quinta-feira, 27 de abril de 2017

As linhas da mão e a fibra real do coração de São João del-Rei


Cidade colonial, barroca, as linhas de São João del-Rei, em sua maioria, são curvas. Curvas telhas, curvas torres, curvas beira-seveiras, curvas pontes, curvas conchas, rocalhas e volutas, curvas barroquices, como a curva lua crescente de prata que firma o pé de Nossa Senhora da Assunção, em sua subida ao céu no dia 15 de agosto. Diferentes destas, tem também a linha do trem, paralela e reta, que agora só leva à vizinha Tiradentes...

Mas além destas, tem muitas outras linhas, que desenham o passado no presente, mostrando às vezes o que, a olho nu, no corre-corre da rotina, muitas vezes não se vê: as tramas do pau-a-pique das velhas paredes, os detalhes das aldabras e dos gradis de ferro batido, a harmonia secular das pedras pé-de-moleque, as nervuras e formatos das pétalas e das folhas de nossas plantas devocionais e da medicina popular. Tudo isso tem fibra, e esta fibra é real.

Isso mesmo: Fibra Real é o nome de um projeto são-joanense muito interessante. Discreto como os mineiros, em especial os são-joanenses, ele traz à vista detalhes preciosos e hoje quase desconhecidos, da cultura de São João del-Rei, na capa de cadernos de anotação, agendas, cartões, moleskines, sacolas ecobags - tudo com estampa no formato das tramas, dos veios, das veias e das linhas que falamos acima. Tudo com papel artesanal de fibra de bananeira e no mais puro algodão. Eles bem que podiam fazer camisetas, almofadas, copos, canecas e outros trecos...

Cabaças, antigamente tão comuns no dia a dia das esfumaçadas e cobiçadas cozinhas de São João del-Rei, hoje são matéria prima para as produções do grupo de artesãs e artesãos, e viram luminárias, abajures, pendentes, móbiles, objetos de decoração e até bonecas, morenas e sedutoras.

E por falar em bonecas, a turma do projeto Fibra Real é muito hábil em criar com elas bonecos tríplices, de pano, lã, cordão, malha e contas, que contam as quase esquecidas lendas de São João del-Rei: a mulher que seduziu um padre e virou mula-sem-cabeça, o defunto que o diabo carregou para o nunca mais, a velha bisbilhoteira que se encontrou com a morte e não conseguiu escapar de sua foice, e tudo o mais que é fantástico e, décadas atrás, tirava o sono das crianças e deixava arisco muito adulto. Se acredita, então ganha vida, existe!

Ah, como encontrar esse povo de Fibra Real? No Largo do Rosário, entre a Catedral do Pilar e o Museu de Arte Sacra, onde eles mostram o que fazem, oferecendo para que todos levem para casa, na forma de seus produtos, um pedaço da cultura de São João del-Rei.

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Texto: Antonio Emilio da Costa
Ilustração: capa do folder do projeto



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