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Rondó de uma imaginária noite de São João del-Rei

                                 Na minha terra,  fim do dia,                                  o sol apaga a luz da lamparina.                                  Vai deitar do lado de lá do Lenheiro                                  para certeiro sono São João adormecer.                                  De mansinho, silencioso,                                  Cordeiro de Deus                             ...

São João del-Rei tem eira e tem beira. Tem beira-seveira, cimalha, cachorro e muitos outros beirais

Em São João del-Rei, quando ainda hoje se diz que algo ou alguém não tem eira nem beira, não se está fazendo um elogio. Pelo contrário! Sem eira nem beira quer dizer sem fundamento, descabido, sem posses nem referências, sem qualquer coisa em que se possa basear para atribuir algum valor ou reconhecimento. No período colonial, a expressão servia para designar alguém muito pobre, quase um sem-teto, já que eira, em Portugal, significava pátio ou quintal e beira o mesmo que beiral: acabamento na base do telhado, que se projetava à frente da fachada das casas residenciais e das edifícações públicas. Até as igrejas tinham, nas laterais, de telha, madeira ou em pedra, belos beirais. Passeando pelas ruas, largos e becos de São João del-Rei, quem observar a fachada das casas simples, dos casarões e dos sobrados vai se deparar com vários tipos de beirais. As famosas beiras-seveiras, que são rendilhados de duas ou três camadas de telhas, com a curvatura para baixo, fazendo um acabamento...

Bendito e louvado sejam as folias, pastorinhas, congadas e catupés de São João del-Rei

Ninguém duvida da riqueza cultural de São João del-Rei. Principalmente das tradições barrocas que, herdadas do século XVIII, permanecem vivas, nas mais diversas formas de expressão: ofícios religiosos, música barroca, ricas procissões, toques de sinos, tapetes de rua e muitas outras atividades que preenchem de som, perfume e cor os 365 dias do ano de quem vive às margens do Córrego do Lenheiro. Mas existem algumas manifestações culturais que, paralelas ou periféricas às grandes celebrações litúrgicas, ainda são pouco conhecidas - e por isto mesmo pouco reconhecidas - pelos próprios são-joanenses. Entre estas, estão as folias, pastorinhas e congadas, que se apresentam por ocasião do Natal, Santos Reis Magos e São Sebastião, em janeiro, Divino Espírito Santo, em maio / junho, e Nossa Senhora do Rosário, por todo o mês de outubro. Em algumas situações, as folias e congadas podem ser vistas no centro histórico da cidade, mas seu território forte são os bairros e alguns dist...

São João del-Rei, com glórias e louvor, agradece e pede bênçãos à sua padroeira

Desde cedo, vive hoje São João del-Rei uma atmosfera diferente. Mal o dia amanheceu e uma alegria solene está debruçada nas sacadas e nas janelas. De tempos em tempos, desde cedo, os sinos da Matriz do Pilar dobram e repicam festivos. Vestidas com um retoque a mais na roupa de ver Deus nos domingos, homens e mulheres atravessam as sete pontes de pedra e de ferro que se curvam sobre o Córrego do Lenheiro e todas levam rumo à Rua Direita, a uma escadaria e adro altivo, ao altar dourado de Nossa Senhora do Pilar, "excelsa padroeira de São João del-Rei".  Hoje, 12 de outubro, é dia de Nossa Senhora do Pilar, o que por si só todo ano, nestas terras, é motivo de louvor e festa. Mas em 2014 São João del-Rei tem um motivo a mais para celebrar: os sessenta anos da coroação pontífícia da imagem da Virgem que socorreu o apóstolo Tiago na cidade espanhola de Zaragoza. Aqui, reverenciando sua magestade, recebeu em 1954 uma grande coroa de ouro garimpado nas minas e betas da Serra do ...

São João del-Rei: ... houve este mundo ou eu inventei? ...

                                       "O sino da minha terra ainda bate                                          às primeiras sextas-feiras                                          por devoção ao Coração de Jesus.                                          Em que outro lugar do mundo                                          isto acontece?"                                     ...

São Miguel Arcanjo: um luminoso corpo celeste em São João del-Rei

Divindade que é, São Miguel Arcanjo não tem corpo. É espírito, um dos mais elevados das Potestades. Quando Deus criou a luz e, em seguida, o universo, com seus astros, planetas e cometas, São Miguel há muito já existia. Mas em São João del-Rei, desde séculos passados até hoje, muitos artistas se dedicam a dar ao Anjo Maior forma humana. E, com isto, existe na cidade um sem-número de representações de São Miguel, nas mais diversas técnicas, formas e materiais - madeira, cerâmica, ferro, pinturas, bordados, pedra sabão, cobre, papel, palha, aninhagem. Todas aladas, a maioria com a balança na mão esquerda, várias com espada flamejante, algumas com escudo e lança, tendo o demônio, assustado e temeroso, a seus pés. Na ilustração deste post, a representação do arcanjo São Miguel - obra em cerâmica, criada pelo saudoso artista plástico são-joanense Marcos Mazzoni, em 1992 (acervo do autor) .

