segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

São João del-Rei e a Folia de Reis a "Caminho da Salvação"


A passagem de folias de reis pelas ruas de São João del-Rei - do centro histórico às localidades mais periféricas - é tradição centenária, mas nos últimos anos andou perdendo força, pela falta de renovação em seus membros. É que a modernidade e a urbanização, com seus novos valores estéticos e apelos tecnológicos, aos mais jovens ainda parecem  opor a folia de reis tradicional ao status de progresso e evolução. Com isso, os grupos são-joanenses cada vez mais se tornaram menores e mais escassos, compostos em sua grande maioria por pessoas mais idosas.

Atentos a esta realidade, alguns intelectuais buscaram não só minimizar este enfraquecimento quanto valorizar a folia de reis, elevando a auto-estima de seus membros e das comunidades que as conservam, pensando na  revigoração desta importante expressão cultural popular do ciclo natalino. Foi assim que a Organização Não Governamental Atitude Cultural organizou e promoveu, durante mais de uma década, o Encontro das Folias de Reis e Pastorinhas de São João del-Rei, realizado sempre no fim-de-semana mais próximo do dia 6 de janeiro - Dia de Reis. Desde sua criação, 2015 será o primeiro ano que o Encontro não acontecerá.

Entretanto, já há alguns anos a cidade recebe dois interessantes grupos de folias de reis vindos da Zona da Mata mineira, que sem dúvida podem ser considerados uma versão contemporânea desta manifestação cultural. Em princípio, eles se diferem bastante das folias tradicionais, mas possuem a mesma função religiosa, utilizam a música como elemento evangelizador e emocionam a população do mesmo modo.

Contudo, não retratam a folia de outros tempos; são a folia na sua face mais atual. Formados por um grupo numeroso de jovens, com roupas coloridas e caracterização rica de adereços, mesmo com instrumentos "primitivos" (sanfonas, caixas, triângulos, reco-recos, cavaquinhos, violas) cantam em ritmo que mescla o rural, o country e o funk, músicas religiosas difundidas pela indústria de comunicação de massa, em geral cantadas pelo padre Marcelo Rossi.

Muito ricas em suas alegorias brilhantes, figuras fantasmagóricas compostas por chifres, aranhas, monstros e outros elementos míticos, iluminados a LED em simbólicas coreografias e acrobacias, sua passagem fala das trevas que cobriam a humanidade até que o nascimento de Jesus Cristo trouxesse luz ao mundo. Na noite tenebrosa de tantos figurantes em movimento, o estandarte santo corta ao meio a escuridão, como fez a Estrela Guia de Belém. Não é sem motivo que uma das folias se chama A Caminho da Salvação.

É impossível ignorar a passagem destas folias, a começar pelo grande número de seus membros, todos jovens, negros, de forte presença e vitalidade. Por onde transitam, eles ocupam, se apropriam e se assenhoream do espaço, convictos de sua importância e de sua missão evangelizadora, social e cultural. Isto lhes assegura visibilidade, respeito e reconhecimento.

Elas apontam um caminho para tradições que, por estarem se tornando frágeis, quase a perder sua função, encontrem novas formas, novas estéticas, novas linguagens e novas alternativas para manter sua finalidade cultural. Mostram que mesmo nas trevas é possível encontrar o Caminho da Salvação...

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Barroco Natal de samba, sons e tons de São João del-Rei


Uma cidade de coração vivaz e multicor, que harmoniza os mais diversos tons e sons, para pulsar barrocos sentimentos tropicais de brasilidade. É assim São João del-Rei, e isto se vê de vários modos.

Às fachadas dos sobrados coloniais, nas demais cidades históricas tradionalmente pintadas de branco, com portas e janelas vermelhas, azuis, ocre e marrom, aqui se juntam outras, de cores suaves, porém vibrantes: azuis, rosas, cinzas, amarelas, verdes - com seus beirais e lambrequins. Pura alegria.

Mais do que em outras cidades nascidas no tempo do ouro, em São João del-Rei as sonoridades se harmonizam em compassos que ninguém imagina. Durante todo o dia 24 de dezembro, por exemplo, enquanto de tempos em tempos os sinos do Rosário repicavam o tencão de Natal, a poucos passos dali, no Largo do Carmo, uma  espontânea batucada, com muito samba,  celebrava a vida e a liberdade. Eram os herdeiros da noite, revivendo a conquista do dia.

Tudo sobre as galerias subterrâneas de onde se extraiu tanto ouro. Tudo sobre o chão de pedra escura, outrora manchado de sangue escravo. Tudo sob a sombra da grande caveira, há séculos suspensa no portão de ferro do cemitério e vigiada pelos ferozes capricórnios do chafariz , também de ferro.

Até  na portada do Carmo - uma das mais belas igrejas de Aleijadinho -, os querubins acenavam as asas e Nossa Senhora tentava conter no colo o Menino, a desvencilhar-se de seus braços para entregar àquela gente o escapulario da estrela.

Uma das faces do Natal em São João del-Rei é esta...

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Vovô Gomide & as Catitas de São João del-Rei


Na galeria dos personagens típicose muito populares de São João del-Rei, um muito pitoresco, mas hoje praticamente esquecido, é Vovô Gomide.

Fins dos anos 50, começo dos anos 60, já relativamente idoso, o velho meio branco, baixinho, de cabelo e barba brancos, morava na esquina da Rua Coronel Tamarindo com a Rua Rodrigues de Melo, onde hoje existe a Praça Padre José Maria Fernandes, próximo à Rua do Barro e ao Pau D'Angá. Para as crianças, pela semelhança, era o ilustre Marquês de Tamandaré, que naquela época corria de mão em mão na nota de Cr$ 1 (um cruzeiro).

Sempre de paletó escuro e surrado, com sua voz mansa, rouca e baixa, se dizia nobre, descendente do Barão de Cocais, e aguardava a chegada de sua parte da lendária herança, que vinha não se sabe de onde, mas do século XIX.

O que fazia dele uma pessoa especial? Vovô Gomide catava no chão maços vazios de cigarro que os fumantes jogavam fora e desenhava a lápis, no verso da estampa e no papel branco, garatujas de corpo inteiro. Por motivos que ninguém sabe, todas eram mulheres de saia e perfil.

Diariamente sentado na Praça do Coreto, em frente ao Hotel Brasil, na porta da Estação ou nas esquinas perto de sua casa, presenteava as crianças com suas garatujas, que ele e todos chamavam de Catitas. Possivelmente hoje ninguém tem mais este registro de sua existência..

Algum são-joanense sexagenário ou maior desta idade, tendo recebido alguma Catita, se lembra do Vovô Gomide?

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, mágico e iluminado em São João del-Rei


Na ocasião do Natal, mal começa o Advento, São João del-Rei fica envolta por uma aura mágica. Luzes coloridas e brilhantes realçam contornos de telhados, beirais e janelas coloniais, semeiam anjos e estrelas nos jardins, franjas luminosas enfeitam o coreto – romântico cenário para os corais e suas cantatas.

Na metade do mês começa, na igreja do Rosário, a Novena Barroca do Menino Jesus, composta no século XIX pelo são-joanense Padre José Maria Xavier. É um ofício alegre e delicado, só executado em São João del-Rei, pela Orquestra Lira Sanjoanense, considerada a mais antiga orquestra das Américas em atividade permanente desde a segunda metade do século XVIII. 


Pouca gente sabe, mas as mais importantes celebrações do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra onde os sinos falam são realizadas na igreja do Rosário, seguindo uma tradição colonial. Assim como a Ordem Terceira do Carmo incumbia-se de parte das celebrações da Paixão de Cristo, a Irmandade do Rosário é responsável pelas festividades do Natal. Ainda hoje elas compreendem a Novena, a Missa do Galo, o Te Deum Laudamus vespertino dia 25 e a procissão do Menino Jesus em seu trono, no dia 6 de janeiro.

