Pular para o conteúdo principal

Missa do Aleluia. Um dos mais belos ritos da Semana Santa de São João del-Rei


Depois do esplendor, do encantamento e da intensidade maravilhosamente sensorial e dramática que são a Festa de Passos – desde as Vias Sacras até o Setenário das Dores, passando pelas rasouras e procissões do Encontro – e a Semana Santa de São João del-Rei – desde o Ofício de Ramos, até os ofícios de Trevas, o Canto da Paixão, Adoração da Cruz, descendimento e Procissão do Senhor Morto – é praticamente impossível imaginar que, complementando as celebrações da Paixão de Cristo, ainda possa haver algo uno, e de tamanha beleza, que seja capaz de exaltar de prazer todos os sentidos, da visão ao olfato, da audição ao tato. Mas existe. É a Missa do Aleluia!

Diferentemente de outras ocasiões, em uma das três portas principais da matriz do Pilar, há velas a venda, que as pessoas tranquilamente compram e conservam apagadas. Nas 20 horas que neste dia o relógio não bate, o ritual começa em absoluto silêncio, do lado de fora, do lado esquerdo de quem sobe o adro da igreja, então guarnecido por dentro pelos irmãos do Santíssimo Sacramento. Ali se acende o fogo sagrado, o oficiante  marca o grande círio pascal, que acende, e adentra afastando a penumbra do templo, de tempos em tempos quebrando também o silêncio, com um longo e pausado anúncio em voz alta: lumen Christi!, que o povo responde quase no mesmo tom: deo gratias! O cortejo de sacerdotes vem logo atrás e, com suas velas acesas, reparte o fogo e a luz com os fiéis, que também compartilham entre si a chama e o calor. Além do cheiro das velas e do incenso, há muita expectativa e certeza no ar.

Já no altar-mor, começa o rito de orações e cânticos. Leituras firmes contam a história de um Deus seguro em seus atos, determinado contra os que o desobedecem. Em muito diferente do cordeiro complacente, imolado na véspera e arrastado em procissão pelas ruas tortas, escuras e centenárias de São João del-Rei. Entre leituras e antífonas, pouco a pouco vão se acendendo as velas do altar-mor, antes totalmente despido de enfeites e agora, quase magicamente enfeitado de flores que vão surgindo suavemente entre os altos castiçais de prata.

É a hora do Glória, quando todas as luzes da Matriz do Pilar se acendem, todos os sinos das igrejas do centro histórico dobram e repicam, foguetes estouram no céu e a Orquestra Ribeiro Bastos canta o exultantemente. A cortina branca e vaporosa do altar-mor se abre e, à medida em que a densa nuvem de incenso vai dissipando, aparecem, entre flores brancas e velas acesas, Jesus subindo ao céu, com a mão direita erguida, deixando ver uma a chaga, ainda viva e exposta, e na mão direita um pequeno estandarte branco, que tem ao centro uma cruz dourada - sinal da fé vitoriosa. E também a Virgem do Pilar, tendo no braço esquerdo o menino Jesus. Os dois ostentam soberana majestade, com a coroa feita com o melhor e mais puro ouro da Serra do Lenheiro, colhido e doado pelos garimpeiros de São João del-Rei.

Ao longo da missa, as surpresas não param. Na capela-mor, um recém-nascido e um adulto pagão são batizados e, na nave da igreja, os fiéis acendem novamente uns aos outros suas velas, renunciando a Satanás e renovando as promessas do batismo.

Tudo é festa, tudo é alegria, Aleluia! As notas musicais que a Orquestra toca e canta durante todo o rito dançam felizes entre as pessoas e evoluem em espirais em volta dos anjos dourados, no mais sublime e circular entusiasmo, Ouve-se então o canto das Matinas da Ressurreição, compostas no século XIX pelo padre José Maria Xavier, especialmente para a noite do Sábado Santo.

Completam-se, então, exatas três horas de celebração do Aleluia, quando novamente os sinos dos Passos e do Santíssimo Sacramento dobram vigorosos e felizes durante quase 15 minutos. Termina, assim, a solenidade que festeja a saída de Cristo do sepulcro, vencendo a morte e as trevas, per saecula saeculorum...

...................................................
Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: Marcos Luan (colhida na internet)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O dia em que os sinos de São João del-Rei chamaram para um programa de televisão

Para quem nasceu, viveu ou vive em São João del-Rei, o toque de um sino é sempre um chamado: para uma missa, para uma novena, para uma procissão, para um enterro, para uma bênção, para uma Via Sacra, para um Te Deum.

Mesmo quando não se está na cidade é assim. Assistindo a qualquer filme ou vídeo lá gravado no centro histórico, é possível saber a que horas ocorreu aquela cena simplesmente ficando atento às pancadas que de vez em quando bate o sino-relógio da Matriz do Pilar.

Na quarta-feira da semana passada, dia 16 - coincidentemente dia festivo na cidade, consagrado a Nossa Senhora do Carmo - os são-joanenses em São João del-Rei e em todas as partes do Brasil, na metade da manhã, surpreenderam-se com o toque dos sinos chamando-os para um lugar inusitado: para a frente da televisão.

Não que o aparelho estivesse no alto de uma torre ou sobre um altar, mas é que em sua tela a apresentadora Ana Maria Braga e seu "escudeiro" Loro José apresentaram uma reportagem de oito minuto…

Em São João del-Rei não se duvida: há 250 anos, Tiradentes bem andou pela Rua da Cachaça...

As ruas do centro histórico de São João del-Rei são tão antigas que muitas delas são citadas em documentos datados das primeiras décadas do século XVIII. Salvo poucas exceções, mantiveram seu traçado original, o que permite compreender como era o centro urbano são-joanense logo que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes tornou-se Vila de São João del-Rei.
O Largo do Rosário, por exemplo, atual Praça Embaixador Gastão da Cunha, surgiu antes mesmo de 1719, pois naquele ano foi benta a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, nele situada e que originalmente lhe deu nome. Também neste ano já existia o Largo da Câmara, hoje, Praça Francisco Neves, conforme registro da compra de imóveis naquele local, para abrigar a sede da Câmara de São João del-Rei. A Rua Resende Costa, que liga o Largo do Carmo ao Largo da Cruz, antigamente chamava-se Rua São Miguel e, em 1727, tinha lojas legalizadas, funcionando com autorização fornecida pelo Senado da Câmara daquela Vila colonial.  Por …

Santa Clara, clareai minha São João del-Rei!

São João del-Rei é um lugar onde o viver feliz requer, dia e noite, céu aberto. Suas ruas estreitas e sinuosas, seus becos, jardins e largos são palcos públicos onde desde sempre tudo acontece, para todos. O entusiasmo, a vitalidade e a alegria dos são-joanenses precisam de céu limpo para se materializar como procissões, desfiles de carnaval, cortejos, concertos, serenatas, cinema,teatro, recitais e retretas - tudo ao ar livre.

Antigamente, nos tempos românticos que duraram até os anos setenta, era comum as pessoas ficarem nas janelas ou sentadas na calçada ou soleira da porta de suas casas, olhando o tempo e a vida passar. Algumas vezes por dia iam dar uma volta na rua, para comprar a verdura e a carne do almoço, encontrar com os conhecidos, ler o Jornal do Poste, saber quem morreu ou se internou e mandar lembrança para os amigos.

Tudo a céu aberto. Podiam até levar sombrinha ou guarda-chuva, tanto se prevenindo de algum aguaceiro quanto se protegendo do sol forte. Dor de cabeça? Me…