terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Vênus são-joanense: ser "Miss São João del-Rei" foi mais difícil do que ser "Miss Minas Geraes"

28 de fevereiro de 1929. Nessa data, Geraldina das Dores Castro foi eleita Miss São João del-Rei, ficando em segundo lugar Jesuina Pimentel Marinho. Mas a sorte virou o jogo, no concurso As Mais Belas de Minas Gerais, e a estrela da segunda colocada brilhou mais do que o sol da primeira.

Apesar de inesperado, o fato tem explicação. O regulamento do concurso estadual previa que as duas primeiras colocadas nas cidades participantes encaminhassem fotos de corpo inteiro, de frente e de perfil, para a redação do jornal Correio Mineiro, em Belo Horizonte. Na capital das alterosas, um júri qualificado, formado por um escultor, um pintor, um fotógrafo, um crítico de arte e um jornalista, a partir das fotografias, escolheria as dez moças mais bonitas e elegantes do Estado montanhês.

Não deu outra: para surpresa de todos, foi a segunda colocada no concurso de beleza de São João del-Rei, Jesuína Pimentel Marinho, quem se consagrou Miss Minas Gerais! Mesmo 83 anos depois, palmas para ela...

São João del-Rei guarda precioso tesouro da Revolução Francesa

De um modo geral, não se tem noção de quão vasto e precioso é o patrimônio cultural de São João del-Rei. Um exemplo disso é a coleção de jornais Le moniteur universel, publicada em Paris na época em que Joaquim José da Silva Xavier, nosso herói Tiradentes, subia e descia montanhas de Minas difundindo com inflamado entusiasmo os ideais da Inconfidência Mineira.

Desde 1827 a coleção pertence ao acervo da Biblioteca Baptista Caetano de Almeida - a primeira biblioteca pública de São João del-Rei e de Minas Gerais. Sobre ela o Jornal do Brasil publicou, há 20 anos, o texto transcrito abaixo, assinado pelo jornalista Wilson Coutinho. Classificado como "Recado", pedia proteção e cuidados visando a conservação e preservação daquela preciosidade:

Salvem ‘Le moniteur universel’
Em São João D’El Rey, uma rara coleção do jornal
da Revolução Francesa precisa de cuidados
Wilson Coutinho

A Biblioteca Baptista Caetano d’Almeida, em São João D’El Rey, guarda uma relíquia em suas estantes, coleção única no Brasil e raríssima no mundo. Trata-se das edições do jornal Le moniteur universel – o órgão oficial da Revolução Francesa, ou melhor, da República. O acervo foi parar em Minas Gerais quando o fundador da biblioteca, Baptista Caetano, o adquiriu, em 1827, num leilão no Rio de Janeiro. Desconhece-se ainda quem foi seu proprietário original e como a valiosa coleção do jornal revolucionário veio parar no Brasil.

Lendas rondam São João D’El Rey, que como todas as cidades históricas mineiras têm prazer de cultivá-las. Conta-se que os jornais pertenciam aos inconfidentes ou que estudantes, em Coimbra ou Paris,  os traziam escondidos como aríetes literários da subversão. Lendas boas de ouvir e que servem para puxar a imaginação. Imagine Bárbara Heliodora, mulher do inconfidente Alvarenga Peixoto, folheando as suas páginas, atrás de notícias sobre a Assembléia, ou lendo o processo que condenou Maria Antonieta.

Que as lendas vivam, mas o fato é que os jornais chegaram em São João D’El Rey no século passado. Le moniteur foi criado em 5 de maio de 1789 por Charles Joseph Packoucke, o célebre editor de Voltaire, e proprietário de Le Mercure de France. Foi transformado em diário em 24 de novembro, cuja primeira edição pode ser encontrada na Biblioteca Baptista Caetano d’Almeida.

O editorial não é, ao contrário dos panfletos da época, incendiário. Chama a atenção seu tom equilibrado, a proposta de publica seu noticiário com “exatidão pelos fatos, fidelidade escrupulosa na transcrição dos decretos”. Baseado nesses critérios, o jornal manteve-se, seguiu todas as marchas e contramarchas do período revolucionário e só fechou em 1901. Hoje é um documento de raro valor.

Historiadores franceses, quando visitam a biblioteca, ficam admirados em encontrar um tal monumento no Brasil. Mas há problemas. Apesar do esforço da Prefeitura e do carinho das bibliotecárias, a coleção luta contra traças, precisa de um local mais apropriado para ser guardada e necessita de trabalho de técnicos especializados para preservá-la antes que seja tarde demais.