Como em tudo o que acontece no universo religioso barroco de São João del-Rei, também nas celebrações do Natal, os sinos são um espetáculo à parte. Às 12h15 do dia 24, da torre esquerda da igreja do Rosário, ouve-se o Tencão do Natal, uma peça musical de aproximadamente 20 minutos dividida por vários movimentos, entre eles o tencão, a terentena e o floreado. Utilizando três sinos simultaneamente e executada por dois sineiros, em grande parte um sineiro toca dois sinos: o médio e o pequeno - um em cada mão, enquanto o outro maneja o sino grande, batizado Domingos de Gusmão. 
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Sobre o mesmo tema, leia também 
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2013/12/novena-barroca-de-natal-em-sao-joao-del.html

Foto: JPhotography (Facebook)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O modernista Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e a Semana Santa de São João del-Rei


Estamos em São João del-Rei, mais precisamente no Largo do Carmo, no ano de 1924. Pela sombra oblíqua projetada da esquerda para a direita, sabemos que devem ser, mais ou menos, 3 horas da tarde.

Um soldado, em primeiro plano, anda depressa, atravessando a praça, como a fugir da paisagem rumo ao Largo da Cruz. Dois meninos brincando, um homem de pé, encostado na monumental fachada, do lado oposto mais algumas crianças. Uma mulher, na janela, espia o dia  escorrer e a vida passar...

- Quem é aquele homem de terno preto e chapéu no centro da foto, de frente à portada?

- Ora, não é ninguém menos do que Oswald de Andrade!

Era abril, Semana Santa, e ele adentrava o interior de Minas para redescobrir o Brasil, na companhia da pintora Tarsila do Amaral e do poeta e intelectual francês Blaise Cendars.

Ficaram todos tão encantados com o que viram que, entre outros poemas, Oswald de Andrade, após descrever sumariamente nossa cidade por não encontrar para ela adjetivos, pediu aos brasileiros: Ide a São João del-Rei!

                             "São João del Rey
                               A fachada do Carmo
                               A igreja branca de São Francisco
                               Os morros
                               O Córrego do Lenheiro.

                                Ide a São João del Rey
                                De trem
                                Como os paulistas foram
                                A pé de ferro."

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

301 anos de Vila. 310 anos de vida. "... Salve terra de São João del-Rei!"


301 anos de Vila, 310 anos de vida. É assim que São João del-Rei - 'a cidade mais barroca de Minas' - chega a este 8 de dezembro, sua data natal. Exultante como a setecentista e alegre procissão que no entardecer, ao som dos sinos e das marchas  festivas que a banda toca, caminha com Nossa Senhora da Conceição pelas ruas da cidade. Mas agora, voltemos no tempo...

O sol que anunciou em alvorada o amanhecer do dia 8 de dezembro de 1713 iluminou também uma nova era para o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Naquela data, o movimentado e próspero aglomerado urbano que desde 1703/1704 se formara à sombra da Serra e às margens do Córrego do Lenheiro, tendo - semelhante a Fênix - se recomposto do incêndio que assinalara o fim da sangrenta e cruel Guerra dos Emboabas, foi elevado à categoria de Vila. Seu nome, São João del-Rei, em homenagem a El-Rey Nosso Senhor Dom João V, o "Rei Sol" português.

Nascia ali, assim, a quarta vila do ouro das Minas Gerais, conforme o Auto de Levantamento da Vila de São João del'Rey, lavrado naquela data e reproduzido a seguir:

"Anno do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Christo de mil sete centos e treze annos, aos oito dias do mez de dezembro do dito anno neste Arraial do Rio das Mortes, onde veiu por ordem de Sua Majestade, que Deus Guarde, Dom Braz Balthazar da Silveira, Mestre de Campo General dos seus exércitos, Governador e Capitão Geral da Cidade de São Paulo, e Minas, para effeito de levantar Villa o dito Arraial; e logo em virtude da dita Ordem, que ao pé deste Auto vai registrada, o criou em Villa com todas as solenidades necessárias, levantando o Pelourinho no lugar, que escolheu para a dita Villa a contento, e com aprovação dos moradores della, a saber na xapada do morro que fica da outra parte do córrego para a parte da Nascente do dito Arraial, por ser o citio mais capaz e conveniente para se continuar a dita Villa, a qual elle dito Mestre de Campo General, e Governador e Capitão General appelidou com o nome São João del'Rey, e mandou , que com este título fosse de todo nomiado em memória de El Rey Nosso Senhor por ser a primeira Villa que nestas Minas elle dito Governador e Capitão General levanta assistindo a esta nova erécção o Dezembargador Gonçalo de Freitas Baracho, como Menistro do dito Senhor que se acha Ouvidor Geral desta dita Villa, como tão bem assistido toda a nobreza, e Povo della, e se levantou com effeito o dito Pelourinho, e ouve elle dito Governador e Capitão General por erecta a dita Villa, creando nela os Officiaes necessários, assim os Milicias, como de Justiça conducentes ao bom regimen della, e mandou se  procedesse a elleição dos pelouros para os Officiaes da Camara na forma da Ley, e de tudo mandou fazer este Auto que assignou com o dito Dezembargador, Ouvidor Geral, e eu Miguel Machado de Avelar Escrivão da Ouvidoria Geral que o escrevy - Dom Braz  Balthazar da Silveira - Gonçalo de Freitas Baracho."

Esta é a Certidão de Nascimento de São João del-Rei, em transcrição feita de registro colhido pelo dedicado e saudoso historiador são-joanense Sebastião de Oliveira Cintra.

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Foto: Procissão de Nossa Senhora da Conceição (Divulgação - G1)

sábado, 22 de novembro de 2014

São João del-Rei não é uma cidade, é uma sinfonia! Quem disse foi Santa Cecília*


Com seus sinos, suas orquestras e bandas, São João del-Rei é mais do que uma cidade. É uma sinfonia. Pura música. As ruas se alinham em pauta, para que igrejas, casarões,  sobrados, lampiões, cruzeiros e pontes se alternem em notas e pausas, entre becos e largos, entre sol e chuva, dia e noite.

As flores dos jardins - damas da noite, bugarins, margaridas, ibiscos, papoulas, manacás, jasmins - ao mesmo tempo que perfumes, exalam sons celestes, de estrelas, orvalhos e vagalumes. Mas só depois que, crepuscular, a clave de sol se apaga, para acender no céu a clave de luar. Tudo por milagre de Santa Cecília...

Ela, padroeira dos músicos, é madrinha da cidade. Mora aqui desde 1717, quando veio para Vila de São João del-Rei a pedido do Mestre Antonio do Carmo, a protegê-lo na missão de desenrolar um tapete de música para a passagem do Conde de Assumar, na sua primeira visita São João, O nobre português ainda estava ressabiado com violência da Guerra dos Emboabas e precisava ter certeza de que das chamas do ódio que incendiaram  Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes não mais  restavam brasas, sequer cinzas.

A santa tomou gosto pelo Vale do Lenheiro, ficou aqui, não quis mais voltar. Trezentos anos depois, tem em São João del-Rei um altar dourado na Matriz do Pilar e ainda maior legião de músicos. Várias orquestras, muitas bandas, uma infinidade de corais, sineiros... Tímidas e envergonhadas, pela própria condição periférica, popular, profana, folias, congadas e baterias de escola de samba não ousam confessar, mas também rendem graças e pedem favores à santa-mártir, mãe da música.

Mas Santa Cecília não discrimina. Pelo contrário, sabe que quanto mais diversos forem os ritmos, mais variados os compassos e mais combinadas as notas, mais rica, bela e plural serão a música, a melodia, a harmonia e o concerto final. Por isto, espera só que o sol se ponha no dia 22 de novembro para, de mãos dadas com todos, passear numa alegre ciranda - de flores, sons e estrelas - pelas ladeiras, largos e becos de São João del-Rei. E na fumaça do incenso com eles subir aos Céus...



