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Isolamento social & resgate cultural em São João del-Rei no Dia de Santa Cruz

Isolamento social é sinônimo de resgate e produção cultural? Por que não? Em São João del-Rei, com toda certeza, pode ser sim! Herdeiro e agente de um incalculável e inesgotável tesouro cultural, a quarentena a que vive 'a terra onde os sinos falam' só é tediosa e improdutiva para o são-joanenses que isso quiser. As horas vagas - e são muitas! - podem ser o tempo que se precisa para relembrar, rememorar, resgatar, reaprender e reavivar o saber, o fazer e o viver que são a essência, a magia, o encantamento e a alma do povo de cá. Daqui a alguns dias será 03 de maio - Dia de Santa Cruz. Uma data muito significativa no calendário religioso-cultural de nossa cidade, quando era costume comum enfeitar de flores ou papel de seda colorido repicado uma pequena cruz de madeira,e  pendurá-la  na porta principal ou na fachada, como elemento de fé e de identificação entre os iguais. Mas a movimentada rotina dos novos tempos foi aos poucos diluindo este hábito, que embelezava tanto a ...

Depois do Coronavirus, quem construirá a nova São João del-Rei?

Uma longa pausa, que já durou um mês e, certamente, ainda vai durar vários, ninguém sabe quantos. É assim que vai vivendo São João del-Rei onde, nestes tempos temerários do novo coronavírus 19, aqui como acolá reinam o isolamento social e, em consequência, o adormecimento cultural. A cidade que é viva e festiva o ano inteiro, especialmente no bimestre março-abril - quando acontecem algumas das festas mais importantes e representativas de seu calendário turístico-religioso-cultural, que são a Quaresma / Festa de Passos e a Semana Santa - em 2020 viu esse tempo passar em branco, em silêncio e inerte. Sem as cores, as flores, a música, os odores, os movimentos e encenações dos ofícios e procissões. Consciente, cautelosa, cuidadosa e amorosa, a população são-joanense atendeu volitivamente o solidário chamado e ficou em casa. Guardou para depois a magia e o encantamento que há 300 anos viveria naqueles dias. Apesar do desejo de que tanto este medo quanto este perigo passem logo, aind...

Quem arrancou estas páginas do calendário de São João del-Rei?

Em 2020, arrancaram páginas importantes no calendário de São João del-Rei. Este é o sentimento que ficou no peito dos são-joanenses, na segunda-feira que sucedeu o Domingo de Páscoa, na "terra onde os sinos falam ". - O quê aconteceu? - Por causa do isolamento social preventivo ao novo Coronavírus 19, as igrejas ficaram fechadas em grande parte da Quaresma e por toda a Semana Santa. Assim não tiveram procissões nas ruas nem Ofícios de Trevas na Matriz do Pilar, assim como as celebrações internas foram realizadas a portas fechadas, com reduzidíssimo número de pessoas essenciais às funções litúrgicas. Tudo transmitido primorosamente pelo rádio e pelas mídias sociais, porém com orfandade da expectativa, do envolvimento, da memória, do vivenciar e do sentimento. - Mas e a história do calendário? Por que isso aconteceu? - Porque que o povo desta São João, surgida nos primeiros anos do século XVIII, ainda conserva vivas muitas referências culturais trazidas de quando o ou...

Semana Santa de São João del-Rei vence o novo coronavírus 19

O tempo muda, fica diferente em São João del-Rei quando chega a Semana Santa. A cidade se recorta e descola do universo, emerge para um espaço próprio de tempo e lugar. Nesses dias o são-joanense transita entre quatro eixos - o pessoal, enquanto indivíduo; o religioso, enquanto ser; o coletivo, enquanto elemento integrado a uma comunidade, e o de memória, esta, afetiva, sentimental e até mesmo ontológica. Finda a Quaresma, as primeiras manifestações da Semana Santa propriamente dita são muito profundas e enigmáticas em São João del-Rei. A cerimônia da benção dos ramos, na igreja do Rosário, o toque angustioso e demorado dos sinos daquela igreja, a procissão que sai até a Matriz do Pilar, onde acontece o Ofício de Ramos com a leitura teatralizada do Evangelho - tudo traz em si uma expectativa do obscurecer da glória, da alegria e da vida, vive-se ali a antecipação emocional do sofrimento e do apagar-se. O cordeiro sabe de seu destino e, entre resoluto e resignado, caminha para o sa...

"Toque da Penitência"*. Sinos de São João del-Rei - da gripe espanhola ao coronavírus 19

Mundialmente muito falada nos últimos dias, a palavra "corona", há quase 300 anos é bastante conhecida dos são-joanenses. Mais do que simplesmente conhecida, ela é repetida contritamente 7 vezes na noite de Sexta-feira da Paixão, em um dos momentos mais representativos da religiosidade e da cultura do povo de São João del-Rei: a Procissão do Senhor Morto, também conhecida como Procissão do Enterro do Senhor. Aliás, a palavra "corona" é cantada duas vezes na última parte do lamento da Verônica, que naquela noite emudece e tira o ar dos são-joanenses na escadaria da igreja das Merces, precedendo a Marcha da Paixão, que a Banda Theodoro de Faria toca, dando emoção e ritmo ao início da monumental Procissão do Enterro. E, depois, nas vezes que a Verônica mostra o sudário e canta no Largo do Rosário, em frente à casa onde nasceu Bárbara Heliodora (cruzamento da Rua da Prata com o Largo São Francisco), em frente à antiga Delegacia de Polícia, na encruzilhada dos Quat...

