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Abecê de São João del-Rei no século XVIII

Em São João del-Rei - assim como em todas as vilas de ouro e diamantes de Minas Gerais na primeira metade do século XVIII - o vocabulário da população era cheio de palavras que hoje já são praticamente desconhecidas.

Abundantes em sons e ritmos, aos poucos foram deixando de ser utilizadas e caindo no esquecimento, tanto porque os instrumentos, códigos, objetos, funções e situações que designavam não mais existem quanto porque, como somente poucas foram ressignificadas, a maioria não passarou a denominar outras coisas, fugindo portanto do dia a dia.

Recordemos algumas:

Almocrafe (ou almocrafre) - enxadinha estreita e pontuda, utilizada na mineração.
Almotacé (ou almotacel) - fiscal responsável por, entre outras coisas, aferir e controlar a fidelidade das unidades de pesos e medidas utilizados.
Bando - forma antiga de tornar públicos, solenemente, decretos e ordens régias. A leitura do bando era precedida do toque de caixas, para chamar a atenção da população para o assunto que ia ser lido e para as instruções que deveriam ser seguidas.
Bateia - instrumento de madeira, parecido com um grande prato cônico, servia para fazer a lavagem do ouro nos rios, bicas e cursos d'água.
Boticas (ou coticas) - estabelecimento onde se preparavam e vendiam remédios e drogas medicinais.
Calhambola - o mesmo que quilombola, negro fugitivo que vivia em quilombos.
Carumbés (ou calhumbés) - vasilha ou gamela cônica que servia para conduzir o cascalho a ser lavado nas catas de outro e de diamante.
Devassa - inquérito que se abria para apurar e julgar crimes ou para localizar / verificar irregularidades.
Epíteto - palavra ou frase que se juntava ao nome de pessoa ou coisa para qualificar ou realçar sua significação. O mesmo que apelido ou alcunha, porém sem caráter pejorativo.
Escravos da nação - escravos a serviço do governo.
Estilicídio - gotejar de um líquido, coriza.
Fazenda molhada - gêneros comestíveis, ferro, aço e "tudo o mais que não se veste".
Fazenda seca - "o que não se come nem se bebe, mas serve para vestir".
Forrar - libertar, conceder carta de alforria.
Freguesia - o mesmo que paróquia, distrito de uma paróquia.
Grão - unidade de peso (0,05 grama).
Gró - peça do vestuário.
Inhambassa - referente à origem africana
Juiz de vintena - juiz nomeado anualmente para cada aldeia de 20 vizinhos. Julgava questões de até 300 réis, prendia criminosos e julgava violação às posturas municipais.
Ladino - escravo que conhecia a língua, os usos e costumes locais. Sabia exercer algum ofício.
Locanda - casa alugada.
Manumissão - libertação de escravos, alforria.
Oitava - peso antigo usado na mineração (3,587 gramas). Equivalia à oitava parte de uma "onça".
Pêgas - gancho de ferro com que se prendiam os pés dos escravos fugitivos.
Posturas - normas municipais escritas que obrigavam os municípios a cumprirem certos deveres de ordem pública.
Quartar (ou coartar) - situação em que o escravo ajusta com o senhor a quantia necessária para libertar-se e sobre a qual já pagou a quarta parte. O escravo quartado não pode mais ser vendido para outro senhor.
Quimbete - espécie de batuque ou dança de negros.
Quitanda - venda, pequena loja, em geral de produtos alimentícios.
Rabadilha - o classificado em último lugar, que ficou no fim (rabo) da fila.
Soldado-dragão - soldado da companhia de dragões.
Tomadia - Gratificação devida ao capitão-do-mato pela captura de escravos fugidos. O valor era elevado (20 oitavas de ouro), estabelecido por lei e devia ser pago pelo dono do capturado.
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Fonte: Caderno do Arquivo 1 - Escravidão em Minas Gerais. Arquivo Público Mineiro. Belo Horizonte, 1988.

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