Pular para o conteúdo principal

Semana Santa 2012 - Poéticas chagas de Cristo na paisagem da Paixão segundo São João del-Rei

Passinho do Largo do Rosário de São João del-Rei (12/2011). Foto do autor
Em São João del-Rei, não se concebe imaginar as tradicionais celebrações da Quaresma e da Semana Santa sem pensar nos Passinhos da Paixão - cinco capelas / oratórios, que se destacam, entre casarões e sobrados, na paisagem arquitetônica de largos e ruas bicentenárias. Lembrando o número das chagas abertas por cravos e pela lança, nas mãos, pés e coração de Cristo, são territórios religiosos importantes em várias solenidades da "Festa de Passos": vias sacras de rua, procissão do Encontro e procissão das Lágrimas / Soledade de Nossa Senhora.

O poema abaixo, do ainda inédito libreto Vi(d)a Dolorosa - A Paixão segundo São João del-Rei, ambiciona descrever poeticamente os Passinhos da Paixão de Cristo de São João del-Rei, desvelando sua ambiência religiosa, psicológica e de memória.

Sétima Estação

Vistos de fora, os passinhos são oratórios de pedra,
com grossas portas vermelhas de madeira almofadada,
que se abrem para si mesmos ou para lugar nenhum – tanto faz.

Uma vez abertos, são nichos dourados, de delicado entalhe,
encarnação perfeita, com volutas, velas, flores, rendas e bordados.
Tudo tão simples e tão exato como deve ser por dentro
a veia aorta do coração de Jesus.

Neste vácuo bissecular de realidade e geografia,
que afunda uma âncora de interrogação no oceano da onisciência,
mistério maior é a imagem barroca que o povoa.

Uma vez maior do que o natural, quatro vezes menor
do que o mais humilde pensamento, em todos os passinhos
a representação de um martirizado, com túnica roxa, coroa de espinhos
e cruz às costas, traspassa as almas sensíveis com espadas de solidão.

Solidão do tempo. Solidão do mundo. Solidão das almas.
A ausência de si mesmo é labirinto tenebroso,
sem novelo ou lume que ajude a encontrar a aurora.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Debaixo de São João del-Rei, existe uma São João del-Rei subterrânea que ninguém conhece.

Debaixo de São João del-Rei existe uma outra São João del-Rei. Subterrânea, de pedra, cheia de ruas, travessas e becos, abertos por escravos no subsolo são-joanense no século XVIII, ao mesmo tempo em que construíam as igrejas de ouro e as pontes de pedra.

A esta cidade ainda ora oculta se chega por 20 betas de grande profundidade, cavadas na rocha terra adentro há certos 300 anos.  Elas se comunicam por meio de longas, estreitas e escuras galerias - veias  e umbigo do ventre mineral de onde se extraíu, durante dois séculos, o metal dourado que valia mais do que o sol.

Não se tem notícia de outra cidade de Minas que tenha igual patrimônio debaixo de seu visível patrimônio. Por isto, quando estas betas tiverem sido limpas e tratadas como um bem histórico, darão a São João del-Rei um atrativo turístico que será único, no Brasil e no mundo.

Atualmente, uma beta, nas imediações do centro histórico, já pode ser visitada e percorrida. Faltam outras 19, já mapeadas, dependendo da sensibiliza…

Padre José Maria Xavier, nascido em São João del-Rei, tinha na testa a estrela da música barroca oitocentista

 Certamente, há quase duzentos anos, ninguém ouviu quando um coro de anjos cantou sobre São João del-Rei. Anunciava que, no dia 23 de agosto de 1819, numa esquina da Rua Santo Antônio, nasceria uma criança mulata, trazendo nas linhas das mãos um destino brilhante: ser um dos grandes - senão o maior - músico colonial mineiro do século XIX. Pouco mais de um mês de nascido, no dia 27 de setembro, (consagrado a São Cosme e São Damião) em cerimônia na Matriz do Pilar, o infante foi batizado com o nome José Maria Xavier.

Ainda na infância, o menino mostrou gosto e vocação para música. Primeiro nos estudos de solfejo, com seu tio, Francisco de Paula Miranda, e, em seguida dominando o violino e o clarinete. Da infância para a adolescência, da música para o estudo das linguas, José Maria aprendeu Latim e Francês, complementando os estudos com História, Geografia e Filosofia. Tão consistente era seu conhecimento que necessitou de apenas um ano para cursar Teologia em Mariana. Assim, já ordenado…

Em São João del-Rei não se duvida: há 250 anos, Tiradentes bem andou pela Rua da Cachaça...

As ruas do centro histórico de São João del-Rei são tão antigas que muitas delas são citadas em documentos datados das primeiras décadas do século XVIII. Salvo poucas exceções, mantiveram seu traçado original, o que permite compreender como era o centro urbano são-joanense logo que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes tornou-se Vila de São João del-Rei.
O Largo do Rosário, por exemplo, atual Praça Embaixador Gastão da Cunha, surgiu antes mesmo de 1719, pois naquele ano foi benta a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, nele situada e que originalmente lhe deu nome. Também neste ano já existia o Largo da Câmara, hoje, Praça Francisco Neves, conforme registro da compra de imóveis naquele local, para abrigar a sede da Câmara de São João del-Rei. A Rua Resende Costa, que liga o Largo do Carmo ao Largo da Cruz, antigamente chamava-se Rua São Miguel e, em 1727, tinha lojas legalizadas, funcionando com autorização fornecida pelo Senado da Câmara daquela Vila colonial.  Por …