quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Carnaval de São João del-Rei tem saudades do imortal Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae

Quem é de São João del-Rei, tem mais de cinquenta anos e passou a infância na cidade  certamente não se esquece: quando nas noites de carnaval clarins tocavam na Ponte da Cadeia anunciando que o Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae já estava cruzando os Quatro Cantos, uma emoção forte inquietava a todos, disparava o coração. Aos poucos, a multidão ia se recompondo, voltando a si, recuperando o fôlego para ver passar, dolente, acetinada, verde e rosa uma das mais antigas agremiações carnavalescas da cidade, criada nos anos vinte do século passado.

Um rancho moreno, perfumado, extraordinariamente singelo, com suas crianças inocentes, ingenuamente sensuais pastoras, homens e rapazes pontuando com firmeza o movimento do rancho. Ciganas, fadas, aladins, sultões, baianas, mandraques, piratas - todos deslizando sublimes ao som de uma marcha rancho de composição sofisticada e letra erudita, que colocava um dos mais antigos ranchos carnavalescos são-joanenses acima das constelações celestes e dos maiores e mais importantes heróis da mitologia grega.

Depois de desfilar por quase (ou mais de) cinquenta anos, o Rancho Carnavalesco Custa Mas Vae há um bom tempo é apenas memória; lembrança e saudade dos velhos carnavais de São João del-Rei. Em seu livro, modestamente denominado Subsídios para a história do carnaval de São João del-Rei, o grande Jota Dangelo transcreve um folhetim de 1928 e descreve como foi o desfile do "Custa" naquele ano:

"Cavalgando garbosos ginetes, III [três] cavalleiros, empunhando clarins, cornetas e trombetas abrem, por entre a multidão, passagem para o Custa Mas Vae.  Em seguida, vêm o presidente e seu secretário, montados em dois lindos corcéis. Segue-se a porta-estandarte e seu  defensor, com trejeitos coreugráphicos [coreográficos], demonstrando sua perícia em tal arte.... surgem então as senhorinhas e os rapazes representando diversas constellações, estrellas, enfim, todos os astros que, embebidos, olhamos à noite". No final vinha a 'carruagem'  Dentro da Noite, nome do enredo idealizado e confeccionado por Lord Redondo."

Ainda falando sobre o Custa Mas Vae, Jota Dângelo conta que no carnaval de 1929 o rancho desfilou com o enredo  A Fada dos Bosques, e que o folhetim distribuído antes do desfile chamava a atenção para as marchas Nego no Samba e Marcha do Custa Mas Vae. Esta última, belíssima letra de J. Colombiano, vulgo Collombo, e composição, segundo o maestro Marcelo Ramos, de Pancrácio Loureiro, ficou conhecida como o Hino do Custa Mas Vae. Sua letra diz:

"Como estrela a cintilar, a luzir lá no céu, sempre azul,
tal é o Custa Mas Vae, rivalizando com o Cruzeiro do Sul.

Febo morre de ciúmes de ti porque brilhas no Carnaval.
Vênus te rende homenagens, és o Rancho Escola, és o Rancho Ideal .

És forte como Hércules. Teu passado é de gloria.
Tens um porvir glorioso, viva a folia, viva a vitória!

És bravo com denodo, e todos de ti bem dizem.
Do Carnaval és a nata, brava gente heróica e juvenil.

Qual farol que ilumina o caminho, tu és vencedor.
Sempre, sempre altaneiro, brilhas muito e com grande esplendor.

Do civismo és a alta expressão, tu jamais serás abatido.
Timoneiro valoroso, és o Rancho Escola, o Rancho ideal."

A marcha Hino do Custa Mas Vae foi gravada recentemente no CD Marchas Mineiras para Bandas pela Companhia dos Inconfidentes, sob regência do maestro Marcelo Ramos. Saiba mais sobre o CD e como adquirí-lo no vídeo abaixo:




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