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São João del-Rei e a Folia de Reis a "Caminho da Salvação"

A passagem de folias de reis pelas ruas de São João del-Rei - do centro histórico às localidades mais periféricas - é tradição centenária, mas nos últimos anos andou perdendo força, pela falta de renovação em seus membros. É que a modernidade e a urbanização, com seus novos valores estéticos e apelos tecnológicos, aos mais jovens ainda parecem  opor a folia de reis tradicional ao status de progresso e evolução. Com isso, os grupos são-joanenses cada vez mais se tornaram menores e mais escassos, compostos em sua grande maioria por pessoas mais idosas. Atentos a esta realidade, alguns intelectuais buscaram não só minimizar este enfraquecimento quanto valorizar a folia de reis, elevando a auto-estima de seus membros e das comunidades que as conservam, pensando na  revigoração desta importante expressão cultural popular do ciclo natalino. Foi assim que a Organização Não Governamental Atitude Cultural organizou e promoveu, durante mais de uma década, o Encontro das Folias de ...

Barroco Natal de samba, sons e tons de São João del-Rei

Uma cidade de coração vivaz e multicor, que harmoniza os mais diversos tons e sons, para pulsar barrocos sentimentos tropicais de brasilidade. É assim São João del-Rei, e isto se vê de vários modos. Às fachadas dos sobrados coloniais, nas demais cidades históricas tradionalmente pintadas de branco, com portas e janelas vermelhas, azuis, ocre e marrom, aqui se juntam outras, de cores suaves, porém vibrantes: azuis, rosas, cinzas, amarelas, verdes - com seus beirais e lambrequins. Pura alegria. Mais do que em outras cidades nascidas no tempo do ouro, em São João del-Rei as sonoridades se harmonizam em compassos que ninguém imagina. Durante todo o dia 24 de dezembro, por exemplo, enquanto de tempos em tempos os sinos do Rosário repicavam o tencão de Natal, a poucos passos dali, no Largo do Carmo, uma  espontânea batucada, com muito samba,  celebrava a vida e a liberdade. Eram os herdeiros da noite, revivendo a conquista do dia. Tudo sobre as galerias subterrâneas de on...

Vovô Gomide & as Catitas de São João del-Rei

Na galeria dos personagens típicose muito populares de São João del-Rei, um muito pitoresco, mas hoje praticamente esquecido, é Vovô Gomide. Fins dos anos 50, começo dos anos 60, já relativamente idoso, o velho meio branco, baixinho, de cabelo e barba brancos, morava na esquina da Rua Coronel Tamarindo com a Rua Rodrigues de Melo, onde hoje existe a Praça Padre José Maria Fernandes, próximo à Rua do Barro e ao Pau D'Angá. Para as crianças, pela semelhança, era o ilustre Marquês de Tamandaré, que naquela época corria de mão em mão na nota de Cr$ 1 (um cruzeiro). Sempre de paletó escuro e surrado, com sua voz mansa, rouca e baixa, se dizia nobre, descendente do Barão de Cocais, e aguardava a chegada de sua parte da lendária herança, que vinha não se sabe de onde, mas do século XIX. O que fazia dele uma pessoa especial? Vovô Gomide catava no chão maços vazios de cigarro que os fumantes jogavam fora e desenhava a lápis, no verso da estampa e no papel branco, garatujas de corpo...

Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo, mágico e iluminado em São João del-Rei

Na ocasião do Natal, mal começa o Advento, São João del-Rei fica envolta por uma aura mágica. Luzes coloridas e brilhantes realçam contornos de telhados, beirais e janelas coloniais, semeiam anjos e estrelas nos jardins, franjas luminosas enfeitam o coreto – romântico cenário para os corais e suas cantatas. Na metade do mês começa, na igreja do Rosário, a Novena Barroca do Menino Jesus, composta no século XIX pelo são-joanense Padre José Maria Xavier. É um ofício alegre e delicado, só executado em São João del-Rei, pela Orquestra Lira Sanjoanense, considerada a mais antiga orquestra das Américas em atividade permanente desde a segunda metade do século XVIII.  Pouca gente sabe, mas as mais importantes celebrações do Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo na terra onde os sinos falam são realizadas na igreja do Rosário, seguindo uma tradição colonial. Assim como a Ordem Terceira do Carmo incumbia-se de parte das celebrações da Paixão de Cristo, a Irmandade do Rosário é respo...

O modernista Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral e a Semana Santa de São João del-Rei

Estamos em São João del-Rei, mais precisamente no Largo do Carmo, no ano de 1924. Pela sombra oblíqua projetada da esquerda para a direita, sabemos que devem ser, mais ou menos, 3 horas da tarde. Um soldado, em primeiro plano, anda depressa, atravessando a praça, como a fugir da paisagem rumo ao Largo da Cruz. Dois meninos brincando, um homem de pé, encostado na monumental fachada, do lado oposto mais algumas crianças. Uma mulher, na janela, espia o dia  escorrer e a vida passar... - Quem é aquele homem de terno preto e chapéu no centro da foto, de frente à portada? - Ora, não é ninguém menos do que Oswald de Andrade! Era abril, Semana Santa, e ele adentrava o interior de Minas para redescobrir o Brasil, na companhia da pintora Tarsila do Amaral e do poeta e intelectual francês Blaise Cendars. Ficaram todos tão encantados com o que viram que, entre outros poemas, Oswald de Andrade, após descrever sumariamente nossa cidade por não encontrar para ela adjetivos, pediu aos...

301 anos de Vila. 310 anos de vida. "... Salve terra de São João del-Rei!"

