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Tira-se o véu por trinta dinheiros em São João del-Rei. Findava agosto de 1755...



Mesmo nas solenidades mais tradicionais, tocantes e piedosas, como as da Festa de Passos e da Semana Santa, hoje é muito raro, nas igrejas de São João del-Rei, ver uma mulher usando véu para cobrir a cabeça, quando segue a caminho da mesa da comunhão. Até pouco mais do que a metade do século passado, este lenço retangular de renda fina e transparente ainda fazia parte do vestuário religioso feminino, como símbolo de respeito, devoção, obediência, pureza e elegância. A cor variava entre branco, azul claro, cinza e preto, sinalizando entre outras coisas a idade e o estado civil da jovem ou senhora que o véu usava.

Poucos sabem, mas houve um tempo em que as mulheres de São João del-Rei só podiam andar em determinados espaços sagrados são-joanenses com a cabeça bem coberta por um gorro padrão, possivelmente adquirido da própria igreja. Prova disso é que no dia 28 de agosto de 1755, o padre comissário Manoel da Costa Faro propôs -  em reunião da Ordem Terceira de São Francisco de Assis - que não fosse mais obrigado às mulheres usarem touca dentro daquela igreja.

Direto e reto, o padre não precisou de voltas e volutas coloniais, rodeios barrocos nem de discursos retorcidos e acrobáticos para argumentar sua ideia. Em poucas palavras, com absoluta sinceridade, disse o que ninguém esperava: 

- Mais do que incomodar às mulheres, as toucas desagradavam os maridos, pois "custavam caro e duravam pouco!"

A obrigação às mulheres do uso de touca na igreja de São Francisco fora imposta em 15 de novembro de 1751, quando o Frei Boaventura de São Salvador Cepeda também proibiu a elas "usos de cordas curiosas, que parecem muito mal, em que deve dar sempre mostras de penitência". 

Se argumentação e proposta foram aceitas, isto o historiador Sebastião Cintra não conta, mas “Quem fala a verdade não merece castigo”, ensinavam até bem pouco tempo os antigos são-joanenses...

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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei. Volume II, 2ª edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

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