* Dedicado à jornalista são-joanense Cláudia Simões

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Negritude, consciência, direitos, conquistas, igualdade & cidadania em São João del-Rei

O Brasil inteiro comemorou hoje o Dia Nacional de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra. São João del-Rei está comemorando a semana inteira, com palestras, panfletagem, encontro de zeladores de santo (orixás), cinema, desfile da beleza negra, cortejo, danças e artes afrobrasileiras e outras atividades do Ponto de Memória Batuques / Casa do Tesouro. Tendo começado no dia 18 e prosseguindo até o dia 28, será uma semana de 11 dias. Não se espante, em São João del-Rei isto é possível, e até muito comum.

Grande parte dos eventos acontece no centro histórico, em edifícios coloniais e nos largos e ruas mais antigas da cidade, mas a programação se estendeu também pela periferia, como o Bairro Araçá, famoso por seus grupos de congada e folia de reis.

Como era de se esperar, o evento, como um todo, visa a valorização e afirmação do povo negro são-joanense, o combate ao racismo e ao preconceito; a informação, mobilização e luta por igualdade, direitos, reconhecimento e cidadania. Daí seu enfoque etno-religioso, cultural, artístico, acadêmico e cidadão.

Sente-se falta, nele, da participação das agremiações carnavalescas, dos grupos de folia de reis e de congada e das orquestras barrocas, já que os negros são parte importante e quantitativamente expressiva de sua composição.

Louvável, muito louvável, foi a inclusão - na programação comemorativa - da inauguração do trevo de entrada para o distrito são-joanense de Santo Antonio do Rio das Mortes Pequeno, onde nasceu e foi batizada a beata Nhá Chica. A intenção, inclusive, da inauguração do monumento que representa a beata e sua pia batismal acontecer na Semana Municipal da Consciência Negra é destacar que nossa conterrânea Nhá Chica é a primeira negra beatificada do Brasil.

Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/05/quilombos-e-neoquilombos-de-sao-joao.html

Foto da abertura http://oglobo.globo.com/rio/restauracao-da-estatua-de-zumbi-ainda-espera-licitacao-2960797

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Em São João del-Rei, Santa Cecília dedilha amorosas canções para ninar Aleijadinho




Há exatos duzentos anos, nesta data, fechou os olhos para o mundo o mineiro Antonio Francisco Lisboa - maior nome do barroco nas Américas e o grande mestre das artes plásticas americanas no século XVIII, por todos conhecido como Aleijadinho.

Sua vida foi repetir, com maestria, o ato da criação. Cristos, virgens, anjos, apóstolos, soldados romanos, gente do povo, cordeiros, corações flamejantes, rocalhas e volutas graciosamente brotavam da pedra e da madeira pelo movimento até do que restaram de suas mãos. Aleijadinho reproduziu o céu entre os riachos, os vales, pepitas de ouro e as montanhas de Minas Gerais.

São João del-Rei recebeu a graça divina de ter em seu centro histórico dois dos seis mais belos templos barrocos criados pelo grande mestre - a igreja do Carmo, com as quinas angulosas de suas torres que misteriosamente ao alto se tornam sinuosas até diluir-se no infinito, e a igreja de São Francisco, absolutamente toda em curvas. As fachadas destas igrejas, com suas portadas, medalhões e janelas emolduradas, todas primorosamente esculpidas em pedra sabão, em seu barroco estilo não encontram similar em Minas Gerais, quiçá nem no Brasil ou em qualquer outra parte do mundo.

Na igreja de São Francisco, inclusive, Aleijadinho deixou sua marca em uma pequena imagem que se encontra em nicho de um altar lateral e no monumental retábulo da capela-mor, sublime, delicada e colorida expressão de alegre rococó, também ímpar na arte brasileira.

Por tudo isto, neste mês de novembro São João del-Rei está prestando por meio da arte, com uma vasta programação cultural, seu tributo de reconhecimento e gratidão a Aleijadinho. Tributo que certamente lhe está sendo entregue por Santa Cecília, padroeira dos músicos, que são muitos na cidade. Nas cordas douradas de sua harpa, afinada em clave de sol, mas também de lua e de estrelas, Santa Cecília dedilha notas musicais amorosas - canção de ninar que embala o sono profundo e do grande artista.

Descanse em paz, Aleijadinho. Dorme no colo de Deus, cercado dos anjos, arcanjos, querubins e serafins que você tanto espalhou por estas Minas de lembrança e eternidade.


Em São João del-Rei, até defuntos e cemitérios comemoram aniversários. Sabia?


Na tradição popular, novembro é o mês dos mortos e, em São João del-Rei, esta característica do penúltimo mês do ano é reforçada diversas vezes. A partir do dia 2, quando se celebra Finados, começam as missas aniversárias dos defuntos que pertenceram a uma, ou a várias, das dez Irmandades bicentenárias, sediadas no centro histórico são-joanense.

Também conhecida como "aniversário dos cemitérios", a cerimônia é composta de duas partes. Começa com uma missa, na igreja que é sede da Irmandade, onde, no centro da nave estão dispostos, no chão, um tapete preto, com galões e uma grande cruz dourados e bordados. Em cada uma das quatro pontas, um castiçal alto, com uma vela acesa, como se estivesse aguardando um defunto para a oração final.

Terminada a missa, os sinos tocam exéquias e os irmãos saem em procissão, vestidos com suas opas ou hábitos, e assim vão até o cemitério correspondente, onde o padre faz orações fúnebres. Tudo - missa e orações no campo santo - ao som de música barroca executada pela orquestra que atende às festas daquela irmandade: a Lira Sanjoanense ou a Ribeiro Bastos.

Esta celebração se repete dez vezes, em dias e datas predeterminadas.

Para saber mais sobre esta antiga tradição singular de São João del-Rei, veja o que diz o grande  maestro e pesquisador são-joanense Aloísio Viegas, no vídeo abaixo - um breve documentário gravado por Helvécio Benigno.



domingo, 16 de novembro de 2014

Encontro de Sineiros de Minas Gerais: Em São João del-Rei, palavra de sineiro não volta atrás


                No encanto do Primeiro Encontro de Sineiros de Minas Gerais, 
                clique no link abaixo e ouça o que dizem com as mãos e o coração
                os eternos meninos, homens sineiros de São João.
                E palavra de sineiro não volta atrás...

sábado, 15 de novembro de 2014

Encontro de Sineiros de Minas Gerais: da voz do bronze à voz dos homens em São João del-Rei


Dificilmente existe, no dia a dia de São João del-Rei, algum personagem mais presente do que ele: o sineiro. Assim como os sinos, é do alto das torres barrocas que eles anunciam júbilo ou tristeza, executando no bronze sons melodiosos que transmitem sinais litúrgicos e códigos seculares: dobres, repiques, chamadas, cinzas, tencões, terentenas, floreados, canjica queimou e uma infinidade de tantos outros. Se existem símbolos eternos de São João del-Rei, juntamente com os sinos, os sineiros estão entre eles.

Por tudo isto, São João del-Rei é também conhecida como "a cidade onde os sinos falam" e, portanto, não poderia ser realizado em outro lugar o Primeiro Encontro de Sineiros de Minas Gerais. Aqui, ele está acontecendo neste fim de semana, com atividades diversas - apresentações, intercâmbios, visita às torres, relatos e conversas sobre este patrimônio imaterial brasileiro, que é o toque dos sinos de São João del-Rei e demais cidades históricas de Minas Gerais.

