segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Em São João del-Rei, na Rua da Prata, a cultura vale ouro!


Caminhar pela Rua da Prata, em São João del-Rei, vindo do Largo São Francisco ou tendo atravessado a Ponte do Rosário, é sempre um passeio poético e irrecusável. Lembrando no antigo nome um metal precioso - e no atual homenageando o também precioso compositor sacro Padre José Maria Xavier - aquela rua é um dos endereços nobres  da cultura são-joanense. Vizinha à casa de Bárbara Heliodora e à Biblioteca Batista Caetano de Almeida, é cheia de românticas e históricas construções, que se enfileiram como reticências do tempo. Entre elas, o “Passinho da Via Sacra”, o sobradão que hospedou Dom Pedro II,  o Conservatório de Música, o solar do Mosteiro das Carmelitas sempre em adoração, a casa da água-furtada e o casarão de esquina onde funciona o Memorial Tancredo Neves.

Para deleite de todos, em especial de quem não mora na cidade, o Memorial Tancredo Neves pode ser visitado a qualquer hora, virtualmente. Pela Internet, é possível andar pelas suas salas para conhecer, por meio de imagens, objetos e palavras, a vida do devotado cidadão são-joanense, a obra do grande estadista e a presença de ambos – do homem e do político – em alguns dos mais importantes capítulos da história do Brasil.

Mas o melhor ainda, está por vir. Segundo a empresa  Empório de Relacionamentos Artísticos, em breve o Memorial Tancredo Neves integrará também o projeto Museus Virtuais, do qual já fazem parte o Museu de Artes e Ofícios, Museu do Oratório, Museu da República, Museu do Mar, Casa de Cora Coralina e Casa Guignard.

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  Serviço 
Para uma visita virtual ao Memorial Tancredo Neves, acesse http://www.memorialtancredoneves.com.br/

Conheça a riqueza do projeto Museus Virtuais e visite as instituições já contempladas, acessando http://www.eravirtual.org/pt/

domingo, 27 de fevereiro de 2011

São João del-Rei: aos domingos, país de memória e sentimento

"A vida necessita de pausas", sentenciou Carlos Drummond de Andrade. Por isso, é bom que exista o dia de domingo e que o domingo possa ser uma das pausas reivindicadas pelo poeta.

Falando sobre os domingos, Adélia Prado fez o  seguinte poema, que parece ser um retrato nostálgico das antigas e distantes tardes dominicais de São João del-Rei:

Para comer depois

Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
a campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
'Eh bobagem!'
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for possível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.


Pra completar a mansidão desta tarde de domingo, nada melhor do que Retrato em Branco e Preto (Portrait in black and white) na profunda e nostálgica interpretação de Chet Baker.





sábado, 26 de fevereiro de 2011

São João del-Rei no Festival Internacional de Marseille, na França


São João del-Rei está muito mais em evidência do que se pode  imaginar. A cidade e sua cultura são temas de tantas produções artístico-culturais e de tantas obras acadêmicas, locais ou produzidas em outras universidades, que é muito difícil acompanhar tudo o que versa sobre sobre nossa terra. Possivelmente porque ainda não existe consciência do real valor desta informação, assim como - é bem verdade - faltam instrumentos, técnicos capacitados e organismos que tenham, entre suas responsabilidades, a função de monitorar, catalogar e divulgar produções e "produtos" que se refiram a São João del-Rei.

O filme O fim do sem fim, exibido esta noite (25/02) no Canal Brasil, é um documentário nem tão recente (2000), muito premiado no Brasil e no exterior, onde recebeu, na França, o Prêmio Georges de Beauregard - Festival Internacional de Marseille. Foi gravado em dez estados brasileiros, com depoimentos colhidos em 40 cidades, entre elas São João del-Rei. O primeiro depoimento é do sineiro são-joanense Júlio Vieira,  falando sobre as  singularidades de seu ofício, inclusive explicando que os nomes de alguns toques muito conhecidos devem ter sido criados na tentativa repetir, pela onomatopeia, o som de sua execução. Por exemplo terentena, que é parte do nome deste almanaque eletrônico.

Navegando nos sites de busca, vemos que é grande o número de teses, monografias, artigos científicos, ensaios e textos que versam sobre os mais diversos aspectos da história e da cultura de São João del-Rei. Entretanto, na cidade que os subsidiou, pouca gente sabe de sua existência e menos pessoas ainda conhece seus conteúdos. Certamente, salvo na internet e na cabeça dos autores e dos orientadores, os fatos, as idéias e as análises desenvolvidas nestes trabalhos estão se empoeirando nas estantes das bibliotecas da sua instituição de origem.

Uma pena. Conhecimento, saber e informação que não se transmite, que não se propaga, morrem sufocados por si mesmos. Não cumprem a função nem justificam o que custou sua produção. Se fosse diferente, seriam agentes de reflexão e transformação!

Interessante reflexão sobre este assunto está no poema Guardar, de Antônio Cícero, aqui publicado no mês de janeiro, que você pode relembrar em http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/01/guardar-sao-joao-del-rei-no-coracao-mas.html
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Foto: Cena inicial do filme O fim do sem fim, dos diretores Lucas Bambozzi, Beto Magalhães e Cao Guimarães, gravada em São João del-Rei.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Carnaval 2011 de São João del-Rei nos grandes jornais de Beagá e Sampa


Evoluindo, porém mantendo a tradição. Aos poucos, resgatando sua antiga fisionomia e também o prestígio de velhos tempos. Além de promover o entusiasmo e a alegria, difundindo também o compromisso e a responsabilidade. Assim caminha o carnaval 2011 de São João del-Rei. Este processo ganha cada vez mais visibilidade nacional e, em pouco mais de uma semana, foi destaque nos jornais Folha de São Paulo e Estado de Minas (links no final deste post).

Um ponto importante a se destacar no carnaval de São João del-Rei deste ano é que a folia servirá também como um instrumento de valorização do patrimônio cultural de nossa cidade. O bloco Carnaval de Antigamente, por exemplo, aproveitará o Reinado de Momo para divulgar o slogan Preservar é preciso, chamando carnavalescamente a atenção de todos para a riqueza cultural são-joanense e para a responsabilidade individual e coletiva na defesa, proteção e preservação do patrimônio material e imaterial de São João del-Rei.

É a cultura em festa, celebrando, enobrecendo e  democratizando o acesso e a responsabilidade de todos na preservação da história, da memória e da cultura de São João del-Rei!


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  Serviço 
Saiba mais sobre o Carnaval de Antigamente em http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/events/view/1451
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/02/sao-joao-del-rei-tem-carnaval-de.html

Nos links abaixo, leia as matérias publicadas sobre o carnaval de São João del-Rei 2011:
  
http://www.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_27/2011/02/16/ficha_carnaval/id_sessao=27&id_noticia=34864/ficha_carnaval.shtml
   

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Saudades de São João del-"Rei do Baião" Luiz Gonzaga

São João del-Rei é uma cidade de sorte. Foi a primeira (e única!) cidade brasileira homenageada no primeiro disco-solo do 'rei do baião' Luiz Gonzaga. Servindo ao 11o. Regimento de Infantaria, ele viveu em São João del-Rei por algum tempo, nos últimos anos da terceira década do século passado. Por ser excelente corneteiro, foi apelidado "Bico de Aço".