Via Sacra e Encomendação de Almas. Magias da Quaresma em São João del-Rei

Quaresma é uma era diferente em São João del-Rei. Talvez seja a era anual de São João del-Rei. Sendo assim, as  sete sextas-feiras da Quaresma, então... Até quem não é nativo, ou mesmo os são-joanenses alheios às tradições e à identidade local - enfim, qualquer pessoa que nestes dias transitar pelo centro histórico ou pelos bairros mais antigos da cidade - vai notar algo diferente no ar. Atmosfera mais densa, clima espesso e misterioso, ecos da reza de algum terço, esgarçado e trazido entrecortado e de longe pelo vento, dobre longo, solitário e choroso de um sino, expectativa contraditória  quanto à Paixão e à compaixão, à dor e ao gozo, à festa que é  sofrimento. O silêncio conversa nas esquinas, nas pontes, nas encruzilhadas, nos largos e seus cruzeiros. Espreita das janelas de guilhotinas, escorre nas pedras do chão, escorrega, sorrateiro, pelas bicas dos telhados. Conversa com as pessoas que passam, com suas memórias, lembranças e pensamentos. À noite, tem...

No Carnaval de São João del-Rei tem a Bandalheira do bem!

Se São João del-Rei, por sua infinita riqueza sonora e musical, deseja ser consagrada também como "terra da música", nada mais certo do que seu carnaval - efetivamente - começar com uma banda: a Bandalheira! Na verdade, a Bandalheira é bem mais do que uma banda, e do que um bloco carnavalesco. Com suas tantas décadas de existência, ela é mesmo uma corporação. Um sentimento que vive adormecido durante um ano inteiro para, na tarde do sábado que antecede o sábado de carnaval, corporificar-se por algumas horas, exalando alegria, samba, marchinhas e amizade, conforme declaravam seus estandartes este ano. Na Bandalheira, democraticamente, há igual espaço para todos, independentemente da idade, sexo, raça, religião, condição social ou econômica e qualquer outro tipo de diferença. Desse modo, como toda e qualquer ação humana, seu cortejo é um ato político em favor da alegria, da fraternidade, do respeito humano e da igualdade. Tanto que as marchinhas e sambas que a banda toc...

Vamos redesenhar, pintar e bordar a história de São João del-Rei?

Sobretudo a partir da vinda dos intelectuais modernistas à nossa cidade, no começo do século 20, São João del-Rei passou a ser paisagem muito retratada por um sem-número de artistas plásticos, principalmente desenhistas e pintores, que vinham a esta terra em busca da originalidade, da graça, das cores, da vivacidade e da simplicidade de nossa paisagem. De Quirino Campofiorito a Tom Maia, de Alberto da Veiga Guignard e José Pancetti a Emeric Marcier e Carlos Bracher - cada qual com sua percepção humana, geográfica e cultural, sua técnica e sua sensibilidade - a "terra da música, onde os sinos falam" foi e continua sendo grande musa inspiradora. Isto sem citar os consagrados fotógrafos e cinegrafistas, que para cá voltaram suas lentes e flashes e, também, lembrar dos viajantes europeus que por aqui passaram no século 19 e produziram desenhos muito importantes para conhecermos como era nossa região naquela época, há duzentos anos atrás. Entretanto, essa produção é majorita...

Em São João del-Rei, camiseta da Festa de Passos é uma nova tradição!

Ainda estamos a um mês do Carnaval, mas as quaresmeiras roxas já floriram, dando um sinal muito ansiado pelos são-joanenses: daqui a alguns dias, já será tempo quaresmal. Dias contritos, noites arrastadas, sinos pesarosos, tempo complacente, vento reticente, pausas no olhar distante, pro alto, pra dentro, pro sempre, pro nada, pra aqui, pra lugar nenhum... Pausas simplesmente. Em São João del-Rei, Quaresma é Festa de Passos. Vias Sacras, lembranças antigas, manjericão, recitação do terço, saudade por perto, desejo de penitência, arnica, aperto no peito, hortência, sopro no coração, orquídea, suspiro calado, rosmaninho, saudade seca de seiva e alento. Cera da vela, cruz com o lençol branco, crucificado erguido andando veloz pelas ruas, o povo em alas, ao lado, àtrás, bandeira roxa SPQR, passinhos enfeitados, encomendação de almas. Senhor Deus, misericórdia! Miserere mei Popule Meus. Ó vos omnes! Aos são-joanenses não basta viver. É preciso vestir. Inclusive a Quaresma. Revestir...

Orações fortes amarram o amor nas esquinas e becos de São João del-Rei

Dizem que o mineiro é desconfiado de tudo e, tal qual São Tomé, só acredita naquilo que vê. Mas não é bem assim. Pelo menos em São João del-Rei, não é! A verdade é que os mineiros - e os são-joanenses em especial - guardam tudo a sete chaves, não alardeiam o que suspeitam nem proclamam o que imaginam e muito menos o que desconfiam. O que desejam, então... O são-joanense acredita no que não vê e, mais do que isto, dialoga e se relaciona intimamente com o que a vista não alcança. Mas isto ele não confessa. Se por algum motivo - crença, promessa ou obrigação - tem que professar essa sua crença, o faz da forma mais anônima. Torna pública a sua fé com tanto segredo e tanto mistério que é impossível identificá-lo, mesmo que a revelação seja no local mais público, na mais movimentada esquina da cidade. Você quer local mais visível, dia e noite, do que o sobradão do lado direito de quem se vira para a Matriz do Pilar, exatamente aquele onde começa o bequinho de degraus largos que disfar...