São Miguel Arcanjo. Há 300 anos Príncipe da Milícia Celeste protege São João del-Rei

Faz mais de 300 anos que São Miguel Arcanjo chegou a São João del-Rei, ainda Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Aqui, ele viu o ouro brotar da terra e, por cobiça humana, facões e espadas crisparem seus metais, acendendo no ar raios e relâmpagos. Arcabuzes lançarem pólvora e estouro de trovão e até o Córrego do Lenheiro correr tinto de sangue na Guerra dos Emboabas. Há quem diga que, sinal de sua força e poder, ele escapou das chamas que incendiaram a primitiva capela de Nossa Senhora do Pilar, no Morro da Forca, saindo a salvo na companhia de seu vizinho, o guerreiro e mártir São Sebastião. Vencidas as chamas e abrandado o calor das pedras em brasa, em 1716 São Miguel criou seu exército humano na recém-criada Vila de São João del-Rei: a Irmandade de São Miguel e Almas. Desde então, toda segunda-feira é saudado com uma missa vespertina e no mês de setembro festejado com muita oração e especial louvor. Depois de um tríduo noturno, de leituras e cânticos bar...

Festa de Nossa Senhora das Mercês: a sagração da primavera em São João del-Rei*

Em São João del-Rei, todo ano é assim: a primavera só chega no dia 24 de setembro, no buquê de flores brancas que Nossa Senhora das Mercês carrega na mão direita. Seus pés pisam nuvens de flores que brotam dos altares e se espalham por toda a igreja, singela e graciosa, incrustada em uma rocha que dá início à subida da Serra do Lenheiro. Entrada para o caminho por onde no século XVIII subiam homens escravos, desciam negros livres, transitavam cativos mulatos, atrevidos criolos, astutos morenos e gentes de toda laia - clandestinos, foragidos, ladrões, proscritos, ciganos, bandidos, degredados - todos a faiscar ouro nas betas, a garimpar no ribeirão e a catá-lo entre raízes do capim agreste. Alguns, dizem, escondiam o ouro na carapinha... Todo ano, no anoitecer do dia 24 de setembro, Nossa Senhora das Mercês leva a primavera a passear pelas ruas, largos e becos coloniais de São João del-Rei. Entre as flores de seu buquê e de seu andor, carrega graças, mercês, milagres e favores, que ...

Lua nova de setembro: semicírculo de prata brilhante no céu de São João del-Rei

A lua nova de setembro, em São João del-Rei, que acontece nesta época do ano, mostra uma paisagem celeste singular. Ainda mais quando acontece de estar alinhada com alguns planetas, brilhantes e bem visíveis a olho nu logo depois do anoitecer. É como se fosse um semicírculo de prata, meia aliança, incompleto aro, pontuado por dois ou três diamantes. Tão belos são esta lua e este luzeiro que inspiraram aos são-joanenses a seguinte saudação religiosa popular:                            "Deus vos salve Lua Nova,                              Lua de São Clemente.                             Quando voltares de novo                              trazes dinheiro * pra gente..."  * O objeto...

Setembro, em São João del-Rei, é tempo do Bom Jesus, da Cruz e do Perdão

Dia da Exaltação à Santa Cruz, 14 de setembro é festejado em São João del-Rei com três celebrações distintas e simultâneas. A mais movimentada, sem dúvida, acontece no bairro de Matosinhos, como ponto máximo do Jubileu do Senhor Bom Jesus, padroeiro daquela freguesia. Realizada desde o século XVIII, a festa tem importância regional e para ela, até décadas passadas, vinham romarias dos povoados e cidades próximas. Mas o Bairro de Matosinhos cresceu, é muito movimentado, e do tempo antigo, além da fé, da devoção, do entusiasmo e da imagem do Crucificado, quase nada restou. A velha igreja singela e barroca deu lugar a um templo moderno e a procissão crepuscular, que avança noite a dentro, chegou até a ser motorizada, adequada ao ritmo intenso e próprio daquela comunidade. Mas pelo bem da memória dos velhos e dos novos tempos, o andor voltou a ser carregado no ombro pelos homens da Irmandade do Bom Jesus, ao som de marchas tocadas pela banda local. Lembranças antigas, nas barraquinha...