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Festa das Mercês: há cem anos, a obrigação brigou com a devoção em São João del-Rei


Mais uma vez São João del-Rei está em festa. Apesar de ser uma segunda-feira útil, a cidade hoje foi acordada por uma alvorada festiva, tocada pela banda de música municipal, e já às 6 horas da manhã o sino da igreja que fica no ponto mais alto do centro histórico são-joanense tocava entusiasmado para anunciar que hoje é dia de Nossa Senhora das Mercês.

Daí então, muitas vezes de hora em hora, naquele alto se celebrou e concelebrou muitas missas, algumas comuns outras solenes, algumas com música barroca executada pela Orquestra Lira Sanjoanense (vídeo abaixo), outras com a participação do Coral dos Coroinhas de Dom Bosco e teve aquelas em que só se ouviu a voz do padre, as orações dos fieis e a voz em melodia do povo do lugar. A todas, Nossa Senhora das Mercês agradeceu, com as flores de sua grinalda, alvas e perfumadas de jasmin e laranjeira, e com os cravos brancoimaculados do farto e generoso buquê de graças que ela carrega na mão direita.

Logo depois que o sol caiu atrás da igrejinha e foi dormir do outro lado da Serra do Lenheiro, Nossa Senhora das Mercês desceu sua alta escadaria e em comprida procissão cruzou largos, cortou becos, atravessou pontes, percorreu ruas, subiu ladeiras, acompanhada por bandas de música e de tempos em tempos saudada pelo estourar de foguetes, pelo tocar de treze sinos de seis igrejas, por chuvas de pétalas que caíam das sacadas dos sobradões coloniais e pelo universo de estrelas dos fogos de artifício.

Tanta homenagem, ela merece: nunca negou conforto sobre-humano aos são-joanenses e, tal qual  sentinela bíblica, vigiou do alto de sua colina os filhos da terra que partiram para a Itália, a combater nos campos da Segunda Guerra Mundial. Finda o combate, foi à rua receber os soldados que voltaram, mas não se esqueceu dos que, tombados por canhões e metralhadoras, adormeceram para sempre nas distantes montanhas de solidão e neve. Por isto, também o Exército ostensivamente guarnece o andor da mãe - proteção e consolo.

Ainda hoje é assim a procissão de Nossa Senhora das Mercês. Fé, pompa, piedade, gratidão, glória, acontecimento, abundância, alegria, felicidade, harmonia. É sonho de Nossa Senhora e dos são-joanenses que seja assim "per secula seculorum"!

Mas não foi exatamente isso o que se viu na procissão das Mercês há pouco mais de um século. No ano de 1913, uma situação conflitante fez com que monsenhor Gustavo Coelho, pároco da Matriz do Pilar, conduzisse a procissão até um determinado ponto e, atipicamente, dali seguisse sob o pálio, com a resplandecente custódia dourada na mão e ladeado de acólitos, diretamente para a igreja das Mercês. Com isso, expressava sua autoridade e protesto aos mesários da Confraria das Mercês que já há alguns anos insistiam em  transgredir o itinerário estabelecido pela Matriz, voltando com a procissão para o Largo do Carmo.

Como era de se esperar, o fato teve ruidosa repercussão e monsenhor Gustavo, a convite da imprensa local, dois dias depois do ocorrido, se explicou publicamente nos jornais da época. Em sua defesa, ele declarou:

"Este vigário não pode fazer o que fez meu antecessor,
vigário Luiz José Dias Custódio que, em igual conflito,
munido de uma arma de fogo e da força da polícia
às suas ordens, fez valer o direito".

Leia também
http://diretodesaojoaodelrei.blogspot.com.br/2011/09/seria-hoje-em-sao-joao-del-rei-um.html

.........................................................................
Fonte: CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei, volume II, segunda edição revista e aumentada. Imprensa Oficial de Minas Gerais, Belo Horizonte. 1982.

Comentários

  1. Lindo texto sobre a Festa de Nossa Senhora das Mercês! Assisti a procissão apenas uma vez, há mais de vinte anos, na minha adolescência e pretendo voltar um dia nesta data! Parabéns! , Emilio!

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