A valsa  Saudades de São João del-Rei foi composta por Simão Jandi, também conhecido como Turquinho, e gravada por Luiz Gonzaga em 1941, no disco Sanfona Dourada. É a música mais antiga da trilogia que se completou mais tarde com as também conhecidas Saudades de Matão e Saudades de Ouro Preto.

Para ouvir Saudades de São João del-Rei, na sanfona dourada do 'rei do baião', clique na imagem abaixo e volte 70 anos no tempo.




 

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Em São João del-Rei, Bate-Paus são do bem, com B e P maiúsculos!

Quem não é de São João del-Rei nem da região, certamente deve ficar apavorado quando ouve dizer que a cidade possui uma escola de samba chamada Bate-Paus. É que em outras regiões brasileiras, e até mesmo em outros países, a expressão designa pessoas ligadas à violência e à desordem, que geralmente agem por mando de terceiros.

Guimarães Rosa, por exemplo, nas consagradas obras Sagarana e A hora e a vez de Augusto Matraga, usou a expressão "bate-paus" como sinônimo de jagunços e capangas. Em notícias recentes sobre os conflitos que este mês derrubaram o ditador egípcio Hosni Mubarak, jornais internacionais deram à expressão o sentido de grupos policiais e paramilitares, contrados para espalhar o terror e conter, à força, a população.

Em São João del-Rei, Bate-Paus é outra coisa. É uma comunidade unida, que age com  objetivo totalmente oposto ao que os bate-paus, com iniciais minúsculas, fazem pelo Brasil e pelo mundo afora: de verde e rosa, no compasso de belos sambas, a Escola de Samba Bate-Paus conta estórias e histórias, diverte e encanta a todos com a alegria do carnaval.

São João del-Rei tem esta capacidade de subverter o sentido das palavras; de autonomamente dar-lhes sentido próprio. Em São João del-Rei, tem até praia e cais, sem nunca ter tido mar ou  rio caudaloso. Mas que tem, tem. Todo mundo sabe e ninguém duvida ...

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Em São João del-Rei, Maria Fumaça é um apaixonado caso de amor


Não é sem motivo que, em São João del Rei, tudo o que envolve a estrada de ferro constitui um dos mais ricos e vivos patrimônios culturais da cidade. Patrimônio cultural tanto material quanto imaterial. Qual são-joanense, de hoje ou de ontem, não tem na memória afetiva a lembrança do sino, do apito, do cheiro e da imagem/movimento da Maria Fumaça nas nebulosas manhãs de inverno, nos amenos dias outonais ou primaveris, nas tardes luminosas de verão?

Se para a população de São João del-Rei o trem de ferro corre nas veias, imagine o que representa para maquinistas, foguistas, bilheteiros e mecânicos, ter trabalhado  uma vida dentro da cabine, impulsionando e conduzindo a máquina, ou fora, dando todo o apoio necessário, para que a Maria Fumaça levasse em seus vagões, ao longo do Rio das Mortes, entre lagoas, à sombra das montanhas, as pessoas - com seus sonhos, sentimentos, sua imaginação e encantamentos.

 Lembrando poema de Adélia Prado que diz

"Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica, mas atravessa a noite,
a madrugada, o dia, atravessou minha vida, virou só sentimento." ,

Acesse os vídeos abaixo*, veja e reviva!


* Estes vídeos fazem parte de documentário produzido nos objetivos do projeto "Ferrovia Oeste de Minas: Memória e História", desenvolvido em 2010 pelo Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

"Bacia das Almas" em São João del-Rei

Segunda-feira, Dia das Almas em Minas, também pode ser dia de muito humor. Por que não? O riso, muitas vezes ajuda a rever posturas, atitudes, crenças, medos e mitos, deixando-nos mais livres, flexíveis e dispostos a adotar outros valores e a viver uma vida melhor. A anedota abaixo, pela religiosidade, inventividade e secreto gosto dos são-joanenses pelos mistérios daqui e do além, se fosse verdade, bem poderia ter acontecido em São João del-Rei. Lá pelos lados das Mercês, da Muxinga ou da Rua das Flores. Confira e se divirta:

"Naquela cidade antiga, um cemitério era vizinho das casas, numa rua estreita e deserta. Em um lado e nos fundos, dividia o muro com quintais e pomares, cheios de velhas jabuticabeiras, cheirosas laranjeiras, floridas pitangueiras, preguiçosas bananeiras e imponentes abacateiros, cujos galhos, de tão grandes e carregados, avançavam e se debruçavam arcados para o lado do campo-santo.

Sepultado o último cristão do dia, fechado o portão, noite sem lua, as casas dormindo, dois amigos resolveram colher os abacates e dividí-los irmamente. Morto não come abacate! Pularam o muro e começaram: um pra mim, um pra você. Um pra mim, um pra você . Um pra mim, um pra você - dois abacates caíram do lado de fora do muro. Não faz mal, depois que acabar aqui, lá fora a gente pega os dois! Mais um pra mim, um pra você...Os galhos estavam tão carregados, eram tantos abacates no chão que lá dentro a divisão não acabava nunca...

Cambaleando, passa um bêbado, escuta aquela ladainha e, sem ver ninguém, sai em disparada, ladeira abaixo. No caminho encontra um companheiro e, assustado, mal consegue contar o que imagina ter ouvido: Deus e o Diabo estão no cemitério, dividindo a alma dos mortos...

O outro duvida - cê que bebeu demais. Foi só cachaça? - mas vendo tamanha certeza e querendo desmoralizar o medroso, propâs um desafio: vamos lá que eu quero ver. Se for mentira, já sabe, cê paga mais uma...

Subiram ladeira acima, pararam encostados ao muro e ouviram a voz repetindo: um pra mim, um pra você, um pra mim, um pra você. O valentão, recobrando num triz a lucidez, se apavororu: valha-me Deus, é o Juizo Final. Quando clarear vai ser o dia do Apocalipse! Vamos cair fora...

Mas antes que acabasse de falar, a voz continuou: agora que acabou aqui dentro vamos do outro lado do muro. A gente pega os dois e já sabe: a mesma coisa - um pra mim, um pra você!..."

Precisa terminar a estória?

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Colaboração: Edna Alves
Ilustração: Pintura no teto da entrada lateral direita da Matriz do Pilar (1721) - São João del-Rei

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Em 2013, a Alemanha pode vir a São João del-Rei


Em 2013, São João del-Rei celebrará seus 300 anos de elevação à categoria de vila. 2013 será o Ano da Alemanha no Brasil, anunciou semana passada, em São Paulo, o cientista alemão Klaus-Dieter Lehmann, diretor mundial do Instituto Goethe.

Falando para o jornal O Estado de São Paulo, Lehmann declarou que "para nós [Alemanha], é importante integrar e apresentar as novidades culturais com formatos diferentes de eventos", reconheceu que o Brasil possui instituições culturais de altíssimo nível  e explicou que os campos mais férteis para projetos de cooperação, entre outros, incluem questões ambientais e sociologia de cidades.

A convergência dos dois fatos em 2013 cria uma boa oportunidade para as comemorações dos 300 anos de elevação de São João del-Rei à categoria de vila se beneficiarem de alguns eventos da programação do Ano da Alemanha no Brasil. Apesar de serem tão diferentes as duas culturas, há um forte ponto de intersecção entre elas: a música.

