quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Em São João del-Rei, cidadania e liberdade, poesia e prece pelo heroi Tiradentes


Na semana em que São João del-Rei celebra os 265 anos de nascimento e batismo de Tiradentes, com  programação enriquecida pela outorga da Comenda da Liberdade e da Cidadania, que tal relembrar o poema que Cecília Meireles escreveu em 1955, uma conversa entre o menino Joaquim José e a Virgem na capela de Nossa Senhora da Ajuda, Fazenda do Pombal, então Termo da Vila de São João del-Rei.

O altar da citada capela (foto acima) é parte do rico acervo histórico são-joanense e pode ser conhecido no Museu de Arte Sacra, localizado no Largo do Rosário de São João del Rei.

Romance XII ou De Nossa Senhora da Ajuda
Havia várias imagens na capela do Pombal. E portada de cortinas, e sanefa de damasco,
e, no altar, o seu frontal. São Francisco, Santo Antônio olhavam para Jesus
que explicava, noite e dia, com sua simples presença, a aprendizagem da cruz.

Havia prato e galhetas, panos roxos e missal. E dois castiçais de estanho,
e vozes puxando rezas, na capela do Pombal. (Pequenas imagens de pouco valor,
os Santos, a Virgem e Nosso Senhor) Aquilo que mais valia na capela do Pombal
era a Senhora da Ajuda, com seu cetro, com seu manto e coroa, com seus olhos de cristal.

Sete crianças, na capela, rezavam, cheias de fé, à grande Santa Formosa.
Eram três de cada lado, os filhos do almotacé. Suplicam as sete crianças
que a Santa as livre do Mal. Três meninas, três meninos.
E um grande silêncio reina na capela do Pombal...

(Mas esse, do meio, tão sério, quem é?
- Eu, Nossa Senhora, sou Joaquim José!)

Ah! como ficam pequenos os doces poderes seus! Este é sem Anjo da Guarda,
sem Estrela, sem Madrinha...Que o proteja a mão de Deus!
Diante deste solitário, na capela do Pombal, Nossa Senhora da Ajuda é
uma grande imagem triste, longe do mundo mortal.

(Nossa Senhora da Ajuda, entre os meninos que estão rezando aqui na capela,
um vai ser levado à forca, com baraço e com pregão!)
(Salvai-o, Senhora, com Vosso Poder, do triste destino que vai padecer!)
(Pois vai ser levado à forca, para morte natural,  este que não estais ouvindo -
tão contrito, de mãos postas - na capela do Pombal!)

Sete crianças se levantam. Todas sete estão de pé, fitando a Santa formosa,
de cetro, manto e coroa. No meio Joaquim José.

(Agora são tempos de ouro. Os de sangue vêm depois. Vêm algemas,
vêm sentenças, vêm cordas e cadafalsos, na era de noventa e dois.)

(Lá vai um menino entre seis irmãos.
Senhora da Ajuda, pelo Vosso nome, estendei-lhe as mãos!)
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MEIRELES, Cecília. Romanceiro da Inconfidência.
Foto: Altar da capela de Nossa Senhora da Ajuda da Fazenda do Pombal. Acervo Museu de Arte Sacra. São João del-Rei

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