É preciso salvar Le moniteur por tudo que representa: como documento, como história, pelo ideário iluminista que descreve em meio aos conflitos da época. Um secretário de Cultura, como Sérgio Paulo Rouanet, iluminista de coração e idéias, não deve deixar a coleção para a engorda das traças nem para sucumbir à umidade. Um poeta como Affonso Romano de Sant’Anna, diretor da Biblioteca Nacional, pode dar uma ajuda. Além de empresas privadas e ricos, destes que pouco fazem pelo país. Vale qualquer esforço para salvar um monumento que registrou um dos mais ricos períodos da história da humanidade.
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Publicado pelo Jornal do Brasil, edição de 2/05/1992, Caderno Ideias / Livros & Ensaios, página 3 - retranca Recado.
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Wilson Coutinho, era carioca, jornalista, crítico de arte e mestre em Filosofia pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica. Trabalhou nos jornais Opinião, Jornal do Brasil / Caderno Idéias, O Globo, Folha de São Paulo e Tribuna de Imprensa e nas revistas Veja e Arte Hoje. Foi curador e diretor do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e vencedor, em 1969, do Concurso Esso de Literatura; idealizador e organizador das coleções Perfis do Rio, Arenas do Rio e Cantos do Rio. Faleceu em agosto de 2003

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Lembranças dos velhos, alegres e cordiais carnavais de São João del-Rei


Rei Momo já foi deus em São João del-Rei - No ano de 1879, o Carnaval aconteceu no dia 27 de fevereiro e, segundo o jornal são-joanense Arauto de Minas, que noticiou o acontecimento, quem "incumbiu-se de festejar ao deus Momo foi a Sociedade Juvenil. A Rua Direita converteu-se em bosque e aí, ao som da música, postada em um palanque, se divertiam os mascarados, distribuindo graças e flores".

Esta descrição, divulgada pelo historiador Sebastião de Oliveira Cintra, aponta alguns aspectos interessantes. Primeiro, a expressão "deus Momo", que dá à majestade carnavalesca a condição de divindade. Isso, de algum modo, reforça a religiosidade do Carnaval.

Segundo, destaca o tom lúdico, divertido e cordial da festa, visível principalmente na atuação dos mascarados (em algumas culturas usar máscara permite dar passagem para um ser sub ou sobre humano), que distribuíam graças (divertidos agrados? brincadeiras bem-humoradas?) e flores.

Quando o Rei Momo dançou valsas - Vinte e dois anos mais tarde, o segundo carnaval de São João del-Rei no século XX, ao que parece, buscou agradar a todos, com tudo para todos os gostos: dos mais nobres e aristocráticos até os mais populares. Já no sábado, 16 de fevereiro, barulhentos Zé Pereiras dia e noite percorriam as ruas da cidade enquanto que à noite, em um coreto montado na Rua Municipal, uma banda de música se apresentava animadamente.

Classificado como perigoso, durante quatro dias o Entrudo também movimentou São João, com seus limões de cheiro, seringões, jarros e bacias d'água.

Mas a grande atração foi o baile à fantasia, promovido pela Sociedade Filarmônica São-joanense no domingo, dia 17, em sua sede, na Rua Municipal, local onde hoje existe o Edifício São João. A expectativa era tanta que muita gente foi para  frente da sede  ver a chegada dos ricos fantasiados, que encarnavam  personagens fabulosos. Da rua ouviam e também dançavam no ritmo de uma trilha sonora requintada: exatamente às dez da noite, ninguém menos do que a Orquestra Ribeiro Bastos começou a tocar nada menos do que refinadas valsas. Coisas de antigamente...

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Tristes capítulos da história de São João del-Rei

Nem todas as letras são brilhantes e gloriosas nas páginas da história de São João del-Rei. Se por um lado, por meio da arte e da cultura, desde suas remotas origens até os dias atuais, a sociedade são-joanense é reconhecida nacionalmente pela riqueza de seu patrimônio material e imaterial, especialmente por seu amor e zelo às tradições, por outro ela foi e é vítima de seu próprio tempo.

Assim, também nas sombras da Serra do Lenheiro em séculos passados, se praticou muitas atrocidades - atos bárbaros executados e incentivados pelo poder público, que com certeza foram repetidos com crueldade e gosto por representantes civis da aristocracia e por pessoas das classes dominantes.

Em fevereiro de 1772, por exemplo, a Câmara da Vila de São João del-Rei registrou, no dia 22, triste e imperativa correspondência recebida do Conde de Valadares. Na carta, a importante autoridade determinava que fosse feito um ferro, semelhante ao de marcar cavalos, tendo na ponta a letra F. Ele deveria ser usado, em brasa, para marcar escravos que voluntariamente fossem encontrados  pela primeira vez em um quilombo.

A mesma ordem legal determinava que, caso fossem encontrados nos quilombos escravos marcados com a letra F, deveriam ter uma orelha impiedosamente cortada.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Semana Santa 2012 São João del-Rei - Programação da Festa de Passos

Sino da igreja do Rosário. Ao fundo, Rua Sto Antonio (2011) Foto do autor

Certamente em muy poucos lugares, em todo o mundo, a Paixão de Cristo é vivida de modo tão intenso, profundo, artístico e cultural quanto em São João del-Rei. Se pela própria natureza não se constituíssem unidade, se poderia dizer que em São João del-Rei, principalmente na Quaresma, a estética, o sentimento, a tradição e a religião se fundem para resgatar do tempo longínquo e dar vida a um capítulo muito singular da história universal.

Na "terra onde os sinos falam", Quaresma significa quarenta exatos dias de Vias Sacras internas e externas, eruditas e populares, procissões, rasouras, depósitos, missas, Encomendações de Almas - tudo comandado pelo toque dos sinos e conduzido pela música barroca, composta na região nos séculos XVIII e XIX.