Participam do encontro mais de quarenta sineiros de nove cidades coloniais, seguindo uma vasta pauta, em essência voltada para a presença e manutenção dos toques dos sinos no mundo contemporâneo, para a realidade dos homens que os executam e para a necessidade da definição e adoção de políticas de valorização, salvaguarda, preservação e difusão deste bem cultural vivo, que é lançado pelos ares e em emoção recolhido na memória e no coração.

Na oportunidade deste encontro, vale lembrar que desde 2006 existe um projeto, apresentado pelo Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, de criação, na cidade, do Museu Estação dos Sinos, conforme documento disponível neste endereço:  (http://patriamineira.com.br/imagens/img_noticias/081015230710_O_Sino_dos_300_anos_do_Arraial_Novo_de_Nossa_Senhora_o_Pilar_e_o_projeto__Museu_Estacao_dos_Sinos__de_Sao_Joao_del-Rei_-_MG_-_Jose_Antonio_de_Avila_Sacramento.pdf)

Foto: Thiago Morandi in http://www.patrimoniohistoriaviva.com.br/2014/11/salvaguarda-dos-sinos.html


Leia também 
 
 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Nhá Chica: de São João del-Rei para o Sambódromo carioca, via Baependi


Quando nasceu em Santo Antonio do Rio das Mortes, distrito de São João del-Rei, em 1808, a menina Francisca de Paula de Jesus, filha de uma escrava, não imaginava que seu nome e sua história iriam ultrapassar fronteiras e continentes. De São João del-Rei para Baependi, de Baependi para Minas Gerais e para todo o Brasil, do Brasil para o Vaticano e de lá para o mundo inteiro. A negra, analfabeta, afilhada de Nossa Senhora da Conceição e Serva de Deus, conhecida também como 'mãe dos pobres', foi beatificada em maio de 2013.

Agora, em fevereiro do ano que vem, mais uma vez Nhá Chica vai ser destaque no Brasil e no mundo, porém passando por um caminho incomum, pouco ortodoxo mesmo, para uma beata que não vê a hora de ser santificada: o Sambódromo do Rio de Janeiro. Sua história vai ser o enredo da Escola de Samba Tradição, no Carnaval de 2015, que tem o título Nhá Chica, a beata negra e guerreira do Brasil.

E não haveria forma mais brasileira nem mais eficaz para propagar a fé e difundir a humildade e outras virtudes de Nhá Chica. Afinal, durante 50 minutos, sua trajetória iniciada no distrito são-joanense do Rio das Mortes há 206 anos e ainda trilhando o caminho da santificação será contada em um samba-enredo e com fantasias, alegorias, destaques, evolução, comissão de frente, ala das baianas e tudo o que faz uma escola de samba encantar milhões de pessoas em muitos países de vários continentes.

Esta não será a primeira vez que a história de São João del-Rei desfilará como enredo carnavalesco de uma importante escola de samba do Rio de Janeiro, no caso, a Escola de Samba Tradição. Em 2006, portanto há menos de uma década, a cidade foi o tema do desfile da Escola de Samba União da Ilha, no enredo As minas del Rei São João.

Antes ainda, em 2002, a Escola de Samba Unidos da Ponte saudou nossa cidade e um de seus filhos mais ilustres com o enredo De Minas para o Brasil: Tancredo Neves, o mártir da Nova República.

Para saber mais sobre este tema, acesse 

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/09/nha-chica-estrela-do-rio-das-mortes.html

http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/01/as-minas-del-rei-sao-joao.html.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

São João del-Rei tem duas das seis mais belas igrejas de Aleijadinho



Aleijadinho presenteou São João del-Rei com o projeto de duas das seis igrejas barrocas que especialistas consideram as mais belas do barroco mineiro. As das Ordens Terceiras de Nossa Senhora do Carmo e de São Francisco de Assis. Se em quantidade  parece pouco, é só lembrar que duas é um terço de seis!

Retribuindo o tesouro recebido do maior gênio do barroco nas Américas, a cidade desenvolverá uma vasta programação para homenagear o grande mestre, neste mês e ano em que se comemora o bicentenário de sua chegada ao mundo.

Até o momento, já estão programados onze eventos, distribuídos no período de 11 a 30 de novembro: exposições, palestras, lançamento de livros e de documentário, recitais e concertos. Eles acontecerão principalmente no Museu de Arte Sacra, no Teatro Municipal e na delicada Capela do Espírito Santo.

Mas não será surpresa se este rosário cultural estender-se por outros espaços coloniais do centro histórico e aumentar ainda mais com jantar harmonizado, intervenção urbana, missas cantadas, fotografia, poesia, teatro e outras realizações.

Quando o assunto é arte, beleza e cultura, São João del-Rei é fartamente barroca. Tanto quanto o Céu que Aleijadinho espalhou por estas Minas...

sábado, 1 de novembro de 2014

A morte é vizinha da vida em São João del-Rei. O que as separa é só um portão de ferro!

Hoje, os sinos de São João del-Rei estão dobrando de um modo diferente, em uma frequência incomum. Começaram ontem, logo depois da Hora do Ângelus, tocam do alto das torres de todas as igrejas, de tempos em tempos, e assim será até o cair da noite, pois hoje é o dia dos Mortos. Seus dobres são dobres fúnebres.

Desde cedo, missas são rezadas nas várias coloniais igrejas, muitas das quais preparadas como antigamente eram quando iam receber um defunto, para ser ali "encomendado": um tapete de veludo preto, engalanado com bordas douradas e uma grande cruz no centro também dourada, estendido próximo do arco-cruzeiro. Sobre ele, uma alta e grande "eça" - imponente, nobre e trágica mesa de madeira, esculpida com caveiras e outros símbolos funerários.

Na tradicional cidade, ainda é costume dos mais velhos entrar rezando para as almas do Purgatório pela porta principal das igrejas três vezes seguidas e sair pela lateral, para obter "indulgências plenárias concedidas neste dia pelo Santo Padre, o Papa". Naturalmente, quanto mais igrejas, mais indulgências...

Apesar de ser um dia de melancolia e saudade, Finados não é marcado pela tristeza em São João del-Rei. Talvez porque ali, no dia a dia, mortos e vivos são vizinhos parede-e-meia, pois no centro histórico dez campos santos se alternam entre  as casas, facilitando a que os vivos - quando a ausência aperta - não precisem de mais do que um passo para atravessar os portões de ferro dos cemitérios e falar com seus mortos. Rezar, reclamar, maldizer, agradecer, pedir conselho, intercessão, ajuda ou, simplesmente, conversar e matar a saudade. Isto alivia um bocado a dor da separação, já que quem ficou não perdeu visualmente a referência geográfica de onde quem foi está. Nem mesmo de noite, já que da rua, iluminadas pela lua, se vê muitas covas, sepulturas, túmulos e ossuários, com suas cruzes, nomes e flores.

Lembrando séculos passados, as orquestras Ribeiro Bastos e Lira Sanjoanense tocam neste dia, nas missas e ofícios de algumas igrejas, músicas barrocas dos Ofícios de Trevas e peças de exéquias, como a marcha fúnebre A Saudade, do grande maestro e compositor são-joanense Benigno Parreira. É uma das músicas funerais mais executadas em Minas Gerais e, em São João del-Rei, frequentemente regida pelo próprio autor.

Assim escorre o dia 2 de novembro em São João del-Rei, até que no fim da tarde os sinos parem de tocar e o manto azul muito escuro da noite cubra a cidade.

No poema e na canção, um suspiro atravessa o portão. Clique e ouça, se tiver coração!


terça-feira, 28 de outubro de 2014

Rondó de uma imaginária noite de São João del-Rei


                                 Na minha terra, fim do dia,
                                 o sol apaga a luz da lamparina.
                                 Vai deitar do lado de lá do Lenheiro
                                 para certeiro sono São João adormecer.

                                 De mansinho, silencioso,
                                 Cordeiro de Deus
                                 salta-lhe do ombro.
                                 Porta afora, céu adentro,
                                 cometa, estrela, lua, orvalho e vento,
                                 até a noite em claro amanhecer.

