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Mostrando postagens com o rótulo tradições

São Benedito, me responda: Aqui tem ou não tem uma coisa?

  Em São João del Rei não é raro, volta e meia a gente ouvir, algum são-joanense, com um quê de mistério, dizer: - "Aqui em São João, parece que tem uma coisa!..." Se prestar bem a atenção na vida da cidade, você vai ver que de fato eles têm razão. Em São João del Rei, às vezes do nada, parece que uma porta se abre, rompendo a delimitação dos tempos e dos mundos. Nestes momentos, há quem quase fique sem saber se está no  aqui e agora, no hoje, presente, ou se está lá e antes, no ontem, passado. E isto não ocorre só nas grandiosas, solenes e pomposas tradições barrocas, que são a principal identidade são-joanense não. Esta dúvida, na verdade, é a certeza de que foi transposto o portal  do lado  racional, pragmático e definitivo e então se está a transitar nos territórios da emoção e da memória afetiva. A procissão de São Benedito, realizada em meados de maio na capelinha do Bonfim, é um dos melhores exemplos. Extremamente delicada e singela, assim como a capela, não p...

No Carnaval de São João del-Rei tem a Bandalheira do bem!

Se São João del-Rei, por sua infinita riqueza sonora e musical, deseja ser consagrada também como "terra da música", nada mais certo do que seu carnaval - efetivamente - começar com uma banda: a Bandalheira! Na verdade, a Bandalheira é bem mais do que uma banda, e do que um bloco carnavalesco. Com suas tantas décadas de existência, ela é mesmo uma corporação. Um sentimento que vive adormecido durante um ano inteiro para, na tarde do sábado que antecede o sábado de carnaval, corporificar-se por algumas horas, exalando alegria, samba, marchinhas e amizade, conforme declaravam seus estandartes este ano. Na Bandalheira, democraticamente, há igual espaço para todos, independentemente da idade, sexo, raça, religião, condição social ou econômica e qualquer outro tipo de diferença. Desse modo, como toda e qualquer ação humana, seu cortejo é um ato político em favor da alegria, da fraternidade, do respeito humano e da igualdade. Tanto que as marchinhas e sambas que a banda toc...

Carnaval 2014. Em São João del-Rei, quem for Momo sempre será majestade!

Encerrado o Ciclo do Natal, que em São João del-Rei imaginariamente se prolonga até o dia 20 de janeiro, dedicado a São Sebastião, a cidade já respira ares irreverentes e se mobiliza para o Carnaval. Afinal, entra ano, sai ano, em São João del-Rei, Momo sempre será majestade. A folia que se prepara, agora, é outra e outro fim não tem senão celebrar a irreverência, a beleza e a alegria. Figurinistas movimentam lápis e tintas, desenhando as fantasias. Carnavalescos constroem alegorias. Mestres de bateria recrutam seus exércitos, que toda noite repicam tamborins, surdos e frigideiras nas praças, nos largos, nos estacionamentos, na frente dos cemitérios. Pastoras acertam os passos no ritmo dos sambas. Madrinhas de bateria, qual sereias sacodem seios, qual serpentes contorcem ancas, quadris e abdomens esculpidos a sonho quente, vaidade, inocência, luxúria e desejo ardente. Daqui a pouco mais de duas semanas, a festa começará em São João del-Rei, para durar quase 20 dias. Dela partici...

Em São João del-Rei todo dia é Dia da Cultura. 24 horas por dia. 365 dias por ano! Há três séculos...

Desde quando Minas Gerais - ainda Capitania unida a São Paulo - no alvorecer do século XVIII, começava a construir sua identidade, arte, memória, criação, patrimônio, música, tradição, criatividade e várias formas de expressão erudita e popular fazem parte da alma de São João del-Rei. Os são-joanenses vivem isto cotidianamente, 365 dias por ano. Por este motivo, 5 de novembro, em princípio, deveria ser uma data reluzente no calendário de São João del-Rei. Começar com uma alvorada festiva, feita pelas cinco bandas de música, continuar movimentado durante todas as horas seguintes com exposições de arte, cortejos dos grupos de congada e folias, shows e recitais nas praças públicas, apresentações de música barroca, concertos sinfônicos, até encerrar-se, tarde da noite, com uma ruidosa, harmônica e colorida queima de fogos de artifício. Mas para os são-joanenses, nada disto é excepcional. Pelo contrário, tudo isto faz parte do dia a dia de São João del-Rei, em autêntica celebração do...

Finados. Junto aos veios de ouro, às raízes e às nascentes de São João del-Rei, requiescat in pace

São João del-Rei, desde sempre, tem intimidade com a morte. Cemitérios colados às casas, os vivos são vizinhos dos mortos. No século XVIII, a Procissão das Cinzas lembrava em cortejo solene e figurado, nas ruas coloniais, a finitude da vida. Desde aquela época, durante a Quaresma, no ciclo da Festa de Bom Jesus dos Passos, Encomendações de Almas, em três consecutivas sextas-feiras, percorrem encruzilhadas, cruzeiros e portões de cemitérios, a chamar os mortos e entregar-lhes músicas e orações. São João del-Rei, a religião, a morte e as contradições. No Carnaval, uma escola de samba ensaia sua bateria no limite exato que une e separa os mortos e os vivos - o alto portão de ferro do Cemitério do Carmo. Nos desfiles, o Bloco dos Caveiras expõe debochadamente a morte, com a irreverência em estandartes, caixões, defuntos, ossos, fogo, fumaça e figuras tenebrosas. É medonho. Na Sexta-feira da Paixão, o grande momento é a Procissão do Enterro, também chamada Procissão do Senhor Morto. ...