Na prolongada celebração religioso-artístico-cultural, nenhum sentido, lembrança ou emoção é desprezado. Ao contrário, visão, audição, tato, olfato, paladar, memória e sentimento são, o tempo todo, convocados, estimulados e provocados, nas cores, nas formas, nas texturas, nas imagens, nos mais diferentes perfumes, nos rituais e gestuais, nos impropérios, ofícios, cantos, prantos e lamentos, nos sons diversos, até na temperatura e luminosidade de dentro e de fora dos ambientes, tanto de noite quanto de dia.

A Quaresma termina quando começa a Semana Santa, mas em São João del-Rei a primeira é culturalmente tão grandiosa quanto a segunda. Reúne muito maior número de celebrações e ritos, distribuídos em muito maior tempo. Quase seis semanas...

Vias Sacras internas tem todo dia, nas várias igrejas. Vias Sacras de rua, noturnas, com orquestra barroca tocando os Motetos dos Passos, são três. Às sextas-feiras, a partir da semana da Quarta Feira de Cinzas. Nestas semanas também acontecem três Encomendações de Almas, saindo às onze da noite de portões de cemitério e parando em sete encruzilhadas e cruzeiros para que os músicos toquem e cantem motetos centenários até o começo da madrugada.

Um dos principais marcos da Quaresma é a Festa de Passos, que acontece no quarto fim de semana da Quaresma (de sexta a domingo) e consta de dois depósitos, duas rasouras e a Procissão do Encontro.

Prosseguindo, na sexta-feira seguinte começa o Setenário das Dores, que consta de sete dias consecutivos de ofícios sobre as espadas de dor que traspassaram o coração de Maria, que finaliza na sexta-feira, com a procissão que tem dois nomes: ´Procissão das Lágrimas ou Procissão da Saudade (Soledade).

O cronograma sumario da Festa de Passos (às vezes as solenidades realizadas a Quaresma têm genericamente este nome  na cidade) em São João del-Rei é o seguinte:

24/fev, 02 e 09/mar - Vias Sacras de ruas
16/mar - Depósito das Dores
17/mar - Depósito dos Passos
18/mar - Razouras e Procissão do Encontro
23 a 29/mar - Setenário das Dores
30/mar - Procissão das Lágrimas (ou da Saudade /Soledade)

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quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Semana Santa 2012 São João del-Rei: Quarta Feira de Cinzas começou na Terça Feira Gorda


Talvez no auge da euforia e do batuque das horas finais do Carnaval de Terça Feira Gorda em São João del-Rei, pouca gente tenha se dado conta que, às nove horas da noite de ontem, o sino do Santíssimo Sacramento da Matriz do Pilar lançava sobre todas as coisas um sinal sonoro diferente: o dobre de Cinzas.

Compassado e vigoroso, o dobre é duplo e dura cerca de dez minutos, avisando que em breve já será Quarta Feira de Cinzas e que, na Quaresma, o tempo vira em São João del-Rei. E vira mesmo, desde o primeiro amanhecer.

Por volta das seis da manhã, nos becos, esquinas e ruelas, foliões que voltam do Carnaval se encontram com fiéis que seguem para alguma igreja, em busca das primeiras cinzas que em cruz lhe marcarão a testa. Por várias vezes durante o dia o sino tocará pungente, marcando outras eras e outras horas. Na sacristia dos Passos, Matriz do Pilar, ainda pela manhã, é com contrição que preparam a grande cruz quaresmal e tiram do armário o crucificado misericordioso que, à noite percorrerá a igreja em via sacra, após a missa da Boa Morte.

Dezenove horas. Missa de Cinzas. Igreja lotada. Orquestra Lira Sanjoanense (1776) executando alguns responsórios do Ofício de Trevas, compostos no século XIX pelo são-joanense Padre José Maria Xavier. Ao final, o padre, ao marcar com cinzas a testa de uma multidão de fiéis, a cada um em voz alta lhes recomenda: "convertei-vos ao Evangelho de Cristo". Os sinos tocam, pontuando a barroca via sacra. Assim se vai a primeira noite de cada Quaresma em São João del-Rei.

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domingo, 19 de fevereiro de 2012

1809 - mais uma vez São João del-Rei brilhou mais do que uma noite de céu estrelado!

São João del-Rei sempre soube celebrar, com pompa e entusiasmo, os acontecimentos importantes. Nos séculos XVIII e XIX, grandes fatos eram comemorados com cerimônias religiosas e com especial e ostensiva iluminação pública.

No dia 19 de fevereiro de 1809, por exemplo, a Câmara da Vila de São João del-Rei mandou oficiar, na Matriz do Pilar, Te Deum Laudamus pela restauração dos reinos de Portugal e Algarves. Pelo mesmo motivo, determinou que, por três noites sucessivas, todas as casas do lugar iluminassem suas fachadas.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Cidadão divertido e ilustre está desaparecido no Carnaval de São João del-Rei

Um personagem importante no Reino de Momo anda desaparecido no Carnaval de São João del-Rei. O nome dele? Zé Pereira. Apesar de não ter registro civil nem domicílio fixo e declarado, ele divertiu muitos foliões são-joanenses em vários carnavais, mas não é visto na cidade desde a metade dos anos sessenta.

