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Mineirice, mineirismo e mineiridade - A sabedoria de Minas em São João del-Rei (2)

Bebamos mais uma dose branquinha da santíssima trindade mineirice, mineirismo e mineiridade, engarrafada por frei Beto. Mas antes que ela suba à cabeça (em São João del-Rei, cachaça do quilombo cada gole é um tombo), convém perguntar: Ser mineiro é uma sina?

Mineiramente falando, a resposta não precisa ser nem sim nem não. Nem muito pelo contrário. Pelo menos do jeito que, pejorativamente se propaga. A sabedoria de Minas é ter consciência de que muitas vezes pensamentos folclóricos, frases de efeito e ditados populares transmitem e reforçam  idéias menores, impõem padrões e valores superados, difundem e constroem preconceitos, ditam normas questionáveis e moldam comportamentos ultrapassados. Quando isso acontece, são um atraso de vida, contrariando a evolução humanística e dificultando aperfeiçoamentos de toda ordem. 

Mineirice, mineirismo e mineiridade, acima de tudo, têm em si este saber. Sua astúcia é, essencialmente, a sabedoria de Minas. E mineiro de verdade sabe disso, mas não conta pra ninguém. Nem pra si mesmo... Será isso verdade e - se é - é bom que seja, e precisa ser, assim?

Vamos lá, mais um gole desta fonte...
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Ser mineiro (2a Parte)
Mineiro fala  de desgraça, doença e morte, e vive como quem se julga eterno. Chega à estação antes de colocarem os trilhos, para não perder o trem. Relógio de mineiro é enfeite. Pontual para chegar, o mineiro nunca tem hora para sair. A diferença entre o suiço e o mineiro é que o suiço chega na hora. O mineiro chega antes.

O bom mineiro não laça boi com embira, não dá rasteira em pé-de-vento, não pisa no escuro, não anda no molhado, não estica conversa com estranhos, só acredita em fumaça quando vê fogo, pede no açougue lombinho francês, só arrisca quando tem certeza e não troca um pássaro na mão por dois voando.

Mineiro fala de política como se só ele entendesse do assunto; finge que acredita nas autoridades e conspira contra o governo; faz oposição sem granjear inimigos; gera filho para  virar compadre de político; foge da luz do sol por desconfiar da própria sombra; vive entre montanhas e sonha com o mar; viaja mundo para comer, do outro lado do planeta, tutu de feijão com couve picada.

Ser mineiro é venerar o passado como relíquia e falar do futuro como utopia; curtir saudades na aguardente e paixão em serenatas; dormir com um olho fechado e outro aberto; acender vela à Santa e, por via das dúvidas, não conjurar o Diabo.

Ser mineiro é fazer a pergunta já sabendo a resposta. É ter orgulho de ser humilde. É bancar a raposa e ainda insistir em tomar conta do ganhinheiro.

Mineiro fica em cima do muro, não por imparcialidade, mas para poder ver melhor os dois lados. Cabeça-dura, o mineiro tem o coração mole. Acredita mais no fascínio da simpatia  do que no poder das ideias.

(Continua outro dia, mais adiante...)  
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Enquanto esse dia não chega, leia mais sobre Mineirismo, Mineirice e Mineiridade acessando http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2011/05/mineirice-mineirismo-e-mineiridade.html  

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