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Festa de Nossa Senhora das Mercês: a sagração da primavera em São João del-Rei*

Em São João del-Rei, todo ano é assim: a primavera só chega no dia 24 de setembro, no buquê de flores brancas que Nossa Senhora das Mercês carrega na mão direita. Seus pés pisam nuvens de flores que brotam dos altares e se espalham por toda a igreja, singela e graciosa, incrustada em uma rocha que dá início à subida da Serra do Lenheiro. Entrada para o caminho por onde no século XVIII subiam homens escravos, desciam negros livres, transitavam cativos mulatos, atrevidos criolos, astutos morenos e gentes de toda laia - clandestinos, foragidos, ladrões, proscritos, ciganos, bandidos, degredados - todos a faiscar ouro nas betas, a garimpar no ribeirão e a catá-lo entre raízes do capim agreste. Alguns, dizem, escondiam o ouro na carapinha...

Todo ano, no anoitecer do dia 24 de setembro, Nossa Senhora das Mercês leva a primavera a passear pelas ruas, largos e becos coloniais de São João del-Rei. Entre as flores de seu buquê e de seu andor, carrega graças, mercês, milagres e favores, que o tempo todo e durante todo o ano distribui ao povo são-joanense. Tudo brota de uma fonte inesgotável e eterna, que nunca seca nem se acaba. Antes, se renova em cada primavera. Dizem que a nascente desta fonte é seu coração...

As marchas tocadas pelas bandas dão cadência ao ritmo de seu caminhar, entre nuvens de incenso, inocentes anjinhos infantis, autoridades dignas, senhores respeitáveis, homens devotos, mulheres contritas, esperançosas e agradecidas, patriarcas e matriarcas que todos são da tradição e da fé. E também o povo, sem distinção de idade, escolariedade, classe nem de cor. Dizem que parece o Céu, aquela que no conjunto das expressões culturais setecentistas é a mais barroca cidade de Minas Gerais...

A libertadora dos cativos e protetora dos que com suor , ousadia e sangue conquistaram a liberdade ou foram pela intercessão dela alforriados, é generosa e também acolhe os descendentes dos inclementes nobres e dos cruéis feitores. Deles e daqueles tempos, tamanha desumanidade e brutalidade têm símbolo no pelourinho de pedra, fincado no jardim em frente ao terceiro Passinho da Paixão.

De tempos em tempos, de espaços em espaços, os sinos marcam o compasso, ora mais lento, ora mais vivo, ora exultante. De pontos em pontos fogos de artifício enchem o céu de mais cometas e estrelas, enquanto que das sacadas dos casarões chovem pétalas e preces. Viva Nossa Senhora das Mercês! Viva... Viva nossa mãe celestial! Viva...

De volta à sua esplanada, o andor vira-se para o hospital e a santa mira, piedosa e complascente, todos os doentes. Anima alguns, conforta outros e promete amparo, na hora tenebrosa, àqueles que já estão a caminho do Céu, onde em breve se encontrarão com ela.

Depois, dá meia-volta e, de frente para os são-joanenses, sobe de costas, lentamente e pesarosa por se despedir, os 33 degraus de sua imponente escadaria. Entra em sua igreja, mas deixa em cumplicidade e gratidão a primavera, num fértil e serenado buquê de flores e de favores, para o povo de São João del-Rei.

* Para a são-joanense, jornalista e escritora, Kaká Freitas




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Sobre a Festa ds Mercês, leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/09/seria-hoje-em-sao-joao-del-rei-um.html
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2012/09/festa-das-merces-ha-cem-anos-obrigacao.html

Comentários

  1. Ahhh Emilio, assim você acaba comigo! Dedicatória à parte (que eu amei!), um primor de texto! "Em São João del-Rei, todo ano é assim: a primavera só chega no dia 24 de setembro, no buquê de flores brancas que Nossa Senhora das Mercês carrega na mão direita." entra pra listas das coisas que você escreveu e que eu gostaria de ter escrito! Rsrs...Lindo! Uma feliz primavera a tos nós e que Ela nos abençoe! Obrigada, abçs!

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