São João del-Rei, enternecida, lembra a morte de São Francisco de Assis

Neste dia 4, desde cedo, em São João del-Rei, os sinos das altas torres do templo franciscano tocam graves, compassados e langorosos para lembrar aos são-joanenses que no dia 3 de outubro de 1226 - portanto há 787 anos - morria, irmão da água e do fogo, da Terra, da Morte, do Sol e da Lua, São Francisco de Assis. Mesmo que seja azul e iluminado, o dia escorre triste no jardim em forma de lira, tendo palmeiras como cordas. Esparsamente, pessoas atravessam largo e adro, entram na igreja sombria e silenciosa  e levam orações para o santo, penitente, piedoso, magrinho e de hábito preto, austero e solitário em seu andor. Já no século XVIII era assim. Às três da tarde, os sinos tocam mais insistentes e mais tristes ainda. É hora de celebrar o momento em que São Francisco - em imagem deitado no chão da igreja - deixou este mundo. Em volta, também de hábitos pretos, irmãos e irmãs da Ordem Terceira oram contritos em memória da sentida passagem. Pouco depois, no adro da igreja, os ...

São Cosme e São Damião brincam inocentes nos largos, ruas e becos de São João del-Rei

No meio de tanta festança que no mês de setembro acontece no centro histórico de São João del-Rei - todas grandiosamente belas, corporativamente promovidas pelas Irmandades e Confrarias setecentistas -, pode parecer que não existe espaço para manifestações culturais singelas e espontâneas. Mas não é bem assim. Mal avançam as primeiras horas da manhã do dia 27 de setembro, já se percebe nos mais diferentes pontos da cidade, principalmente nas áreas residenciais dos bairros, um alvoroço diferente: são as crianças correndo atrás dos doces distribuídos  pelos adultos para saudar São Cosme e São Damião. Balas de coco, paçoca, pé de moleque, maria-mole, pirulito, doce de batata doce, pipoca industrializada - tudo vale para adoçar a vida e acariciar a infância da inocência, legítima e verdadeira. Não aquela oficialmente " pastichificada " no comercial Dia da Criança. Na verdade, a tradição de deixar doces e balas nos jardins e também distribuir guloseimas açucaradas no dia ...

Festa das Mercês: São João del-Rei reinventa ícones, ressignifica símbolos e reescreve sua história

Na sua dinâmica sociocultural, a cada dia São João del-Rei ressignifica elementos e símbolos de sua história, dando-lhes novos e contemporâneos sentidos. No vale da Serra e ao longo do Córrego do Lenheiro, o que antes ostensivamente apontava condenação, hoje serve para induzir questionamentos. O que outrora, em séculos passados, sinalizava colonial castigo, neste terceiro milênio, é alvorada da consciência dos direitos humanísticos e cidadãos. Você imagina que o Pelourinho, onde desde 1713 se castigavam escravos e executavam severas punições na Vila de São João del-Rei, pudesse servir de mastro para um toldo da principal barraca da quermesse da Festa de Nossa Senhora das Mercês? Pois é! Em setembro de 2013, isto aconteceu. A face religiosa, tradicional e barroca, da Festa das Mercês continua fiel aos rituais setecentistas. Toques de sinos, foguetes, novenas, missas cantadas, incensos, irmãos com hábitos, escapulários e mantos caudalosos, andores enfeitados, procissões, fogos de ...

Tira-se o véu por trinta dinheiros em São João del-Rei. Findava agosto de 1755...

Mesmo nas solenidades mais tradicionais, tocantes e piedosas, como as da Festa de Passos e da Semana Santa, hoje é muito raro, nas igrejas de São João del-Rei, ver uma mulher usando véu para cobrir a cabeça, quando segue a caminho da mesa da comunhão. Até pouco mais do que a metade do século passado, este lenço retangular de renda fina e transparente ainda fazia parte do vestuário religioso feminino, como símbolo de respeito, devoção, obediência, pureza e elegância. A cor variava entre branco, azul claro, cinza e preto, sinalizando entre outras coisas a idade e o estado civil da jovem ou senhora que o véu usava. Poucos sabem, mas houve um tempo em que as mulheres de São João del-Rei só podiam andar em determinados espaços sagrados são-joanenses com a cabeça bem coberta por um gorro padrão, possivelmente adquirido da própria igreja. Prova disso é que no dia 28 de agosto de 1755, o padre comissário Manoel da Costa Faro propôs -  em reunião da Ordem Terceira de São Francis...

A eterna primavera da fé em São João del-Rei

São João del-Rei é como um jardim, sempre em primavera a florescer. Todo mês, durante as festas religiosas, altares e andores em cascatas se cobrem das flores mais diversas: angélicas, antúrios, cravos, crisântemos, copos-de-leite, "egpsy", gérberas, hortências, lírios, margaridas, palmas e rosas, entre muitas outras. São as estrelas da terra luzindo gentileza, cor e perfume; brilhando fé, suavidade e devoção. Agosto, por exemplo, quando chega, acende em todos memórias antigas, que se tornam realidade nas ladeiras, largos e becos do centro histórico da terra onde os sinos falam. A bicentenária Orquestra Lira Sanjoanense afina instrumentos e vozes, ensaia partituras antigas para que, no período de 5 a 15, a música barroca de mulatos compositores locais se junte ao som dos sinos e ao perfume de incenso para criar ambiência celeste em honra a Nossa Senhora da Boa Morte, Nossa Senhora da Assunção, Nossa Senhora da Glória e também à Santíssima Trindade - Pai, Filho e Espírito...