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São João del-Rei na balança de São Miguel Arcanjo


Desde a madrugada - e será assim durante todo o dia, até a noite desta quinta-feira, 29 de setembro - o sino das Almas está dobrando repetidas vezes em São João del-Rei. E não é anunciando a morte nem chamando para enterro de nenhum "irmão". É porque hoje é dia de São Miguel Arcanjo.

Faz tempo que o "Príncipe das Potestades" chegou e se estabeleceu em São João del-Rei, com a missão de 'combater e afastar o  Espírito das Trevas, mantendo-o no limite de seus domínios'. Prova disso é que, recém-criada, a Vila de São João del-Rei ainda tinha cheiro de arraial quando, em 2 de junho de 1716, ali foi fundada a Irmandade de São Miguel e Almas, com finalidades religiosas e sociais.

Cabia à Irmandade das Almas prestar assistência religiosa aos presos da Cadeia Pública situada no Largo do Rosário (atual Museu de Arte Sacra), celebrando missas, realizando ofícios e ministrando sacramentos na capela-oratório de Nossa Senhora da Piedade, ali em frente. Também chamava para si a responsabilidade de cuidar da saúde dos pobres e necessitados - os excluídos da sociedade colonial - e para isso contratava médicos  e boticários.

A imagem barroca de São Miguel Arcanjo é das mais antigas existentes na cidade, pois já existia na primitiva matriz. É uma das raras existentes em Minas em que o arcanjo tem em uma das mãos uma balança de dois pratos, onde pesa, entre chamas, duas criaturas humanas em postura de temor e oração. Como representam o espírito dos mortos, a imagem é também conhecida como São Miguel e Almas.

Entre todas as irmandades são-joanenses, a de São Miguel foi a que mais imóveis possuiu nos séculos XVIII e XIX. Tinha também patrimônio financeiro muito significativo, o que possibilitou contratar o artista Manoel Vitor de Jesus para decorar, com pinturas, sua sacristia e consistório, sendo célebre, entre outras representações, a iconografia em que três almas do Purgatório suplicam a intervenção favorável do arcanjo.

Não se surpreenda hoje se, andando pelas ruas do centro histórico de São João del-Rei, você sentir cheiro forte de incenso queimado em brasas vindo do fundo das lojas, escapando das janelas das casas, atravessando as esquinas. São são-joanenses pedindo proteção. Saudando as almas e clamando por São Miguel. Pedindo clemência e generosidade quando, chegada a hora, estiverem na balança que decidirá seu destino na eternidade. E também, no presente, vigor ao anjo no empunhar da espada de fogo contra "maleficios, embustes, armadilhas e ciladas do demônio..."
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Quem é muito são-joanense sabe: pelas quatro pancadas do relógio no sino pequeno da Matriz do Pilar, eram três e meia da manhã quendo este toque de sinos começou.  


Fonte e foto: CAMPOS, Adalgisa Arantes. São Miguel, as Almas do Purgatório e as balanças: iconografia e veneração na Época Moderna. http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos07/campos01.htm

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