Mas afinal quem era esse tal Zé Pereira? Eram blocos carnavalescos espontâneos e independentes que, segundo jornais que circularam na cidade no início do século XX (Passarelli, 2005), eram capitaneados pelas bandas de música, reuniam muitos brincantes, tinham estandartes e carros alegóricos montados sobre carroças e puxados por animais, quando não empurrados pelos próprios foliões.

Há notícias de que em 1921, em nossa cidade, um Zé Pereira foi puxado pela "Banda de Música do 11º Regimento, uniformizada a caráter".

Com o passar do tempo, a urbanização, a industrialização, a proletarização e o enrijecimento das estruturas socioeconômicas, as agremiações Zé Pereira foram perdendo a identidade organizacional, passando seu nome a denominar agremiações carnavalescas informais, espontâneas e improvisadas.

Possivelmente surgiram aí os blocos de sujo que, não contando com banda musical nem com carros alegóricos, se ritmavam com batucadas feitas em latas, frigideiras, chocalhos, reco-recos, tamborins, etc, carregados de crítica e irreverência.

Nos antigos blocos de sujos, predominavam fantasias que pintavam ou mascaravam o rosto, para esconder, pelo anonimato, a identidade do folião. Era comum mulheres fantasiarem-se de gatinhos, cobrindo o rosto com uma fronta branca com as pontas amarradas formando a orelha do felino e vestindo calças compridas, paletó e gravata. Disfarçavam até a voz, para não serem reconhecidas. Também eram comuns as fantasias de Nega Maluca, estas vestidas por homens. Preconceituosamente, a fantasia de Nega Maluca, a um só tempo debochava - e com exagero cruel - da condiçao feminina e das mulheres negras.

Zé Pereiras e blocos de sujo tinham, entre outros valores, o estímulo à livre participação, à iniciativa, à espontaneidade, à expressão e ao espírito de coletividade. São João del-Rei bem podia deixar um pouco de lado o carnaval pasteurizado dos blocos de abadás e camisetas e resgatar os Zé Pereiras e os blocos de sujo. Seria mais rico culturalmente, mais original e mais divertido.
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Referência: Ulisses Passarelli - Dez antigas notícias do folclore de São João del-Rei. Revista no 11 do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, 2005

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Fogo, sangue e morte na São João del-Rei de 1709


Quem, neste 15 de fevereiro, caminhar pelas ruas de São João del-Rei, dificilmente vai imaginar que nestas paragens, há 303 anos, o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar ardeu em chamas, se dissolvendo em nuvens de fumaça, pondo fim - com a derrota dos paulistas no Capão da Traição - à cruel e sangrenta Guerra dos Emboabas. A data foi apurada, segundo o historiador são-joanense Sebastião de Oliveira Cintra, por outro historiador, e também folclorista, do século XIX: o valoroso, mas pouco conhecido e reconhecido intelectual  são-joanense, Basílio de Magalhães.

A Guerra dos Emboabas foi um dos primeiros e mais graves conflitos ocorridos no chão de Minas Gerais no alvorecer do século XVIII, motivada pela ambição e pela cobiça por poder e riquezas. Naquela época, a descoberta do ouro abundante a todos parecia indicar o surgimento de um novo Eldorado, atraindo para a região desclassificados rudes e aventureiros inescrupulosos e vorazes, todos  vindos de toda parte.

Neste ambiente, a inexistência de um poder constituído e disciplinador facilitou o surgimento de um conflito, que chegou às últimas consequências. De um lado estavam os  paulistas, bandeirantes, descobridores das minas, e de outro portugueses e forasteiros, também desejosos de se apossar do que tornava aquela terra tão preciosa. Ainda que para isso fosse preciso semear fogo e derramar sangue. Muito sangue! Assim se fez...

Certamente a Guerra dos Emboabas muito contribuiu para a elevação do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes à categoria de Vila, quatro anos depois, em 1713, com o nome de São João del-Rei.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Poesia e beleza que se revelam nas misteriosas entrelinhas de São João del-Rei


São João del-Rei é cidade aliciante e sedutora, porém recatada. Não é óbvia. Não exibe suas belezas todas nem na primeira vez, nem de uma vez só. É aos poucos que se mostra cenário delicado e poético. Devagar e na sombra é que seu encantamento atravessa pontes, que cruza praças e largos. Às vezes segue por ruelas distraídas, faz curva em becos que quase parecem querer escapar da vista de quem, distraído, perde o olhar mirando frontispícios e torres das imponentes igrejas.

A beleza, o encantamento e a poesia de São João del-Rei voam como pássaros sob o céu azul. Pousam, com suavidade e em silêncio, onde muitas vezes só com olhos contemplativos de admiração se consegue ver. Beco da Romeira, Rua das Flores, Ponte dos Suspiros, Beco do Cotovelo, Rua da Prata, Beco do Salto, da Matriz, do Agá, Muxinga, Largo da Cruz. Pulando muros ou atrás dos portões, bouganviles, azaleias, miosótis, jasmins, alecrins, bugarins,manacás, fogo de mulher velha...

