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São João del-Rei: da Guerra dos Emboabas à Guerra do Paraguai


Passados 133 anos desde que os portugueses, inflamados de ódio na Guerra dos Emboabas, incendiaram em 18 de novembro de 1709 o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes, São João del-Rei cobriu-se de festa para receber por três dias, com entusiasmo e homenagens, o Barão de Caxias, heroi brasileiro da Guerra do Paraguai.

Por coincidência ou de propósito, em 1842, no dia 11 de setembro, Caxias chegou à cidade pelo mesmo lugar onde o bandeirante Tomé Portes cobrava pedágio pela travessia do caudaloso Rio das Mortes: o Porto Real da Passagem. Dali então, por todo o trajeto, de trechos em trechos era saudado por foguetes e fogos de artifício - recursos sonoros até hoje muito usados em São João del-Rei, frequentemente até várias vezes por dia. De longe a população fica sabendo que em algum lugar não muito distante alguém está comemorando alguma coisa, mas exatamente qual o motivo da alegria, não dá para saber.

Em seu percurso até o centro da cidade, Caxias passou sob vários arcos do triunfo. O primeiro deles, montado em um lugar à época chamado Tabatinga, era rico de símbolos tropicais da natureza brasileira, como frutas, flores, papagaios e até macacos. Displicentemente encostadas nas colunas do arco, duas mulheres, "vestidas"de índias, atiravam flores sobre o nobre visitante.

Na entrada da Ponte da Misericórdia, hoje soterrada nas imediações do Colégio Nossa Senhora das Dores, mais um arco decorativo, inclusive com um coreto para a música. Também enfeitado com ramos e flores, este segundo arco trazia no alto a seguinte mensagem: "Viva o excelentíssimo senhor Barão de Caxias". De lá se projetavam dois  púlpitos, de onde duas meninas jogavam flores sobre o bravo guerreiro.

No caminho, do alto de sacadas enfeitadas, atiravam flores no nobre  barão - artilharia que se completava com foguetes e de fogos de artifício. Na chegada no Largo de São Francisco, foi a vez das continências militares da tropa de São João del-Rei. Seguindo pela Rua da Prata, Caxias atravessou a Ponte do Rosário, seu amplo largo, e a Rua Direita, onde cruzou mais um arco e, de novo, enfrentou uma previsível chuva de pétalas.

Em frente à casa em que se hospedou, o herói encontrou mais um coreto, onde por duas noites houve apresentações musicais. Ainda no primeiro dia, pouco depois de um breve descanso, o homenageado esteve na Matriz do Pilar; lá assistiu um solene Te Deum Laudamos em ação de graças, com orquestra, toque de sinos e exposição do Santíssimo Sacramento. Para encerrar a noite, ainda compareceu a um baile, onde, além de dançar, recebeu das meninas uma coroa de flores, com um cartão e a seguinte mensagem: "Receba, Senhor General, este testemunho de nossa gratidão."

Depois de programação tão intensa quanto extensa, é de se esperar que Caxias tenha reservado o dia 12 para descanso, pois no dia 13 retornou para a Corte, no Rio de Janeiro.

Doze anos depois, o herói da Guerra do Paraguai voltou a São João del-Rei. Desta vez, livre de missões públicas e compromissos oficiais, desejava apenas banhar-se nas frias cachoeiras são-joanenses, o que lhe havia sido recomendado como tratamento de saúde.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, segunda edição, revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte, 1982.

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