Enquanto a Alemanha é berço de grandes nomes da música universal, entre eles o magnífico Bach, São João del-Rei tem duas das mais antigas orquestras do mundo em atuação ininterrupta, fundadas no mesmo século em que viveu o genial compositor de O Evangelho segundo São Mateus e Jesus, alegria dos homens.

Que os segmentos culturais, intelectuais e públicos de nossa cidade percebam já esta oportunidade, se capacitem, se mobilizem e se empenhem para aproveitá-la, buscando apoios competentes e fazendo encaminhamentos efetivos e eficazes.

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Como lazer, mais um vídeo da apresentação do espetáculo Bach, pelo Grupo Corpo, com trilha sonora na interpretação da são-joanense Maria Conceição Nicolau.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Lendas, medos, mistérios e segredos na noite de São João del-Rei


Antigamente, a noite de São João del-Rei era cheia de mistérios. Mulher de padre virava mula-sem cabeça. Quem assoviava de noite, chamava o Saci.  Bastava olhar para a lua cheia para ver São Jorge esporear o cavalo branco e ferir de morte, com sua lança de prata, o perigoso dragão do mal. Andar em becos escuros era perigoso: escravos torturados gemiam nos ermos. Não se abria porta ou janela quando a Encomendação de Almas passava, podia-se ver caveiras. Não se fazia qualquer esforço desnecessário na Sexta-Feira da Paixão, sequer se varria a casa. Na igreja do Carmo, quem deitasse no chão e encostasse o ouvido nas tábuas, ouvia o murmurar das águas do Rio Jordão e o movimento da "Serpente" que tentou Adão e Eva. Naquele tempo, depois que o sol caía pelos lados da Serra do Lenheiro, atrás da Rua do Ouro, não tinha nada para preencher o tempo com preocupações, incômodo e lazer. Daí, sobrava espaço para a imaginação...

Atualmente, em algumas noites de sexta-feira e sábado, o mistério volta a ocupar o centro histórico de São João del-Rei. Acontece de novo o crime da  escrava assassinada por ciúme para que seu senhor lhe devorasse o coração. Volta à terra o capataz defunto em busca do corpo que lhe roubou o Diabo. Acorda no cemitério e pede piedade e orações para salvação de sua alma o devasso Irmão Moreira que, acreditando ter dormido em orgia com amantes, passara a noite com o Pecado, abraçado a uma fria e silenciosa sepultura.

Tudo isso vira realidade no passeio turístico noturno Lendas São-joanenses pelo centro histórico de São João del-Rei, promovido pela Cooperativa de Condutores de Turismo Coopertur SJDR. O projeto foi premiado pelo Governo de Minas Gerais, pela escolha regional para representar o Estado no Prêmio Rodrigo de Mello Franco, na categoria Patrimônio Imaterial.

Se você ainda não conhece esta encenação, aproveite. Tem esta noite (19/02), às 19h30, saindo do Largo do Rosário, com estação no começo da Rua Santo Antonio e retomando em direção à Matriz do Pilar, depois rumo ao solar da baronesa, ao largo do Carmo e finalizando no Cemitério do Carmo. Enquanto não chega a noite, veja abaixo o vídeo sobre as Lendas São-joanenses, veiculado no programa Terra de Minas.


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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

São João del-Rei tem "Carnaval de Antigamente"

Em São João del-Rei, o passado e o presente brincam carnaval de mãos dadas no bloco vespertino Carnaval de Antigamente Atitude Cultural. Ao som de velhas marchinhas, tocadas pela Banda Musical Theodoro de Faria, um corso de carros antigos - puxando bonecos gigantes do Mestre Quati, estandartes coloridos, malabaristas, alegres mascarados, pernas de pau, palhaços, arlequins, colombinas, crianças, jovens e maduros - percorre as principais ruas do centro histórico da cidade, até o sol se por.

É bonito de ver. Mais bonito ainda é deixar-se levar pela alegria contagiante e carnavalescamente lírica, que brota do calçamento de pedras, se debruça nos janelões coloniais, escorre dos telhados de beira-seveira, salta das torres das igrejas e vem se juntar a confetes e serpentinas, para encantamento de quem é da terra e também para quem nela vem festejar.

O reinado de Momo dura só três dias, mas a Atitude Cultural aproveita o Carnaval de Antigamente para vencer o tempo passado e trazer para o presente, lembrar, valorizar e homenagear personagens e agremiações que têm, ou tiveram, papel muito importante na história do carnaval são-joanense. Este ano, por exemplo, as homenagens vão para a Escola de Samba Bate Paus, uma das mais antigas de São João del-Rei, fundada em 1933. Sediada no bucólico Bairro Senhor dos Montes, para combinar com as flores e campos da Serra do Lenheiro, suas cores são o verde e o rosa. Por um bom tempo, o Bate-Paus teve características de rancho carnavalesco, desfilando ao som de marchas-rancho, mas depois modernizou-se, assumindo o formato de escola de samba.

Uma particularidade desta agremiação - exatamente a que lhe dá o nome e originalidade - é que, desde sua fundação, ela tem uma ala onde os participantes fazem uma correografia coletiva com um bastão, que batem  em duplas e em roda, ora lembrando o movimento dos escravos africanos no cultivo agrícola, ora lembrando a dança negra do Maculelê. Segundo "velhos batepauenses" esta coreografia é mais antiga do que a própria agremiação, pois começou a ser dançada como brincadeira em 1901, tendo sido o interesse da comunidade por aquele "espetáculo" que inspirou a criação do rancho carnavalesco, hoje Grêmio Recreativo Escola de Samba Bate-Paus.

Carnaval é liberdade de agenda, mas o Carnaval de Antigamente você não pode perder. Por isso, reserve logo sua tarde do Domingo de Carnaval, 6 de março. Quem não quer um compromisso agradável com a alegria de todos os tempos?

Veja, no vídeo abaixo, alguns momentos do Carnaval de Antigamente 2009.


Para saber mais sobre a Escola de Samba Bate Paus, acesse http://www.saojoaodelreitransparente.com.br/organizations/view/35

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

São João del Rei restaura e revitaliza joia rara da música colonial

  
Minas Gerais possui três órgãos musicais de tubos construídos no período colonial, mas o de São João del-Rei é especial por duas particularidades: é o único que foi confeccionado no Brasil (manualmente e com matérias primas nacionais - madeiras e metais), e também o único que não se destinava para uso religioso, ou seja, sua finalidade era alegrar e preencher, com boa música, salões de residências e espaços públicos da cidade, nos séculos XVIII e XIX.

Depois de oitenta anos paralisado por desgaste e perda de algumas peças, recentemente o órgão musical foi restaurado e entregue à comunidade são-joanense em fins do ano passado. Agora, o instrumento, que curiosamente, quando fechado, mais parece um armário doméstico para guarda de louças - pode ser visitado no Museu Regional de São João del-Rei, de terça a domingo, das 12h30 às 17h30.

É intenção que, em breve, ali sejam realizados concertos musicais. Enquanto isso não acontece, veja e ouça, no vídeo abaixo, uma animação contemporânea da magnífica obra Tocata e Fuga, de Bach.


