sábado, 31 de março de 2012

Semana Santa 2012 - Poéticas chagas de Cristo na paisagem da Paixão segundo São João del-Rei

Passinho do Largo do Rosário de São João del-Rei (12/2011). Foto do autor
Em São João del-Rei, não se concebe imaginar as tradicionais celebrações da Quaresma e da Semana Santa sem pensar nos Passinhos da Paixão - cinco capelas / oratórios, que se destacam, entre casarões e sobrados, na paisagem arquitetônica de largos e ruas bicentenárias. Lembrando o número das chagas abertas por cravos e pela lança, nas mãos, pés e coração de Cristo, são territórios religiosos importantes em várias solenidades da "Festa de Passos": vias sacras de rua, procissão do Encontro e procissão das Lágrimas / Soledade de Nossa Senhora.

O poema abaixo, do ainda inédito libreto Vi(d)a Dolorosa - A Paixão segundo São João del-Rei, ambiciona descrever poeticamente os Passinhos da Paixão de Cristo de São João del-Rei, desvelando sua ambiência religiosa, psicológica e de memória.

Sétima Estação

Vistos de fora, os passinhos são oratórios de pedra,
com grossas portas vermelhas de madeira almofadada,
que se abrem para si mesmos ou para lugar nenhum – tanto faz.

Uma vez abertos, são nichos dourados, de delicado entalhe,
encarnação perfeita, com volutas, velas, flores, rendas e bordados.
Tudo tão simples e tão exato como deve ser por dentro
a veia aorta do coração de Jesus.

Neste vácuo bissecular de realidade e geografia,
que afunda uma âncora de interrogação no oceano da onisciência,
mistério maior é a imagem barroca que o povoa.

Uma vez maior do que o natural, quatro vezes menor
do que o mais humilde pensamento, em todos os passinhos
a representação de um martirizado, com túnica roxa, coroa de espinhos
e cruz às costas, traspassa as almas sensíveis com espadas de solidão.

Solidão do tempo. Solidão do mundo. Solidão das almas.
A ausência de si mesmo é labirinto tenebroso,
sem novelo ou lume que ajude a encontrar a aurora.

Nenhum comentário:

Postar um comentário