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São João del-Rei. A cidade, o povo, a cultura e suas cruzes!

  Sem exagero algum, dificilmente existe, no mundo, uma cidade com tanta cruz monumental por metro quadrado quanto o centro histórico de São João del-Rei e seu entorno. E olha que não estamos considerando os bairros que não fazem parte da área tombada pelos órgãos locais ou federais de patrimônio. Cruzeiros da Paixão ou da Penitência, completos com todos os estigmas, grande crucifixo com imagem de Cristo em tamanho natural, cruzes simples fincadas em pedras ou calçadas, cruzes de pedra ou de ferro encimando pontes, grande cruz em relevos na parede lateral da igreja matriz, cruzes de cantaria sobre as igrejas, capelas-passos e portões dos cemitérios, estes símbolos sagrados somam, no mínimo 45. Uma densidade muito considerável para um perímetro que certamente não totaliza 10 quilômetros quadrados - da capela do Bonfim à do Senhor do Monte, do começo do Tejuco ao início da Rua Capitão Vilarim. De tantas que são, nem todas estas cruzes são percebidas pelos são-joanenses. De tão entran...

Biblioteca Municipal Baptista Caetano. Jardim literocultural de São João del-Rei

Uma biblioteca é muito mais do que um acervo de livros. Pelo menos aqui em São João del-Rei, na Biblioteca Municipal Baptista Caetano de Almeida, é assim. Um espaço vivo e dinâmico de informação, conhecimento, educação, saber e cultura.  A Biblioteca Municipal são-joanense é um viçoso jardim das palavras e das ideias. Nele brotam férteis sementes literárias, florescem poemas, verdejam contos, amadurecem romances, adormecem cartas, despertam crônicas, discursos, entrevistas, orvalham poesias... Ventam notícias de todos os tempos.  E mais: além de ser um centro de convivência espontânea daqueles que ali vão cotidianamente realizar empréstimos, fazer consultas e leituras, estudar e outras atividades desta natureza, a Biblioteca funciona também como um espaço cultural significativo, pois promove eventos literários, saraus temáticos literomusicais e outras programações para públicos de todas as idades. No dia 9 deste mês, por exemplo, o jardim da Biblioteca foi cenário para o Sarau...

Todo dia é dia de cultura "legítima", genuína e viva de São João del-Rei.

  Em São João del-Rei, vida e cultura são uma coisa só. Formam tão absoluta unidade que é impossível saber onde começa uma e termina outra, já que são juntas que elas fazem o eterno e infinito percurso. A cultura de São João del-Rei brota por si mesma, floresce e renasce como e conforme as estações. Não é uma cultura de eventos e espetáculos, concebida, promovida, apoiada e realizada estrategicamente, com finalidades específicas.  Não. Pelo contrário, a cultura de nossa terra é orgânica, espontânea, genuína e constitutiva do éthos são-joanense. É a cultura do dia a dia, substanciosa como arroz com feijão, saborosa como couve com torresmo, simples como taioba com angu, mingau de fubá, canjiquinha, maneco-com-jaleco, abóbora madura, abobrinha batida...Festiva comida de antigos domingos: arroz branco com tutu enfeitado, lombo de porco e maionese. Doce, como arroz-doce, doce de leite, de figo, de mamão, de sidra ralada ou em calda, de laranja-da-terra, goiabada-cascão com queijo ...

São João del-Rei não é só paisagem urbana. É paisagem humana!

São João del-Rei não é só uma paisagem urbana. Muito mais do que isso, São João del-Rei é uma paisagem humana. Os largos, os becos, as praças, as ruas tem vida, pulsam esperança, respiram gentileza, transpiram sonho, sonham saudades. São João del-Rei é são-joanense. Cidade e gente são uma coisa só, indissociáveis. Tanto que, mais do que em outros lugares, São João possui personagens emblemáticos, sem os quais não se consegue imaginar determinados territórios. O tempo passa, as vidas vão, mas os personagens permanecem na memória de quem os conheceu, impregnados na paisagem da qual faziam parte. Que bom que é assim, pois a memória eterniza. Alguém consegue imaginar o beco atrás da igreja do Rosário sem o Murilo, da bicicletaria? Difícil, não é? Pois é... Em fins do ano passado, bicicletaria fechada, ele andou sumido e fez muita falta. A saúde lhe requisitava cuidados, mas seu lugar estava guardado naquele cantinho antigo, amigo e poético. Seu lugar estava guardado nas procissões, que ele...

O dia em que Seu Sete, Rei da Lira, tirou a paz de São João del-Rei

  Desde sempre, São João del-Rei é uma cidade muito religiosa. Prova disto é o número de monumentos católicos que possui. Não apenas as igrejas, capelas e "Passinhos da Paixão de Cristo. No centro histórico e adjascências, uma infinidade de cruzeiros monumentais  e cruzes de pedra, madeira. ou ferro encimam pontes, povoam praças, habitam elevados ou simplesmente demarcam o território da fé.  Olhando rapidamente a paisagem colonial da cidade contamos 13, somente no perímetro compreendido entre o Alto do Bonfim, Senhor dos Montes e Gruta de Nossa Senhora do Rosário,  nas imediaçõoes do parque ferroviário. Mais do que meros monumentos, eles são elementos vivos de proteção e fé, pois muitos são-joanenses de todas as idades, ao passar por eles, a pé, de bicicleta ou de carro, interrompem seus" "pensamentos e palavras, atos e omissões", para fazer o sinal da cruz. Mas esta harmonia religiosa e espiritual foi quebrada na tarde de um certo domingo, 23 de agosto de 1971, qua...

