Pular para o conteúdo principal

Semana Santa São João del-Rei 2012 - Via Sacra Ecológica na Rua Padre Faustino / Bica da Prata

Na próxima segunda feira, dia 5, no circuito das celebrações populares da Paixão de Cristo em São João del-Rei, acontece a Via Sacra anual da Rua Padre  Faustino, que tem características muito particulares. Com forte tonalidade sóciorreligiosa-ecológica, a celebração começa em um altar armado sob árvores, próximo a uma gruta de pedras, tendo como fundo uma cascatinha natural e delicada.

Dali o cortejo segue tendo à frente a Cruz da Penitência, para diante de algumas casas que montam nichos em suas janelas, com imagens e estampas de Cristo, e vai até o início da subida da Bica da Prata. Apesar do nome Bica da Prata, das betas e galerias daquela região, tempos atrás, se extraiu muito ouro.

Leia, abaixo, o post que registrou a Via Sacra ecológica ali oficiada em 2011 e, ao final, veja o clipe da trilha sonora que a sintetiza.

  

     Menos penitência e mais persistência no barroco popular 

e ecológico de São João del-Rei


Barroco, em São João del-Rei, não é apenas um estilo artístico. É uma jeito de ver o mundo, um modo de viver. Assim sendo, barroco, em São João del-Rei, não é somente uma manifestação estática, presa aos templos e a espaços artístico- culturais. Ela volta e meia se mostra nas ruas – até nas mais afastadas -, mesmo quando menos se espera.
Isto se viu ontem (6 de abril) na Via Sacra realizada na Bica da Prata, bairro popular, situado nas proximidades do centro, historicamente importante para São João del-Rei: ali era área de mineração e por isso, existe, ainda hoje, no fundo do “terreiro” de várias casas, betas e galerias de onde era extraído ouro.
Primeiro, foi celebrada uma missa diante de um oratório de pedra e ao lado de uma cascata, em uma pequena área ecológica no final da Rua Padre Faustino. Lugar ideal para o início de um culto quaresmal inspirado no tema da Campanha da Fraternidade 2011 – Amor e zelo para com o planeta. Depois, de sob altas figueiras, de entre lírios campestres brancos e perfumados, saiu a grande Cruz da Penitência, de madeira escura, com lençol branco, e atrás dela um cortejo composto por quase cem pessoas.
O templo era o próprio percurso. A pintura do teto, o céu aberto, estrelado. Os altares esculpidos, as janelas de algumas casas, com crucifixos, imagens de santos, toalhas bordadas, estampas, velas. Não havia motetos coloniais nem orações em latim, mas na cascatinha, sapos e grilos cantavam em coro. Na caminhada, as pessoas cantavam orações lembrando a Paixão de Cristo, o Amor de Maria Santíssima, a responsabilidade para com a natureza e o sofrimento do planeta.
Homens, mulheres, crianças, jovens, velhos, casais, solteiros, solitários, viúvos, doentes – todos com o coração flamejante - abriram um rasgo na noite estrelada, nos programas de televisão, no cansaço de um dia de trabalho ou de espera, para professar a esperança e o compromisso com um mundo melhor. Naturalmente barroco. Espontaneamente ecológico. Com menos penitência e mais persistência. E muita paciência. Num bairro central de São João del-Rei.

Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com/2012/02/semana-santa-2012-sao-joao-del-rei_23.html

Comentários

  1. SAUDADES DA MINHA QUERIDA SÃO JOÃO DEL REI PRINCIPALMENTE DA RUA PADRE FAUSTINO AONDE FUI CRIADA!!!!!UM GRANDE ABRAÇO BELO ARTIGO !

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Tuca, obrigado.

      Quando puder, volte à cidade e à Rua Pe. Faustino. Com certeza vc vai gostar. Se der sorte, calha de ser em época desta Via Sacra - geralmente pela metade da Quaresma. Grande abraço!

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Debaixo de São João del-Rei, existe uma São João del-Rei subterrânea que ninguém conhece.

Debaixo de São João del-Rei existe uma outra São João del-Rei. Subterrânea, de pedra, cheia de ruas, travessas e becos, abertos por escravos no subsolo são-joanense no século XVIII, ao mesmo tempo em que construíam as igrejas de ouro e as pontes de pedra.

A esta cidade ainda ora oculta se chega por 20 betas de grande profundidade, cavadas na rocha terra adentro há certos 300 anos.  Elas se comunicam por meio de longas, estreitas e escuras galerias - veias  e umbigo do ventre mineral de onde se extraíu, durante dois séculos, o metal dourado que valia mais do que o sol.

Não se tem notícia de outra cidade de Minas que tenha igual patrimônio debaixo de seu visível patrimônio. Por isto, quando estas betas tiverem sido limpas e tratadas como um bem histórico, darão a São João del-Rei um atrativo turístico que será único, no Brasil e no mundo.

Atualmente, uma beta, nas imediações do centro histórico, já pode ser visitada e percorrida. Faltam outras 19, já mapeadas, dependendo da sensibiliza…

Padre José Maria Xavier, nascido em São João del-Rei, tinha na testa a estrela da música barroca oitocentista

 Certamente, há quase duzentos anos, ninguém ouviu quando um coro de anjos cantou sobre São João del-Rei. Anunciava que, no dia 23 de agosto de 1819, numa esquina da Rua Santo Antônio, nasceria uma criança mulata, trazendo nas linhas das mãos um destino brilhante: ser um dos grandes - senão o maior - músico colonial mineiro do século XIX. Pouco mais de um mês de nascido, no dia 27 de setembro, (consagrado a São Cosme e São Damião) em cerimônia na Matriz do Pilar, o infante foi batizado com o nome José Maria Xavier.

Ainda na infância, o menino mostrou gosto e vocação para música. Primeiro nos estudos de solfejo, com seu tio, Francisco de Paula Miranda, e, em seguida dominando o violino e o clarinete. Da infância para a adolescência, da música para o estudo das linguas, José Maria aprendeu Latim e Francês, complementando os estudos com História, Geografia e Filosofia. Tão consistente era seu conhecimento que necessitou de apenas um ano para cursar Teologia em Mariana. Assim, já ordenado…

Em São João del-Rei não se duvida: há 250 anos, Tiradentes bem andou pela Rua da Cachaça...

As ruas do centro histórico de São João del-Rei são tão antigas que muitas delas são citadas em documentos datados das primeiras décadas do século XVIII. Salvo poucas exceções, mantiveram seu traçado original, o que permite compreender como era o centro urbano são-joanense logo que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes tornou-se Vila de São João del-Rei.
O Largo do Rosário, por exemplo, atual Praça Embaixador Gastão da Cunha, surgiu antes mesmo de 1719, pois naquele ano foi benta a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, nele situada e que originalmente lhe deu nome. Também neste ano já existia o Largo da Câmara, hoje, Praça Francisco Neves, conforme registro da compra de imóveis naquele local, para abrigar a sede da Câmara de São João del-Rei. A Rua Resende Costa, que liga o Largo do Carmo ao Largo da Cruz, antigamente chamava-se Rua São Miguel e, em 1727, tinha lojas legalizadas, funcionando com autorização fornecida pelo Senado da Câmara daquela Vila colonial.  Por …