quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

No Carnaval de São João del-Rei, não tem "Surpresa". "Tudo é Ilusão". Triângulo amoroso no samba.



Não é segredo para ninguém. Mesmo nas melhores famílias, de vez em quando um triângulo amoroso acontece, transformando em infortúnio e desgosto uma história de amor que tinha tudo para chegar ao final feliz. A vida é assim. Ainda mais quando o samba está por perto. Que o digam Paulinho da Viola, João Bosco, Chico Buarque e Aldir Blanc.

Há tempos atrás, um estranho triângulo amoroso aconteceu em São João del-Rei e, certamente, o fato ainda hoje é lembrado por são-joanenses que já cruzaram a faixa dos cinquenta anos. Os personagens? O compositor-coveiro-carnavalesco Agostinho França, a música Surpresa e a indústria fonográfica.

Para os são-joanenses o samba Surpresa, normalmente cantado nos desfiles carnavalescos dos anos sessenta como hino da Escola de Samba Depois Eu Digo, fora composto por Agostinho França. Tanto que a letra, conhecida de cor na cidade pelos mais antigos, finalizava com a sequinte quadra:
 
                            "Toda vida trago comigo
                             a Escola de Samba Depois Eu Digo.
                             Será sempre imitada
                              mas nunca será igualada!"

Para surpresa geral (o trocadilho é propositado), nos anos setenta, Surpresa mudou de cidade e de nome. Como quem foge sorrateiramente e não quer ser reconhecido, passou a se chamar Tudo é Ilusão. Escolheu o Rio de Janeiro como novo domicílio. De lá, correu o Brasil na voz de Clara Nunes e de Dalva de Oliveira, declarando ser fillha de Anibal Silva, Eden Silva e Tufir Lauar - seus autores / compositores oficiais. O verso-homenagem à escola de samba, órfão abandonado, coitado, ficou em São João del-Rei. Abandonada também ficou a paternidade de Agostinho França.

Volta e meia Tudo é Ilusão é regravada, como o foi há pouco tempo, na voz da grande cantora Teresa Cristina. E de tempos em tempos continuará sendo, tamanha sua beleza poética e melódica. Seguirá correndo o Brasil e o mundo. Mas para São João del-Rei continuará sendo a ingrata e querida filha pródiga chamada Surpresa que, sem retorno nem saudade, abandonou para sempre o coração e os carinhos do negro pai Agostinho França - Deus o tenha, o conforte e o recompense...


Ouça, no link abaixo, uma montagem da gravação de Tudo é Ilusão (para nós, Surpresa!), nas vozes de Dalva de Oliveira e de Clara Nunes.

Um comentário:

  1. Alguns historiadores contestam o fato. Mas para mim são-joanense, essa é uma daquelas verdades que não me importa. Quando eu ouvir o belo samba 'Tudo é ilusão' vou comentar com quem estiver ao lado: "Este samba é de um compositor são-joanense, Agostinho França, e foi copiado" assim como me foi contado!
    Em tempo, Agostinho França é citado no samba do Bloco unidos do Cambalhota deste ano "Alma barroca, sagrada e profana" http://www.unidosdacambalhota.com.br/ ouça o samba, acho que vai gostar. Foi inspirado na crônica do 'Ambição Literária' http://ambicaoliteraria.blogspot.com/2011/03/alma-barroca-sagrada-e-profana.html
    Importa que Agostinho França foi um grande compositor e merece ser lembrado!
    Bom carnaval para vc Emilio e para todos leitores do blog!
    Abraços, KK

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