sexta-feira, 21 de março de 2014

Semana Santa / Festa de Passos. Andam faltando anjos no céu de São João del-Rei?

A brisa suave de outono, as orquídeas, as hortências, o verde brilhoso das folhas das árvores, o céu azul, as quaresmeiras arroxeadas, o bando de andorinhas que corta a tarde crepuscular no Largo do Rosário, a Serra do Lenheiro roxodistante... Este é o cenário natural em que acontecem, em São João del-Rei, as "Solenes Celebrações dos Passos de Nosso Senhor Jesus Cristo a Caminho do Calvário", ou simplesmente a Festa de Passos, como é mais conhecida.

É a mais extensa celebração da Quaresma na "terra onde os sinos falam" e, sem sombra de dúvidas, uma das mais tocantes. Ao que tudo indica, a que mais se manteve fiel a tudo o que a caracterizava no século XVIII, quando foi fundada a Irmandade de Nosso Senhor Bom Jesus dos Passos.

O toque dos sinos enfeitados com penachos de longas fitas de papel crepom roxo, que se desprendem dos badalos e voam, povoando os ares de tons melancólicos e comoventes. Os motetos e cânticos barrocos. Os andores velados, forrados com manjericão roxo e branco. O rosmaninho a perfumar o chão das igrejas. O incenso embalsamador das lembranças longínquas. O grande pendão à frente do cortejo, com suas quatro letras douradas S.P.Q.R - São Pedro quer rapadura, traduzem bem humoradas crianças travessas. Roxo por toda parte. Tudo tal qual era antigamente.

Mas algo anda acontecendo que, nos últimos anos, é cada vez menor a legião de anjinhos que acompanha Senhor dos Passos e Nossa Senhora das Dores. Às vezes, não se vê nenhum nas rasouras do Domingo de Passos e poucos, esparsos, na Procissão do Encontro. Na Procissão da Soledade, então, é comum Nossa Senhora, lastimosa - a solidão em pessoa - chorar suas dores na companhia de um único anjinho. Tão solitário quanto ela.

Desde os tempos coloniais, vestir crianças de anjo nas procissões é uma tradição brasileira, muito presente nos cortejos religiosos setecentistas das cidades históricas de Minas Gerais. Era um recurso que a Igreja utilizava para aproximar infância e religião, iniciando logo a evangelização. Para as crianças, era um momento especial, que se tornava inesquecível por toda vida: ser alvo de atenção elogiosa e orgulho de seus pais e parentes, que se sentiam dignamente representados, com destaque, por seus rebentos, em um acontecimento tão solene.

Nos últimos anos, a ausência de anjinhos nas procissões vem sendo bastante sentida. Sem eles fica a faltar no cortejo celeste a pureza e a inocência que são próprias dos querubins.  Mas isto pode mudar e o céu pode ficar ainda mais presente nas procissões de São João del-Rei. Basta os pais  e avós proporcionarem às suas crianças este presente inesquecível por toda vida: uma túnica de cetim, um diadema florido e um par de asas. Todas as crianças que viveram esta experiência têm hoje, na memória sentimental e afetiva, uma lembrança eterna. E a sua também pode ter. Só depende de você...


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http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/04/aquarela-da-festa-de-passos-em-sao-joao.html

terça-feira, 18 de março de 2014

Encomendação de Almas entrega música e oração aos mortos na noite de São João del-Rei





Tradição bicentenária de São João del-Rei, mantida com grande mistério até os dias atuais, as Encomendações de Almas são cortejos que, em hora próxima da meia-noite, percorre várias ruas da cidade, parando sete vezes em encruzilhadas, portões de cemitérios, cruzeiros e portas de igreja. Realizadas exclusivamente no tempo da Quaresma, por ocasião da Festa de Passos, podem acontecer em três sextas-feiras consecutivas ou em uma única semana, em dias alternados - segunda, quarta e sexta-feira.

Lembrando rituais muito antigos, mais se parecem com enterros noturnos do que com procissões. Não é conduzida por padres, mas por um homem mais velho, respeitável e respeitado por todos, que puxa o terço durante todo o trajeto e, nas sete paradas de cada Encomendação, faz orações - ora em latim, ora em português -, como a chamar as almas e entregar-lhes cantos, lembranças, lamentos e orações.