Visitar o Museu Regional são-joanense e conhecer o órgão de tubos restaurado é valorizar e prestigiar o patrimônio, a memória e a cultura de São João del-Rei!

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Fonte: Secretaria de Cultura e Turismo de São João del-Rei / Foto - divulgação

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

São João del-Rei, mais uma vez, no Sambódromo carioca

São João del-Rei rima com samba e com carnaval. Prova disso é que, fazendo uma revisão histórica nos sambas-enredo do carnaval carioca, notamos que vários deles contam fatos acontecidos em nossa cidade, alguns até citando explicitamente o nome São João del-Rei.

Um exemplo é o samba-enredo que a Escola de Samba Unidos da Ponte levou para o sambódromo da Marquês de Sapucaí, no carnaval de 2002. Veja a letra, dos compositores Dudu das Candongas e Pardal:

Enredo: De Minas para o Brasil 
Tancredo Neves, o mártir da Nova República

Vai brilhar
Uma luz sobre a Ponte
Surge um belo horizonte
O sol da liberdade vai raiar
Anunciando um novo dia
O filho da democracia
Quantas saudades nos traz
O mártir de Minas Gerais

Oh, Minas Gerais
Oh, Minas Gerais (bis)


Tancredo de novo, nos braços do povo
Não te esquecerei jamais

De braços dados vai lutar
E caminhando vai traçando a própria história
O pacato mineiro toma a decisão
Ser a voz das diretas
Com as indiretas nas mãos
O estadista de São João del-Rei


Tem barroco e riquezas
Pelas Minas que passei
O presidente escolhido
Que nunca foi, poderia ter sido

Liberdade, ainda que tardia
Leva o nosso herói (bis)
Para transformá-lo em estrela-guia.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Lembrança amorosa de São João del-Rei


Declaradamente apaixonado por São João del-Rei, o professor Antonio Gaio Sobrinho é autor de uma vasta, rica e muito agradável  produção histórico-literária sobre  nossa cidade. Sua produção garimpa e lapida informações históricas com grande esmero e generosidade poética, a exemplo do belo texto que colhemos em um de seus livros e reproduzimos abaixo. Vamos com ele neste passeio, pela cidade que é prazeroso e iluminado cartão-postal ...

Emoções e sentimentos

Contempla estas ruas, vê quantas igrejas,
erguidas à custa de negras pelejas,
em pedra sabão!

Divaga teus olhos nas serras e montes,
na lua que sobe, além, no horizonte,
num lindo clarão.

Escuta os foguetes que estouram no espaço
e a banda que passa, marcando o compasso,
seguindo o andor!
Afina os ouvidos no toque dos sinos,
chamando-nos todos aos cultos divinos
de Nosso Senhor!

Aspira o perfume cheiroso do incenso,
de todas as flores que enfeitam o imenso,
terrestre jardim!
Aguça o olfato, aprecia o cheirinho
que exala do místico e bom rosmaninho,
do rude alecrim!

Degusta as amêndoas do belo cartucho,
que, para as crianças, pintado com luxo,
é um mimo do céu!
Apura teu gosto e o prazer do que comes,
reparte com o irmão que sucumbe de fome
nas ruas, ao léu!

Abraça a quem amas, não mates ninguém,
e quando puderes, recorda também
que a vida é um dom.
Expõe a epiderme ao calor do estio;
carícias do vento ou do sol, se no frio,
sentir é tão bom.

Recebe, amigo/a, esta minha mensagem
que fiz para ti - qual singela homenagem
do meu coração.
E quando te fores, por onde passares,
dirás com saudades, talvez nos olhares:
Estive em São João!

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Antonio GAIO Sobrinho - Visita à colonial cidade de São João del-Rei - Edição do Autor, 2001: páginas 37 e 38
Ilustração: Vista de São João del-Rei - Aquarela de Alfredo Norfini, 1921 (Museu Histórico Nacional, RJ)

domingo, 13 de fevereiro de 2011

São João del-Rei pode unir o útil ao agradável

São João del-Rei, domingo, samba, alegria, história, cultura e carnaval.
Quer mistura melhor do que esta?

Pois é, no clima das bandas e blocos carnavalescos, conheça a letra de um samba-enredo da Escola de Samba Império Serrano, composto em 1949 por Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado. É uma autêntica lição da história  de São João del-Rei e um recado importante para todos os brasileiros:

Homenagem a Tiradentes


Joaquim José da Silva Xavier
Morreu a 21 de abril
Pela Independência do Brasil

Foi traído e não traiu jamais
A Inconfidência de Minas Gerais (bis)

Joaquim José da Silva Xavier
Era o nome de Tiradentes
Foi sacrificado pela nossa liberdade
Este grande herói
Pra sempre há de ser lembrado

Depois, aprenda o ritmo nesta magistral e empolgante apresentação de Zé da Velha e Silvério Pontes. Aí então é só se preparar para a folia, que nas ruas começa em breve. Mas como carnaval, do mesmo modo que "educação começa em casa", por que não formar um bloco unindo a família, cantando em grupo este belo samba no próprio jardim, varanda, terraço ou quintal? Afinal, a união faz a força...



sábado, 12 de fevereiro de 2011

Em São João del-Rei, brilhou o Astro de Minas


Sempre em posição de destaque no Estado de Minas Gerais, São João del-Rei foi a segunda cidade mineira a ter imprensa periódica, quando Batista Caetano de Almeida fundou e editou o jornal Astro de Minas. Era 20 de novembro de 1827, ou seja,  a pimeira edição do primeiro periódico são-joanense foi lançada há 184 anos atrás. Trinta e cinco anos após a Inconfidência Mineira, cinco anos após a Independência do Brasil e 81 anos antes da Abolição da Escravatura no país.

Por quase doze anos, o jornal Astro de Minas circulou ininterruptamente às terças, quintas e sábados, colocando nas ruas 1769 edições. Como todo bom jornal, tinha linha editorial bem definida: além de informar fatos relevantes da cidade e da região, seu discurso procurava defender e fortalecer a legalidade, que na ocasião estava muito fragilizada em Minas Gerais.

Ao brilhar no céu de São João del-Rei, o Astro de Minas iluminou o caminho fértil pelo qual passaram, em 124 anos (de 1827 a 1951), 128 jornais, muitos com nomes pitorescos, provocativos, intrigantes e curiosos, como por exemplo:

Amigo da Verdade (1829), Mentor das Brasileiras (1832), O Papagaio (1833), Despertador Mineiro (1842), O Paquete Mineiro (1855), Arauto de Minas (1877), O Atirador (1882), O Gladiador (1889), A Gargalhada (1890), O Prego (1894), O Tunante (1899), A Farpa (1901), Um-Dois-Três (1901),  Ten-Ten (1907), O Mosquito (1917), O Parafuso (1919), A Bigorna (1925), O Penetra (1927), O KCT (1927), A Caveira (1927), O Cabresto (1928), A Fuzarcae (1929), O Erro (1933), A Piranha (1934), O Alfinete (1936), Frivolidade (1942) e por aí vai. A existência de tantos jornais mostra como, já no século XIX, era grande o número de pessoas alfabetizadas e, desde aquela época,  desejosas de informação e conhecimento em São João del-Rei.