Beiras-seveiras, beirais de cachorro, cimalhas, franjas de estuque, baldaquins rendados - sobre tudo, altos telhados. Portais geométricos, arqueados, canga-de-boi, em ogiva, convidativas portas almofadadas. Janelas coloridas, de guilhotina, de gelosia, de treliças, de bandeiras, sorrateiras e inesperadas. Cúbicas soleiras, curtas e breves escadas, ondulados e ilustres balaústres. Casas abraçadas. Alegres e vivas em cor, ainda hoje do mesmo jeito que em épocas passadas.

A surpresa do belo nos espreita de onde não se suspeita nem espera...

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Na véspera do Carnaval, São João del-Rei se vestiu para a barroca Procissão de Cinzas. Há 231 anos...


Por mais estranho que possa parecer, há um elo forte a unir carnaval, fé e religião em São João del-Rei. Certamente não é sem razão que as escolas de samba e os blocos se concentram no centro histórico em território sagrado, delimitado por três das mais importantes e antigas igrejas da cidade- Rosário, Pilar e Carmo. Se na terra, batucando, o couro come, nos ares, dobrando, os sinos falam. Tudo ao mesmo tempo. Há blocos que até, passando em desfile pela Rua Direita, se deslocam alguns metros da rota só para respeitosamente e com orgulho posar (e pousar!) na escadaria da Matriz do Pilar (1).

Voltando no tempo ao distante 1781, encontra-se o registro histórico de um fato interessante, que materializa muito bem esta afirmação: o Edital, publicado no dia 11 de fevereiro daquele ano pela Ordem Terceira de São Francisco de Assis, fixando as normas da Procisão da Quarta Feira de Cinzas. Como se percebe, era uma encenação teatral dramática, em forma de cortejo, mais extremada e alegórica do que as famosas procissões espanholas da Semana Santa de Sevilha e outras cidades da Andaluzia.

Assim descreve o historiador são-joanense Sebastião Cintra o que deve ter sido aquela célebre e impressionante procissão (2), tomando por base o Edital que normatizou sua realização:

" Ao Irmão Vigário do Culto Divino caberia a incumbência de distribuir as insígnias que ornariam a cruz, os andores e o pálio.

Sairia a Cruz da Penitência com dois braços pregados nela. Um, o do nosso seráfico Patriarca. O outro, de Cristo. Seria levada por um homem vestido de saiote, com o rosto coberto, e seguido por um cordão feito de corda tosca, tendo na cabeça uma coroa feita com a mesma corda.

Figurados que seguirão entre as alas de penitentes:

. A Morte, que conduzirá uma ampulheta e uma foice.
. Duas figuras levgarão bandejas, conduzindo cinzas, caveira e ossos.
. Outra figura levará uma árvore de espinhos, sem folhas, com dois cilícios, disciplinas e livrinhos.
. Siga-se Adão e Eva, vestidos de peles ou de folhas, com 'os olhos no chão'.
. Atrás deles, o Anjo, com a espada na mão.
. A Árvore do Paraíso, com folhas de maçãs, apresentará uma serpente enroscada.
. A figura do Desprezo das Vaidades segue ladeada de duas que levam os adereços desprezados.
. Segue-se a Cruz da Ordem, com seus ciriais, que prosseguirá com todos os irmãos em alas.
. Sairá na frente o andor da Conceição, seguindo-se os outros andores, sendo que o último será o de Nosso Senhor do Monte Alverne."

Depois dos andores, a Mesa Administrativa da Ordem Terceira, tendo ao centro o Vigário do Culto Divino, levando na mão uma vela de libra e coordenando o andamento da tão piedosa procissão. Fechando o cortejo viria o pálio, carregado por personalidades ilustres da sociedade colonial são-joanense, previstas no Edital. Entre os cinco escolhidos, três eram militares, o que evidencia vir daqueles tempos a aproximação que até hoje em São João del-Rei existe entre os militares e a Ordem Terceira de São Francisco de Assis.

Se não houve falha de datilografia dos originais do livro, trocando a palavra irmandades por religião, um aspecto incomum, é que, de acordo com o Edital, não havia restrição religiosa para participar da Procissão de Cinzas,  o que teria lhe conferido um certo caráter ecumênico. Isto se infere na leitura da seguinte instrução, citada por Sebastião Cintra: "Mereciam lugares honrosos os irmãos da Venerável Ordem do Carmo que comparecessem vestidos com seus hábitos ; igual distinção deveria ser dada aos religiosos ou leigos de qualquer religião que queiram acompanhar a mesma procissão" - "uma oração pública feita a Deus", durante a qual os irmãos deveriam se portar com modéstia e reverência, em ato tão santo, pio e religioso".

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(1) O Bloco Unidos da Cambalhota não só faz isso quanto, no seu samba-tema 2012, diz que "até o bispo vai abençoar".

(2) Segundo pesquisa arquivística de Sebastião Cintra, no ano de 1863, a Procissão de Cinzas aconteceu no dia 18 de fevereiro.

