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Crianças: a Arca da Memória de São João del-Rei

Quando se fala na preservação da memória e perpetuação da cultura de São João del-Rei, não se pode esquecer de um segmento muito importante: as crianças. São elas que, por gerações, levarão acesa na lembrança a chama da história do que nos legaram nossos antepassados. Que perpetuarão séculos afora, com amor, zelo e compromisso, as crenças, esperanças, tradições, sabedorias e saberes aqui construídos e cultivados há mais de três séculos. O dia 12 de outubro - Dia da Criança - é bom para se lembrar disto.

Pensando assim, é preciso cada vez mais inserir a criança no universo cultural de São João del-Rei. Nas tradições barrocas, como as procissões e outras festas religiosas. Nas expressões populares, como congada, folia de reis, carnaval, artesanato. Em todas as artes, sejam música, teatro, literatura, dança ou artes plásticas. Na gastronomia...

Na vanguarda de outras cidades, São João del-Rei já desenvolve algumas ações neste sentido. Em relação aos tapetes processionais, isto já é feito toda Semana Santa pela ONG Atitude Cultural, que também inclui as crianças no Carnaval de Antigamente. Sabe-se, ainda, que alguns museus desenvolvem ações de educação patrimonial, promovendo visitas guiadas de turmas de escolas públicas a estes espaços de memória e a áreas do centro histórico local. Mas São João del-Rei precisa - e pode! - fazer mais.

Qual são-joanense, quando criança, não se encantou com o toque dos sinos? Não despertou do sono matinal para atender ao apelo convidativo que vinha do apito da maria fumaça? Não viu brotar água na boca diante da nuvem de algodão doce que surgia na bacia que rodava na carrocinha e do cheiro inigualável do beijo quente que misturava coco,afeto e açúcar queimado? Não desejou tanto ganhar cartucho ou carregar turíbulo de incenso em brasa e naveta de prata nas procissões? Desde cedo, na identidade são-joanense, cultura, memória, patrimônio e tradições, mais do que as linhas da mão, são nossas próprias impressões digitais.

Hoje, nota-se pequena participação infantil protagonista nas manifestações culturais de São João del-Rei, sejam nas barrocas, como meninas (e também meninos) vestidos de anjo nas procissões ou meninos (e também meninas) tomando parte em irmandades, seja nas populares, meninos e meninas, nos grupos de congada e folias de reis. Mas este quadro pode mudar. Basta que os adultos tomem a iniciativa e façam sua parte,  incentivando e facilitando para que seus filhos, sobrinhos e netos comecem a enriquecer sua história pessoal fazendo parte de tradições tão importantes e únicas, como as de São João del-Rei. E que neste sentido tenham apoio de irmandades, grupos de congada e folia, corporações musicais e outras entidades envolvidas.

Lembrança temporã - Empreendimento precioso, merecedor de todo reconhecimento, foi a criação do grupo Pastorinhas do Menino Jesus, por dona Júlia há mais de 30 anos. Reunindo crianças da Ponte das Águas Férreas, no bairro Tejuco, as pastorinhas alegraram o ciclo do Natal de muitos são-joanenses. Tomara que voltem em 2013!

Veja, numa reportagem da TV Campos de Minas, a participação de crianças no Congado do distrito são-joanense de Rio das Mortes
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Foto: Anjinhos na procissão do Senhor dos Passos - 1999. Cortesia Ulisses Passarelli


Comentários

  1. Com certeza Emílio, nossas crianças devem estar sempre inseridas neste contexto cultural e tradicional da nossa cidade. Só assim perpetuaremos as nossas coisas, nossa cultura, nossa fé, nossos sino, toda a nossa particularidade que existe a quase 300 anos.

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    1. Também penso assim, Eduardo. E agradeço por seu empenho e dedicação à preservação da memória e perpetuação do patrimônio material e imaterial de nossa igreja do Carmo, considerada uma das seis mais belas edificações religiosas criadas por Aleijadinho. Gde abraço!

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