E por falar em alfabetização, informação e conhecimento, vale uma lembrança: Batista Caetano de Almeida foi também o fundador da Biblioteca Municipal de São João del-Rei, para o que doou à cidade seu acervo pessoal, composto por mais de quinze mil volumes, entre eles muitas obras raras, editadas na Europa nos séculos XVIII e XIX. Mas aí é história pra outro dia!

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Fonte: VIEGAS, Augusto - Notícia de São João del-Rei. Imprensa Oficial de Minas Gerais, 1953.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

São João del-Rei põe seus 48 blocos na rua


Ciganas, enfeitem seus pandeiros. Piratas, procurem suas lunetas. Baianas, armem suas saias e seus turbantes. Havaianas, caprichem nos sarongues. Índios, não descuidem dos cocares. Odaliscas, perfumem seus véus. Todo mundo que é da festa, da paz, do bem, da fantasia e do entusiasmo, atenção: o carnaval 2011 de São João del-Rei promete!

Se depender da programaçào divulgada pela Secretaria de Cultura, em São João del-Rei, no período de 19 de fevereiro a 8 de março, só vai ficar parado quem quiser. Quarenta e oito blocos movimentarão as praças, becos,  largos, esquinas e ruas da cidade, do centro histórico aos bairros e distritos, espalhando confetes, serpentinas, ilusão, alegria, amizade e descontração.

Tanto aos foliões quanto a quem for só para assistir, o bom-senso pede que, irreverência, levem apenas aquela saudável, que é própria do carnaval de nossa cidade. Que o respeito ao próximo e ao patrimônio público não seja esquecido. Que a gentileza, a cortesia e a boa-educação nao sejam economizadas. Que, apesar do delírio, se evite o consumo excessivo de bebidas alcoolicas e outros comportamentos arriscados, principalmente relacionados ao tränsito, ao sexo e ao lazer em rios, piscinas, cascatas e cachoeiras. Provocações, agressões e violência, de qualquer tipo, nem de longe. A vida não pode acabar na quarta-feira de cinzas.

A proliferação dos blocos espontâneos em São João del-Rei - que este ano estão somando quase meio cento - é um sinal muito positivo. Mostra que o povo são-joanense acredita na união e se mobiliza para realizações coletivas, que no caso é a alegria do carnaval. Estas união e mobilização, praticadas repetidamente, reforçam o espírito solidário e o sentimento cooperativista de ajuda mútua, estabelecendo compromissos e impulsionando conquistas, desejadas e merecidas por todos. Sejam elas a alegria de celebrar a vida ou o direito de viver com dignidade.

Carnaval é sonho e, no carnaval, sonho é fantasia. Entào, nos blocos, brinquemos sem medo, fantasiados com nossos sonhos, vestidos com nossas próprias fantasias, com a fantasia do que queremos ser. Como é bom perceber que carnaval não é só festa e que seus efeitos duram muito mais do que três dias!...


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    Serviço   
Acesse http://g1.globo.com/videos/minas-gerais/v/veja-atracoes-do-carnaval-em-sao-joao-del-rei/1451050/ e veja um flash sobre os blocos de São João del-Rei.

Minas Gerais celebrará, em São João del-Rei, o Dia da Liberdade

São João del-Rei acaba de ganhar mais uma importante oportunidade para rememorar sua história e valorizar sua cultura, desta vez com a promoção de eventos histórico-artístico-culturais diversos, promovidos e apoiados oficialmente pelo Governo de Minas Gerais, para celebrar na cidade, em nível estadual, o Dia da Liberdade.

A programação será desenvolvida todo ano, no dia 12 de novembro, especialmente em nossa cidade, lembrando o nascimento e batismo de Tiradentes em São João del-Rei, conforme decreto assinado pelo governador Antonio Anastasia, no dia 11 de janeiro passado*.

Todo incentivo à preservação e divulgação da história e da cultura de São João del-Rei é muito bem-vindo, ainda mais porque estimula o poder público local, as instituições ligadas à memória e à cultura, os intelectuais, a sociedade civil e a comunidade em geral a reiterarem seus compromissos com a causa do patrimônio e da memória são-joanenses.

Assim, é de se esperar que as comemorações do Dia da Liberdade 2011, além dos eventos cuja promoção é esperada do Governo Estadual, também tenha uma brilhante programação local. Criatividade, competência e capacidade São João tem para isso. Também a oportunidade que faltava - depois de instituído o Dia da Liberdade - agora não falta mais...

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Veja, no vídeo gravado nas comemorações do 263o aniversário do heroi são-joanense Tiradentes (12/11/2009), a cantora lírica Rute Pardini interpretando "As Pombas", de Chiquinha Gonzaga, na Fazenda do Pombal. Naquele local,  em 1746 pertencente à Vila de São João del-Rei, nasceu Joaquim José da Silva Xavier.


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Fonte: Blog de São João del-Rei - Turismo, História, Cultura, Tradição e muito mais
Ilustração: Inconfidência Mineira - Pintura de Carlos Scliar, 1970 (Museu da CEF, DF)

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

São João del-Rei no cinema

Amor e Cia - Programa de Cinema
Até hoje lembradas pelos são-joanenses, as gravações do filme Amor & Cia., de Helvécio Ratton, há onze anos movimentaram as ruas históricas de São João del-Rei e revelaram, belos e pouco desconhecidos ângulos da paisagem local. Também apresentaram alternativas interessantes para a decoração e ambientação interna e externa do comércio, por resgatar a estética de São João del-Rei em fins do século XIX (época em que se passa a estória), muito interessante para fins turísticos e promocionais.

A locação foi  feita nos sobradões, armazéns da Estação Ferroviária, Rua da Cachaça, Ponte da Cadeia, Rua da Prata, becos e ruelas da cidade, com móveis e utensílios emprestados por famílias são-joanenses. As famílias  “emprestaram até os figurantes", que atuaram ao lado de Patrícia Pilar, Marco Nanini, Alexandre Borges, Rogério Cardoso e outros atores muito conhecidos.

Uma curiosidade: a riqueza sonora de São João del-Rei é tão expressiva que permite até saber a hora em que algumas cenas foram gravadas. O sino da Matriz do Pilar, por exemplo, ao bater onze badaladas, denunciou que eram onze horas quando Liduína,a personagem vivida por Patrícia Pilar, na mais dourada igreja de nossa cidade, se encontrava furtivamente com seu amante, fingindo orar entre muitas velas acesas.

Quem não viu e tem antena parabólica*, não deve perder a reprise neste sábado, as 22 horas, no Canal Brasil. Quem viu, com certeza vai gostar de rever...

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Conheça a sinopse do filme em http://www.tvbrasil.org.br/novidades/?p=13126
* Saiba como sintonizar o Canal Brasil, acessando http://www.tvbrasil.org.br/comosintonizar/

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Mil vezes* São João del-Rei!

Pouco depois das 2 horas da manhã de terça-feira, 8 de fevereiro, 34 dias após lançado, o almanaque eletrônico Tencões & terentenas atingiu a marca de 1.000 acessos / visitas.

É um número simbólico, emblemático, um momento que não pode ser menorizado nem subestimado.