Fonte: Cintra, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume 1. 2a edição, revista e aumentada. Imprensa Oficial. Belo Horizonte. 1982

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A Música vai virar cambalhota no Carnaval de São João del-Rei


São João del-Rei não perde tempo. Nem oportunidade. Graças a Deus. Ainda mais quando é para valorizar e cultivar o amor pelas tradições culturais próprias desta terra, aqui nascidas logo no amanhecer do século XVIII e perpetuadas ao longo de três séculos. Neste caso, então, nem Carnaval escapa.

Entre as mais importantes e mais antigas expressões culturais de São João del-Rei, destaca-se a Música. Consta que ela aqui fixou morada nos idos de 1717, com uma missão muito elevada: homenagear o Conde de Assumar, na sua primeira visita à Vila de São João. Daqui a Música não saiu mais, ganhando as mais diversas formas: orquestras barrocas, sinfônicas, folias diversas, toques de sino, bandas, baterias de escola de samba, corais, conjuntos e muitas outras.

No Carnaval 2012, os trezentos anos da Música em São João del-Rei serão homenageados pelo Bloco Unidos da Cambalhota, que virará o centro histórico são-joanense de pernas para o ar com o tema Alma Barroca, Sagrada e Profana. Veja, abaixo, a letra do samba, composta por Arthur Moreira e Luciano Camarano.

Escolado pelo samba,
inspirado pela fé
Eu vou de Agostinho França
a José Maria Xavier

Porque eu sou São João Del-Rei
Eu me criei nesse chão colonial
Conheço os passos da romaria
E a fantasia que embala o carnaval


Quaresma...
Das orquestras o tom
Das matinas o som
Na Paixão, devoção

E quando é carnaval
um ritual de arrepiar
Sobre a escadaria do Pilar
Até o bispo vai nos abençoar

Iluminado, "Profano" e "Sagrado"
De todo o coração
O Cambalhota canta a nossa tradição

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Ilustração: reprodução de imagem publicada no endereço http://www.unidosdacambalhota.com.br/fotos/2010/frameset.htm

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

No Carnaval de São João del-Rei, não tem "Surpresa". "Tudo é Ilusão". Triângulo amoroso no samba.



Não é segredo para ninguém. Mesmo nas melhores famílias, de vez em quando um triângulo amoroso acontece, transformando em infortúnio e desgosto uma história de amor que tinha tudo para chegar ao final feliz. A vida é assim. Ainda mais quando o samba está por perto. Que o digam Paulinho da Viola, João Bosco, Chico Buarque e Aldir Blanc.

Há tempos atrás, um estranho triângulo amoroso aconteceu em São João del-Rei e, certamente, o fato ainda hoje é lembrado por são-joanenses que já cruzaram a faixa dos cinquenta anos. Os personagens? O compositor-coveiro-carnavalesco Agostinho França, a música Surpresa e a indústria fonográfica.

Para os são-joanenses o samba Surpresa, normalmente cantado nos desfiles carnavalescos dos anos sessenta como hino da Escola de Samba Depois Eu Digo, fora composto por Agostinho França. Tanto que a letra, conhecida de cor na cidade pelos mais antigos, finalizava com a sequinte quadra:
 
                            "Toda vida trago comigo
                             a Escola de Samba Depois Eu Digo.
                             Será sempre imitada
                              mas nunca será igualada!"

Para surpresa geral (o trocadilho é propositado), nos anos setenta, Surpresa mudou de cidade e de nome. Como quem foge sorrateiramente e não quer ser reconhecido, passou a se chamar Tudo é Ilusão. Escolheu o Rio de Janeiro como novo domicílio. De lá, correu o Brasil na voz de Clara Nunes e de Dalva de Oliveira, declarando ser fillha de Anibal Silva, Eden Silva e Tufir Lauar - seus autores / compositores oficiais. O verso-homenagem à escola de samba, órfão abandonado, coitado, ficou em São João del-Rei. Abandonada também ficou a paternidade de Agostinho França.

Volta e meia Tudo é Ilusão é regravada, como o foi há pouco tempo, na voz da grande cantora Teresa Cristina. E de tempos em tempos continuará sendo, tamanha sua beleza poética e melódica. Seguirá correndo o Brasil e o mundo. Mas para São João del-Rei continuará sendo a ingrata e querida filha pródiga chamada Surpresa que, sem retorno nem saudade, abandonou para sempre o coração e os carinhos do negro pai Agostinho França - Deus o tenha, o conforte e o recompense...


Ouça, no link abaixo, uma montagem da gravação de Tudo é Ilusão (para nós, Surpresa!), nas vozes de Dalva de Oliveira e de Clara Nunes.

São João del-Rei abre alas e alegremente saúda a passagem do Carnaval de Antigamente

O carnaval de São João del-Rei tem de tudo. De tudo de bom e do melhor. Tem até o que ninguém imagina...

Já pensou em um bloco que, relembrando os velhos carnavais, vale-se da alegria, da cordialidade, da gentileza, da amizade e da democrática inserção para difundir mensagens de preservação do patrimônio cultural da cidade onde os sinos falam? Pois é, em São João del-Rei tem.

