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Festa da Boa Morte: "applaudátur et laudétur... et venerátio" São João del-Rei

São João del-Rei começou, nesta sexta-feira, a barroca e solene celebração anual da gloriosa morte e assunção de Nossa Senhora aos Céus, popularmente conhecida como Festa da Boa Morte. Nela, tudo é absolutamente barroco, sublime e delicado - novena, toque dos sinos, missa cantada, procissões, bênção do Santíssimo Sacramento  e canto do Te Deum.

Juntamente com a Festa de Passos e com a Semana Santa, forma uma das três maiores "festas" da Matriz de Nossa Senhora do Pilar, se diferindo das demais por seu aspecto alegre. Ao contrário das outras duas, na Festa da Boa Morte nada é trágico. Não lamenta a morte da mãe de Deus, mas se compraz com sua subida gloriosa para os Céus, de onde mira complascente o povo são-joanense.

Consta que a Festa da Boa Morte é realizada em São João del-Rei desde 1735 - portanto há 276 anos - , quando foi instituida a Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte. Desde 1776 tem a participação da Orquestra Lira Sanjoanense (a mais antiga das Américas) e é tão importante no calendário religioso local que chegou a ser apelidada de "semana santa dos mulatos", em referência à genética mestiça que predomina naquela irmandade.

A Festa da Boa Morte é a solenidade que mais motivou a produção musical religiosa são-joanense, sendo conhecidas novenas completas e outras obras compostas ao longo de três séculos por compositores reconhecidos, entre eles Antônio dos Santos Cunha e Manoel Dias de Oliveira (século XVIII), Padre José Maria Xavier (1851), Marcos dos Passos Pereira, Luiz Baptista Lopes e João Feliciano de Souza (1888), José Victor d'Aparição (1893), Martiniano Ribeiro Bastos, Carlos dos Passos de Andrade, Lindolfo Gomes e Euclides de Brito (século XIX), Adhemar Campos Filho e João Américo da Costa (1963) e, mais recentemente, Geraldo Barbosa de Souza (1994).

Até o toque dos sinos próprio para a Festa da Boa Morte é especial. Considerado o mais belo de São João del-Rei e só existente nesta cidade, harmoniza repiques festivos e dobres ritmados e lentos de vários sinos. Batizado de "A Senhora é Morta", dizem que tem até autor: foi composto pelo escravo Francisco, à época propriedade da senhora Ana Romão.

Observe, no vídeo abaixo, a riqueza e sofisticação sonora do toque "A Senhora é Morta" e o "transe" dos sineiros durante sua execução.
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Fonte: Piedosas e solenes tradições de nossa terra - volume 2. Publicação da Paróquia da Catedral Basílica de Nossa Senhora do Pilar. São João del-Rei, 1997.

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