                                 De seu sonho inocente,
                                 deserto, água, peixe, mel e concha,
                                 pomba branca lá do alto tudo encanta,
                                 São João sorri, só se levanta
                                 quando o sol em brilho aparecer!                 


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

São João del-Rei tem eira e tem beira. Tem beira-seveira, cimalha, cachorro e muitos outros beirais


Em São João del-Rei, quando ainda hoje se diz que algo ou alguém não tem eira nem beira, não se está fazendo um elogio. Pelo contrário! Sem eira nem beira quer dizer sem fundamento, descabido, sem posses nem referências, sem qualquer coisa em que se possa basear para atribuir algum valor ou reconhecimento.

No período colonial, a expressão servia para designar alguém muito pobre, quase um sem-teto, já que eira, em Portugal, significava pátio ou quintal e beira o mesmo que beiral: acabamento na base do telhado, que se projetava à frente da fachada das casas residenciais e das edifícações públicas. Até as igrejas tinham, nas laterais, de telha, madeira ou em pedra, belos beirais.

Passeando pelas ruas, largos e becos de São João del-Rei, quem observar a fachada das casas simples, dos casarões e dos sobrados vai se deparar com vários tipos de beirais.

As famosas beiras-seveiras, que são rendilhados de duas ou três camadas de telhas, com a curvatura para baixo, fazendo um acabamento delicado e gracioso entre a fachada e o telhado. Naquele tempo, indicavam nobreza.

As cimalhas, geralmente de alvernaria, são uma faixa horizontal, ondulada e com sulcos, que acompanha toda a fachada, servindo de base para a beira, que é a última camada de telhas e se projeta telhado afora. Mais austeras e por isto mesmo menos graciosas e mais imponentes do que as beiras-seveiras, inspiravam poder.

Os beirais de cachorro, mais simples do que os outros dois, também tem seu encanto. São pontas de caibros de madeira, muitas vezes bastante grossos e finalizados com um recorte, que apoia uma faixa de madeira ao longo da fachada. Cuidadosa solução estética, são uma projeção externa do telhado, sustentando a beira.

Já a beira é o mais humilde dos beirais. Nada mais do que o acabamento do telhado, é uma beirada que, quando muito, avança meia telha curva adiante da fachada...

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Bendito e louvado sejam as folias, pastorinhas, congadas e catupés de São João del-Rei


Ninguém duvida da riqueza cultural de São João del-Rei. Principalmente das tradições barrocas que, herdadas do século XVIII, permanecem vivas, nas mais diversas formas de expressão: ofícios religiosos, música barroca, ricas procissões, toques de sinos, tapetes de rua e muitas outras atividades que preenchem de som, perfume e cor os 365 dias do ano de quem vive às margens do Córrego do Lenheiro.

Mas existem algumas manifestações culturais que, paralelas ou periféricas às grandes celebrações litúrgicas, ainda são pouco conhecidas - e por isto mesmo pouco reconhecidas - pelos próprios são-joanenses. Entre estas, estão as folias, pastorinhas e congadas, que se apresentam por ocasião do Natal, Santos Reis Magos e São Sebastião, em janeiro, Divino Espírito Santo, em maio / junho, e Nossa Senhora do Rosário, por todo o mês de outubro.

Em algumas situações, as folias e congadas podem ser vistas no centro histórico da cidade, mas seu território forte são os bairros e alguns distritos de São João del-Rei, sobretudo no do Rio das Mortes e de São Gonçalo do Amarante, popularmente chamado Caburu.

A beleza, singeleza, simplicidade e dramaticidade popular destes grupos mostram que sua origem vem do espírito telúrico, de um tempo distante quando o homem com os pés acariciava o chão, conversava com o vento, se irmanava e vivia em harmonia com as plantas, com os animais e com todas forças da natureza. Isto se vê nos seus cantos, suas danças, suas vestes, suas caixas, seus estandartes e seus adereços. Todos muito simples, leves, alegres como só pode ter quem não maculou a pureza ingênua da inocência.

Felizmente, a cada ano vê-se as folias e congadas reforçarem suas raízes, com vigor e vitalidade. Reforçarem sua presença, nos seus locais de origem, e conquistarem respeito, admiração e encantamento, nos largos e becos coloniais. Que em breve as folias, pastorinhas e congadas sejam incluídas com o merecido destaque no calendário cultural de São João del-Rei, recebam incentivos e estímulos para sua preservação e também a atenção de estudiosos e pesquisadores.

Mesmo em pequeno número nos grupos e ternos, tal qual orvalho e sereno, as crianças congadeiras dão viço e frescor a uma prática ancestral, que é ao mesmo tempo misteriosa e explícita. Para decifrá-la, entendê-la e vivê-la, basta deixar no peito, qual tambor, bater o coração.

Foto: Ulisses Passarelli

Para saber mais sobre os congadeiros de São João del-Rei, clique no link abaixo e assista o documentário Esse rosário é meu

domingo, 12 de outubro de 2014

São João del-Rei, com glórias e louvor, agradece e pede bênçãos à sua padroeira


Desde cedo, vive hoje São João del-Rei uma atmosfera diferente. Mal o dia amanheceu e uma alegria solene está debruçada nas sacadas e nas janelas. De tempos em tempos, desde cedo, os sinos da Matriz do Pilar dobram e repicam festivos. Vestidas com um retoque a mais na roupa de ver Deus nos domingos, homens e mulheres atravessam as sete pontes de pedra e de ferro que se curvam sobre o Córrego do Lenheiro e todas levam rumo à Rua Direita, a uma escadaria e adro altivo, ao altar dourado de Nossa Senhora do Pilar, "excelsa padroeira de São João del-Rei".

 Hoje, 12 de outubro, é dia de Nossa Senhora do Pilar, o que por si só todo ano, nestas terras, é motivo de louvor e festa. Mas em 2014 São João del-Rei tem um motivo a mais para celebrar: os sessenta anos da coroação pontífícia da imagem da Virgem que socorreu o apóstolo Tiago na cidade espanhola de Zaragoza. Aqui, reverenciando sua magestade, recebeu em 1954 uma grande coroa de ouro garimpado nas minas e betas da Serra do Lenheiro, do Alto das Mercês, do Cassoco, da Bica da Prata e de outros locais auríferos são-joanenses.

Am festa começou no dia 3, com uma novena barroca e se encerra hoje, com celebrações que se intercalam preenchendo por todo o dia. com missas solenes, Liturgia das Horas, Vésperas Solenes de Nossa Senhora, encerrando-se à noite, com procissão barroca e canto do Te Deum Laudamus.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

São João del-Rei: ... houve este mundo ou eu inventei? ...



                                       "O sino da minha terra ainda bate

                                         às primeiras sextas-feiras
                                         por devoção ao Coração de Jesus.
                                         Em que outro lugar do mundo
                                         isto acontece?"


                                                                                 Adélia Prado

terça-feira, 30 de setembro de 2014

São Miguel Arcanjo: um luminoso corpo celeste em São João del-Rei


Divindade que é, São Miguel Arcanjo não tem corpo. É espírito, um dos mais elevados das Potestades. Quando Deus criou a luz e, em seguida, o universo, com seus astros, planetas e cometas, São Miguel há muito já existia.

Mas em São João del-Rei, desde séculos passados até hoje, muitos artistas se dedicam a dar ao Anjo Maior forma humana. E, com isto, existe na cidade um sem-número de representações de São Miguel, nas mais diversas técnicas, formas e materiais - madeira, cerâmica, ferro, pinturas, bordados, pedra sabão, cobre, papel, palha, aninhagem. Todas aladas, a maioria com a balança na mão esquerda, várias com espada flamejante, algumas com escudo e lança, tendo o demônio, assustado e temeroso, a seus pés.