Paulinho foi para o céu, espelhar São João del-Rei no firmamento!

  Paulinho foi para o céu / com suas cores e seu pincel / pela flecha de Oxóssi, a espelhar São João del-Rei no firmamento.  Foi para o céu amorosamente lançado naquela flecha de prata que, retirada por empréstimo do peito de São Sebastião, o levou de entre nós, de uma única vez, para o sempre e para o nunca mais. São Sebastião é santo milagroso. Crê-se que nos livra da peste, da fome e da guerra. Mas não conseguiu desviar Paulinho de sua trajetória final rumo às estrelas, ontem, 20 de janeiro, dia que todo ano Lhe é dedicado.  A notícia deixou, em todos que conheceram Paulinho, um sentimento indefinido: finitude, incompletude, pesar, zelo, vazio, ausência, falta... Não que o pintor das delicadezas estivesse sempre à vista, pelas ruas, no vai e vem cotidiano ou em datas festivas. Não. Para quem o conheceu, Paulinho estava exatamente no "não-estar", ele existia na lembrança da gentileza que zelava em todos nós; na mansidão com que nos saudava com sua voz baixa e seu olhar ...

São João del Rei no Caminho Literário do Ouvidor Cypriano

 Em lugar algum do mundo existe caminho que não leve a lugar nenhum. Pensando nisso, imagine a riqueza que é um caminho literário: rotas que ligam lugares, histórias, estórias, ideias,  palavras, versos,  poemas, poesias, paladares, memórias, músicas, romances, rimas, artes, fantasia, futuro, passado, sonho e imaginação... Assim será o Caminho Literário do Ouvidor Cypriano - primeiro roteiro turístico desta modalidade, unindo as cidades de São João del-Rei, São Gonçalo do Sapucaí, São Lourenço, Poços de Caldas e Três Pontas. Um caminho de história oficial e de histórias de vida. Um caminho de letras, de fatos e de lendas. Um caminho de saberes e de sabores. Um caminho de valores.  Um caminho de tempo, de flores e seus espinhos, de doces, de paladares, de brisa suave, orvalhos, águas límpidas, céu limpo. Um caminho de festas, de fé, de crenças, de dourado esplendor, de negro suor, de dor, de coragem, de resistência, de resiliência, de sonhos, utopias e realidades. Um ...

Quarteto Del Rey. Flautistas de Hamelin no Natal de São João del-Rei

  Já faz alguns dias - se não me engano desde o começo da Novena de Natal - que o Menino Jesus desceu dos braços de Nossa Senhora do Rosário e não pode mais ser visto no altar-mor da igreja são-joanense que é sede da mais antiga Irmandade dos Homens Negros de Minas Gerais. Sobre isto, dizem que nestes nove dias ele sai em busca de si mesmo, se preparando para nascer outra vez, no  primeiro instante seguinte à meia-noite do dia 24 de dezembro, durante a Missa do Galo. Mas neste ano de 2023, às oito da noite do dia 21 de dezembro, ele deu uma pausa nesta sua introspecção e subiu a ladeira que leva à Capela do Divino Espírito Santo, encantado e embalado por um som sublime que fluía daquele alto. Era o "Concerto na Capella Especial de Natal", do Quarteto Del Rey. Quem já teve a felicidade de assistir a pelo menos um concerto do Quarteto Del Rey sabe que a beleza e a magia que emanam daqueles instrumentos e vozes são capazes de feitos fabulosos e extraordinários. Quase encantament...

Antes do nada, São João del Rei já existia no útero das betas

  Algumas das mais importantes, originais, autênticas e atraentes riquezas históricas e turísticas de São João del-Rei não são valorizadas como tal e, salvo uma exceção, não estão disponíveis nem à mostra. Falo aqui das muitas betas existentes nas adjacências do centro histórico, remanescentes principalmente dos séculos XVIII e XIX. Antes do nada, São João del-Rei já existia no útero das betas, pronta para vir à luz no brilho do ouro. Não são muitas as cidades históricas brasileiras que possuem betas próximas às construções coloniais e que, por isso, podem enriquecer a experiência turística de quem as visita, conhecendo in loco os espaços e ambientes subterrâneos, criados há um, dois, três séculos, no afã de extrair ouro em abundância. Faz algum tempo (não muito, é verdade!) que uma beta, situada na Bica da Prata, teve reconhecido seu potencial histórico-turístico, e desde então vem atraindo os visitantes mais especificamente qualificados, que se interessam em conhecer mais do que...

São João del Rei na língua do povo: 50 ditados e expressões populares

 Na São João del-Rei de outrora, os ditados e expressões populares eram poderosos recursos de linguagem na comunicação informal. Nesta terra onde os sinos falam, a língua do povo falava muito estas curiosas, surrealistas e inusitadas expressões, muitas delas com cores e significados locais. Não são raros os são-joanenses, principalmente os mais vividos - para não dizer os mais antigos, ou, ainda, os mais velhos -, que ainda hoje, nas suas conversas cotidianas, usam estas enigmáticas expressões da sabedoria popular para: justificar ou reforçar opiniões pessoais ou de terceiros, transmitir conhecimento, alertar, aconselhar, advertir ou simplesmente colocar uma pitada de humor e tornar mais leve e lúdico um assunto, que muitas vezes é espinhoso, indesejável e indigesto. Com o tempo, muitos ditados populares foram se tornando menos propagados e, consequentemente, menos conhecidos e pouco transmitidos entre sucessivas gerações. Alguns chegaram muito perto do desaparecimento e hoje são m...