terça-feira, 25 de abril de 2017

Missa do Aleluia. Um dos mais belos ritos da Semana Santa de São João del-Rei


Depois do esplendor, do encantamento e da intensidade maravilhosamente sensorial e dramática que são a Festa de Passos – desde as Vias Sacras até o Setenário das Dores, passando pelas rasouras e procissões do Encontro – e a Semana Santa de São João del-Rei – desde o Ofício de Ramos, até os ofícios de Trevas, o Canto da Paixão, Adoração da Cruz, descendimento e Procissão do Senhor Morto – é praticamente impossível imaginar que, complementando as celebrações da Paixão de Cristo, ainda possa haver algo uno, e de tamanha beleza, que seja capaz de exaltar de prazer todos os sentidos, da visão ao olfato, da audição ao tato. Mas existe. É a Missa do Aleluia!

Diferentemente de outras ocasiões, em uma das três portas principais da matriz do Pilar, há velas a venda, que as pessoas tranquilamente compram e conservam apagadas. Nas 20 horas que neste dia o relógio não bate, o ritual começa em absoluto silêncio, do lado de fora, do lado esquerdo de quem sobe o adro da igreja, então guarnecido por dentro pelos irmãos do Santíssimo Sacramento. Ali se acende o fogo sagrado, o oficiante  marca o grande círio pascal, que acende, e adentra afastando a penumbra do templo, de tempos em tempos quebrando também o silêncio, com um longo e pausado anúncio em voz alta: lumen Christi!, que o povo responde quase no mesmo tom: deo gratias! O cortejo de sacerdotes vem logo atrás e, com suas velas acesas, reparte o fogo e a luz com os fiéis, que também compartilham entre si a chama e o calor. Além do cheiro das velas e do incenso, há muita expectativa e certeza no ar.

Já no altar-mor, começa o rito de orações e cânticos. Leituras firmes contam a história de um Deus seguro em seus atos, determinado contra os que o desobedecem. Em muito diferente do cordeiro complacente, imolado na véspera e arrastado em procissão pelas ruas tortas, escuras e centenárias de São João del-Rei. Entre leituras e antífonas, pouco a pouco vão se acendendo as velas do altar-mor, antes totalmente despido de enfeites e agora, quase magicamente enfeitado de flores que vão surgindo suavemente entre os altos castiçais de prata.

É a hora do Glória, quando todas as luzes da Matriz do Pilar se acendem, todos os sinos das igrejas do centro histórico dobram e repicam, foguetes estouram no céu e a Orquestra Ribeiro Bastos canta o exultantemente. A cortina branca e vaporosa do altar-mor se abre e, à medida em que a densa nuvem de incenso vai dissipando, aparecem, entre flores brancas e velas acesas, Jesus subindo ao céu, com a mão direita erguida, deixando ver uma a chaga, ainda viva e exposta, e na mão direita um pequeno estandarte branco, que tem ao centro uma cruz dourada - sinal da fé vitoriosa. E também a Virgem do Pilar, tendo no braço esquerdo o menino Jesus. Os dois ostentam soberana majestade, com a coroa feita com o melhor e mais puro ouro da Serra do Lenheiro, colhido e doado pelos garimpeiros de São João del-Rei.

Ao longo da missa, as surpresas não param. Na capela-mor, um recém-nascido e um adulto pagão são batizados e, na nave da igreja, os fiéis acendem novamente uns aos outros suas velas, renunciando a Satanás e renovando as promessas do batismo.

Tudo é festa, tudo é alegria, Aleluia! As notas musicais que a Orquestra toca e canta durante todo o rito dançam felizes entre as pessoas e evoluem em espirais em volta dos anjos dourados, no mais sublime e circular entusiasmo, Ouve-se então o canto das Matinas da Ressurreição, compostas no século XIX pelo padre José Maria Xavier, especialmente para a noite do Sábado Santo.

Completam-se, então, exatas três horas de celebração do Aleluia, quando novamente os sinos dos Passos e do Santíssimo Sacramento dobram vigorosos e felizes durante quase 15 minutos. Termina, assim, a solenidade que festeja a saída de Cristo do sepulcro, vencendo a morte e as trevas, per saecula saeculorum...

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Foto: Marcos Luan (colhida na internet)

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