Na ilustração deste post, a representação do arcanjo São Miguel - obra em cerâmica, criada pelo saudoso artista plástico são-joanense Marcos Mazzoni, em 1992 (acervo do autor).

São Miguel Arcanjo. Há 300 anos Príncipe da Milícia Celeste protege São João del-Rei


Faz mais de 300 anos que São Miguel Arcanjo chegou a São João del-Rei, ainda Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Aqui, ele viu o ouro brotar da terra e, por cobiça humana, facões e espadas crisparem seus metais, acendendo no ar raios e relâmpagos. Arcabuzes lançarem pólvora e estouro de trovão e até o Córrego do Lenheiro correr tinto de sangue na Guerra dos Emboabas. Há quem diga que, sinal de sua força e poder, ele escapou das chamas que incendiaram a primitiva capela de Nossa Senhora do Pilar, no Morro da Forca, saindo a salvo na companhia de seu vizinho, o guerreiro e mártir São Sebastião.

Vencidas as chamas e abrandado o calor das pedras em brasa, em 1716 São Miguel criou seu exército humano na recém-criada Vila de São João del-Rei: a Irmandade de São Miguel e Almas. Desde então, toda segunda-feira é saudado com uma missa vespertina e no mês de setembro festejado com muita oração e especial louvor. Depois de um tríduo noturno, de leituras e cânticos barrocos, na quarta noite,  dia 29, São Miguel sai sobre andor em revista às ruas, largos, ladeiras, vielas e becos do centro histórico de São João del-Rei, dobrando esquinas, cruzando encruzilhadas, rondando cantos e recantos, para certificar-se de que em toda parte brilha a luz eterna e espantar para longe, de onde for preciso, o príncipe das trevas e das enganadoras artimanhas, que põem a perder as almas.

São Miguel é muito querido dos autênticos são-joanenses, que em respeito ao seu nome não lhe invocam em quase momento algum. Os antigos, na sua fé inabalável, acreditavam que, se chamado, não era impossível comparecer  em imediato socorro. Por isso, como escudo contra o Inimigo, tinham dele em casa imagem ou estampa e, sempre ao alcance da mão, ou como patuá no pescoço, a Oração de São Miguel, muito forte para afastar a presença maligna e resgatar a paz de Deus.

Para os são-joanenses, São Miguel Arcanjo tudo pode. Na Matriz do Pilar, seu altar fica do lado direito do arco-cruzeiro e honraria igual só tem Nossa Senhora da Boa Morte, no lado esquerdo. Se por um lado cabe a ele manter preso Satanás no Inferno, o que faz em São João del-Rei tendo à mão direita a Cruz de Cristo e o estandarte vermelho da Santíssima Trindade, por outro, na porta do Céu, ele pesa as virtudes e vícios humanos na balança que tem à mão esquerda, para conferir, segundo aqueles méritos, qual será o destino das almas que, ao deixar o corpo e a Terra, ali chegam.



Post Scriptum - A presença de São Miguel na vida do povo de São João del-Rei é tão representativa e democrática como expressão de fé e religiosidade que no alto da antiga Rua São Miguel, arredores da igreja das Mercês, há incontáveis décadas funciona o Centro Espírita Kardecista São Miguel Arcanjo. A autêntica cultura são-joanense é verdadeira quanto à pratica de seus princípios humanistas e ecumenicamente evoluída quanto ao respeito à diversidade religiosa.





quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Festa de Nossa Senhora das Mercês: a sagração da primavera em São João del-Rei*

Em São João del-Rei, todo ano é assim: a primavera só chega no dia 24 de setembro, no buquê de flores brancas que Nossa Senhora das Mercês carrega na mão direita. Seus pés pisam nuvens de flores que brotam dos altares e se espalham por toda a igreja, singela e graciosa, incrustada em uma rocha que dá início à subida da Serra do Lenheiro. Entrada para o caminho por onde no século XVIII subiam homens escravos, desciam negros livres, transitavam cativos mulatos, atrevidos criolos, astutos morenos e gentes de toda laia - clandestinos, foragidos, ladrões, proscritos, ciganos, bandidos, degredados - todos a faiscar ouro nas betas, a garimpar no ribeirão e a catá-lo entre raízes do capim agreste. Alguns, dizem, escondiam o ouro na carapinha...

Todo ano, no anoitecer do dia 24 de setembro, Nossa Senhora das Mercês leva a primavera a passear pelas ruas, largos e becos coloniais de São João del-Rei. Entre as flores de seu buquê e de seu andor, carrega graças, mercês, milagres e favores, que o tempo todo e durante todo o ano distribui ao povo são-joanense. Tudo brota de uma fonte inesgotável e eterna, que nunca seca nem se acaba. Antes, se renova em cada primavera. Dizem que a nascente desta fonte é seu coração...

As marchas tocadas pelas bandas dão cadência ao ritmo de seu caminhar, entre nuvens de incenso, inocentes anjinhos infantis, autoridades dignas, senhores respeitáveis, homens devotos, mulheres contritas, esperançosas e agradecidas, patriarcas e matriarcas que todos são da tradição e da fé. E também o povo, sem distinção de idade, escolariedade, classe nem de cor. Dizem que parece o Céu, aquela que no conjunto das expressões culturais setecentistas é a mais barroca cidade de Minas Gerais...

A libertadora dos cativos e protetora dos que com suor , ousadia e sangue conquistaram a liberdade ou foram pela intercessão dela alforriados, é generosa e também acolhe os descendentes dos inclementes nobres e dos cruéis feitores. Deles e daqueles tempos, tamanha desumanidade e brutalidade têm símbolo no pelourinho de pedra, fincado no jardim em frente ao terceiro Passinho da Paixão.

De tempos em tempos, de espaços em espaços, os sinos marcam o compasso, ora mais lento, ora mais vivo, ora exultante. De pontos em pontos fogos de artifício enchem o céu de mais cometas e estrelas, enquanto que das sacadas dos casarões chovem pétalas e preces. Viva Nossa Senhora das Mercês! Viva... Viva nossa mãe celestial! Viva...

De volta à sua esplanada, o andor vira-se para o hospital e a santa mira, piedosa e complascente, todos os doentes. Anima alguns, conforta outros e promete amparo, na hora tenebrosa, àqueles que já estão a caminho do Céu, onde em breve se encontrarão com ela.

Depois, dá meia-volta e, de frente para os são-joanenses, sobe de costas, lentamente e pesarosa por se despedir, os 33 degraus de sua imponente escadaria. Entra em sua igreja, mas deixa em cumplicidade e gratidão a primavera, num fértil e serenado buquê de flores e de favores, para o povo de São João del-Rei.

* Para a são-joanense, jornalista e escritora, Kaká Freitas




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Sobre a Festa ds Mercês, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/09/seria-hoje-em-sao-joao-del-rei-um.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/09/festa-das-merces-ha-cem-anos-obrigacao.html

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Lua nova de setembro: semicírculo de prata brilhante no céu de São João del-Rei


A lua nova de setembro, em São João del-Rei, que acontece nesta época do ano, mostra uma paisagem celeste singular. Ainda mais quando acontece de estar alinhada com alguns planetas, brilhantes e bem visíveis a olho nu logo depois do anoitecer.

É como se fosse um semicírculo de prata, meia aliança, incompleto aro, pontuado por dois ou três diamantes.

Tão belos são esta lua e este luzeiro que inspiraram aos são-joanenses a seguinte saudação religiosa popular:

                           "Deus vos salve Lua Nova,
                             Lua de São Clemente.
                            Quando voltares de novo
                             trazes dinheiro* pra gente..." 

* O objeto do pedido pode variar de acordo com a necessidade: dinheiro, saúde, fartura, alegria, esperança...



