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São João del-Rei, setembro de 1993. Relembrar, para não esquecer! E cada vez mais aprender...


Há 20 anos, São João del-Rei foi manchete nos principais jornais impressos do país. Nos telejornais, não foi diferente: o nome da cidade era repetido várias vezes por dia. E não era por um fato glorioso ou um acontecimento à altura dos são-joanenses. Pelo contrário. O motivo de tamanho alvoroço  era  uma questão preocupante para o patrimônio arquitetônico-urbanístico do país, que colocava de um lado o poder público local e de outro o poder público federal.

Do que se tratava? Do asfaltamento da Rua Santo Antônio - uma das mais antigas e bonitas do centro histórico colonial, famosa por suas casas tortas e por ser endereço das sedes das duas orquestras mais antigas das Américas - a Lira Sanjoanense e a Ribeiro Bastos - e da centenária Banda de Música Theodoro de Faria.Temia-se que a rua, que fora trilha de entrada dos bandeirantes no Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar, em 1703, 290 anos depois servisse de caminho para o asfalto chegar definitivamente às ruas, becos, praças e largos da cidade que este ano completa três séculos de elevação a Vila.

A "demanda e a peleja" entre diferentes esferas legais e governamentais foram grandes e colocaram, de um lado, o prefeito municipal, Nivaldo José de Andrade, e, do outro, várias instâncias dos governos federal e estadual, bem como diversas entidades representativas da sociedade brasileira. Para se dar ideia da importância dos acontecimentos, pela defesa do patrimônio cultural,  estavam, entre outros, o Presidente da República, Itamar Franco, o Procurador Geral da República, Aristides Junqueira, o Ministro da Cultura, Jerônimo Moscardo, o Governador de Minas Gerais, Hélio Garcia, o Cardeal Primaz do Brasil, Dom Lucas Moreira Neves, os deputados Aécio Neves, Paulo Delgado e Antônio Fuzatto, o delegado da Polícia Federal, Egberto Azevedo, e todas as instituições públicas e privadas relacionadas à preservação da memória nacional.

Felizmente o asfaltamento não chegou ao percurso da rua onde a arquitetura é homogênea e, apesar de - à época - depreciar a imagem da cidade como conjunto histórico original e preservado, abriu ainda mais os olhos da sociedade são-joanense para o valor que tem o patrimônio cultural de São João del-Rei. E também para o dever - e direito! - que a cidade tem de preservá-lo. Além disso, deixou claro, para proprietários de imóveis de valor histórico e para gestores públicos, a responsabilidade de serem zelosos, cautelosos, informados e orientados tecnicamente em relação a tudo o que se refere ao patrimônio, à cultura, à história e à memória de São João del-Rei. Pois, mesmo sendo bens locais, dizem respeito, e portanto pertencem, ao povo brasileiro.

Para acompanhar, passo a passo, o enredo e desfecho desta história, basta acessar principalmente os arquivos do Jornal do Brasil, Jornal de Brasília, Folha de São Paulo, O Globo, Estado de Minas, O Estado de São Paulo e Correio Braziliense, no período de 21 a 30 de setembro de 1993.

Eis algumas manchetes:
. Itamar manda PF embargar obra em São João Del-Rey (CB, 24/09)
. Asfalto Selvagem (JB, 26/09)
. PF para obra em São João Del-Rey / Policiais cumpriram ordem direta de Itamar, mas o prefeito garante que está certo (JB,25/09)
. Itamar manda PF parar obra de prefeito de S. João Del Rey (JB, 24/09)
.Prefeito agride centro histórico ((JBr, 21/09)
. Prefeito desafia a Justiça (JB, 26/09)
. Ministro é encarregado de embargar asfaltamento (CB,23/09)
. PF não para asfalto em São João del Rey / Intervenção da Polícia Federal ordenada por Itamar visava interromper obra em rua do centro histórico (FSP, 25/09)


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