Lustosa, irmãos Teixeira, Tancredo Neves, historiadores Sebastião Cintra e Fábio Nelson Guimarães, maestros Telêmaco Neves, José Maria Neves, Sílvio Padilha e Pedro de Souza, maestrina Maria Stella Neves Valle. A estes se somam os nomes do artista plástico Marcos Mazzoni, dos violinistas Japhet da Conceição e Geraldo Ivon da Silva - Geraldo Patusca -, do compositor Agostinho França, do capitão de congada Luís Santana e de tantos outros protagonistas que em corpo não estão mais entre nós.

Há aqueles que, sem ter nome oficializado pela historiografia oficial, fazem parte da memória sentimental e afetiva de São João del-Rei e reticentemente vêm sendo perpetuados pelo carinho da lembrança dos mais vividos. Entre eles, vagueiam João Catuta,  Elefante sem rabo,  Dona Maria Baronesa,  Chico Brugudum,  Maria Cachorra,  Periquito da Bateia, Nico Bunda, Henrique Parreira e  todos os anjos populares que, em nossa terra vivendo outro tempo e outro mundo, hoje dormem ossos misturados nos ossuários gerais.

Nonagenários, octogenários, septuagenários, idosos, maduros, jovens (graças a Deus muitos jovens!), a cada dia muitos são-joanenses continuam escrevendo, na sua lida cotidiana, a valorosa história de São João del-Rei. Brancos, negros, mulatos, morenos, criolos. Nobres, pobres, famosos, anônimos, vaidosos, humildes, analfabetos, trabalhadores braçais, serviçais. Intelectuais, iletrados, artistas, artesãos, analfabetos, escultores, músicos, cientistas, inventores de estórias que mais parecem a própria vida.

Todos eles são patrimônio cultural de São João del-Rei!...