Nestas horas, ouve-se o bater da matraca e músicos executam os Motetos dos Passos, compostos há quase duzentos anos pelo maestro são-joanense Matiniano Ribeiro Bastos. A impressão que se tem é que flautas, clarinetas, contrabaixo, violoncelo e vozes embrulham sete recortes da noite em retalhos de veludo escuro. Por isso, em tempos passados, muitas lendas, mistérios e secretas magias envolviam estes rituais.

Pensando bem, por suas afinidades e semelhanças, não seriam as Encomendações de Almas de São João del-Rei o correspondente fúnebre das solenes via-sacras de rua, realizadas nas três primeiras sextas-feiras da Quaresma, na "terra onde os sinos falam"?

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Veja, no link abaixo, uma matéria sobre a Encomendação de Almas realizada na sexta-feira passada, 14 de março.

http://g1.globo.com/mg/zona-da-mata/noticia/2014/03/sao-joao-del-rei-mantem-tradicao-da-encomendacao-de-almas.html





domingo, 16 de março de 2014

Festa de Passos: São João del-Rei além dos séculos, amém!



Por mais que o mundo digital, com suas teias, estenda redes que rompem tempo e espaço, cyberpadronizando o mundo, o espírito de São João del-Rei não se dilui nem se apaga. Cultura que são, a arte e a fé perpetuam emoções e sentimentos que vencem séculos, transmitidos sensorialmente em cores, sons, aromas, texturas, sabores, ritmos. 

Tanto em 1906 (foto acima) quanto nos dias de hoje (abaixo, foto de 2013), em São João del-Rei a manhã do Domingo de Passos sopra a mesma brisa, irradia a mesma luz de outono, as orquídeas exalam o mesmo perfume, o incenso asperge a mesma nuvem perfumada, os sinos lançam aos ares os mesmos dobres e as mesmas fitas roxas de papel crepom. Bate no peito o mesmo coração perene.

Em São João del-Rei a eternidade renova seu ciclo imemorial a cada minuto do dia a dia.





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http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2014/04/aquarela-da-festa-de-passos-em-sao-joao.html

Imagens: Reprodução de foto (1906) do programa da Festa de Passos 2014 e foto de Antonio Emilio da Costa (2013)

terça-feira, 11 de março de 2014

A mítica e a mística popular na Quaresma de São João del-Rei


Antigamente, a Quaresma era um tempo tenebroso em São João del-Rei. Acreditavam os mais velhos que no Carnaval o Diabo era solto da prisão do Inferno e desde então ficava vagando pela Terra até o momento em que se comemorasse, com sinos e com foguetes, o Aleluia. Relacionavam este período aos quarenta dias em que Jesus jejuou no deserto e foi tentado por Satanás.

A partir da Quarta-feira de Cinzas, cessavam os bailes nos clubes. Nas casas, os radios funcionavam em volumes mais baixos e não raramente as pessoas evitavam fazer barulho, batucar, cantar e até falar alto, em compaixão e respeito àquele que, no final dos quarenta dias, todo ano é crucificado. Era comum praticar jejuns curtos e voluntários, assim como em hipótese alguma se deveria comer carne às sextas-feiras, substituindo este alimento por ovo ou sardinha em lata. Os mais penitentes estendiam  este sacrifício também para as segundas e quartas-feiras. Bebidas alcóolicas, convinha evitá-las ao máximo.

Era comum contar casos testemunhais que envolviam assombrações, lobisomens, sacis e mulas-sem-cabeça, disseminando entre as pessoas simples o medo de feitiçaria e o temor ao Divino e ao Coisa Ruim. Por isso, poucas eram as pessoas que passavam por encruzilhadas ermas e nas horas mortas ou que ficavam nas ruas por volta da meia-noite. Estariam correndo risco de se encontrar com o Diabo ou de serem acusadas de perigosas e malfazejas, por terem contato com o outro mundo.

Clima tão mítico e ao mesmo tempo tão místico incentivava a prática de orações, rezas, defumações, simpatias, benzeções, crendices e superstições - coisas que davam vida e fortaleciam a cultura popular. Mais do que isso, aumentavam a presença da imaginação criativa e de seus efeitos pitorescos no dia a dia local, em uma época muito peculiar do calendário religioso.