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Informante: Carmen Trindade da Costa


domingo, 14 de setembro de 2014

Setembro, em São João del-Rei, é tempo do Bom Jesus, da Cruz e do Perdão

Dia da Exaltação à Santa Cruz, 14 de setembro é festejado em São João del-Rei com três celebrações distintas e simultâneas. A mais movimentada, sem dúvida, acontece no bairro de Matosinhos, como ponto máximo do Jubileu do Senhor Bom Jesus, padroeiro daquela freguesia. Realizada desde o século XVIII, a festa tem importância regional e para ela, até décadas passadas, vinham romarias dos povoados e cidades próximas.

Mas o Bairro de Matosinhos cresceu, é muito movimentado, e do tempo antigo, além da fé, da devoção, do entusiasmo e da imagem do Crucificado, quase nada restou. A velha igreja singela e barroca deu lugar a um templo moderno e a procissão crepuscular, que avança noite a dentro, chegou até a ser motorizada, adequada ao ritmo intenso e próprio daquela comunidade.

Mas pelo bem da memória dos velhos e dos novos tempos, o andor voltou a ser carregado no ombro pelos homens da Irmandade do Bom Jesus, ao som de marchas tocadas pela banda local. Lembranças antigas, nas barraquinhas do adro e da praça da igreja, ainda se come a alegria, a doçura, a saudade e o sabor de outros tempos, assim como no Largo ainda acontece o leilão de gado, como prenda para a Paróquia de Bom Jesus de Matosinhos.

No centro histórico, à noite, na Matriz do Pilar, a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos exalta a Santa Cruz,  numa solenidade antiga, austera e respeitosa, perfumada de muito incenso, orações e música barroca de compositores locais, como Adoramus te, Popule Meus (vídeo), Miserere e Stabat Mater. A cerimônia se repete no dia 15, dedicada a Nossa Senhora das Dores.

Também no dia 14, depois que o sol se põe atrás da Serra do Lenheiro, na igreja das Mercês, lá no alto, quase já na subida da montanha que abraça a cidade, Bom Jesus do Perdão recebe a contrição e a fé dos fiéis. A Orquestra Lira Sanjoanense, a orquestra barroca mais antiga das Américas, torna mais denso o clima religioso, entoando músicas coloniais. É assim há muito tempo: flores, incenso, cânticos, arrependimentos, súplicas, adoração.

Tudo às vésperas do dia em que começa a graciosa Novena de Nossa Senhora das Mercês, protetora do povo de São João del-Rei. Generosa e pródiga, aos são-joanenses ela não nega bênçãos nem favores e eles agradecem com glórias e veneração.

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Patrimônio de valor inestimável são as lembranças e as memórias humanas de São João del-Rei

São João del-Rei tem muita história viva. Não apenas aquelas que se repetem anualmente nas tradições que revivem, no relembrar, fatos e tempos passados. São João del-Rei tem muita história que vive, dorme, sonha, tece, planta e cultiva saudades dos tempos idos e esperanças naqueles que estão por vir.

Os octogenários e nonagenários de São João del-Rei têm a história brilhando nos olhos, correndo nas veias, batendo no peito, E zelam dela mantendo-a acesa e pulsante na memória pessoal, inclusive como escudo protetor contra o mal de Alzeimer, a depressão e depreciação social que o envelhecimento tenta lhes impor.

Lembranças de antigas paisagens, de nomes originais das ruas, brincadeiras de infância, métodos escolares, modinhas, benzeções, propriedade terapêutica das ervas, simpatias, lendas, mandingas, chás miraculosos, orações fortes, cantigas, efemérides, temperos, crenças, saberes e sabores. Tudo isto é deles rico patrimônio sentimental, afetivo e cultural, mas muito pouco identificado, inventariado e registrado em algum suporte ou compêndio. Deste modo, é patrimônio volátil, que evapora um pouco mais toda vez que um sino dobra exéquias, anunciando uma triste partida para o reino do eterno sem-fim.

Como herança e no desejo de perpetuar-se, eles tentam transmitir esta bagagem para algum filho, mas é impossível apreendê-la, introjetá-la, incorporá-la e vivenciá-la, por ser subjetiva e existir tão grande distância entre os dois tempos. É como se o herdeiro recebesse por dote a responsabilidade de cuidar e repassar o que eram, ou foram, memórias recolhidas pela existência de quem lhes as legou.

Riqueza preciosa, estas memórias merecem e precisam ser valorizadas como importante patrimônio coletivo de São João del-Rei. Tanto quanto o patrimônio construído e os bens imateriais, pois falam da vida que os contextualiza e humaniza. E por isto devem receber das instituições culturais públicas e privadas, do meio acadêmico, da comunidade e até do são-joanense mais comum toda atenção e também ações concretas que garantam sua efetiva perpetuidade.

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Na foto, a são-joanense Carmen Trindade da Costa, no quintal onde zela de orquídeas e das memórias do que vive ao longo de seus 86 anos.


sábado, 6 de setembro de 2014

V Semana Cultural Dom Lucas Moreira Neves: música de domingo a domingo em S. João del-Rei


Se Dom Lucas Moreira Neves do outro mundo viesse a São João del-Rei esta semana, certamente sorriria grande felicidade.Traria também seus irmãos, Dona Stella e Zé Maria, para partilhar com eles tamanha alegria. É que de domingo a domingo, ou seja, de 7 a 14 de setembro, acontece na terra onde os sinos falam a V Semana Cultural Dom Lucas Moreira Neves.

Promovida pelo Memorial Dom Lucas Moreira Neves, este ano ela tem na música seu eixo principal. Afinal, a música sempre foi paixão, virtude e dom da família de Dom Lucas desde seu pai, Telêmaco Neves, e é uma das faces divinas da alma de São João del-Rei.

A semana se abrirá no domingo, dia 7, às 20 horas na igreja do Carmo, com um encontro de Ave Marias: um recital lírico com as mais belas composições dedicadas a Nossa Senhora, executadas por um conjunto de sopranos, barítono, flauta e espineta. Na segunda feira, tem missa cantada na Matriz do Pilar e, nos dias seguintes, à noite, no Memorial, uma programação musical variada: Coral de Trombones, Modinhas Imperiais, Música Popular e, no sábado, a montagem da peça Capital Federal, de Arthur Azevedo.

A programação se encerra no domingo, 14, novamente às 20 horas na igreja do Carmo, com um recital especialmente oportuno: o Encontro de Verônicas. Neste evento, a acontecer exatamente no dia em que se homeageia o Senhor Bom Jesus de Matosinhos, cantoras que já foram Verônicas nas procissões de Sexta Feira Santa em São João del-Rei, Ouro Preto, Serro e São Paulo cantarão o lamento que entoam várias vezes quando abrem o sudário e expõem a face ensanguentada de Jesus:

"O vos omnes qui transitis per viam. atendite et videt se est dolor sicut dolor meus..."


A semana cultural termina no domingo, mas as homenagens a Dom Lucas Moreira Neves não. Na terça feira, 16, às 18h30 na capelinha de Santo Antonio, mais uma missa em memória do cardeal são-joanense. Aliás, foi na Rua Santo Antonio, a mais musical da cidade, construída no caminho dos bandeirantes que entravam no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar no começo do século XVIII, que Dom Lucas, ainda o menino Luiz, brincando na infância, viu brotar e crescer sua missão religiosa. 


quinta-feira, 4 de setembro de 2014

O que se ver e fazer em São João del-Rei? Só não sabe quem não vem cá...


Uma cidade misteriosa, que não mostra, à primeira vista, suas belezas. São João del-Rei é assim. Não é uma cidade óbvia, espetacularizada, estereotipada nem folclorizada. Tal qual num namoro mineiro, é preciso calma e serenidade para conhecer os encantos daquela que - por manter vivas e organicamente integradas suas visões, memórias e tradições dos longínquos tempos do ouro - pode ser considerada a mais barroca cidade de Minas Gerais.

