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Quilombos e neoquilombos de São João del-Rei


Quem hoje vivencia, conhece ou assiste a "afro.moreni.mineiridade" são-joanense não imagina que foi na Comarca do Rio das Mortes - cuja sede era a Vila de São João del-Rei - que na primeira metade do século XVIII surgiram e se fortaleceram dois dos maiores quilombos mineiros: o Quilombo do Ambrósio e o Quilombo Grande.

Precursor do Quilombo Grande, o Quilombo do Ambrósio chegou a ter uma população de 1.000 negros. Era um sistema comunitário, onde os quilombolas se distribuíam em grupos organizados para desempenhar diferentes funções importantes para a sobrevivência da comunidade. Os excursionistas ou exploradores assaltavam fazendas e caravanas; os campeiros e criadores criavam gado, os caçadores buscavam animais e carne nas matas e os agricultores plantavam, cuidavam das roças e produziam açúcar e farinha. Mas também destilavam aguardente, de tão boa qualidade que inspirou um ditado popular ainda hoje muito conhecido em São João del-Rei: "cachaça do quilombo é um gole e um tombo". Os alimentos, estocados em paiois, eram distribuídos igualmente entre todos, segundo a necessidade de cada um.

O Quilombo do Ambrósio era tão ameaçador para o governo da capitania que em 1746 o governador Gomes Freire de Andrada destinou 2.750 oitavas de ouro para formar uma expedição, comandada pelo capitão Antonio João de Oliveira. Sua missão era destroçar o quilombo sem matança de escravos (mercadoria valiosa), mas como a tropa encontrou forte resistência, usou armas de fogo e até granada, destruindo e incendiando tudo.  Foi imensa a mortandade.

Os  sobreviventes criaram no mesmo local um novo quilombo que, funcionando igual ao do Ambrósio, cresceu tanto que ficou conhecido como Quilombo Grande. Em 1756, isso já preocupava o governo que, após três anos de cuidadosa preparação e um volume fabuloso de recursos (dez quilos de ouro), arrecadados junto às câmaras de várias vilas, confiou a expedição exterminadora  a Bartolomeu Bueno. Homem temido e sem escrúpulos, descendente direto do cruel Anhanguera.

Descobrindo esse plano, os quilombolas tentaram se livrar do ataque se dispersando por quilombos menores. Isto tornou mais difícil e demorado o trabalho da tropa. A perseguição durou todo o ano de 1759, mas como desejavam os governantes, desta vez a destruição foi total.


Neoquilombos de São João del-Rei

Duzentos e sessenta e seis anos após a destruição do Quilombo do Ambrósio, sua lembrança, insconscientemente, continua sendo cultuada em São João del-Rei. Talvez até não seja exagero dizer que ali, modernos quilombos culturais estão sempre a se formar.Tanto que no próximo dia 5 - deste mês em que se rememora a assinatura da Lei Áurea - acontece na cidade uma celebração em homenagem aos pretos velhos.


Promovido pela sociedade Egbe Ile Omidewa Ase Igbolayo e pela Associação Afrobrasileira Casa do Tesouro, trata-se de evento respeitável, dignamente divulgado na Agenda Cultural em pé de igualdade com outros acontecimentos absolutamente diversos, entre eles a Sinfonia dos Sinos, o Festival Palco Itália e o Programa de Música Barroca. Sinal de que a luta dos quilombolas não foi em vão.


Mais informações sobre a Celebração / Homenagem aos Pretos Velhos podem ser obtidas pelos telefones (32) 3373-1619 e (32) 8809-6167.

Leia também
http://www.diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/05/13-de-maio-sao-joao-del-rei-teve.html
.........................................................................
Fonte: VERGUEIRO, Laura. Opulência e miséria das Minas Gerais. Editora Brasiliense. São Paulo. 1982

Comentários

  1. Realmente, o verdadeiro Quilombo do Ambrósio, capital da confederação quilombola conhecida como Campo Grande, tem total ligação com São João Del Rei. Aliás, o documento da demarcação judicial da Sesmaria do Quilombo do Ambrósio se encontra no arquivo judicial (IPHAN) de São João. Para começar, confira-se no link abaixo:
    http://www.mgquilombo.com.br/site/Artigos/bens-quilombolas-materias-e-imateriais/primeiro-quilombo-do-ambrosio.html
    Um abraço do
    Tarcísio José Martins

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    Respostas
    1. Valeu, Tarcísio.

      Obrigado pela informação. É com contribuições como a sua que conseguiremos cada vez mais conhecer nosso passado e nossa história.

      Grande abraço.

      Emilio.

      Excluir

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