É o Carnaval de Antigamente, que se concentra na tarde do domingo de Carnaval no Largo do Rosário, juntando ágeis malabaristas, altas pernas-de-pau, alegorias, sorridentes palhaços, corso de carros antigos enfeitados, estandartes, doces delícias, simpáticos mascarados, gente bonita, importantes personagens do carnaval são-joanense de ontem e de hoje. Seu lema é permanente, assim como a mensagem que difunde: Preservar é preciso!

No Carnaval de Antigamente não tem som mecânico. O bloco desfila no ritmo de conhecidas marchinhas, alegremente tocadas pela tradicional Banda Theodoro de Faria, ora se intercalando, ora tocando junto, com a Banda do Zé Pereira. Puxando cordão, giram e sorriem os bonecões do Mestre Quati. Sobre todo o cortejo, que atravessa e corta becos, pontes, largos e ladeiras, chovem confetes e serpentinas...

Realização da ONG Atitude Cultural, o Carnaval de Antigamente é em tudo inovador. Seus adereços são feitos com sucatas e material reciclado; tem temática cultural, desfila em circuito próprio e todo ano homenageia pessoas célebres e cidadãos comuns que desempenharam ou desempenham papel importante no Carnaval de São João del-Rei. Em anos passados, já foram homenageados Ginego, Mestre Quati, Jota Dângelo, Mamélia Dorneles, Moema Magalhães e vários outros sambistas, carnavalescos e passistas.

Em 2012, quem receberá as homenagens e reconhecimentos serão dois importantes carnavalescos de São João del-Rei, que se destacaram a partir do final dos anos sessenta: João Bosco dos Reis Teixeira e Chafi Hallack.

João Bosco é fundador do Bloco Milionários do Ritmo, agremiação carnavalesca criada em 1964 e que, ao longo dos últimos 38 anos, desdobrou-se e deu origem a vários blocos e escolas de samba, como por exemplo a Falem de Mim, a Mocidade Independente do Bonfim e a União. É também um dos criadores da Associação das Escolas de Samba, Blocos e Ranchos de São João del-Rei.

Chafi Hallack tornou-se famoso compositor e intérprete de sambas-enredo que marcaram época do Carnaval de São João del-Rei e de outras cidades mineiras.
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Ilustração: Foto reproduzida do site www.atitudecultural.com.br, a quem agradecemos a colaboração.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Ainda arraial, São João del-Rei deu à luz, há 301 anos, a uma das mais antigas irmandades religiosas de Minas Gerais

8 de fevereiro é um dia especialmente importante no calendário histórico-cultural de São João del-Rei. Nele, há 301 anos, em 1711, foi fundada a Irmandade do Santíssimo Sacramento no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, dois anos antes de sua elevação à categoria de Vila.

Irmandade "fabriqueira" (provê todo o necessário para o Culto Divino e mantém a Igreja) da Matriz do Pilar, era uma agremiação da elite são-joanense e, em sua origem, só admitia o ingresso de pessoas brancas e de boa condição socioeconômica ou destacada projeção política ou social. Atualmente é responsável pela promoção das cerimônias da Semana Santa, de Corpus Christi e de várias outras celebrações em louvor a devoções diversas, como São Sebastião, Coração de Jesus, a padroeira Nossa Senhora do Pilar e outros santos.

A opa que a distingue das demais irmandades é vermelha, vestida pelos irmãos sobre o traje social completo. De presença mais recente nas alas das procissões, as mulheres usam sobre os ombros curtas capinhas da mesma cor.

Os arquivos documentais, eclesiásticos, litúrgicos e museológicos / museográficos sob a guarda da Irmandade do Santíssimo Sacramento são patrimônio precioso para São João del-Rei, para Minas Gerais e para o Brasil. Além de documentos históricos, este acervo é formado também por imagens, alfaias, pratarias, vestes, paramentos e muitos outros bens artísticos e culturais.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Bloco dos Caveiras de São João del-Rei. Primeiro foi devoção. Agora é debochada diversão...

Nos quintais dos casarões coloniais do Largo da Cruz, do Largo do Carmo, do Largo das Mercês, do Largo do Rosário, sob a imponência das torres das belas igrejas e ao som quartorário de seus sinos, caveiras brancas estão secando ao sol. Grandes túnicas pretas e roxas estão sendo costuradas. Letras tornam altos estandartes mensageiros de legendas funestas, advertências ameaçadoras. Ossos animais se descarnam ao tempo para mostrar, em certa noite carnavalesca suas cruentas articulações. Uns, murchos e amarrotados nos cantos, outros, jogados sobre caixões funerários, diabos vermelhos, despegados de seus tridentes, aguardam a hora de se inflamar e ganhar vida. A comprida e prateada foice da morte, caída no chão e previamente manchada de sangue, sem pressa sonha erguer-se no escuro e, em lentas curvas, ceifar pescoços.

Assim são os espaços onde, em São João del-Rei, se preparam as máscaras, roupas, carros e adereços do Bloco dos Caveiras -cinquentona instituição carnavalesca que, tempos atrás, já fez medo a muitos hoje valentões marmanjos.

