Pular para o conteúdo principal

Natal em São João del-Rei: a "Estrela Guia" já no céu desponta!


Sempre que dezembro chega, São João del-Rei já está olhando para o céu. Lendo na pauta de estrelas a barroca novena de Nossa Senhora da Conceição. Aprendizado muito antigo, do tempo em que a santa, pousada sobre a lua crescente, esmagava a serpente verde, que ainda trazia entre os dentes  pecado vermelho e a maçã que traiu Eva e condenou Adão ao castigo do trabalho: "ganharás o pão de cada dia com o suor do teu rosto!"

Mal Nossa Senhora da Conceição recolhe-se ao seu altar na igreja de São Francisco, voltando do passeio que faz todo dia 8 de dezembro para, em gratidão, homenagear o aniversário da cidade que tanto lhe ama, São João del-Rei volta pela Rua da Prata, atravessa a Ponte do Rosário para de novo afinar seus instrumentos, preparar foguetes e fogos de artifício, lustrar pratarias, aparar velas, encomendar flores. Tudo para adorar, em novena, o sorridente Menino Jesus. Ele gosta tanto desta festa que faz questão de descer dos braços de Nossa Senhora do Rosário para ficar mais perto dos são-joanenses, que emocionados lhe beijam as mãos, os pés e a face no Te Deum do Natal do Senhor, cantado entre repiques de sino, tencões e terentenas, no anoitecer do dia 25 de dezembro.

Se no colonial centro histórico de São João del-Rei  assim que Deus é louvado na graça de seu nascimento, nos bairros do Tejuco, Senhor dos Montes, Bonfim, São Geraldo, São Dimas e outros mais, os "folieiros" enfeitam seus chapéus, esticam o couro das caixas, conferem viola e chocalho, reparam bandeiras e estandartes para que, a partir do dia 25 de dezembro,  até 6 de janeiro, as folias de reis espalhem a esperança de um mundo melhor nos lares pobres e ricos, nas praças e nos asilos, lacrimemocionando a todos, dos soldados em vigília aos bêbados dos botequins.

Na margem das Águas Férreas, boca das Gameleiras, Dona Júlia Lacerda e Senhor Geraldo Eloy, impulsionam à frente as Pastorinhas do Menino Jesus (foto antiga) como luminosas Estrelas-Guia. Por isso, é para eles, e para o folclorista Ulisses Passarelli - arauto das folias e do novo tempo que elas ainda em vão prenunciam - que o almanaque eletrônico Tencões & terentenas dedica esta Folia de Reis, na voz de Pena Branca e Xavantinho.

Comentários

  1. Antônio Emílio receba meu agradecimento por esta linda gravação da dupla imortal e querida. Seu oferecimento me incentiva a continuar, não obstante as limitações que encontro em meu trabalho pela cultura popular. Seu blog está de parabéns! Valeu por lembrar das folias e pastorinhas! Gosto muito do grupo das Águas Férreas, heróis da resistência que vem com muita luta mantendo na ativa o derradeiro grupo de pastorinhas de São João del-Rei. Vida longa ao casal Geraldo e Júlia, sinceros amigos. Com um abraço fraterno e grato, Ulisses.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Debaixo de São João del-Rei, existe uma São João del-Rei subterrânea que ninguém conhece.

Debaixo de São João del-Rei existe uma outra São João del-Rei. Subterrânea, de pedra, cheia de ruas, travessas e becos, abertos por escravos no subsolo são-joanense no século XVIII, ao mesmo tempo em que construíam as igrejas de ouro e as pontes de pedra.

A esta cidade ainda ora oculta se chega por 20 betas de grande profundidade, cavadas na rocha terra adentro há certos 300 anos.  Elas se comunicam por meio de longas, estreitas e escuras galerias - veias  e umbigo do ventre mineral de onde se extraíu, durante dois séculos, o metal dourado que valia mais do que o sol.

Não se tem notícia de outra cidade de Minas que tenha igual patrimônio debaixo de seu visível patrimônio. Por isto, quando estas betas tiverem sido limpas e tratadas como um bem histórico, darão a São João del-Rei um atrativo turístico que será único, no Brasil e no mundo.

Atualmente, uma beta, nas imediações do centro histórico, já pode ser visitada e percorrida. Faltam outras 19, já mapeadas, dependendo da sensibiliza…

Padre José Maria Xavier, nascido em São João del-Rei, tinha na testa a estrela da música barroca oitocentista

 Certamente, há quase duzentos anos, ninguém ouviu quando um coro de anjos cantou sobre São João del-Rei. Anunciava que, no dia 23 de agosto de 1819, numa esquina da Rua Santo Antônio, nasceria uma criança mulata, trazendo nas linhas das mãos um destino brilhante: ser um dos grandes - senão o maior - músico colonial mineiro do século XIX. Pouco mais de um mês de nascido, no dia 27 de setembro, (consagrado a São Cosme e São Damião) em cerimônia na Matriz do Pilar, o infante foi batizado com o nome José Maria Xavier.

Ainda na infância, o menino mostrou gosto e vocação para música. Primeiro nos estudos de solfejo, com seu tio, Francisco de Paula Miranda, e, em seguida dominando o violino e o clarinete. Da infância para a adolescência, da música para o estudo das linguas, José Maria aprendeu Latim e Francês, complementando os estudos com História, Geografia e Filosofia. Tão consistente era seu conhecimento que necessitou de apenas um ano para cursar Teologia em Mariana. Assim, já ordenado…

Em São João del-Rei não se duvida: há 250 anos, Tiradentes bem andou pela Rua da Cachaça...

As ruas do centro histórico de São João del-Rei são tão antigas que muitas delas são citadas em documentos datados das primeiras décadas do século XVIII. Salvo poucas exceções, mantiveram seu traçado original, o que permite compreender como era o centro urbano são-joanense logo que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes tornou-se Vila de São João del-Rei.
O Largo do Rosário, por exemplo, atual Praça Embaixador Gastão da Cunha, surgiu antes mesmo de 1719, pois naquele ano foi benta a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, nele situada e que originalmente lhe deu nome. Também neste ano já existia o Largo da Câmara, hoje, Praça Francisco Neves, conforme registro da compra de imóveis naquele local, para abrigar a sede da Câmara de São João del-Rei. A Rua Resende Costa, que liga o Largo do Carmo ao Largo da Cruz, antigamente chamava-se Rua São Miguel e, em 1727, tinha lojas legalizadas, funcionando com autorização fornecida pelo Senado da Câmara daquela Vila colonial.  Por …