Pular para o conteúdo principal

São João del-Rei guarda precioso tesouro da Revolução Francesa

De um modo geral, não se tem noção de quão vasto e precioso é o patrimônio cultural de São João del-Rei. Um exemplo disso é a coleção de jornais Le moniteur universel, publicada em Paris na época em que Joaquim José da Silva Xavier, nosso herói Tiradentes, subia e descia montanhas de Minas difundindo com inflamado entusiasmo os ideais da Inconfidência Mineira.

Desde 1827 a coleção pertence ao acervo da Biblioteca Baptista Caetano de Almeida - a primeira biblioteca pública de São João del-Rei e de Minas Gerais. Sobre ela o Jornal do Brasil publicou, há 20 anos, o texto transcrito abaixo, assinado pelo jornalista Wilson Coutinho. Classificado como "Recado", pedia proteção e cuidados visando a conservação e preservação daquela preciosidade:

Salvem ‘Le moniteur universel’
Em São João D’El Rey, uma rara coleção do jornal
da Revolução Francesa precisa de cuidados
Wilson Coutinho

A Biblioteca Baptista Caetano d’Almeida, em São João D’El Rey, guarda uma relíquia em suas estantes, coleção única no Brasil e raríssima no mundo. Trata-se das edições do jornal Le moniteur universel – o órgão oficial da Revolução Francesa, ou melhor, da República. O acervo foi parar em Minas Gerais quando o fundador da biblioteca, Baptista Caetano, o adquiriu, em 1827, num leilão no Rio de Janeiro. Desconhece-se ainda quem foi seu proprietário original e como a valiosa coleção do jornal revolucionário veio parar no Brasil.

Lendas rondam São João D’El Rey, que como todas as cidades históricas mineiras têm prazer de cultivá-las. Conta-se que os jornais pertenciam aos inconfidentes ou que estudantes, em Coimbra ou Paris,  os traziam escondidos como aríetes literários da subversão. Lendas boas de ouvir e que servem para puxar a imaginação. Imagine Bárbara Heliodora, mulher do inconfidente Alvarenga Peixoto, folheando as suas páginas, atrás de notícias sobre a Assembléia, ou lendo o processo que condenou Maria Antonieta.

Que as lendas vivam, mas o fato é que os jornais chegaram em São João D’El Rey no século passado. Le moniteur foi criado em 5 de maio de 1789 por Charles Joseph Packoucke, o célebre editor de Voltaire, e proprietário de Le Mercure de France. Foi transformado em diário em 24 de novembro, cuja primeira edição pode ser encontrada na Biblioteca Baptista Caetano d’Almeida.

O editorial não é, ao contrário dos panfletos da época, incendiário. Chama a atenção seu tom equilibrado, a proposta de publica seu noticiário com “exatidão pelos fatos, fidelidade escrupulosa na transcrição dos decretos”. Baseado nesses critérios, o jornal manteve-se, seguiu todas as marchas e contramarchas do período revolucionário e só fechou em 1901. Hoje é um documento de raro valor.

Historiadores franceses, quando visitam a biblioteca, ficam admirados em encontrar um tal monumento no Brasil. Mas há problemas. Apesar do esforço da Prefeitura e do carinho das bibliotecárias, a coleção luta contra traças, precisa de um local mais apropriado para ser guardada e necessita de trabalho de técnicos especializados para preservá-la antes que seja tarde demais.

É preciso salvar Le moniteur por tudo que representa: como documento, como história, pelo ideário iluminista que descreve em meio aos conflitos da época. Um secretário de Cultura, como Sérgio Paulo Rouanet, iluminista de coração e idéias, não deve deixar a coleção para a engorda das traças nem para sucumbir à umidade. Um poeta como Affonso Romano de Sant’Anna, diretor da Biblioteca Nacional, pode dar uma ajuda. Além de empresas privadas e ricos, destes que pouco fazem pelo país. Vale qualquer esforço para salvar um monumento que registrou um dos mais ricos períodos da história da humanidade.
.................................................................

