terça-feira, 28 de outubro de 2014

Rondó de uma imaginária noite de São João del-Rei


                                 Na minha terra, fim do dia,
                                 o sol apaga a luz da lamparina.
                                 Vai deitar do lado de lá do Lenheiro
                                 para certeiro sono São João adormecer.

                                 De mansinho, silencioso,
                                 Cordeiro de Deus
                                 salta-lhe do ombro.
                                 Porta afora, céu adentro,
                                 cometa, estrela, lua, orvalho e vento,
                                 até a noite em claro amanhecer.

                                 De seu sonho inocente,
                                 deserto, água, peixe, mel e concha,
                                 pomba branca lá do alto tudo encanta,
                                 São João sorri, só se levanta
                                 quando o sol em brilho aparecer!                 


sexta-feira, 24 de outubro de 2014

São João del-Rei tem eira e tem beira. Tem beira-seveira, cimalha, cachorro e muitos outros beirais


Em São João del-Rei, quando ainda hoje se diz que algo ou alguém não tem eira nem beira, não se está fazendo um elogio. Pelo contrário! Sem eira nem beira quer dizer sem fundamento, descabido, sem posses nem referências, sem qualquer coisa em que se possa basear para atribuir algum valor ou reconhecimento.

No período colonial, a expressão servia para designar alguém muito pobre, quase um sem-teto, já que eira, em Portugal, significava pátio ou quintal e beira o mesmo que beiral: acabamento na base do telhado, que se projetava à frente da fachada das casas residenciais e das edifícações públicas. Até as igrejas tinham, nas laterais, de telha, madeira ou em pedra, belos beirais.

Passeando pelas ruas, largos e becos de São João del-Rei, quem observar a fachada das casas simples, dos casarões e dos sobrados vai se deparar com vários tipos de beirais.

As famosas beiras-seveiras, que são rendilhados de duas ou três camadas de telhas, com a curvatura para baixo, fazendo um acabamento delicado e gracioso entre a fachada e o telhado. Naquele tempo, indicavam nobreza.

As cimalhas, geralmente de alvernaria, são uma faixa horizontal, ondulada e com sulcos, que acompanha toda a fachada, servindo de base para a beira, que é a última camada de telhas e se projeta telhado afora. Mais austeras e por isto mesmo menos graciosas e mais imponentes do que as beiras-seveiras, inspiravam poder.

Os beirais de cachorro, mais simples do que os outros dois, também tem seu encanto. São pontas de caibros de madeira, muitas vezes bastante grossos e finalizados com um recorte, que apoia uma faixa de madeira ao longo da fachada. Cuidadosa solução estética, são uma projeção externa do telhado, sustentando a beira.

Já a beira é o mais humilde dos beirais. Nada mais do que o acabamento do telhado, é uma beirada que, quando muito, avança meia telha curva adiante da fachada...

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Bendito e louvado sejam as folias, pastorinhas, congadas e catupés de São João del-Rei


Ninguém duvida da riqueza cultural de São João del-Rei. Principalmente das tradições barrocas que, herdadas do século XVIII, permanecem vivas, nas mais diversas formas de expressão: ofícios religiosos, música barroca, ricas procissões, toques de sinos, tapetes de rua e muitas outras atividades que preenchem de som, perfume e cor os 365 dias do ano de quem vive às margens do Córrego do Lenheiro.

Mas existem algumas manifestações culturais que, paralelas ou periféricas às grandes celebrações litúrgicas, ainda são pouco conhecidas - e por isto mesmo pouco reconhecidas - pelos próprios são-joanenses. Entre estas, estão as folias, pastorinhas e congadas, que se apresentam por ocasião do Natal, Santos Reis Magos e São Sebastião, em janeiro, Divino Espírito Santo, em maio / junho, e Nossa Senhora do Rosário, por todo o mês de outubro.

Em algumas situações, as folias e congadas podem ser vistas no centro histórico da cidade, mas seu território forte são os bairros e alguns distritos de São João del-Rei, sobretudo no do Rio das Mortes e de São Gonçalo do Amarante, popularmente chamado Caburu.

A beleza, singeleza, simplicidade e dramaticidade popular destes grupos mostram que sua origem vem do espírito telúrico, de um tempo distante quando o homem com os pés acariciava o chão, conversava com o vento, se irmanava e vivia em harmonia com as plantas, com os animais e com todas forças da natureza. Isto se vê nos seus cantos, suas danças, suas vestes, suas caixas, seus estandartes e seus adereços. Todos muito simples, leves, alegres como só pode ter quem não maculou a pureza ingênua da inocência.

Felizmente, a cada ano vê-se as folias e congadas reforçarem suas raízes, com vigor e vitalidade. Reforçarem sua presença, nos seus locais de origem, e conquistarem respeito, admiração e encantamento, nos largos e becos coloniais. Que em breve as folias, pastorinhas e congadas sejam incluídas com o merecido destaque no calendário cultural de São João del-Rei, recebam incentivos e estímulos para sua preservação e também a atenção de estudiosos e pesquisadores.

Mesmo em pequeno número nos grupos e ternos, tal qual orvalho e sereno, as crianças congadeiras dão viço e frescor a uma prática ancestral, que é ao mesmo tempo misteriosa e explícita. Para decifrá-la, entendê-la e vivê-la, basta deixar no peito, qual tambor, bater o coração.

Foto: Ulisses Passarelli

Para saber mais sobre os congadeiros de São João del-Rei, clique no link abaixo e assista o documentário Esse rosário é meu

domingo, 12 de outubro de 2014

São João del-Rei, com glórias e louvor, agradece e pede bênçãos à sua padroeira


Desde cedo, vive hoje São João del-Rei uma atmosfera diferente. Mal o dia amanheceu e uma alegria solene está debruçada nas sacadas e nas janelas. De tempos em tempos, desde cedo, os sinos da Matriz do Pilar dobram e repicam festivos. Vestidas com um retoque a mais na roupa de ver Deus nos domingos, homens e mulheres atravessam as sete pontes de pedra e de ferro que se curvam sobre o Córrego do Lenheiro e todas levam rumo à Rua Direita, a uma escadaria e adro altivo, ao altar dourado de Nossa Senhora do Pilar, "excelsa padroeira de São João del-Rei".

 Hoje, 12 de outubro, é dia de Nossa Senhora do Pilar, o que por si só todo ano, nestas terras, é motivo de louvor e festa. Mas em 2014 São João del-Rei tem um motivo a mais para celebrar: os sessenta anos da coroação pontífícia da imagem da Virgem que socorreu o apóstolo Tiago na cidade espanhola de Zaragoza. Aqui, reverenciando sua magestade, recebeu em 1954 uma grande coroa de ouro garimpado nas minas e betas da Serra do Lenheiro, do Alto das Mercês, do Cassoco, da Bica da Prata e de outros locais auríferos são-joanenses.

Am festa começou no dia 3, com uma novena barroca e se encerra hoje, com celebrações que se intercalam preenchendo por todo o dia. com missas solenes, Liturgia das Horas, Vésperas Solenes de Nossa Senhora, encerrando-se à noite, com procissão barroca e canto do Te Deum Laudamus.


segunda-feira, 6 de outubro de 2014

São João del-Rei: ... houve este mundo ou eu inventei? ...



                                       "O sino da minha terra ainda bate

                                         às primeiras sextas-feiras
                                         por devoção ao Coração de Jesus.
                                         Em que outro lugar do mundo
                                         isto acontece?"


                                                                                 Adélia Prado