domingo, 4 de setembro de 2011

São João del-Rei olha para o alto e contempla o Senhor dos Montes (anotações)



      Anotações para um poema indagativo e inconcluso

Em São João del-Rei, neste primeiro domingo de setembro, a tarde insiste em não cair.
E nem pode. Como resistir ao burburinho da praça - algodão doce, pipoca, criança,
cachorro ... Como fugir do contato com aquela gente feliz, sacudida, que veste roupa
quarada e enxugada ao sol; como negar aos apelos do sino humilde, que toca frágil
como um cordeirinho perdido; como virar as costas para a igrejinha bicentenária e
modesta, pontilhada de luzes, eternizada pelo momento ímpar? A noite apressa-se,
interessada, mas a tarde resiste e ignora a ordem natural. É dia do Senhor dos Montes!

De repente, cometas de pólvora cortam o céu ainda azul, deixando o rastro prateado,
para explodir onde a vista alcança. A banda toca uma marcha gloriosa, notas robustas
saindo das tubas, das trompas, dos trombones, dos tambores. Foguetes  velozes pontuam
o universo sonoro com exclamações, vírgulas, ponto e vírgulas, interrogações, reticências...

A cruz paroquial aparece na porta da igreja, ladeada por duas fileiras de "irmâos".
No auto-falante ouve-se muitos vivas ao Senhor Bom Jesus dos Montes.
O Céu desce ao chão.

Alegre, procissão ganha as ruas. Nossa Senhora das Dores, pequenina, vem na frente,
carregada em andor por quatro moças. Anjos morenos e maduros, esculpidos em carne
e osso pelo sobe-e-desce ladeira, entre a panela de pedra no fogo, a bacia de roupa
no quintal e a tela da TV. Outras quatro carregam lanternas. Neste dia de festa haverá
trevas a clarear?

Sobre os ombros de quatro homens, Nossa Senhora da Piedade levita, com o corpo
de Cristo defunto a seus pés. Seu olhar é um brilho reto, infinito, a desnudar e
abrandar desejos, intenções e pensamentos, sem atenção nenhuma para o Cruzeiro
do Sul nem para as orquídeas que lhe espalharam pelo caminho.

Deitado na cruz, recostada entre muitas flores, vem mais atrás, antes do pálio,
o Senhor Bom Jesus. Vitorioso - apesar do sangue na face, dos cravos e da coroa
de espinhos - não se vanglorianem padece de qualquer sofrimento. Pelo contrário,
segue cordioso, misericordioso, entusiasmado e decidido por ladeiras íngremes,
ruelas curvas, de casas simples, enfeitadas com flores, bandeirinhas, balões,
quadros de santo e imagens na janela, velas acesas, desenhos de serragem colorida
no chão. No embalo de seu povo, platônica paixão, Senhor dos Montes,
em amor recíproco, hoje e sempre, é só paciência, esperança, bondade e perdão.


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Fotoparticipação: Andrea, do blog  http://meucantinhodeleituraeescrita.blogspot.com/
                               Valeu, Andrea, obrigado!

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