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Quaresma de histórias, memórias, lembranças, quebrantos e encantos em São João del-Rei


Hoje muito pouco, antigamente a Quaresma era um tempo mágico em São João del-Rei. Dias e noites de grande temor, recato e recolhimento, marcados por longos jejuns e principalmente pela abstinência de carne, de todo tipo, nem que fosse apenas na Quarta Feira de Cinzas, em todas as sextas-feiras, na Quarta Feira de Trevas e na Sexta Feira da Paixão. Tempo de silêncio profundo. Os clubes não promoviam bailes e as pessoas continham as gargalhadas, evitando até ouvir a velha e nostálgica Rádio São João del-Rei  em volume mais alto.

Se por um lado era um tempo de obscuridade, pelo sofrimento, paixão e morte de Jesus Cristo, por outro era um tempo de certa desordem, como tentação provocada pelo Espírito do Mal. Ocorrências misteriosas, comportamentos inexplicáveis, ameaças ocultas, destemperos, acontecimentos insuspeitáveis, muitos deles envolvendo animais tanto dóceis quanto peçonhentos, trilhas do campo, lua cheia, ruídos desconhecidos, vozes estranhas, chamados anônimos, incêndios e afogamentos - tudo isto povoava o imaginário popular. Para as crianças, sacis, lobisomens, mulas sem cabeça podiam estar em cada canto escuro.

Como antídoto a isto tudo, só penitência e oração, apesar de que alguns amuletos, patuás e outros talismãs bem que também era ostentados para afastar o mal e seus malefícios. Por isto, era tão comum encontrar crucifixos na cabeceira das camas, terços pendurados às vezes até no pescoço, velas acesas nos quartos, frascos de água benta, ambientes embaçados pela fumaça de incenso queimado em brasas.

Hoje a tecnologia devassou tudo. Devastou tudo. Quase em mais nada há segredo ou mistério a se ver. A não ser na recordada lembrança dos velhos são-joanenses e também no pulsar coração dos novos, que pressentem o encanto da riqueza que a imaginação criou e que a inteligência transformou em sabedoria, em crença e fé!



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