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Letras de amor e dor, em bico de beija-flor. O coração do navegante negro em São João del-Rei

Letras do tempo, escritas com lágrima e dor nas páginas obscuras, sombrias e esquecidas da história do Brasil cochilam sossegadas, longe dos olhos e da memória, guardadas em algum lugar de São João del-Rei. Uma fita ondulante, erguida no bico de dois beija-flores,  mais parece uma pauta musical. Nela, as notas são quatro letras que escrevem, acentuada, a palavra Amôr. Logo abaixo, um coração flamejante, apunhalado e sangrante, tem ao lado ramos de flores humildes, um passarinho triste e uma borboleta quase sem vontade de voar. Tudo no centro de uma pequena toalha de algodão branco, hoje amarelado pelo passar dos longos dias e dos anos lentos e distantes. - Mas o que é que esse pano, esse bordado, tem de tão importante para almejar estar guardado em museu? - Ora, esta toalha é uma página da história. Aqui anda meio jogada, desprezada, mas se outros lugares soubessem dela, certamente seria muito disputada... - Quem bordou isto, com linhas tortas tão sem vida e pontos tão...

Padre Pedro Teixeira se foi. Ficou na estrela vespertina, no céu de São João del-Rei

Sem nenhuma alegria, desde ontem os sinos de São João del-Rei estão dobrando contrariados. Dobram para dentro de si mesmos, no intuito de desmentir a triste notícia que são fadados a espalhar: Padre Pedro Teixeira foi-se embora deste mundo. Triste junho. Do Coração de Jesus traspassado pela lança do centurião hoje não escorre um fio de água e sangue. Escorre uma única lágrima. Discreta, humilde e silenciosa. Jesus é piedoso e complascente e sente a saudade que os são-joanenses sentirão de Padre Pedro: o mensageiro da Eucaristia, que, durante muitas décadas, toda manhã, com sua batina preta, ia a pé de casa em casa visitar os enfermos, levando conforto e esperança na forma de hóstia consagrada. Além de Cristo, no bolso esquerdo e interno do paletó, levava consigo um castiçal, um crucificado, uma pequena toalha branca, fósforo, uma vela e algumas estampas de Nossa Senhora Auxiliadora, tendo no verso a oração. Findo o ofício e dada ao doente a comunhão, em geral pedia que ele so...

A História de São João del-Rei é feita de muitas histórias. E também de belas estórias...

Desde que no alvorecer do século XVIII Tomé Portes del-Rei fincou pé nas margens do Rio das Mortes, cobrando pedágio pela travessia fluvial que levava às portas do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, até a mais recente badalada dos sinos da Matriz do Pilar, muitos personagens estão - há mais de 300 anos, na lida do seu dia a dia - a escrever a história de nossa terra. Brancos, negros, mulatos, morenos, criolos. Nobres, proscritos, desbravadores, déspotas, clandestinos, bandeirantes, sacerdotes, escravos. Livres, cativos, forros, libertos, sonhadores, serviçais. Intelectuais, iletrados, artistas, artesãos, analfabetos, escultores, músicos, cientistas, inventores de estórias que mais parecem a própria vida. Depois de Tomé Portes, ainda no Arraial, a Guerra dos Emboabas, certamente acendeu o lume para a instituição da vila de São João del-Rei. Em 1717, o Conde de Assumar esteve aqui e foi saudado com a música do mestre Antônio do Carmo. Gostou tanto que voltou outras vezes....