De um modo geral, a urbanidade e o anseio por modernidade estão a extinguir o sentimento especial que cobria de nebulosidade mágica e de muito mistério o tempo da Quaresma em São João del-Rei. Hoje, a tecnologia devassa tudo, mostra até o avesso das casas dos becos mais retorcidos e escuros. A toda hora tem alguém na rua, a caminho do trabalho, voltando da farra, procurando o que não perdeu, comprando remédio na farmácia, pegando o que não lhe pertence, se abastecendo em um posto de gasolina ou numa loja de conveniência.

Daí, então, a mítica deste tempo místico desapareceu no homem atual. Sobrevive apenas na lembrança daqueles que já estão esgarçando a memória a caminho do esquecimento. Felizmente, São João del-Rei tem o grupo teatral Lendas São-joanenses, que noturnamente encena, em alguns sábados, para nativos e turistas, estórias antigas e assustadoras no cenário histórico povoado por muito silêncio e por muitas cruzes.


Ilustração: Urubu do Flamengo - altar na parede lateral esquerda de um bar da Avenida Leite de Castro, em SJDR (foto do autor)

Em São João del-Rei, fraternalmente, a alegria é irmã da tristeza e as duas, civilizadamente, se respeitam



Ideal de respeito às diferenças e fraternidade, em São João del-Rei a alegria e a tristeza se reconhecem como irmãs e de vez em quando se revezam na ciranda que são os dias e as noites no vale da Serra do Lenheiro. Cada uma justifica a existência da outra, acentuando seu brilho ou obscuridade.

Evidenciando esta peculiaridade, o jornal Folha de S. Paulo noticiou uma homenagem que o sacerdote Padre Paiva recebeu na avenida, durante o desfile carnavalesco, das escolas de samba locais, enquanto seu corpo era velado na magnífica Matriz do Pilar. Clique no link abaixo e leia.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidiano/155594-padre-homenageado-no-carnaval.shtml


domingo, 9 de março de 2014

Padre Paiva. O Patriarca da Fé, da Cultura e do Amor - Triunfo Eucarístico de São João del-Rei


Contrição. Este é, certamente, o sentimento que envolve o coração de São João del-Rei neste entardecer de domingo. Mesmo que tivesse o tamanho do universo, a cidade seria pequena para o volume de amor que os são-joanenses trazem no peito para ofertar a Padre Paiva na missa que começará daqui a meia hora, em memória do sétimo dia de sua morte.

Sebastião Raimundo de Paiva. Tatão, para as crianças de sua infância, no chalé da Rua Santo Antônio, altura dos números quinhentos. A ele, poderia-se dizer que São João del-Rei muito deve. Mas isto não é verdade. Quem a ele muito deve é a humanidade, pelo que ele sabiamente conseguiu manter das tradições religiosas setecentistas da cidade onde os sinos falam e os homens antigos ainda entendem.

Sem sua sabedoria, discernimento, temperança, habilidade, amor cristão, patriotismo, cidadania, convicção e firmeza de caráter, entre outras qualidades e habilidades, com certeza não se conheceria mais liturgias como os Ofícios de Ramos e de Trevas, as encantadoras procissões  barrocas e todas as celebrações religiosas que fazem de São João del-Rei um torrão singular. Preservando-as, o sacerdote-cidadão preservou ao homem "da terra" um dom que Deus deu unicamente aos filhos de Adão: a cultura. Também deste modo zelando da alma da criatura, louvou e serviu ao Criador.

O que o povo de São João del-Rei tem para com este Patriarca não é dívida. É Gratidão, Reconhecimento, Orgulho e Amor - com iniciais maíusculas! Este sentimento complexo e vigoroso foi construído no convívio diário durante uma existência de 31 mil e 400 dias em que se cumpriu, na plenitude, o maior mandamento de Jesus Cristo - Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

É por isto que São João del-Rei, no silêncio sereno do encontro com sua própria alma, diz:

- Obrigado, Padre Paiva! Em ensinamento, memória e obras, você está sempre conosco...


sexta-feira, 7 de março de 2014

Na Semana Santa barroca de São João del-Rei ouve-se em Via Sacra : Senhor Deus, misericórdia!