Publicado pelo Jornal do Brasil, edição de 2/05/1992, Caderno Ideias / Livros & Ensaios, página 3 - retranca Recado.
.................................................................

Wilson Coutinho, era carioca, jornalista, crítico de arte e mestre em Filosofia pela Universidade Católica de Louvain, Bélgica. Trabalhou nos jornais Opinião, Jornal do Brasil / Caderno Idéias, O Globo, Folha de São Paulo e Tribuna de Imprensa e nas revistas Veja e Arte Hoje. Foi curador e diretor do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e vencedor, em 1969, do Concurso Esso de Literatura; idealizador e organizador das coleções Perfis do Rio, Arenas do Rio e Cantos do Rio. Faleceu em agosto de 2003

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Debaixo de São João del-Rei, existe uma São João del-Rei subterrânea que ninguém conhece.

Debaixo de São João del-Rei existe uma outra São João del-Rei. Subterrânea, de pedra, cheia de ruas, travessas e becos, abertos por escravos no subsolo são-joanense no século XVIII, ao mesmo tempo em que construíam as igrejas de ouro e as pontes de pedra.

A esta cidade ainda ora oculta se chega por 20 betas de grande profundidade, cavadas na rocha terra adentro há certos 300 anos.  Elas se comunicam por meio de longas, estreitas e escuras galerias - veias  e umbigo do ventre mineral de onde se extraíu, durante dois séculos, o metal dourado que valia mais do que o sol.

Não se tem notícia de outra cidade de Minas que tenha igual patrimônio debaixo de seu visível patrimônio. Por isto, quando estas betas tiverem sido limpas e tratadas como um bem histórico, darão a São João del-Rei um atrativo turístico que será único, no Brasil e no mundo.

Atualmente, uma beta, nas imediações do centro histórico, já pode ser visitada e percorrida. Faltam outras 19, já mapeadas, dependendo da sensibiliza…

Padre José Maria Xavier, nascido em São João del-Rei, tinha na testa a estrela da música barroca oitocentista

 Certamente, há quase duzentos anos, ninguém ouviu quando um coro de anjos cantou sobre São João del-Rei. Anunciava que, no dia 23 de agosto de 1819, numa esquina da Rua Santo Antônio, nasceria uma criança mulata, trazendo nas linhas das mãos um destino brilhante: ser um dos grandes - senão o maior - músico colonial mineiro do século XIX. Pouco mais de um mês de nascido, no dia 27 de setembro, (consagrado a São Cosme e São Damião) em cerimônia na Matriz do Pilar, o infante foi batizado com o nome José Maria Xavier.

Ainda na infância, o menino mostrou gosto e vocação para música. Primeiro nos estudos de solfejo, com seu tio, Francisco de Paula Miranda, e, em seguida dominando o violino e o clarinete. Da infância para a adolescência, da música para o estudo das linguas, José Maria aprendeu Latim e Francês, complementando os estudos com História, Geografia e Filosofia. Tão consistente era seu conhecimento que necessitou de apenas um ano para cursar Teologia em Mariana. Assim, já ordenado…

Em São João del-Rei não se duvida: há 250 anos, Tiradentes bem andou pela Rua da Cachaça...

As ruas do centro histórico de São João del-Rei são tão antigas que muitas delas são citadas em documentos datados das primeiras décadas do século XVIII. Salvo poucas exceções, mantiveram seu traçado original, o que permite compreender como era o centro urbano são-joanense logo que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes tornou-se Vila de São João del-Rei.
O Largo do Rosário, por exemplo, atual Praça Embaixador Gastão da Cunha, surgiu antes mesmo de 1719, pois naquele ano foi benta a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, nele situada e que originalmente lhe deu nome. Também neste ano já existia o Largo da Câmara, hoje, Praça Francisco Neves, conforme registro da compra de imóveis naquele local, para abrigar a sede da Câmara de São João del-Rei. A Rua Resende Costa, que liga o Largo do Carmo ao Largo da Cruz, antigamente chamava-se Rua São Miguel e, em 1727, tinha lojas legalizadas, funcionando com autorização fornecida pelo Senado da Câmara daquela Vila colonial.  Por …