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Frei Cândido sonhou São João del-Rei à frente de seu tempo


Em São João del-Rei, 17 de julho de 1907 seria uma data comum não fosse, neste dia, que Frei Cândido Vroomans reuniu-se na casa franciscana com vários operários da Estrada de Ferro Oeste de Minas. Contudo, ainda assim nada haveria de extraordinário se aquele encontro tivesse finalidade religiosa, mas não foi isso o que aconteceu. O tema em pauta era social e humanista e tratou da preocupante realidade socioeconômica e cultural do trabalhador são-joanense. Já no final do século XIX a cidade tinha iniciado um processo de industrialização, abrigando algumas fábricas, inclusive a de tecidos que ainda hoje existe.

Preocupado com a situação em que, como "o operário é o homem que se dedica de todo ao  trabalho material, não lhe resta tempo, nem facilidades, nem meios, nem dinheiro para ter acesso a livros nem jornais que o ajudem a se instruir", o franciscano propôs a criação de uma entidade que trouxesse novos horizontes para os trabalhadores. Sua proposta era tão lógica e seu entusiasmo tão contagiante que 12 dias depois da primeira reunião já estava constituída a Associação Católica Operária - ACO de São João del-Rei.

A ACO tinha como lema Deus, Família e Pátria e uma de suas primeiras iniciativas foi a criação da Biblioteca da Classe Operária, com um acervo composto de livros, revistas e jornais. Em seu discurso na sessão solene de instalação da Associação Católica Operária, Frei Cândido explicitou seu pensamento:

"Cada um de nós sabe que a condição do trabalhador precisa urgentemente ser melhorada, quer a respeito da vida material, quer a respeito da vida moral. Conquanto não se possa dizer que o salário pago regularmente seja inferior ao justo, no entanto há várias causas porque muitos operários não ganham o bastante para sustentar suas famílias. Estas causas são: carestia de víveres; o estado precário do trabalhador e sua família no caso de doença, morte ou demissão; falta de instrução, de habilidade técnica, de conhecimentos profissionais, pelo que alguns estão habilitados  tão-somente para trabalhos de pouco valor".

Para Frei Cândido, a solução para estes problemas estava na criação de caixas diversas que socorressem o operário nos casos de dificuldades, entre elas desemprego, doença e invalidez. Caixas econômicas, para apoiá-los financeiramente; associações cooperativas onde eles pudessem adquirir produtos alimentícios e outros de primeira necessidade a preços mais em conta e escolas profissionalizantes que os capacitassem para novas oportunidades de emprego.

Na São João del-Rei de 105 anos atrás, Frei Cândido estava à frente de seu tempo: já conhecia - e desejava ver materializadas - responsabilidade social, inclusão cultural e qualificação profissional.

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, 2ª edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

Comentários

  1. Olá Antônio Emilio.
    Sou carioca, mas de família sanjoanense e tenho profundo amor à cidade e devoção à Virgem do Pilar. Li certa vez em um livro sobre a Catedral do Pilar, que frei Cândido Voomans foi vigário interino entre 1924 e 1925. E que em 1922 ele adquiriu a imagem de Nossa Senhora do Pilar que foi coroada pontificalmente e até hoje preside o trono da Matriz. Você, certamente, a conhece. Tenho verdadeiro amor por essa imagem, visto que é de uma beleza indescritível. Tanto que encomendei com um escultor mineiro uma réplica "miniatura" da imagem. Já pesquisei sobre ela e sobre seu escultor, Ciríaco da Costa Tavares. Apenas descobri que foi feita em 1922, no Rio de Janeiro. Será que você conseguiria mais informações sobre a efígie da Senhora do Pilar e oportunamente faria postagem em seu blog a respeito?
    Desde já agradeço.


    Fraterno abraço,

    Thiago Neves A. Luz Assumpção.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Thiago. Antes de mais nada, obrigado por sua visita ao blog e por seu comentário, pois de vez em quando precisamos saber que nosso trabalho cumpre alguma função.

      Sobre a imagem da Senhora do Pilar, além do que você menciona, sei apenas que a coroa Dela e do Menino são de ouro colhido na Serra do Lenheiro, que protege SJDR, doado por garimpeiros são-joanenses.

      Agradeço também sua sugestão de tema para um novo post. Logo que puder vou pesquisar e redigir.

      Fiquemos em contato! Grande abraço,

      Emilio

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