Para registrá-lo publico esta música que, para mim, tem dois sentidos: no primeiro, é uma canção passional, primitiva, bruta, declaração quase visceral de amor à terra-mãe; no segundo, sublime, é um pedido, uma oração, uma certeza, uma crença e uma fé libertária. Partilhemos-la!

* No título, alusão à frase atribuída a Tiradentes: "Se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria!"



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Zé Pereira já morou em São João del-Rei. Você se lembra dele?

Há exatos trinta dias da terça-feira gorda de Carnaval - que é um momento muito especial no calendário cultural de São João del-Rei - é hora de lembrar uma "entidade carnavalesca", que hoje só sobrevive na lembrança de quem já passou dos cinquenta. Zé Pereira, ele se chamava...

Apesar do nome, Zé Pereira não tinha registro civil. Sequer era uma pessoa. Eram blocos carnavalescos espontâneos que, segundo jornais são-joanenses do início do século 20 (Passarelli, 2005), eram capitaneados pelas bandas de música, reuniam  muitos brincantes, tinham estandartes e carros alegóricos puxados por animais (certamente montados em carroças e, quem sabe, até em carros de bois) ou empurrados pelos próprios foliões. Há notícias de que, em 1921, em São João del-Rei,  um Zé Pereira foi "puxado pela Banda de Música do 11o Regimento, uniformizada a caracter".

Com o passar do tempo, a urbanização, a industrialização, a proletarização e o enrijecimento das estruturas socioeconômicas, as agremiações   Pereira foram perdendo sua identidade organizacional, passando a expressão a denominar manifestações carnavalescas extremanente informais. Possivelmente surgiam aí os blocos de sujo que, não contando com banda musical nem com carros alegóricos,se ritmavam ao som de batucadas feitas em latas, frigideiras, chocalhos, reco-recos, tambores, etc, carregados de crítica e irreverência.

Nos antigos blocos de sujos, predominavam fantasias que pintavam ou mascaravam o rosto, para preservar, pelo anonimato, a intimidade do folião. Era comum mulheres fantasiarem-se de gatinhos, cobrindo o rosto com uma fronta branca com as pontas superiores amarradas formando a orelha do felino e vestindo roupas masculinas, que bem descaracterizassem seu corpo. Disfarçavam até a voz, para não serem reconhecidas. Também eram comuns as fantasias de Nega Maluca, estas vestidas por homens. Preconceituosamente, a fantasia de Nega Maluca, a um só tempo debochava - e com exagero cruel - da condiçao feminina e dos cidadãos  negros.

(s) Pereira(s) e blocos de sujo tinham, entre outros valores, o estímulo à livre participação, à iniciativa, à espontaneidade, à expressão e ao espírito de coletividade. Coisas que nem sempre são inspiradoras aos  uniformizados e uniformes blocos urbanos atuais.
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Referência: Ulisses Passarelli - Dez antigas notícias do folclore de São João del-Rei. Revista no 11 do Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, 2005

Legalidade nos 300 anos de São João del-Rei

Entre os belos e historicamente importantes monumentos de São Joao del-Rei, especialmente um, nos dias atuais, vive na sombra. É o Chafariz da Legalidade.

Não falamos aqui das sombras das árvores que o cercam, nem da sombra do Edifício São João, que lhe proíbe o sol do entardecer. Chamamos de sombra a pouca valorização patrimonial, turística, cultural e comunitária que é dada ao monumento, carente de atenção e de tratamento paisagístico, iluminação e segurança que realcem sua beleza e sua importância.

Legalidade. O nome do chafariz bem demonstra seu significado na história da cidade. Erigido em 1834, registra o período de 51 dias em que, durante a Sedição de Vila Rica, em 1833, São João del-Rei foi sede do Governo Legal da Província de Minas Gerais*.

As comemorações dos 300 anos da elevação de São João del-Rei à categoria de Vila, em 2013, bem poderiam incluir a revitalização do Chafariz da Legalidade, transformando aquela praça em um equipamento urbano de lazer e contemplação, muito útil para são-joanenses de todas as idades. Especialmente para crianças e idosos, que não dispõem, naquelas imediações, de um espaço de interação, relacionamento e convivência.

Por que não transformar o entorno do Chafariz da Legalidade em um orquidário a céu aberto, que possa funcionar também como um pequeno anfiteatro? Bastaria cercá-lo com um gradil condizente com o monumento, com portões que garantissem fechamento noturno; dar tratamento paisagístico adequado e iluminação que tanto valorizassem o monumento em si quanto possibilitassem a realização de eventos culturais para públicos reduzidos. Nossa cidade carece destas alternativas e tem tudo para viabilizá-las.

Objetivamente, materializar esta proposta não parece ser difícil nem complicado. Para isso, bastaria a união de todos os setores possivelmente envolvidos, cada qual atuando colaborativamente com seu nível de competência em sua área de atuação, buscando, inclusive, parceria da iniciativa privada local, regional e até nacional para o que demandar maiores recursos, como o gradil. Competência, em São João del-Rei, não falta para isso...

A esta realização, a comunidade e a história são-joanenses agradecerão para sempre!

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* Fonte: Antonio GAIO Sobrinho, Sanjoanidades: 1996, pag 32

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Lombo com tutu: o encanto de Minas em São João del-Rei


Ah, os domingos! Dias felizes para quem vive em sintonia consigo, com seu tempo, seu espaço, com seu ambiente - urbano ou rural - com o universo... Entendiantes, enfadonhos, desgastantes e ameaçadores para quem, nas grandes ou pequenas cidades, perdeu seus elos com o universo individual ou planetário. Mas os domingos nos impõem, face a face, nós e nós mesmos...

Mais do que realidade, domingos são lembranças, vividas ou imaginadas. Mais fortes ainda são os domingos "lembranças sonhadas". Aqueles que igual Estrela Dalva anunciam o idílio, o onírico e todas as coisas que, mesmo só existindo no mundo imaginário, não escaparão dos nossos desejos e das nossas procuras.

Os domingos, mais do que os dias úteis, têm tempos bem marcados. Acordar, almoço, entardecer, noite. Quase todos são vividos individualmente, mas o almoço é a mais simbólica e a mais coletiva das horas. É a comunhão humana. Em Minas é assim.

Sendo domingo e falando de almoços, memórias, lembranças e afetos, sentemos à mesa com Rubem Braga para o que este grande escritor que nos descreve como um autêntico


Almoço Mineiro

Éramos dezesseis, incluindo quatro automóveis, uma charrete, três diplomatas, dois jornalistas, um capitão-tenente da Marinha, um tenente-coronel da Força Pública, um empresário do cassino, um prefeito, uma senhora loura e três morenas, dois oficiais de gabinete, uma criança de colo e outra de fita cor-de-rosa que se fazia acompanhar de uma boneca.

Falamos de vários assuntos inconfessáveis.(...)Também se deliberou, depois de ouvidos vários oradores, que estava um dia muito bonito. A palestra foi decaindo então, para assuntos muitos escabrosos: discutiu-se até política. Depois que uma senhora paulista e outra carioca trocaram idéias a respeito do separatismo, um cavalheiro ergueu um brinde ao Brasil.

