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Orvalho e neblina matutina em São João del-Rei

                                          Em São João del-Rei                                           nas manhãs frias                                           de orvalho reticente                                           o sol inconfidente                                           sonha outros dias                                           outras Minas... ...

São João del-Rei é mais bela e mais misteriosa do que se imagina...

Uma joia preciosa da arte barroca em São João del-Rei está desde sempre - e permanentemente - à vista de todos, mas é conhecida por poucos. Inegavelmente tem muito do mestre Aleijadinho e integra a portada de uma das mais importantes obras que ele projetou: a nossa igreja de São Francisco de Assis. De tão bonito e delicado, o templo parece uma sinfonia celeste, composta em nuvens de pedra. Muita gente, tanto são-joanenses quanto turistas, já entrou na igreja mas não percebeu tão surpreendente joia, o que é tão fácil. Basta olhar para o alto quando se cruza o portal da igreja franciscana de nossa terra. Do que se trata? De um sublime medalhão com a face de Cristo brotando entre ramos de cravos. Seus olhos, de imaginárias pupilas, e a expressão hipnótica da boca dão a ela a impressão do Cristo Transfigurado no encontro com os profetas Moisés e Elias, na presença dos apóstolos João, Tiago e Pedro, em dias próximos à sua morte. A iluminação do Messias, realçada neste episódio que fi...

São João del-Rei, templo do tempo, precisa pulsar no ritmo do coração

As cidades históricas são templos do tempo, são arcas da memória, são vertentes dos sonhos. Lugares sagrados, são testemunhas vivas de feitos e fatos, são o território da história, ou melhor são territórios onde a história habita. Quem vive em uma cidade histórica precisa ter consciência do privilégio que é viver em terras que por si só são espaços de memória, lembranças e recordações, constituídos por suas ruas e avenidas, seus becos, seus largos e suas praças. Neles, igrejas, casarões e monumentos estão o tempo todo a silenciosamente contar o que viram ao longo de tantos séculos. Quem administra uma cidade histórica precisa ter compromissos verdadeiros com a cultura e com a memória local, pois a saúde destes patrimônios depende muito de atitudes e decisões que só do poder público podem emanar. Principalmente os homens públicos têm na história a vitrine e o porta-retrato de sua competência, de seu comprometimento, de seus valores, da sua trajetória, do seu fazer. Quem visita ...

Arte Sagrada. Os santos desceram dos altares e se juntaram ao povo em São João del-Rei.

Em 2015, as cortinas cor de sangue que durante a Quaresma cobriram os altares da Matriz do Pilar de São João del-Rei, mais do que ocultar, revelaram. Isto mesmo. Revelaram a beleza e a riqueza de detalhes que quem visita o mais dourado templo barroco são-joanense não consegue ver de perto. É que desta Quinta Feira Santa até o Domingo da Ressurreição, todas as imagens de seis altares e dos oito nichos da matriz estão expostas ao público no Museu de Arte Sacra, na mostra temporária Arte Sagrada - Imagens da Catedral.  Da padroeira, Nossa Senhora do Pilar, até a beata Nhá Chica. De São Miguel e São Sebastião a Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora da Assunção. E também os recém-restaurados Santana Mestra e São Joaquim, além de São José, Santa Bárbara, São João Menino, os Anjos Custódios e tantas outras imagens barrocas, setecentistas e oitocentistas. Em uma das salas do Museu, o visitante pode admirar um requintado tapete processional, confeccionado...

Procissão das Lágrimas. Tradição ímpar da Quaresma em São João del-Rei

Às nove da noite da sexta quinta-feira da Quaresma, o sino dos Passos fez dobres incomuns. Incomuns não fosse para informar à população são-joanense que naquele momento estava se encerrando a celebração do último dia do Setenário das Dores. E também para lembrar que o dia seguinte (sexta sexta-feira da Quaresma), em São João del-Rei é Sexta Feira das Lágrimas, ou da Soledade. E que haverá procissão, de Nossa Senhora das Dores, realizada pela Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos. Mal o sino tocou o último dobre e na Matriz do Pilar - fechadas todas as portas - logo as irmãs e os irmãos dos Passos iniciaram providências e preparativos para a nobre e austera procissão da noite seguinte. A imagem, descida do Calvário montado no altar-mor pelos homens que a levam nos braços para a nave central, é arrumada no andor - as mulheres conferindo com desmedido zelo o vestido roxo, a capa cor da noite, as joias, espadas e o diadema de estrelas. E aos poucos,  mas c...