301 anos de Vila, 310 anos de vida. É assim que São João del-Rei - ' a cidade mais barroca de Minas ' - chega a este 8 de dezembro, sua data natal. Exultante como a setecentista e alegre procissão que no entardecer, ao som dos sinos e das marchas  festivas que a banda toca, caminha com Nossa Senhora da Conceição pelas ruas da cidade. Mas agora, voltemos no tempo... O sol que anunciou em alvorada o amanhecer do dia 8 de dezembro de 1713 iluminou também uma nova era para o Arraial Novo de Nossa Senhora do Pilar do Rio das Mortes. Naquela data, o movimentado e próspero aglomerado urbano que desde 1703/1704 se formara à sombra da Serra e às margens do Córrego do Lenheiro, tendo - semelhante a Fênix - se recomposto do incêndio que assinalara o fim da sangrenta e cruel Guerra dos Emboabas, foi elevado à categoria de Vila. Seu nome, São João del-Rei, em homenagem a El-Rey Nosso Senhor Dom João V, o "Rei Sol" português. Nascia ali, assim, a quarta vila...

São João del-Rei não é uma cidade, é uma sinfonia! Quem disse foi Santa Cecília*

Com seus sinos, suas orquestras e bandas, São João del-Rei é mais do que uma cidade. É uma sinfonia. Pura música. As ruas se alinham em pauta, para que igrejas, casarões,  sobrados, lampiões, cruzeiros e pontes se alternem em notas e pausas, entre becos e largos, entre sol e chuva, dia e noite. As flores dos jardins - damas da noite, bugarins, margaridas, ibiscos, papoulas, manacás, jasmins - ao mesmo tempo que perfumes, exalam sons celestes, de estrelas, orvalhos e vagalumes. Mas só depois que, crepuscular, a clave de sol se apaga, para acender no céu a clave de luar. Tudo por milagre de Santa Cecília... Ela, padroeira dos músicos, é madrinha da cidade. Mora aqui desde 1717, quando veio para Vila de São João del-Rei a pedido do Mestre Antonio do Carmo, a protegê-lo na missão de desenrolar um tapete de música para a passagem do Conde de Assumar, na sua primeira visita São João, O nobre português ainda estava ressabiado com violência da Guerra dos Emboabas e precisava ter cer...

Negritude, consciência, direitos, conquistas, igualdade & cidadania em São João del-Rei

O Brasil inteiro comemorou hoje o Dia Nacional de Zumbi dos Palmares e da Consciência Negra. São João del-Rei está comemorando a semana inteira, com palestras, panfletagem, encontro de zeladores de santo (orixás), cinema, desfile da beleza negra, cortejo, danças e artes afrobrasileiras e outras atividades do Ponto de Memória Batuques / Casa do Tesouro. Tendo começado no dia 18 e prosseguindo até o dia 28, será uma semana de 11 dias. Não se espante, em São João del-Rei isto é possível, e até muito comum. Grande parte dos eventos acontece no centro histórico, em edifícios coloniais e nos largos e ruas mais antigas da cidade, mas a programação se estendeu também pela periferia, como o Bairro Araçá, famoso por seus grupos de congada e folia de reis. Como era de se esperar, o evento, como um todo, visa a valorização e afirmação do povo negro são-joanense, o combate ao racismo e ao preconceito; a informação, mobilização e luta por igualdade, direitos, reconhecimento e cidadania. Daí se...

Em São João del-Rei, Santa Cecília dedilha amorosas canções para ninar Aleijadinho

Há exatos duzentos anos, nesta data, fechou os olhos para o mundo o mineiro Antonio Francisco Lisboa - maior nome do barroco nas Américas e o grande mestre das artes plásticas americanas no século XVIII, por todos conhecido como Aleijadinho. Sua vida foi repetir, com maestria, o ato da criação. Cristos, virgens, anjos, apóstolos, soldados romanos, gente do povo, cordeiros, corações flamejantes, rocalhas e volutas graciosamente brotavam da pedra e da madeira pelo movimento até do que restaram de suas mãos. Aleijadinho reproduziu o céu entre os riachos, os vales, pepitas de ouro e as montanhas de Minas Gerais. São João del-Rei recebeu a graça divina de ter em seu centro histórico dois dos seis mais belos templos barrocos criados pelo grande mestre - a igreja do Carmo, com as quinas angulosas de suas torres que misteriosamente ao alto se tornam sinuosas até diluir-se no infinito, e a igreja de São Francisco, absolutamente toda em curvas. As fachadas destas igrejas, com sua...

Em São João del-Rei, até defuntos e cemitérios comemoram aniversários. Sabia?

Na tradição popular, novembro é o mês dos mortos e, em São João del-Rei, esta característica do penúltimo mês do ano é reforçada diversas vezes. A partir do dia 2, quando se celebra Finados, começam as missas aniversárias dos defuntos que pertenceram a uma, ou a várias, das dez Irmandades bicentenárias, sediadas no centro histórico são-joanense. Também conhecida como "aniversário dos cemitérios", a cerimônia é composta de duas partes. Começa com uma missa, na igreja que é sede da Irmandade, onde, no centro da nave estão dispostos, no chão, um tapete preto, com galões e uma grande cruz dourados e bordados. Em cada uma das quatro pontas, um castiçal alto, com uma vela acesa, como se estivesse aguardando um defunto para a oração final. Terminada a missa, os sinos tocam exéquias e os irmãos saem em procissão, vestidos com suas opas ou hábitos, e assim vão até o cemitério correspondente, onde o padre faz orações fúnebres. Tudo - missa e orações no campo santo - ao som de mú...