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Na pandemia, São João del-Rei dorme, pra sonhar com o novo dia!

  Largo de São Francisco, visto de uma janela da Rua das Flores.

Covid 19 trouxe novos chafarizes para São João del-Rei

Na paisagem urbana do centro histórico de São João del-Rei, dois monumentais chafarizes se destacam: o da Legalidade, em cantaria, há muitas décadas transferido para um agradável largo, em frente ao antigo Grupo Escolar Maria Teresa, e o chafariz da Municipalidade, de ferro fundido, importado da Europa e instalado no jardim do Largo do Carmo, integrando o magnífico conjunto formado pela igreja e pelo cemitério daquela Ordem Terceira. A cidade ainda possui, também, o chafariz da Deusa Ceres, certamente da mesma idade e origem do chafariz da Municipalidade. Entretanto, conta a história que este monumento, tal qual uma pessoa errante, vagou por diversos pontos da cidade e, há algumas décadas, está anacrônico e atordoado na Praça de Matosinhos, em frente à igreja do Bom Jesus, onde em sonho acena para os turistas que nos fins de semana e feriados passeiam na Maria Fumaça. Sabe-se que outrora existiu um chafariz de cantaria no Largo de São Francisco, conforme fotografia possivelment...

Rua das Flores. Caminho de história, do século 18 à eternidade, em São João del-Rei

Como uma veia importante que escorre vida para o coração do centro histórico de São João del-Rei, a Rua das Flores é um caminho de história, que começa no século 18, atravessa o tempo e vai às portas da Eternidade. Subindo da Muxinga ou descendo dos lados do Tejuco, ela é irmã paralela da Rua Santo Antônio e, por estar mais alta um degrau acima, na topografia que um dia se chamou Morro do Pagão, é um mirante esplendoroso para se admirar o Largo e a igreja de São Francisco, apontados pela Rua da Prata, e se extasiar com a majestade da igreja do Carmo - soberana coroa de pedra e beleza sobre os poéticos telhados do Largo da Cruz. Pontuada por monumentos singulares - como o sobrado da esquina, onde o Presépio da Muxinga fica adormecido de sol a sol e só acorda poucos dias entre o Natal e o Dia de Reis; a imponente casa oitocentista, guarnecida pela guirlanda de flores debruçadas sobre o gradil que delimita o colorido jardim; os portões dos cemitérios da Matriz e do Rosário, onde dorm...

"Deus te ajude mas a mim não desampare", em São João del-Rei!

A sabedoria mineira ensina que, " Em Minas, entender logo já é muito tarde. O bom mesmo é antecipar ". Sendo assim, mesmo que não pareça, imagina como é matreiro e arisco o são-joanense, e não é sem motivos. Afinal, a Vila de São João del-Rei foi uma das primeiras e mais importantes matrizes de nosso Estado, instituída  no tempo em que Minas e São Paulo formavam uma única Capitania. Daí é que, pelo bem ou pelo mal - e com muita propriedade -, o são-joanense não dá ponto sem nó.  Vê fumaça onde não há fogo, não amarra cachorro com linguiça, não bota a mão na cumbuca nem procura chifre em cabeça de cavalo. Vai que ele ache!... E isso vale para tudo. Para as coisas desse mundo e também do outro. Nesse tempo de pandemia, preocupados e precavidos, muitos são-joanenses colocaram uma cruz na porta principal de suas casas, e outros, além desse apelo ao Deus-Filho e por garantia, ainda colocaram ao lado, em uma folha de papel A-4, a seguinte mensagem para o Deus-Pai: ...

Marmelada com canela. O doce caminho para a morte na velha São João del-Rei

Pela formação colonial-barroca da cultura são-joanense, mesmo sob a ilusória égide da temperança, da serenidade e da discrição mineira, aqui em São João del-Rei tudo é exacerbado, extremado, monumentalizado. Independentemente se são o idílio ou o inferno, o sagrado ou profano, o luto ou o gozo, a alegria ou o sofrimento. Quando não as duas coisas ao mesmo tempo. Porta de entrada deste mundo para o outro, a Morte é um eixo importante e presente em quase todas as manifestações culturais são-joanenses, sejam elas expressões coletivas, celebradas no mundo da rua, ou vivências individuais, que acontecem entre as paredes cobertas pelo telhado de um lar. No primeiro caso, como em geral são ocasiões festivas, programadas para a coletividade rememorar, viver ou reviver situações simbólicas, consagradas e preservadas como tradição, o passar do tempo não foi suficiente para modificá-las tanto. Isto porque,  mesmo veladamente ou inconscientemente, elas têm uma finalidade - e até mesmo u...