Logo se levantaram outros, que, infelizmente, não nos foi possível anotar, em vista de estarmos situados na extremidade da mesa. Pelo entusiasmo reinante supomos que foram brindados o soldado desconhecido, as tardes de outono, as flores dos vergéis, os proletários armênios e as pessoas presentes. O certo é que um preto fazia funcionar a sua harmônica, ou talvez a sua concertina, com bastante sentimento. Seu Nhonhô cantou ao violão com a pureza e a operosidade inerentes a um velho funcionário municipal.


Mas nós todos sentíamos, no fundo do coração, que nada tinha importância, nem a Força Pública , nem o violão de seu Nhonhô, nem mesmo as águas sulfurosas. Acima de tudo pairava o divino lombo de porco com tutu de feijão. O lombo era macio e tão suave que todos imaginamos que o seu primitivo dono devia ser um porco extremamente gentil, expoente da mais fina flor da espiritualidade suína. O tutu era um tutu honesto, forte, poderoso, saudável.

É inútil dizer qualquer coisa a respeito dos torresmos. Eram torresmos trigueiros como a doce amada de Salomão, alguns louros, outros mulatos. Uns estavam molinhos, quase simples gordura. Outros eram duros e enroscados, com dois ou três fios.

Havia arroz sem colorau, couve e pão. Sobre a toalha havia também copos cheios de vinho ou de água mineral, sorrisos, manchas de sol e a frescura do vento que sussurrava nas árvores. E no fim de tudo houve fotografias. É possível que nesse intervalo tenhamos esquecido uma encantadora lingüiça de porco e talvez um pouco de farofa. Que importa? O lombo era o essencial, e a sua essência era sublime. Por fora era escuro, com tons de ouro.

A faca penetrava nele tão docemente como a alma de uma virgem pura entra no céu. A polpa se abria, levemente enfibrada, muito branquinha, desse branco leitoso e doce que têm certas nuvens às quatro e meia da tarde, na primavera. O gosto era de um salgado distante e de uma ternura quase musical. Era um gosto indefinível e puríssimo, como se o lombo fosse lombinho da orelha de um anjo louro.

Os torresmos davam uma nota marítima, salgados e excitantes da saliva. O tutu tinha o sabor que deve ter, para uma criança que fosse gourmet de todas as terras, a terra virgem recolhida muito longe do solo, sob um prado cheio de flores, terra com um perfume vegetal diluído mas uniforme. E do prato inteiro, onde havia um ameno jogo de cores cuja nota mais viva era o verde molhado da couve — do prato inteiro, que fumegava suavemente, subia para a nossa alma um encanto abençoado de coisas simples e boas.


Era o encanto de Minas.
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Texto extraído do livro "Morro do Isolamento", Editora Record - Rio de Janeiro, 1982, pág. 121.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Ção João del-Rei canta para o mundo. Em alemão...

Conhecer São João del-Rei é conhecer seus artistas e reconhecer seus valores. Mas os grandes artistas são-joanenses volta e meia se esbarram conosco pelas esquinas, param conosco nos largos, trocam um dedo de prosa, compram queijo no Mercado Municipal, não recusam brindar uma cerveja num boteco despojado. E, encantados pelo convívio, nem percebemos que são artistas...

 Os grandes artistas de São João del-Rei não andam com o currículo debaixo do braço e - em nome de sincera modéstia - não ostentam seus históricos nem, gratuitamente, exibem seus títulos. Antes, fazem tudo para sabiamente não perder a identidade de pessoas comuns, pois sabem que a obra é mais importante do que o autor. Além disso, sabem também que a simplicidade é a essência mais pura da verdadeira alma são-joanense.

Entretanto, talvez por esta dinâmica, nem sempre tomamos conhecimento da grandeza da obra cultural que alguns são-joanenses executam, muitas vezes maior até do que os limites nacionais e continentais. Um bom exemplo é a cantora Maria Conceição Nicolau - a Ção - que sempre vemos na cidade nos feriados prolongados e dias de festa, mas poucos de nós sabe que ela gravou, há 15 anos, em alemão, algumas músicas da trilha sonora do balé Bach, que o consagrado Grupo Corpo, de Belo Horizonte, desde 1996 até hoje apresenta, anualmente, em turnës pelas capitais e cidades mais importantes dos cinco continentes. Precisamos conhecer - e reconhecer! - mais nossos artistas...

Veja, no link abaixo, em vídeo, o prólogo do espetáculo Bach, em que Ção canta uma ária de O Evangelho segundo São Mateus, do magnífico compositor alemão Joham Sebastian Bach.


São João del-Rei sem fronteiras no tempo e no espaço

Hoje, 4 de fevereiro, o almanaque Tenções & terentenas completa um mês de existência. Trinta dias no ar divulgando a cultura e a memória de São João del-Rei, facilitando o acesso planetário a informações, documentos, vídeos, poemas, matérias jornalísticas, fotografias, produções acadêmicas e literárias e outros registros do patrimônio cultural são-joanense.

Neste período, foram publicados 33 posts, garantindo atualização diária. O almanaque foi acessado 864 vezes, o que significa 28,8 acessos / dia, ou seja, bem mais do que 1 acesso por hora. Houve dias, inclusive, que o número de acessos variou de 52 a 65, o que representa quase 3 visitas por hora. Além do Brasil, registrou-se acessos feitos em outros países da América do Sul e também oriundos da América do Norte e da Europa.

Estes números são muito positivos e mostram bem mais do que um quadro estatístico. Sinalizam especialmente para dois aspectos que merecem ser destacados. São eles:

Os são-joanenses amam São João del-Rei e estão comprometidos com as causas da cultura e da memória desta cidade. Demonstrando sintonia com a atualidade, os são-joanenses são favoráveis e receptivos às novas linguagens e aos novos e não convencionais recursos de comunicação, entre eles este almanaque eletrônico, como canais de divulgação e reflexão sobre o patrimônio de nossa terra.

A Internet, como importante recurso globalizador, pode ser também um importante instrumento na defesa do patrimônio histórico-cultural e aliado de todos que se empenham por esta causa, disseminando-a amplamente, pela desfronteirização e pelo rompimento das barreiras tempo / espaço, que são próprios da sociedade pós-moderna, deste mundo contemporâneo.

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Ilustração: reprodução de detalhe da capa da publicação SJDR: a região, a cidade, o patrimônio de história e arte. Fundação João Pinheiro - Doação: Toado de Castro.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

São João del-Rei - 300 anos cabem nos livros?

Os trezentos anos da elevação de São João del-Rei à categoria de Vila, a se contar em 2013, são um fato histórico de grande relevância, que merece comemoração à altura. Para isso, a sociedade / comunidade local é competente e capaz de elaborar e desenvolver uma brilhante programação comemorativa para marcar tal acontecimento, com ganhos em termos de pertencimento e auto-estima cidadã para os são-joanenses e de maior visibilidade estadual, nacional e até internacional para a cidade.

Entretanto, como sabemos, para o sucesso dessa empreitada são necessários alguns fatores que vão além da competência e da capacidade. Entre eles, destacam-se a união e o comprometimento de todos os setores envolvidos (instituições públicas, entidades civis, empresas, ONGs, intelectuais, artistas e comunidade) e o eficaz planejamento que viabilize o desenvolvimento de um projeto amplo, que abranja, integre e sistematize várias atividades nas mais diversas áreas. O planejamento antecipado permite, inclusive, encontrar parcerias e patrocínios que normalmente são negociados e conseguidos com pelo menos um ano de antecedência.