Territórios de memória, lembrança, fé, sofrimento e divindade no coração de São João del-Rei

Andando a pé pelo centro histórico de São João del-Rei, e adjacências,  é impossível não percebê-los. Eles estão sempre ao alto, no centro, em posição de destaque. São os antigos Cruzeiros da Penitência, plantados na paisagem colonial são-joanense nos séculos XVIII e XIX. Os mais antigos, imponentes, iconograficamente ricos e completos, têm todos os estigmas da Paixão: coroa de espinhos, cálice de amargura, cravos, chicote, túnica, corda, lança, lençol, dados, escada e até o galo que condenou São Pedro pela negação do Salvador. Estão no lado direito da igreja das Mercês, no Morro da Forca, no Largo da igreja do Senhor dos Montes, na pedreira do Pau D'Angá e no alto da Rua do Ouro, territórios da Serra do Lenheiro. Cinco. Um para cada chaga de Cristo. O do Largo da Cruz, na fachada de uma casa residencial, é singular em todo o país. Fica no ponto exato entre o público e o privado, entre a casa e a rua. Na lateral direita da Matriz do Pilar tem uma cruz em relevo, encimand...

Anjos del-Rei - O espelho do céu nas procissões de São João del-Rei

Ser anjinho nas procissões de São João del-Rei é um momento especial e mágico na vida das crianças. A túnica, a coroa de flores, as asas, caminharem legião entre as alas das irmandades, à frente dos andores incensados, ao som da banda, da orquestra e dos sinos. Tudo isto cria uma emoção que é lembrada para sempre como um momento feliz, por toda a vida. Além disto, vestir-se de anjinho faz parte de um processo evangelizador, que aproxima a criança da Igreja e da religiosidade, por meio da beleza, da pureza e da inocência, que são estrelas brilhantes na alma infantil. Sair de anjinho nas procissões é um presente valioso que pais, padrinhos e avós podem oferecer às crianças, como momentos de sublime recordação; a  São João del-Rei, com o embelezamento das tradicionais procissões, e a Deus, pela louvação de Seu Reino, que é feito de amor e paz. ................................................... O projeto Anjos del-Rei prevê a formação de um banco de imagens ...

Em São João del-Rei, roxo não é uma cor. É um sentimento!

Nesta época do ano, cada dia mais São João del-Rei se veste de roxo. Nos quintais, as orquídeas na sombra apontam flor. Nos jardins e nos campos, quaresmeiras com singeleza explodem a cor. Nas igrejas, altares cobertos de roxo atenuam a dor. Nesta época do ano, roxo em São João del-Rei não é uma cor; é um sentimento presente em tudo. E isto faz com que o coração dos são-joaneses, a cada dia que se aproxima da Sexta Feira das Dores, do Sábado dos Passos e do Domingo do Encontro fiquem mais suspensos em um tipo de expectativa que aperta o peito, chega a tirar o fôlego. Os sinos que dobram giram penachos de papel crepom, desprendendo fitas roxas que voam pelos ares e se espalham pelos telhados, pelas árvores, pelos jardins, pelas pedras do chão, espalhadas pelo som e pelo vento. Roxo no céu, na terra, no ar. Roxo em toda parte. O alívio só vai voltando à alma lentamente, o coração só acalma seus batimentos aos poucos, quando o Senhor dos Passos, com cruz e buquê de orquídeas roxas, ...

Quaresma de histórias, memórias, lembranças, quebrantos e encantos em São João del-Rei

Hoje pouco menos, antigamente a Quaresma era um tempo mágico em São João del-Rei. Dias e noites de grande temor, recato e recolhimento, marcados por longos jejuns e principalmente pela abstinência de carne, de todo tipo, nem que fosse apenas na Quarta Feira de Cinzas, em todas as sextas-feiras, na Quarta Feira de Trevas e na Sexta Feira da Paixão. Tempo de silêncio profundo. Os clubes dançantes interrompiam os habituais bailes de todo sábado e as pessoas continham as gargalhadas, evitando até ouvir a velha e nostálgica Rádio São João del-Rei  em volume mais alto. Pode parecer exagero, mas há uns trinta, quarenta anos atrás, era desse jeito, assim! Se por um lado era um tempo nebuloso e de obscuridade, pelo sofrimento, paixão e morte de Jesus Cristo, por outro era um tempo marcado por certa desordem, como tentação provocada pelo Espírito do Mal. Ocorrências misteriosas, comportamentos inexplicáveis, ameaças ocultas, destemperos, acontecimentos insuspeitáveis, muitos deles env...

Procissão das luzes em São João del-Rei

Diferentemente de outros lugares culturalmente importantes do Brasil, em São João del-Rei, o dia 2 de fevereiro não é Dia de Yemanjá. Na cidade onde os sinos falam, o culto é feito para Nossa Senhora das Candeias, em outros lugares conhecida como da Candelária e também da Apresentação. Tudo começa muito cedo, quando o dia ainda está clareando, na igreja do Rosário, com a bênção das velas que os fiéis levam de casa. Em seguida, quando o sol começa a nascer no horizonte, sai com ele uma procissão pelo curto trajeto, que vai da igreja-sede da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Negros até a Matriz do Pilar. Tal como os raios do sol que despontam, cada participante leva sua vela acesa, no ritmo do sacerdote que repete, durante todo o percurso, o Cântico de Simeão. Nada mais do que a expressão  latina  Nunc Dimittis - que teriam sido as palavras ditas pelo Velho Simeão quando recebeu nos braços, no Templo de Jerusalém, o Menino Jesus, apresent...