sábado, 1 de novembro de 2014

A morte é vizinha da vida em São João del-Rei. O que as separa é só um portão de ferro!

Hoje, os sinos de São João del-Rei estão dobrando de um modo diferente, em uma frequência incomum. Começaram ontem, logo depois da Hora do Ângelus, tocam do alto das torres de todas as igrejas, de tempos em tempos, e assim será até o cair da noite, pois hoje é o dia dos Mortos. Seus dobres são dobres fúnebres.

Desde cedo, missas são rezadas nas várias coloniais igrejas, muitas das quais preparadas como antigamente eram quando iam receber um defunto, para ser ali "encomendado": um tapete de veludo preto, engalanado com bordas douradas e uma grande cruz no centro também dourada, estendido próximo do arco-cruzeiro. Sobre ele, uma alta e grande "eça" - imponente, nobre e trágica mesa de madeira, esculpida com caveiras e outros símbolos funerários.

Na tradicional cidade, ainda é costume dos mais velhos entrar rezando para as almas do Purgatório pela porta principal das igrejas três vezes seguidas e sair pela lateral, para obter "indulgências plenárias concedidas neste dia pelo Santo Padre, o Papa". Naturalmente, quanto mais igrejas, mais indulgências...

Apesar de ser um dia de melancolia e saudade, Finados não é marcado pela tristeza em São João del-Rei. Talvez porque ali, no dia a dia, mortos e vivos são vizinhos parede-e-meia, pois no centro histórico dez campos santos se alternam entre  as casas, facilitando a que os vivos - quando a ausência aperta - não precisem de mais do que um passo para atravessar os portões de ferro dos cemitérios e falar com seus mortos. Rezar, reclamar, maldizer, agradecer, pedir conselho, intercessão, ajuda ou, simplesmente, conversar e matar a saudade. Isto alivia um bocado a dor da separação, já que quem ficou não perdeu visualmente a referência geográfica de onde quem foi está. Nem mesmo de noite, já que da rua, iluminadas pela lua, se vê muitas covas, sepulturas, túmulos e ossuários, com suas cruzes, nomes e flores.

Lembrando séculos passados, as orquestras Ribeiro Bastos e Lira Sanjoanense tocam neste dia, nas missas e ofícios de algumas igrejas, músicas barrocas dos Ofícios de Trevas e peças de exéquias, como a marcha fúnebre A Saudade, do grande maestro e compositor são-joanense Benigno Parreira. É uma das músicas funerais mais executadas em Minas Gerais e, em São João del-Rei, frequentemente regida pelo próprio autor.

Assim escorre o dia 2 de novembro em São João del-Rei, até que no fim da tarde os sinos parem de tocar e o manto azul muito escuro da noite cubra a cidade.

No poema e na canção, um suspiro atravessa o portão. Clique e ouça, se tiver coração!


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