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Fogueiras, pólvora, crenças, aromas e temperos espantaram a morte de São João del-Rei, em 1808


Em 1808, a Vila de São João del-Rei foi assolada por uma mortífera epidemia, que subtraiu muitas vidas, quase esgotou a capacidade dos cemitérios e desolou a população.

Tão grave era a situação que, no dia 2 de setembro do ano em que D. João VI e a família real portuguesa chegaram ao Brasil, a Câmara, preocupada,  convocou "professores de cirurgia e de medicina" para identificarem a causa da tragédia e receitarem a conduta a ser tomada para afastar aquele terrível mal. Não tardou e poucos dias depois a Câmara publicou um Edital, determinando que a população adotasse várias medidas, umas quase bíblicas e outras bastante circenses - todas muito semelhantes a crendices e à conduta da medicina popular.

Segundo os "professores de cirurgia e de medicina", deveriam os são-joanenses toda noite acender fogueiras e nelas queimar diversas ervas aromáticas: rosmaninho, manjericão do campo, arnica, pinheiros, coqueiros da serra, sassafrás, entre outras. Comumente se fala que, nos tempos coloniais, muitas vezes o fogo era usado domesticamente para desodorizar e purificar ambientes.

Além desta grande e "cientificoterapêutica" defumação, deveriam também os moradores de São João del-Rei queimar pólvora em casa, jogar vinagre sobre ferro vermelho em brasa, beber ponches e vinagradas quentes, adubar e lavar verduras e legumes com bastante vinagre. Esta última recomendação sugere e leva a crer que tal epidemia tinha causa em problemas sanitários.
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Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira - Efemérides de São João del-Rei, volume II segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais. Belo Horizonte, 1982.

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