De imediato, quem chega ao centro histórico não percebe isto. A diversidade evolutiva da arquitetura, que mistura os séculos XVIII, XIX e XX, às vezes intriga e desconcerta o visitante quanto ao tempo em que ele está. Como é possível ali três séculos trançarem seus estilos estéticos sem, na maioria dos casos, perder sua autêntica harmonia? E a monumentalidade delicada dos templos, a mostrar que Deus mora aqui e é vizinho dos são-joanenses?

A cada hora do dia, conjugada com a estação do ano, a paisagem são-joanense muda tão fortemente sua face, que as igrejas, largos e becos não parecem aqueles que se vira antes. Novamente a cidade desafia e surpreende o visitante, agora em relação ao espaço.

De repente sinos dobram e repicam (em São João del- Rei os sinos são muitos e tocam o tempo todo). Em compasso parecido, uma banda toca (São João del-Rei tem quatro bandas musicais, todas muito atuantes). As orquestras tocam e cantam melodias setecentistas (a cidade possui as duas orquestras barrocas mais antigas das Américas, uma orquestra sinfônica e várias orquestras de câmara).

Das igrejas iluminadas saem procissões que revivem tradição iniciada no século XVIII (o calendário litúrgico da cidade, com seus diversos ofícios, novenas, rasouras e procissões, pode se dizer, ocupa todos os dias do ano). Nos largos, no coreto, nas praças públicas, nas igrejas, nos teatros - a música está em toda parte, com suas notas e pausas passeando entre o passado, o presente e a eternidade. Como é que pode ser tão autêntica, genuína, barroca e musical cidade?



E agora, já sabe o que ver e fazer em São João del-Rei? Para conhecer mais, leia outras matérias deste Almanaque Eletrônico, entre elas:

. http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/08/ninguem-duvida-em-sao-joao-del-rei-os.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/07/novena-de-nossa-senhora-do-carmo.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/05/em-sao-joao-del-rei-dizem-que-os.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/04/forcas-confusoes-e-alvorocos-de-sao.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/03/festa-de-passos-sao-joao-del-rei-alem.html

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Salve São João del-Rei. Salve setembro. Salve tudo o que aqui faz a vida ficar melhor e mais bonita!


Mal setembro anuncia sua primeira alvorada e em São João del-Rei a primavera se antecipa, florescendo pétalas de fé. De toda parte exala aroma doce de orvalhada flor de laranjeira, de inocentes manacás umedecidos de sereno e brisa, de jasmins mansinhos e repicados como se fossem vegetais estrelas de papel. Nem precisa ser noite. O amanhecer ou o entardecer já bastam.

O nono mês do ano é suavemente santo à sombra da Serra do Lenheiro. Faltam-lhe horas, dias e noites para tamanha devoção. Senhor do Monte, Bom Jesus de Matosinhos, São Francisco em chagas, Nossa Senhora das Mercês, São Miguel Arcanjo, Anjo da Guarda. Setembro precisaria ter 40 dias para caber, dia a dia, toda a são-joanense liturgia. Ser trinta por cento maior.

Os sinos não param. A orquestra canta continuamente. Aqui e ali, foguetes estouram sua alegria e fogos de artifício riscam o céu. Anjos infantis dobram esquinas, em meio a brancas nuvens de incenso e de algodão doce. As bandas tocam marchas alegres, enquanto nas barraquinhas se reencontra a infância em biscoitos fritos, pés-de-moleque, bolo de coco, quebra-queixo, pirulito de mel, guaranás, suco de vermelha groselha, empadas de capa grossa, pasteis, coxinha de galinha.

Vozes roucas gritam leilões de prendas doadas, anunciam rodadas de jogos de argola, de víspora, de roleta com avião que  voa sobre o nome de várias cidades e pousa sobre aquele, de sorte e felizardo, que vai levar o prêmio. Em uma bacia cheia de areia, se pescam peixinhos de lata, coloridas lembranças de um tempo distante ainda presente, já meio reticente, na memória do povo deste meu lugar.

Que bom que até hoje é assim. Salve São João del-Rei. Salve setembro. Salve tudo o que aqui faz a vida ficar melhor e mais bonita. E que pulsa vivo no coração são-joanense! Como esta Abertura Solene da Marcha das Mercês, executada pela bicentenária Orquestra Lira Sanjoanense. Ouve só...



domingo, 24 de agosto de 2014

Ninguém duvida: em São João del-Rei os sinos falam! Quer entender o que eles dizem?



A intimidade de São João del-Rei com os sinos não é de hoje. Logo nos primeiros anos de surgimento do Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, o sino já andava falando entre os forasteiros que vieram a ser os primeiros são-joanenses. Bem, como ainda nenhuma igreja havia sido construída neste vale da Serra do Lenheiro, na verdade quem falava era uma sineta, hoje parte do acervo do Museu de Arte Sacra.

Desde então, no peito dos são-joanenses bate um sino. Ao longo de três séculos desenvolveu-se uma linguagem sineira rica, complexa, bela e sofisticada, eficaz para transmitir informações em uma época em que não havia, no início do Ciclo do Ouro, nos arraiais em nascimento, nenhuma alternativa para a comunicação de massa. Assim, eram os sinos que cumpriam este papel. Informavam horas, datas e eventos religiosos, bem como as circunstâncias mais diversas, como dificuldade no parto, agonia, morte e sepultamentos.

De lá para cá, muita água passou sob as pontes do Rosário e da Cadeia, numa correnteza de 300 anos.O mundo deu muitas voltas, modernizou-se, desenvolveu novas formas e novos meios de comunicação, na linguagem de cada tempo e de acordo com as necessidades então atuais. Assim, é natural que, aos poucos, os são-joanenses vão conhecendo cada vez menos os códigos sineiros e os mais jovens - verdade seja dita - nada entendam do que os sinos dizem.

Se este é seu caso, e se você deseja aumentar e enriquecer seu conhecimento sobre esta particularidade da cultura de São João del-Rei, veja este bloco do documentário Sinos e silêncios, produzido e veiculado pela TV Aparecida (vídeo abaixo). Nele, o maestro Aluízio Viegas, uma das maiores autoridades brasileiras quando o assunto são as tradições barrocas de nossa terra, fala sobre vários toques, descrevendo-os e explicando em que situações eles são executados. Assista e beba conhecimento nesta preciosa fonte de cultura...


sábado, 23 de agosto de 2014

Mágicos talismãs sonoros de São João del-Rei, a mais barroca cidade de Minas



Engana-se quem pensa que a única finalidade dos sinos de São João del-Rei, além de compor as torres das belas igrejas barrocas, é informar e anunciar, em linguagem setecentista, as horas, missas, novenas, quinquenas, trezenas, tríduos, ofícios, procissões, partos difíceis, agonias, mortes e sepultamentos.

Ao darem vida e enriquecerem a tão singular sonoridade são-joanense, eles desempenham outra função, pouco conhecida na própria cidade. São talismãs sonoros que, ao dobrarem e repicarem, lançam céu afora, em forma de notas musicais, proteção contra tormentas e desejo de ventura, até os limites onde seu som, mesmo morrendo, alcança.

Esta missão lhes é confiada no momento em que, antes de serem elevados pela primeira vez à torre, recebem a bênção do batismo e também o nome. A oração, rezada para o sino São João da Cruz, que este ano subiu para uma torre da igreja do Carmo, diz o seguinte:

          "Que dos lugares onde ressoar este sino
            se afaste para longe 
            a virtude das ciladas dos inimigos,
            a sombra dos fantasmas,
            a violência dos turbilhões,
            os golpes dos raios,
            os estragos das trovoadas,
            os desastres das tempestades
            e todos os espíritos das procelas."

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Reproduzida de mural exposto na sacristia da igreja do Carmo de São João del-Rei, em 01/08/2014.