Nesta primeira sexta feira da Quaresma, o sino da Irmandade de Bom Jesus dos Passos já dobrou várias vezes, avisando aos são-joanenses que hoje é dia de Via Sacra solene.

Nas ruas coloniais do centro histórico, os "passinhos" - como são conhecidas na cidade as capelas-oratório de uma grande porta de madeira  e acabamento barroco encimado por uma cruz de pedra - já tiveram seus entalhes dourados espanados com cuidado. O altar já está forrado por um tecido de cetim roxo e toalha de bordado antigo, no qual repousam castiçais e jarras de flores, ladeando imagens de Cristo crucificado ou com cruz às costas.

Entre o esgotamento e o cansaço do carnaval e o consternamento pela morte do grande patriarca da preservação da liturgia barroca nas tradições religiosas de São João del-Rei, o povo são-joanense não espera a hora de, no começo do anoitecer de hoje sair às ruas, acompanhando a cruz da qual pende um lençol branco conduzida pela Irmandade dos Passos, e de tempos em tempos, ao som da Orquestra Ribeiro Bastos, nos passinhos que representam as estações da Via Sacra, com a voz embargada, cantar:

" - Senhor Deus, misericórdia!
  - Pelas dores de Maria Santissima, misericórdia. 
  - Mi - sé - ricóoordiaaa.."


Neste vídeo, Luiz Fernando Zanetti mostra os Motetos dos Passos executados pela Orquestra Ribeiro Bastos na Iª Via Sacra Solene de 2014.





terça-feira, 4 de março de 2014

Semana Santa São João del-Rei 2014 - O sem-fim que existe dentro de cada um


Terça-feira Gorda, 9 horas da noite, São João del-Rei. O Carnaval ainda ferve, na euforia desesperada que busca prolongar o fôlego dos últimos momentos de prazer, paixão e desvairios, mas na Matriz do Pilar o sino da Irmandade do Santíssimo Sacramento, indiferente a este anseio da carne, dobra o Toque de Cinzas. Bastará escorrer mais um oitavo das horas do dia e já será Quaresma.

É possível que às 6 da manhã, quando as padarias abrirem com seu cheiro de pão quentinho e os primeiros trabalhadores já apressem o passo para enfrentarem sua rotina, em algum recanto de praça ainda se ouça um repique perdido, o falar sozinho e rouco de um bêbado retardatário à procura do caminho de casa e o ronco de alguém que não resistiu ao duelo com o álcool e tombou, inconsciente, diante de sua ilusória ousadia.

Com certeza às 6 da manhã, quando o sol nascer, já vai encontrar na Matriz do Pilar muitos devotos, fiéis, contritos, recebendo na testa imposição de cinza benta, ante a eloquente convocação do sacerdote:

- Convertei-vos ao Evangelho de Jesus Cristo!

O tocar do dedo, o roçar da cinza, o sopro sonoro da advertência certamente traspassarão o peito como um punhal gelado, fazendo em pensamento sangrar arrependimento e contrição.

Em São João del-Rei, terá começado uma outra era, que se repete a cada ano. E que se perpetua por quarenta dias, marcados pelos sinos que, de tempos em tempos e dos pontos mais diversos, dobram chamando para sequentes Vias Sacras.

Nos campos e nas encostas, o espinheiro branco, florido, parecerá um alerta às almas são-joanenses, que sentirão nas desabrochadas orquídeas de outono sinais de eternidade.

O sem-fim que existe dentro de cada um.

Presente para os são-joanenses e amantes de São João del-Rei:


Clique no link  acima e ouça um disco gravado em 1977, com excelente qualidade técnica e de reprodução, pelas orquestras Ribeiro Bastos e Lira Sanjoanense com um consolidado das músicas tradicionais e emblemáticas da Festa de Passos e da Semana Santa (Domingo de Ramos, Ofício de Trevas, Quinta-feira Santa, Sexta-feira da Paixão, inclusive o canto da Verônica na Procissão do Senhor Morto) de São João del-Rei. A qualidade (técnica, gravação, reprodução e repertório) é excelente!