quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Quando a alegria perturbou a ordem pública e foi proibida na Vila de São João del-Rei

O barroco, em São João del-Rei, não é apenas um movimento estético-artístico. A alma de São João del-Rei é extremadamente barroca, o que desde a origem setecentista fez da cidade terra de dualidades; de contradições e contrastes harmoniosos. É assim até hoje.

Por um lado, o povo são-joanense cultua e cultiva o sentimento trágico e a expressão dramática da existência humana e da ordem divina e  universal, principalmente através dos rituais religiosos que há três séculos se repetem nos ofícios sacros, novenas, encomendações de almas e procissões. São tantos e tão importantes que constituem marcos no calendário civil.

Por outro, celebra com grande entusiasmo tudo o que é mundano, naturalmente espontâneo e até profano, nas festas coletivas e populares como o carnaval, festivais diversos, serestas, cortejos, desfiles, rodas de samba, capoeira e toda forma do que hoje muitos chamam de folclore.

Em São João del-Rei, a fé e a alegria se equivalem - ambas são crença no aquém, no aqui e no além. Mas ao que tudo indica, a alegria chegou primeiro e se alastrou rapidamente, ao passo que a fé e a contrição, induzidas e como mecanismo de controle, tiveram expansão menos espontânea.

Aliás, parece que a alegria, principalmente dos escravos da Vila de São João del-Rei, era  tão intensa, tão contagiante e tão "descontrolada" que chegava a ameaçar a ordem constituída. Tanto que, em 13 de janeiro de 1720, o Senado da Câmara daquela Vila, atendendo a orientação do Conde de Assumar, publicou edital proibindo que os negros se juntassem para realizar bailes e folguedos. Para reforçar esta ordem, um mês depois, no dia 17 de fevereiro, foi lançado novo edital tornando mais rígida a proibição "pelos danos que podem resultar de semelhantes ajuntamentos". E mais: proibia também que os escravos usassem capotes, para evitar que sob eles escondessem pequenas armas.

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