Ainda atualmente o Bloco dos Caveiras é inquietante. Mesmo desprovido de sua dramaticidade e seriedade anterior, fruto dos tempos modernos mais voltado para o escracho e para o deboche, em meio à cerveja, à cachaça com mel, à batucada e ao som eletrônico que são agora o Reino de Momo, o Bloco dos Caveiras, com sua bandinhade metais e efeitos sonoros, ainda traz flashes de um universo misterioso e sombrio: o outro lado vida, o mundo obscuro da imaginação, o Hades, o Limbo, a des-Ordem, o Caos, o Avesso, o Antes, o que pode vir depois.

De novo incorporado à cultura são-joanense provavelmente nos idos de 1960, agora no domínio popular e com formato carnavalesco, o Bloco dos Caveiras de São João del-Rei tem sua origem em uma manifestação religiosa que acontecia na cidade ainda nos séculos XVIII e XIX. Naquele tempo, anualmente, também no mês de fevereiro, a Ordem Terceira de São Francisco promovia a Procissão das Cinzas que, baseando-se na descrição de alguns viajantes europeus, pode-se dizer que, guardadas as devidas proporções, tinha muitas afinidades com o cortejo funerário-carnavalesco contemporâneo.

Ao que tudo indica, era uma celebração importante e muito alegórica, oficial, cara, organizada com esmero e que requeria grande espaço físico para sua montagem e produção. Tanto que, segundo pesquisa de Sebastião de Oliveira Cintra, há 239 anos, no dia 1º de fevereiro, "A Ordem de S. Francisco resolve não realizar em 1773 a Procissão de Cinzas - 'porque se achava dando princípio ao ajuste para a feitura da nova igreja'."
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Sobre o mesmo tema, leia também
No Bloco dos Caveiras, até a Morte dança...http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/03/no-bloco-dos-caveiras-ate-morte-danca.html

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Carnaval poéticoimaginário de São João del-Rei


Não é de hoje que os personagens anônimos do carnaval de São João del-Rei - reais, fictícios ou imaginários - inspiram poemas, contos, fotografias, ensaios e muitos outros gêneros de produções culturais.

O despretensioso e despontuado poeminha abaixo, por exemplo, foi rabiscado nos idos de 1978, para integrar uma publicação marginal da geração mimeógrafo, chamada Ossuário Geral, depois de 34 anos ainda inédita. Conheça em primeira mão...

                     Carnavanônimo
      
                             Com a barriga vazia
                             e duas doses na cabeça
                             esqueceu-se de tudo
                             cobriu o corpo de sonhos
                             e saiu de odalisca
                             sem véu nem sultão
                             na escola de samba
                             Depois eu Digo.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mestre do Carnaval de São João del-Rei, Quati ensina: "Recordar - e criar! - é viver..."

Recordar é viver, ensina Mestre Quati, já no grande e alto estandarte vermelho que anuncia a passagem de seu bloco no carnaval de Segunda Feira Gorda, em São João del-Rei. Recordar é viver, ensina o cidadão são-joanense Benedito Reis de Almeida, ícone do carnaval da terra onde os sinos falam, sempre que se lembra dos tempos em que a festa de Momo em São João del-Rei era considerada o melhor carnaval do interior do país.

Quase octogenário, Benedito Reis de Almeida, ou Mestre Quati, não vive só de lembranças. Pelo contrário, utiliza a experiência vivencial de suas muitas décadas para continuar criando e recriando. Foi assim que há alguns anos resgatou de sua lembrança os antigos Zé-Pereira's e deu vida aos cabeções: grandes, alegres e coloridos bonecos que hoje dão vida, leveza e alegria ao Carnaval de rua de São João del-Rei. Assim nasceu o bloco Recordar é Viver.

Os bonecos de Mestre Quati fazem lembrar o Homem da Meia Noite e a Mulher do Meio Dia - bonecões típicos do carnaval de Olinda. Entretando, são tão leves que parecem levitar na altura dos telhados dos casarões coloniais de São João del-Rei;  têm sorriso tão ingênuo que parecem anjos caipiras, vestidos de chitão para brincar de roda em uma festa no céu. O universo que Mestre Quati criou e dá vida nos desfiles carnavalescos de São João del-Rei é assim, cheio de candura, ingenuidade e inocência. Como, imagina-se, desejasse Deus fosse o mundo real.

O segredo da criação dos bonecões, o menino Benedito Reis aprendeu com Oswaldo Tintureiro, numa época em que Carnaval era uma festa que acontecia em meio a marchinhas, batalhas de confete e serpentina, jatos de lança-perfume e pessoas fantasiadas à caráter. De lá pra cá, foi pedreiro, sineiro, músico, pintor de paredes e jogador de futebol - tão ágil no campo que daí então lhe deram o apelido  mais conhecido do que o próprio nome: Quati.

Se a filosofia popular ensina que "recordar é viver", Mestre Quati, sabe mais e, com seu bloco carnavalesco ensina: Recordar - e criar! - é, de fato, viver...
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Ilustração: Mestre Quati,  foto de João Ramalho, reproduzida do site www.atitudecultural.com.br. Nossos agradecimentos ao fotógrafo e à ONG Atitude Cultural pela generosidade da colaboração.