Conforme mencionado anteriormente* neste almanaque eletrônico Tencões & terentenas, possivelmente algumas instituições são-joanenses já estejam se mobilizando para essa importante realização – provando desde já seu amor e compromisso para com a história e o povo de São João del-Rei. Desejando colaborar, periodicamente este blog publicará algumas sugestões.

Hoje, por exemplo, sugerimos que uma ação comemorativa, de caráter permanente e formativo, seja a reedição e lançamento de obras raras e importantes, relativas a São João del-Rei. Produções consagradas que, escritas nos séculos XIX e XX, dizem respeito à história de nossa cidade, relatam suas crenças e tradições, documentam seu desenvolvimento urbano, social, econômico, educacional, político e em outros aspectos que nos mostrem uma panorâmica da evolução da cidade em um período de tempo que já vai distante.

Entre os livros que se propõe relançamento, não podem ser esquecidos:

. Efemérides de São João del-Rei, de Sebastão de Oliveira Cintra,
. Notícia de São João del-Rei, de Augusto Viegas,
. Pequena história do teatro, circo e variedades em São João del-Rei, de Antônio Guerra

e tantos outros que os próprios leitores deste almanaque, de fato conhecedores da bibliografia em questão, interativamente podem sugerir.

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* Para ler publicação de 14/ jan/2011 cique em http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/01/daqui-pouco-300-anos-da-vila-de-sao.html

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Saber mais para ir mais longe: Seminário sobre Gestão Cultural

Saber não ocupa espaço e ajuda a chegar mais longe. Por um caminho mais curto. Na área cultural não é diferente: quanto mais se conhece, se profissionaliza, se aperfeiçoa e se atualiza, mais competente e eficaz se torna o trabalho e maior o reconhecimento alcançado.

Para quem atua com gestão cultural ou se interessa pelo assunto, acontecerá no Museu de Arte de São Paulo - MASP, no dia 28 deste mês, o I Seminário de Gestão Cultural. A programação constará de cinco painéis onde um palestrante internacional e nove conferencistas nacionais, ligados a grandes universidades ou a empresas atuantes no incentivo à cultura e na prática de atividades culturais debaterão temas relevantes, entre eles: a relação das organizações com a cultura no século XXI; legitimidade e reconhecimento do investimento cultural; políticas culturais e cooperação; cultura e interatividade no mundo contemporâneo.

O seminário é uma promoção da Aberje e mais informações podem ser obtidas em http://www.aberje.com.br/acervo_not_ver.asp?ID_NOTICIA=4200&EDITORIA=Eventos

São João del-Rei no Fantástico? Isso mesmo. E com muito mistério...

 A inventividade e a criatividade  em São João del-Rei são tamanhas que transcendem até a arte e a cultura. Quebrando a monotonia e trazendo o inusitado, criatividade e inventividade estão presentes em muitos momentos do dia a dia dos são-joanenses, desestabilizando com um novo olhar e uma nova interpretação o que parece imutável, desestruturando a mediocridade própria do que é lugar comum.

Esta realidade, de tão verdadeira e tão absoluta, virou até matéria no programa dominical Fantástico, no ano passado, apresentada pelo jornalista Maurício Kubrusly no quadro Me leva Brasil.

Pelo aspecto curioso e pitoresco - tanto da linguagem despojada quanto do ineditismo dos assuntos tratados e da condução bem-humorada das reportagens, o quadro Me leva Brasil era dos mais populares. Repercutia nacionalmente durante toda a semana, volta e meia pontuando rodas de conversa de pessoas dos mais diversos níveis e classes sociais.

O que Kubrusly encontrou de muito peculiar em São João del-Rei e revelou para o Brasil era, segundo ele, "uma coisa soturna. Um lugar onde ninguém entra sem ser anunciado! Mais ainda: um lugar onde quem entra deixa para trás todas as ilusões bem comportadas..."

Quer saber que lugar é este?

Então acesse  http://fantastico.globo.com/Jornalismo/FANT/0,,MUL1578914-15605,00.html

Ilustração: Cemitério de São Francisco - detalhe de foto do autor

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Nhá Chica, enfim, será cidadã de São João del-Rei


Que Nhá Chica é são-joanense ninguém duvida.Entretanto, o primeiro e, até hoje, mais importante documento que atesta sua naturalidade é a Certidão de Batismo, realizado na capela de Santo Antônio  do Rio das Mortes Pequeno, em 26 de abril de 1810, conforme Livro de Assentos da Frequesia de Nossa Senhora do Pilar da então Vila de São João del-Rei.

Naquela época, as certidões de batismo tinham a força de certidões de nascimento, só que com um porém: escravos e filhos de escravos eram batizados apenas com o pré-nome, informando-se, além da data e do local, o nome de seus pais e avós (que por sinal também não tinham nome que identificasse a que família pertenciam). Então, por não constar dados mais completos e consistentes que permitissem individualização, ficava difícil, ao longo do tempo, saber, unicamente por meio da Certidão de Batismo, informações precisas sobre a pessoa batizada. Para resolver esta questão é que hoje se tem pleiteado registros tardios, como foi feito com a heroína catarinense Anita Garibaldi.

Para solucionar a questão em relação à Serva de Deus Nhá Chica, o Instituto Histórico e Geográfico de São João del-Rei, o Rotary Clube local e a Associação de Amparo e Promoção do Carente do Distrito do Rio das Mortes moveram ação para registro tardio de Francisca de Paula de Jesus.

Tramitando desde 2006 nas várias instâncias jurídicas, finalmente a ação foi julgada procedente pelo juiz de Direito Hélio Martins Costa no dia 10 de janeiro passado, podendo Nhá Chica obter o Registro Civil Tardio com o nome de Francisca de Paula de Jesus, identificando-se como sua mãe Izabel Maria e como avó materna Roza Banguela, oficializando como data de nascimento a mesma de seu batismo - 26 de abril de 1810. A solenidade de Registro tardio acontecerá no dia 26 de abril deste ano, na igreja de Santo Antônio do Rio das Mortes, distrito de São João del-Rei.

O Registro Civil Tardio de Nhá Chica assegura juridicamente sua cidadania são-joanense, já consagrada no imaginário local e em vários estudos e produções acadêmicas e bibliográficas.

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PS - Vale lembrar que na época de Nhá Chica vivia-se "a coisificação dos escravos, que não tinham tratamento adequado como pessoas físicas sujeitas de direito e obrigações, mas como bens de seus respectivos senhores". (Processo no 06 056045-9 - Registro Civil)

Para saber mais sobre Nhá Chica, que encontra-se em processo de beatificação pelo Vaticano, acesse http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/01/nha-chica-do-rio-das-mortes-caminho-do.html

Agradecimentos:
A Dr Wainer Ávila, Presidente da Academia de Letras de São João del-Rei,  pela colaboração, disponibilizando documentos que subsidiaram esta postagem.
A Oscar Araripe, pela sugestão e "meio de campo".

Ilustração: Anjo da Morte. Detalhe da capa do livro Visita à colonial cidade de São João del-Rei, de Antonio Gaio Sobrinho, edição do autor, 2001.