Pular para o conteúdo principal

Santa Clara, clareai minha São João del-Rei!


São João del-Rei é um lugar onde o viver feliz requer, dia e noite, céu aberto. Suas ruas estreitas e sinuosas, seus becos, jardins e largos são palcos públicos onde desde sempre tudo acontece, para todos. O entusiasmo, a vitalidade e a alegria dos são-joanenses precisam de céu limpo para se materializar como procissões, desfiles de carnaval, cortejos, concertos, serenatas, cinema,teatro, recitais e retretas - tudo ao ar livre.

Antigamente, nos tempos românticos que duraram até os anos setenta, era comum as pessoas ficarem nas janelas ou sentadas na calçada ou soleira da porta de suas casas, olhando o tempo e a vida passar. Algumas vezes por dia iam dar uma volta na rua, para comprar a verdura e a carne do almoço, encontrar com os conhecidos, ler o Jornal do Poste, saber quem morreu ou se internou e mandar lembrança para os amigos.

Tudo a céu aberto. Podiam até levar sombrinha ou guarda-chuva, tanto se prevenindo de algum aguaceiro quanto se protegendo do sol forte. Dor de cabeça? Melhor evitar!...

Nesse costume e dependência meteorológica, a devoção e o culto a duas santas eram fundamentais: Santa Bárbara, a brava guerreira, protetora contra os raios e os temporais, e a suave Santa Clara, amiga de São Francisco, a quem cabia deixar o céu sempre claro. Era missão das mulheres, à época sempre em casa, dialogar com as duas santas, na busca dos divinos favores.

O céu escureceu de repente, ventou forte, relampiou raio nervoso, estrondou trovão - antes mesmo que a chuva caísse, já logo, aflitas, elas chamavam: Santa Bárbara, São Jerônimo! E então se cobria espelhos, tirava o rádio da tomada, acendia uma vela para a Santa e queimava a palma seca, benta no Domingo de Ramos. A partir de então, não se chegava na porta ou janela nem se tocava em faca, tesoura, torneira ou seja lá o que fosse de metal, até que a tempestade abrandasse.

Já com a meiga e doce Santa Clara, a conversa era outra. Conversa feminina, misto de confidências, cumplicidade e ameaça. Acreditando as mulheres e as meninas que a Santa franciscana também gostava de festa, faziam para ela uma pequena saia rodada, que guardavam na gaveta, junto de outras roupas. Porém, se chovesse ou nem isso, se apenas o céu nublasse, sinalizando água a caminho, lavavam logo a sainha e a penduravam alto no varal, como sinal e advertência a Santa Clara. Se ela Clara quisesse mesmo ir à festa, que mandasse logo o sol para secar...

E não é que às vezes dava certo? Vinha o sol e a chuva parava. Mas por medida de segurança, a saia ficava no varal. Minha mãe, ainda hoje, faz isto!...

Texto: Antonio Emilio da Costa
Informante: Carmen Trindade da Costa, 88 anos

Foto do YouTube: Dorival Caymmi, na janela azul, em tudo igual à foto de meu pai,  Geraldo Sebastião da Costa, na janela de sua casa, a quem eu saúdo, há cinco anos do lado de lá, com esta música

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Debaixo de São João del-Rei, existe uma São João del-Rei subterrânea que ninguém conhece.

Debaixo de São João del-Rei existe uma outra São João del-Rei. Subterrânea, de pedra, cheia de ruas, travessas e becos, abertos por escravos no subsolo são-joanense no século XVIII, ao mesmo tempo em que construíam as igrejas de ouro e as pontes de pedra.

A esta cidade ainda ora oculta se chega por 20 betas de grande profundidade, cavadas na rocha terra adentro há certos 300 anos.  Elas se comunicam por meio de longas, estreitas e escuras galerias - veias  e umbigo do ventre mineral de onde se extraíu, durante dois séculos, o metal dourado que valia mais do que o sol.

Não se tem notícia de outra cidade de Minas que tenha igual patrimônio debaixo de seu visível patrimônio. Por isto, quando estas betas tiverem sido limpas e tratadas como um bem histórico, darão a São João del-Rei um atrativo turístico que será único, no Brasil e no mundo.

Atualmente, uma beta, nas imediações do centro histórico, já pode ser visitada e percorrida. Faltam outras 19, já mapeadas, dependendo da sensibiliza…

Padre José Maria Xavier, nascido em São João del-Rei, tinha na testa a estrela da música barroca oitocentista

 Certamente, há quase duzentos anos, ninguém ouviu quando um coro de anjos cantou sobre São João del-Rei. Anunciava que, no dia 23 de agosto de 1819, numa esquina da Rua Santo Antônio, nasceria uma criança mulata, trazendo nas linhas das mãos um destino brilhante: ser um dos grandes - senão o maior - músico colonial mineiro do século XIX. Pouco mais de um mês de nascido, no dia 27 de setembro, (consagrado a São Cosme e São Damião) em cerimônia na Matriz do Pilar, o infante foi batizado com o nome José Maria Xavier.

Ainda na infância, o menino mostrou gosto e vocação para música. Primeiro nos estudos de solfejo, com seu tio, Francisco de Paula Miranda, e, em seguida dominando o violino e o clarinete. Da infância para a adolescência, da música para o estudo das linguas, José Maria aprendeu Latim e Francês, complementando os estudos com História, Geografia e Filosofia. Tão consistente era seu conhecimento que necessitou de apenas um ano para cursar Teologia em Mariana. Assim, já ordenado…

Em São João del-Rei não se duvida: há 250 anos, Tiradentes bem andou pela Rua da Cachaça...

As ruas do centro histórico de São João del-Rei são tão antigas que muitas delas são citadas em documentos datados das primeiras décadas do século XVIII. Salvo poucas exceções, mantiveram seu traçado original, o que permite compreender como era o centro urbano são-joanense logo que o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes tornou-se Vila de São João del-Rei.
O Largo do Rosário, por exemplo, atual Praça Embaixador Gastão da Cunha, surgiu antes mesmo de 1719, pois naquele ano foi benta a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, nele situada e que originalmente lhe deu nome. Também neste ano já existia o Largo da Câmara, hoje, Praça Francisco Neves, conforme registro da compra de imóveis naquele local, para abrigar a sede da Câmara de São João del-Rei. A Rua Resende Costa, que liga o Largo do Carmo ao Largo da Cruz, antigamente chamava-se Rua São Miguel e, em 1727, tinha lojas legalizadas, funcionando com autorização fornecida pelo Senado da Câmara daquela Vila colonial.  Por …