Isolamento social & resgate cultural em São João del-Rei no Dia de Santa Cruz

Isolamento social é sinônimo de resgate e produção cultural? Por que não? Em São João del-Rei, com toda certeza, pode ser sim! Herdeiro e agente de um incalculável e inesgotável tesouro cultural, a quarentena a que vive 'a terra onde os sinos falam' só é tediosa e improdutiva para o são-joanenses que isso quiser. As horas vagas - e são muitas! - podem ser o tempo que se precisa para relembrar, rememorar, resgatar, reaprender e reavivar o saber, o fazer e o viver que são a essência, a magia, o encantamento e a alma do povo de cá. Daqui a alguns dias será 03 de maio - Dia de Santa Cruz. Uma data muito significativa no calendário religioso-cultural de nossa cidade, quando era costume comum enfeitar de flores ou papel de seda colorido repicado uma pequena cruz de madeira,e  pendurá-la  na porta principal ou na fachada, como elemento de fé e de identificação entre os iguais. Mas a movimentada rotina dos novos tempos foi aos poucos diluindo este hábito, que embelezava tanto a ...

Depois do Coronavirus, quem construirá a nova São João del-Rei?

Uma longa pausa, que já durou um mês e, certamente, ainda vai durar vários, ninguém sabe quantos. É assim que vai vivendo São João del-Rei onde, nestes tempos temerários do novo coronavírus 19, aqui como acolá reinam o isolamento social e, em consequência, o adormecimento cultural. A cidade que é viva e festiva o ano inteiro, especialmente no bimestre março-abril - quando acontecem algumas das festas mais importantes e representativas de seu calendário turístico-religioso-cultural, que são a Quaresma / Festa de Passos e a Semana Santa - em 2020 viu esse tempo passar em branco, em silêncio e inerte. Sem as cores, as flores, a música, os odores, os movimentos e encenações dos ofícios e procissões. Consciente, cautelosa, cuidadosa e amorosa, a população são-joanense atendeu volitivamente o solidário chamado e ficou em casa. Guardou para depois a magia e o encantamento que há 300 anos viveria naqueles dias. Apesar do desejo de que tanto este medo quanto este perigo passem logo, aind...

Quem arrancou estas páginas do calendário de São João del-Rei?

Em 2020, arrancaram páginas importantes no calendário de São João del-Rei. Este é o sentimento que ficou no peito dos são-joanenses, na segunda-feira que sucedeu o Domingo de Páscoa, na "terra onde os sinos falam ". - O quê aconteceu? - Por causa do isolamento social preventivo ao novo Coronavírus 19, as igrejas ficaram fechadas em grande parte da Quaresma e por toda a Semana Santa. Assim não tiveram procissões nas ruas nem Ofícios de Trevas na Matriz do Pilar, assim como as celebrações internas foram realizadas a portas fechadas, com reduzidíssimo número de pessoas essenciais às funções litúrgicas. Tudo transmitido primorosamente pelo rádio e pelas mídias sociais, porém com orfandade da expectativa, do envolvimento, da memória, do vivenciar e do sentimento. - Mas e a história do calendário? Por que isso aconteceu? - Porque que o povo desta São João, surgida nos primeiros anos do século XVIII, ainda conserva vivas muitas referências culturais trazidas de quando o ou...

Semana Santa de São João del-Rei vence o novo coronavírus 19

O tempo muda, fica diferente em São João del-Rei quando chega a Semana Santa. A cidade se recorta e descola do universo, emerge para um espaço próprio de tempo e lugar. Nesses dias o são-joanense transita entre quatro eixos - o pessoal, enquanto indivíduo; o religioso, enquanto ser; o coletivo, enquanto elemento integrado a uma comunidade, e o de memória, esta, afetiva, sentimental e até mesmo ontológica. Finda a Quaresma, as primeiras manifestações da Semana Santa propriamente dita são muito profundas e enigmáticas em São João del-Rei. A cerimônia da benção dos ramos, na igreja do Rosário, o toque angustioso e demorado dos sinos daquela igreja, a procissão que sai até a Matriz do Pilar, onde acontece o Ofício de Ramos com a leitura teatralizada do Evangelho - tudo traz em si uma expectativa do obscurecer da glória, da alegria e da vida, vive-se ali a antecipação emocional do sofrimento e do apagar-se. O cordeiro sabe de seu destino e, entre resoluto e resignado, caminha para o sa...

"Toque da Penitência"*. Sinos de São João del-Rei - da gripe espanhola ao coronavírus 19

Mundialmente muito falada nos últimos dias, a palavra "corona", há quase 300 anos é bastante conhecida dos são-joanenses. Mais do que simplesmente conhecida, ela é repetida contritamente 7 vezes na noite de Sexta-feira da Paixão, em um dos momentos mais representativos da religiosidade e da cultura do povo de São João del-Rei: a Procissão do Senhor Morto, também conhecida como Procissão do Enterro do Senhor. Aliás, a palavra "corona" é cantada duas vezes na última parte do lamento da Verônica, que naquela noite emudece e tira o ar dos são-joanenses na escadaria da igreja das Merces, precedendo a Marcha da Paixão, que a Banda Theodoro de Faria toca, dando emoção e ritmo ao início da monumental Procissão do Enterro. E, depois, nas vezes que a Verônica mostra o sudário e canta no Largo do Rosário, em frente à casa onde nasceu Bárbara Heliodora (cruzamento da Rua da Prata com o Largo São Francisco), em frente à antiga Delegacia de Polícia, na encruzilhada dos Quat...